• Contra quem eles atiram?

      Era de se esperar que isso fosse acontecer. Pela minha TL começam a desfilar uma série de depoimentos, reportagens, declarações e artigos que mostram que começamos a fazer a […]

    Leia mais
  • A eleição do não

      Parece sempre mais forte no Brasil a ideia hegeliana  de que os conteúdos não superados da história tendem a se repetir. Já tivemos Jânio, com suas vassouras; Collor o inesquecível […]

    Leia mais
  • Dançando na beira do abismo

      Uma semana após o atentado a faca sofrido pelo Deputado Jair Bolsonaro, a gente já sabe que o maluco que o esfaqueou ouvia a voz de Deus. Por isso, […]

    Leia mais
  • Quando a memória pega fogo

      Em 1999 eu viajei à Grécia. Era meu último ano no curso de filosofia da UFRN e queria conhecer in loco a terra em que Sócrates, Platão e Aristóteles teriam andado, […]

    Leia mais
  • O Diabo do Mercado

        Poucas coisas são mais embaraçosas na contemporaneidade, para um liberal raiz  do que a China. Explicar como é possível que o país que parece administrar de modo mais […]

    Leia mais
  • Pablo Capistrano
  • 08 de abril de 2014, as 7h07
Em 1995 no Peru vi um índio em Pisaq, aldeia perto de Cuzco, com uma camisa que tinha essa foto.

Em 1995 no Peru vi um índio em Pisaq, aldeia perto de Cuzco, com uma camisa que tinha essa foto.

 

 

Ninguém parecia acreditar que o Nirvana pudesse fazer aquilo. Um disco acústico, em um especial da MTV. Seria um desastre pra uma banda que havia feito emergir do subterrâneo a cultura alternativa, oriunda do punk, do metal de resistência, das experimentações dos grupos que tocavam nas rádios universitárias durante os sombrios anos 80; um som denso, sujo e pesado.

 

Mas quando eu ouvi o acústico do Nirvana confesso que fiquei atônito. Também não acreditava que, sem o escudo elétrico da guitarra, Kurt se sairia muito bem, afinal, três acordes, um refrão, peso e distorção marcavam o espírito punk com um carimbo inexpugnável. Ele não iria conseguir se libertar dessa marca e deixar o espírito da matriz folk falar por trás da densidade furiosa de sua própria base de formação estética.

 

Não sei se você sabe, amigo velho, mas quando o punk virou cabide em alguma loja descolada e cartão postal pra turista nas ruas de Londres; refugiou-se nos EUA. Atravessou o oceano e se tornou Hard Core na cena alternativa de Washington DC, de L.A.

 

Dead Kennedis, Black Flag, Fugazzi, Bad Religion. Eram essas bandas que levantavam a bandeira negra quando Clash e The Jam já estavam se tornando artefatos arqueológicos, triturados pela maquina de moer poesia do mercado fonográfico.

 

O acústico do Nirvana foi a última grande tentativa do rock injetar autenticidade no mundo da indústria cultural

O acústico do Nirvana foi a última grande tentativa do rock injetar autenticidade no mundo da indústria cultural

 

 

O Nirvana era fruto da resistência contra esse leviatã que transforma artistas viscerais em bichinhos de pelúcia inofensivos. Eles foram educados para música por essa cultura de garagem, esse inventar sonoro que nasce em bares vagabundos onde dois ou três amigos tocam para colegas de escola pelo prazer de gritar e experimentar livremente sua estética.

 

Mas não era só isso. Tinha também a resistência do Trash Metal contra ao imenso salão de beleza em que havia se transformado o heavy metal californiano, com permanentes, chapinhas, cortes estaqueados e litros de tinta pra descolorir cabelo misturado com roupinhas cafonas de couro e pulseiras de tachinha.

 

Também havia a densidade emocional que o pós-punk inglês havia injetado no rock. Os cenários internos, as letras decompostas em imagens poéticas que falam de perda e dor.

 

Talvez seja difícil pra geração de meu filho Uriel, sacar o que o Nirvana significou pra geração do pai dele.

 

Fomos a última leva de adolescentes do milênio. Uma geração que nasceu do resíduo da grande ondulação cultural de 68.   Que cresceu bem no centro do colapso do velho mundo bipolar. Fomos, nessa linha, vítimas do colapso da verdade, da dissolução das utopias, do esvaziamento das ideologias totalizantes que compuseram a aventura iluminista. Crescemos com a pressão do apocalipse, marcada no medo da guerra nuclear. Avançamos com a perda.

 

Corpo de Kobain - abril de 1994

Corpo de Kobain – abril de 1994

 

A perda do pai, dos lares desfeitos, dos camaradas que ficaram na estrada, mortos cedo demais, de overdose, AIDS ou suicídio. A perda da aventura revolucionária, do mundo analógico, da ingenuidade romântica da arte engajada, do direito a vagabundagem juvenil oprimida pela insegurança do mercado em tempos de desmantelamento do Estado de Bem Estar Social.

 

Quando Kurt pegou o violão pra tocar no acústico da MTV ele não só fez um testamento poderoso acerca da sua própria tragédia. Ele marcou o rock com o último grande suspiro de autenticidade.

 

Não havia preparo naquela voz. Não havia embalagem. Não havia técnica de marketing que disfarçasse a verdade profunda daquela dor, expressa de modo tão avassaladoramente convincente para uma geração acostumada a enxergar a vida como se tivesse nascido dentro de um shopping center.

 

Kurt era um cara real, não um produto. Quando a gente ouvia Nirvana, naquele tempo, não tinha a sensação de estar sendo enganado por algum agenciador da indústria da música que criava astros como quem produz papel higiênico.

 

Por isso que seu suicídio foi tão avassalador para minha geração.

 

Perdemos a inocência quando Kurt estourou os miolos com seu rifle.

 

Quando ele enfiou uma bala na boca eu também vivia as misérias e delícias apavorantes de meu próprio inferno pessoal. Lidava, nessa província cheia de sal e tédio, com minhas próprias perdas e com meus demônios; sempre dispostos a dar uma força na hora em que a gente começa a capotar em direção ao abismo.

 

Lembro-me de ter assistido a notícia da morte dele pelo Jornal Hoje, há extados vinte anos (dia 08/04 quando acharam o corpo dele). Vi a reportagem em uma TV preto-e-branco encostada na parede perto da porta do meu quarto.

 

Eu sabia que ele ia morrer. Algumas semanas antes ele tinha tido uma overdose em Roma e quando a notícia vazou eu pensei “Porra velho! Kurt vai morrer”. Mas confesso que não achei que fosse tão rápido.

 

Depois de assistir o anúncio da desgraça e acompanhar as reportagens sobre a comoção que tomava conta do mundo, emanando de Seattle ondas de sensibilidade planetária, coloquei uma fita K7 com uma seleção de músicas do Nirvana pra tocar. Peguei um papel e rabisquei umas linhas, que, dois anos depois foram publicadas em um suplemento literário de um jornal aqui em Natal.

 

Kurt era sete anos mais velho do que eu.

Era como se eu estivesse me despedindo de um irmão mais velho.

 

 


4 Comentários para “TALVEZ SEATTLE”


  1. Pablo, 94 foi um ano de rupturas violentas, se foram primeiro Zappa e depois Kurt, foi um ano estranho, relendo este texto lembro exatamente como me senti, como naquelas catarses coletivas tipo 11/09, onde as pessoas lembram onde estavam, o que faziam e como se sentiam antes e após o impacto, obrigado por ter trazido esta bela homenagem a tona.
    Abração!

  2. Bia Madruga8/4/2014 às 15:01

    que texto lindo :)
    essa “essência” musical acoplada à vida adolescente é uma das coisas que faz eu achar ruim ter nascido tão “tarde”. acho que minha geração não teve mais disso. nem as gerações que estão vindo depois da minha.

    quando kurt morreu eu só tinha 4 anos e evidentemente não sabia quem ele era. mas depois que o “conheci”, passei a achá-lo um grande cara. e também passei a lamentar ter nascido tarde.

  3. Talvez Seattle9/4/2014 às 6:26

    […] aqui […]


  4. Wou Pablo, você e sua vertiginosa escrita. Gostei do texto e principalmente, senti o não-dito das entrelinhas do mesmo. Como estávamos sem rumo e sentindo a mesma angústia de Kurt. As vezes eu ainda sinto…

Deixe seu comentário

2007 ® Pablo Capistrano

dz3