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  • Pablo Capistrano
  • 31 de janeiro de 2015, as 13h13
A coruja da filosofia só alça voo no crepúsculo? Então te prepara Minerva, que esses são tempos crepusculares.

A coruja da filosofia só alça voo no crepúsculo? Então te prepara Minerva, que esses são tempos crepusculares.

 

Agora que o delírio dionisíaco de fim de ano começa a arrefecer, curado pelo sal do mar de Janeiro e a minha habitual virose de férias vai embora, levada pela magia química dos antialérgicos e anti-inflamatórios, indicados pelo meu otorrino; está na hora de escrever um pouco sobra algumas cenas que me chamaram atenção no ano que passou.

 

 

CENA 01: A filósofa; Viviane Mosé em um programa na CBN, comentando sobre a prisão da professora Camila Jourdan durante uma operação no período da Copa do Mundo diz, em cadeia nacional, a seguinte frase: “Adote seu filho, antes que um professor de história ou de filosofia, o adote”.

 

CENA 02: em plena campanha eleitoral, em uma entrevista para a TV Globo a então candidata Dilma Roussef falando sobre a reforma do ensino médio diz o seguinte: “(…)porque o jovem do ensino médio, ele não pode ficar com doze matérias, incluindo nas doze matérias filosofia e sociologia, tenho nada contra filosofia e sociologia, mas um currículo com doze matérias não atrai os jovens(…)”.

 

CENA 03: Assisto o programa do Caco Barcelos na Globo News. Ele manda uma jovem candidata a repórter fazer uma matéria em uma escola de Goiás que está sobre controle da Polícia Militar. A Secretária de Educação do Estado parece que está passando o controle de algumas escolas de ensino médio para a PM como “experiência”. Os alunos estão fardados, fazem ordem unida, batem continência e são obrigados a cortar o cabelo para poderem estudar. Tiram notas boas e são “bem comportados”. Alguns professores, no entanto, sem querer aparecer, temendo retaliações, denunciam a interferência nos conteúdos ministrados. “Não se pode mencionar ‘Ditadura Militar’ em sala de aula (…)” – Menciona um professor com a voz eletronicamente distorcida – “(…) tem que usar o termo ‘Revolução de 1964’”.

 

CENA 04: no último programa do ano, o jornalista global William Waack convida para o Globo News Painel, expoentes da nova direita brasileira: Reynaldo Azevedo, Luís Felipe Pondé e (o já decano) Bolívar Lamounier, com o objetivo de discutir (em uma aula de como demolir o contraditório no telejornalismo brasileiro) as perspectivas ideológicas do debate político nacional. Quase no fim do programa, o filósofo Luis Felipe Pondé, fazendo coro a uma menção de Reynaldo Azevedo, aponta como um dos graves problemas para o debate político no Brasil “o ensino médio”, que estaria (segundo o que eu pude depreender das entrelinhas do discurso do pensador pernambucano) contaminado por algum tipo de doutrinação esquerdista que taxava os pensadores conservadores como pessoas más e desumanas.

 

 

"Adote seu filho antes que um professor de filosofia ou de história o adote" - do que eles tem medo?

“Adote seu filho antes que um professor de filosofia ou de história o adote” – do que eles tem medo?

 

 

É antiga; amigo velho, essa tendência ideológica de reformar a educação com objetivos políticos. Segundo os alfarrábios dessa minha biblioteca empoeirada, já na época de Napoleão se discutia a necessidade imperativa de reformar o currículo das faculdades de Direito para se retirar do horizonte dos alunos disciplinas “inúteis e perigosas” como História do Direito ou Direito Romano. As reformas, pensadas pelos juristas que compuseram a comissão que formatou a versão final do projeto de código civil de Cambacérès, pretendiam consolidar uma guinada tecnicista no ensino jurídico de modo a cercear a influência da magistratura na definição do direito e condicionar os jovens juízes no dogma do uso do Código como fonte para as suas sentenças.

 

As matrizes filosóficas, históricas e sociológicas deveriam então ter sua influência reduzida sobre a formação dos futuros magistrados para evitar a “doutrinação” aristocrática patrocinada por velhos professores e abrir caminho para um ensino limpo de “ideologias políticas redutoras”.

 

No tempo de Napoleão disciplinas humanistas nos cursos de Direito eram vistas como "inúteis e perigosas".

No tempo de Napoleão disciplinas humanistas nos cursos de Direito eram vistas como “inúteis e perigosas”.

 

 

Guardadas as condições de temperatura e pressão histórica, o que as cenas aí de cima deixam claro é que há, no país, um caldo ideológico sendo cozinhado. Uma obra de culinária política que implica não apenas a criminalização dos movimentos sociais, a desqualificação da ideia de direitos humanos, a busca por uma profilaxia moral da nação, a revisão histórica do regime de 1964, a relativização moral da tortura, do linchamento, da execução sumária, do estupro (lembrando o ato falho freudiano do deputado Bolsonaro em plenário); mas também a ideia de que os professores das humanidades no ensino médio seriam “agentes de doutrinação ideológica esquerdista” que deveria ser estancada.

 

O curioso é que não há nada mais ideologicamente doutrinário do que acusar o seu oponente de doutrinamento ideológico.

 

Ao eleger os professores do ensino médio como os bodes expiatórios da “doutrina esquerdista” os doutrinadores de direita nada mais fazem do que contrapor, no campo da batalha política pela hegemonia do discurso, sua própria doutrinação, idêntica em número e grau à doutrinação que eles, supostamente, em uma blasé atitude de transcendência política, alegam combater.

 

Minerva, a corujinha que guarda meus livros aqui nessa biblioteca velha, e que me ajuda a mais de quinze anos, na preparação de minhas aulas de filosofia e direito, já está com as orelhas em pé, e com os olhos bem abertos para o que vem por aí, nesse Brasil que parece não aprender com sua história e adora repetir seus erros autoritários.

 

A questão é que, como dizia o velho Hegel, a coruja da filosofia parece que só se anima a alçar voo no crepúsculo.

 

E me parecem cercados de auspícios crepusculares esses anos que estão por vir.

 

 


3 Comentários para “A Hora e a Vez da Coruja Voar”

  1. Ulisses Pessoa2/2/2015 às 9:01

    Justamente. E eles, valendo-se da sedução osmótica, gratuita e pasteurizada das grandes mídias, nos revestem das mais infames e perniciosas aparências. Persistamos, ainda que na ventriloquia! “Vou bater só na cangáia / Pro burro cumpriendê!”.

    Obrigado pelas palavras. Grande abraço do eterno aluno bluesman.

  2. Antonio Neto2/2/2015 às 15:20

    O capitalismo está superado historicamente, o socialismo é uma necessidade da História. Concordo com a ideia: Será socialismo ou barbárie o futuro da sociedade humana. No capitalismo o conhecimento se desenvolve dentro dos limites da propriedade privada dos meios de produção. E o conhecimento conspira contra essas relações sociais degeneradas, embasadas na mentira. Uma simples descrição da sociedade burguesa feita por um professor em uma sala de aula do ensino médio , ameaça cientificamente e moralmente o sistema. Vejam a fragilidade do sistema. É bom lembrar que as ações terroristas no mundo são realizadas dentro dos países capitalistas. A barbárie praticada por esses fundamentalistas , são resultados das relações politicas, sociais , economicas e culturais criadas pelos imperialismos americano e europeu. Por isso um professor de filosofia , de sociologia, de História etc, de nível médio causa pânico nesta pseudo-intelectualidade burguesa, comprada por alguns minutos de exposição na Rede Globo .

  3. Antonio Neto2/2/2015 às 15:22

    É isso Pablo , mais uma analise humanista e ética sobre a sociedade em que vivemos. Parabéns!

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2007 ® Pablo Capistrano

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