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  • Pablo Capistrano
  • 12 de julho de 2014, as 8h08
Esquecemos de jogar com a bola no pé narcotizadios com a fantasia de que só a camisa amarela seria suficiente.

Esquecemos de jogar com a bola no pé narcotizadios com a fantasia de que só a camisa amarela seria suficiente.

 

 

Desconfie; amigo velho, se alguém te disser que a derrota da Seleção para a Alemanha por sete a um nessa copa, foi uma tragédia.

 

Na verdade foi uma catástrofe.

 

Os antigos gregos sabiam bem a diferença entre esses dois conceitos.

 

Se na tragédia o herói era levado, pela força do destino, à sua própria ruina; na catástrofe (como na história de Édipo Rei, de Sófocles) o herói era levado por esse mesmo destino a contemplar algo sobre sua própria natureza. A catástrofe sempre mostra um segredo que se revela; uma mensagem inconsciente, oculta, que nos esforçamos por não ver e que, subitamente, em função das circunstâncias que nós mesmos construímos, somos obrigados a enxergar.

 

Foi justamente essa catástrofe que o mundo assistiu, em tempo real, pelas frequências digitais das TVs globo afora quando Felipão colocou uma frágil Seleção brasileira para jogar com dois pontas abertos voltando pelas laterais e com dois volantes assustados para enfrentar uma das mais brilhantes gerações do futebol alemão.

 

A devastação do meio campo, tão cantada em verso, prosa e debates de mesa de bar em jogos anteriores dessa copa, se tornou evidente aos olhos de todos enquanto o colapso de um time que parecia não ter sido preparado para perder transformava, diante de uma plateia chocada, a derrota em vexame.

 

Entramos abertos para jogar contra a Alemanha.

 

Na Catástrofe, como a de Édipo, uma verdade oculta sobre a natureza do heroi é  revelada.

Na Catástrofe, como a de Édipo, uma verdade oculta sobre a natureza do heroi é revelada.

 

Criamos uma fantasia de nós mesmos. Uma fábula sobre um futebol do passado que poderia ainda nos salvar em algum momento de magia. Apostamos na emoção e esquecemos de botar a bola no chão e simplesmente jogar. Tentamos talismãs, quisemos transformar um jovem jogador de 22 anos em um gênio redentor que poderia nos carregar nas costas (mesmo após uma fratura na terceira vértebra lombar). Tentamos evocar o fantasma da camisa dez, como um talismã, um símbolo de combate que, junto com um hino cantado por uma multidão amarela, pudesse conjurar em um Kuarup midiático a presença sobrenatural dos velhos craques do nosso futebol.

 

Há um sentido terapêutico, pedagógico, nas catástrofes e nas tragédias. Os gregos sabiam disso. Compreender nossa própria limitação e as circunstâncias de nossa própria fragilidade é o fruto mais significativo da tragédia. Assumir o que se é, como Édipo, no trono de Tebas, ao se deparar com a verdade sobre sua própria natureza parricida e incestuosa, é o mais importante desdobramento da catástrofe.

 

A seleção alemã revelou aquilo que Breitner já havia previsto quando veio por essas praias tropicais no ano passado: o futebol brasileiro é anacrônico. Não tivemos a humildade de reconhecer, nas últimas copas, que a mística da Seleção canarinho, com sua imbatível habilidade de construir poesia com uma bola de futebol, morreu em 1982, e se manteve ainda como um espectro inconsciente em nossa memória, por obra e graça de alguns lampejos de genialidade que brotavam aqui e acolá dos pés de Romários, Rivaldos e Ronaldos.

 

Hegel, em seus escritos sobre a história, apontou para o fato de que, se um determinado acontecimento político ou social se repete na história, é porque traz consigo um conteúdo que precisa ser trabalhado pela consciência da humanidade.

 

Se precisamos viver de novo uma guerra, um golpe de Estado, uma revolução é porque o acontecimento original, pendurado no cabide da memória, não se resolveu. A história, então, nos dá uma nova oportunidade para que o espírito do povo possa lidar com seus fantasmas.

 

Nunca superamos 1950. Construímos uma fantasia sobre aquela derrota. Abandonamos a nossa camisa Azul e Branca por outra Amarela, como se quiséssemos esquecer sem superar a perda daquele mundial para o Uruguai.

 

Entre a tragédia e a catástrofe está na hora de recuperar a memória dos herois de 1950.

Entre a tragédia e a catástrofe está na hora de recuperar a memória dos herois de 1950.

 

 

Fato curioso é que durante essa copa procurei, em um quiosque de um shopping em Natal, uma camisa Azul e Branca da Seleção de 1950 pra vestir. Queria assistir os jogos com ela pra lembrar daquela Seleção de grandes jogadores que havia sido covardemente ultrajada pelo lixamento moral de um país que, muitas vezes, não sabe reconhecer os seus melhores filhos. A moça do quiosque disse que não estavam vendendo a camisa de 50.

 

Haviam tirado da vitrine durante a copa.

 

Talvez tenha sido por isso que o anjo da história voltou vestido com o manto terapêutico da catástrofe e com a lâmina fria da justiça. Quem sabe tenha sido justamente por isso que ele veio assim, tão fulminante, em 28 minutos, rasgando a carne da nação para nos punir pela culpa histórica de termos abandonado no porão da memória, de modo desumano, os heróis de 1950.

 

Não vamos repetir a injustiça histórica cometida contra os jogadores de 1950, condenados a mais longa sanção que o país já patrocinou contra seus cidadãos, condenando os jovens jogadores de 2014 pelo fracasso capitaneado pelo anacronismo de um futebol refém de instituições mafiosas como a CBF.

 

Está na hora de repetir os nomes que estiveram em campo, para lembrar algo sobre nós mesmos, que deixamos jogado em uma esquina da história, embrulhado com o silêncio covarde de nossas próprias fantasias, para que a história não volte a se repetir, mais uma vez, não como farsa, mas como catástrofe.

 

Barbosa, Juvenal, Augusto; Bauer, Danilo Alvim, Bigode, Friaça, Chico, Jair, Zizinho, Ademir Menezes, Júlio Cesar, Dante, David Luiz, Marcelo, Maicon, Luis Gustavo, Fernandinho, Oscar, Hulk, Bernard, Fred, Barbosa, Juvenal, Augusto…

 

 

 

 


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2007 ® Pablo Capistrano

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