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  • Pablo Capistrano
  • 09 de outubro de 2014, as 11h11
O candidato Ninguém foi a grande surpresa desse primeiro turno, ressaca de Junho de 2013? Ou simples descrença global com a democracia liberal?

O candidato Ninguém foi a grande surpresa desse primeiro turno, ressaca de Junho de 2013? Ou simples descrença global com a democracia liberal?

 

Muita gente, amigo velho, votou em ninguém nesta eleição. Entre brancos, nulos e abstenções a quantidade de eleitores nesse primeiro turno que não quiseram exercer o seu direito de escolha foi maior do que a quantidade de votos dados ao candidato Aécio Neves, que está no segundo turno.

 

No Rio Grande do Norte, essa fazenda ensolarada, vezes esconderijo, vezes manicômio rural, o candidato ninguém venceu Henrique Alves, primeiro colocado no pleito do dia 05 e emparedou Fátima Bezerra, na disputa para o senado.

 

Segundo os especialistas em ciência política e aqueles que gostam de estatísticas, nesta eleição, os números do candidato ninguém só se igualam aos obtidos por ele no pleito de 1998.

 

Eu já esperava isso. Acompanhando eleições desde os anos 1990, quando meu tio Antônio ganhou a eleição para deputado estadual, não me lembro de ter visto um pleito tão desanimado. Um sentimento de apatia, cansaço, derrota parece ter tomado conta do país. O termômetro disso foram às imagens melancólicas daquele punhado de gente segurando bandeiras de candidatos no sol quente, em troca de uns trocados pra completar a farinha do mês. Nada comparado às campanhas de 1989, 1994, 1996, 2002.

 

Sem nenhuma paixão, os poucos adesivos que vi nos carros pareciam estar concentrados apenas no punhado de cargos comissionados ou militantes profissionais que se envolvem, por dever de ofício, nas campanhas políticas. Nada das manifestações de ruas, das grandes caminhadas épicas, dos comícios gigantes do passado.

 

 

Descrença no sistema representativo ou apatia do eleitor com a política oficial? O índice de votos nulos, brancos e abstenções foi o maior desde 1998.

Descrença no sistema representativo ou apatia do eleitor com a política oficial? O índice de votos nulos, brancos e abstenções foi o maior desde 1998.

 

 

Algo mudou no mundo da política, e parece que apenas os profissionais mais antigos da política partidária não se deram conta disso. Por essa aldeia cheia de sol e sal, a força dos acordos de gabinete pode ter sido um elemento que empurrou o eleitor de boa fé para essa zona de exclusão eleitoral em que o individuo vai à urna manifestar sua repulsa, seu desprezo, seu tédio ou sua simples apatia, diante de um jogo que parece ter sido armado em um estilo de farsa, onde candidatos pré-moldados se sucedem em um plano cênico saturado de marketing político.

 

Sinto que o bom desempenho do candidato Ninguém no primeiro turno dessa eleição tem a ver com a ressaca das jornadas de Junho. Ficou um gosto amargo na boca, amigo velho, de ver toda a energia daquela massa, bater com a cara nas portas fechadas de um congresso surdo, que insiste em se manter a uma distância cínica do povo que o elegeu. Foi doído, ver os partidos oficiais (inclusive o PT, uma antiga agremiação proletária) se unir em uma articulação que empurrou movimentos sociais, grupos políticos e partidos de esquerda (os de verdade) para a zona cinza da criminalidade; tratando as demandas populares com bala de borracha, spray de pimenta, gás e leis da época da ditadura.

 

Não é a toa que, no esteio do sucesso do candidato Ninguém, tenhamos elegido agora, segundo noticia-se na imprensa, um dos congressos mais conservadores, desde 1964. Walter Benjamin nos ensinava que todo fascismo é sintoma de uma revolução fracassada. Em nosso tempo, o fracasso da democracia em se fazer presente quando a gente mais precisa dela, abre espaço pra esse tipo de retrocesso, pode anotar.

 


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2007 ® Pablo Capistrano

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