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  • Pablo Capistrano
  • 27 de outubro de 2014, as 18h18
O sono da razão cria monstros

O sono da razão cria monstros

 

Perdoar é um ato complexo.

 

Para alguns, é um sinal de superioridade moral. Um indicie de um privilegiado patamar ético de quem perdoa. Um sintoma de uma evidente inferioridade psicológica de quem ofende.

 

Andei pensado no perdão esses dias, amigo velho.

 

Mas não esse perdão cristão, que põe o ofendido em uma transcendência moral sádica diante do ofensor. Pensei no perdão que nasce da urgência.

 

Foi Hannah Arendt quem me trouxe esse perdão, que dança com a finitude e não com a transcendência. Só podia ter sido ela, uma mulher, a inverter a ideia de Heidegger de que somos seres para a morte e pensar que podemos ser seres de um eterno nascimento. Nascemos sempre, novamente, quando escolhemos. No tempo curto que temos, cada escolha, cada ato tomado, cada palavra dita, cada post escrito no Facebook, cada comentário no wattsapp é uma reedição de meu próprio nascimento, uma afirmação de minha própria existência, de minha presença no mundo.

 

Nessa campanha, marcada pela espiral do medo e do ódio, covardemente protagonizada pelas duas candidaturas que navegaram nessas águas tormentosas de um segundo turno sangrento, muita gente se magoou.

 

Muitos pais brigaram com os filhos, irmãos deixaram de se falar, amigos se excluíram e casais se desentenderam, movidos por um ódio estrutural que transcende o ato do voto e passa pelos mais estranhos abismos ideológicos do inconsciente. A ruptura que a disputa petucanista fez eclodir no país não dividiu apenas estados da federação, classes sociais ou categorias profissionais diversas. Ela atingiu, nessa gigantesca caixa de ressonância das redes sociais, o horizonte privado das pessoas, rasgando uma espiral de raiva e rancor que abalou as estruturas pessoais.

 

Vou te confessar, amigo velho, que me magoei com muita gente durante esses meses. Velhos amigos de décadas levantaram suspeições morais contra mim, gente da minha estima misturou as questões políticas com aspectos familiares e pessoais, li comentários que me ofenderam, e ouvi da boca de pessoas que eu gosto palavras rudes e ideias bizarras; que me deixaram deprimido.

 

Hoje, um dia depois da eleição, essa imensa energia psíquica coletiva desempacotada pela violência retorica dessa campanha eleitoral, alcançou níveis de grande intensidade, gerando um ruído poderoso de raiva, rancor e humilhação que sufocou a alegria dos vitoriosos.

 

Há uma irredutibilidade ontológica na ação. Não posso medir as consequências do que eu faço ou digo, assim como não posso fazer retroceder o tempo e desfazer o que eu fiz. O imperativo da existência me leva sempre à frente, momento à momento. Ao agir, eu me comprometendo com cada ação, cada palavra, cada expressão de mim mesmo que deixo no caminho da vida.

 

Por isso o perdão é imprescindível para que uma sociedade qualquer possa existir. Só o perdão pode me libertar do peso do passado. Só o perdão pode me desvencilhar dos sentimentos de rancor e ódio que me predem a ofensa recebida, ao destempero das minhas próprias palavras, a mágoa que eu causei no outro no momento em que expressei minha raiva ou à revolta que o outro me causou com a sua presença.

 

É tempo de retomar o imperativo do perdão, para que a espiral de ódio não evolua em direção ao esfacelamento do pouco que resta de ordem democrática nesse país. Não sei você, amigo velho, mas para mim; hoje, a única opção política autenticamente democrática é a do perdão radical, para que o peso do que passou, não torne o que vai chegar, mais insuportável ainda.

 


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2007 ® Pablo Capistrano

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