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  • Pablo Capistrano
  • 28 de abril de 2015, as 7h07
Estávamos em Férias Coletivas quando descobrimos que nosso sindicato decretou uma greve.

Estávamos em Férias Coletivas quando descobrimos que nosso sindicato decretou uma greve.

 

 

 

Minha categoria (a dos docentes do IFRN) estava em férias coletivas esse mês de Abril quando descobriu que o sindicato que a representa decretou uma greve. Na verdade esse fenômeno heterodoxo se explica pelo fato de que em nossa instituição (IFRN), ao contrário do que ocorre na UFRN, tanto Técnicos Administrativos quanto Docentes são representados pelo mesmo sindicato. Como os técnicos não estavam em férias coletivas puderam reunir-se, discutir a pauta, se inteirar das reivindicações, ouvir o contraditório e refletir sobre a pertinência estratégica da atual paralização.

 

Na prática os professores não tiveram esse privilégio.

 

Sim… eu sei. Qualquer docente mesmo em férias poderia participar das assembleias e votar normalmente nas suas propostas. Em teoria é assim, na prática é outra coisa. Por isso esse argumento não desmonta o grave precedente para o futuro de um sindicato unificado, aberto com a decretação dessa greve. A mensagem política que foi transmitida é de que não é necessária a participação de uma das categorias representadas pelo sindicato para se decretar uma greve. No horizonte do simbólico, isso depõe contra a própria razão de ser do Sinasefe (que tem sua existência justificada pelo fato de representar as duas categorias em uma unidade de lutas que na prática, na situação atual, se demonstrou teoria). Tecnicamente estaríamos diante de um “sindícidio”, um suicídio sindical.

 

A despeito disso, o efeito imediato mais grave, creio eu, desse processo, é o do acirramento dos conflitos envolvendo técnicos e docentes no ambiente institucional, especialmente no que diz respeito a ideia de que nós, professores, constituiríamos uma casta “privilegiada” no IFRN, em detrimento de uma situação de precariedade dos técnicos.

 

Não se engane amigo velho, o ressentimento entre categorias dentro do IFRN não é algo endógeno, criado apenas por supostos “agentes malignos” postos na gestão para fustigar os servidores com o chicote da lei. O ressentimento entre categorias profissionais é um dos recursos ideológicos mais bem manipulados pelo discurso hegemônico do capital. Tratar direitos como privilégios, não é um cacoete dos técnicos administrativos do IFRN. Os trabalhadores da iniciativa privada são diuturnamente estimulados no telejornal da TV, a pensar o serviço público do mesmo modo.

 

Quando trato as condições de trabalho de uma categoria com a nomenclatura de “privilégios” em detrimento de outra categoria, abro caminho para a ideia de uma isonomia redutora, que procura a igualdade no precário. Isso leva, ao invés de melhorar as condições da categoria reclamante, piorar as da reclamada, nivelando por baixo as condições de trabalho. Afinal, privilégios precisam ser combatidos, não é isso? O que é ótimo, diga-se de passagem, para um modelo de exploração e precarização laboral.

 

A dificuldade de se compreender a natureza do trabalho do professor transforma para o senso comum "direitos" em "privilégios".

A dificuldade de se compreender a natureza do trabalho do professor transforma para o senso comum “direitos” em “privilégios”.

 

 

Outro erro grave que se comete nesses momentos de greve, especialmente em ano de eleição pra Reitor e Diretores Gerais como esse, é o de personificar na figura dos gestores a fonte da opressão e o foco do combate paredista.

 

Em uma greve no serviço público, a pior coisa que o trabalhador pode fazer é esquecer que todo poder é uma performance e que o papel de um Reitor ou de um Diretor Geral em um Estado como o brasileiro é, na maioria das vezes, assumir para si o ônus das macro políticas impostas como padrão global pelos governos de plantão.

 

Já faz tempo, amigo velho, que a pressão para retirar direitos avança sobre o mundo do trabalho. Mais especificamente desde que o capitalismo perdeu a vergonha de mostrar os dentes, após a queda, no final dos anos 80, dos modelos de socialismo realmente existente. Por todo o globo observa-se um processo avançado de dissociação entre capitalismo e democracia se instalando. Após a crise de 2008 o fenômeno acelerou, instituindo como modelo ideal o capitalismo asiático no qual a precarização do trabalho se institui como uma ferramenta de aumento da produção a partir da regra de se fazer mais com menos.

 

É um erro fatal achar que o serviço público federal ficaria fora desse processo. Ao direcionarmos o foco da disputa para a gestão local do IFRN, sistêmica ou dos diversos campi, desviamos o olhar da agenda política global que liga o projeto de expansão do capital à retirada cada vez maior de direitos civis e sociais. Esquecemos a ligação que minha luta local, pela demanda que mais incomoda o “pau da minha venta” (para usar uma nomenclatura da anatomia sertaneja), tem com a terceirização galopante no setor privado, a utilização de Organizações Sociais no setor público (como no caso da saúde), a supressão dos direitos políticos e as prisões arbitrarias dos militantes do #NãoVaiTerCopa ano passado, o assassinato de jovens negros nas periferias do país, a  pressão para a mudança no regime de partilha do Pré-Sal.

 

 

A pior coisa que pode acontecer em uma greve é se perder a visão global da luta comum. Afundar na demanda particular só serve a política miúda.

A pior coisa que pode acontecer em uma greve é se perder a visão global da luta comum. Afundar na demanda particular só serve a política miúda.

 

 

Perdemos o foco global da luta e com ele abandonamos a capacidade de entender a relação entre as diversas demandas sociais e a nossa própria exigência particular. No final nos perdemos, buscando o objeto mais próximo de nós para direcionar nosso ódio reativo.

 

Numa greve, é fatal perder o foco global e a noção de luta comum. Fazer isso é afundar na miudeza das disputas políticas locais e ser jogado de um lado pra outro em uma miríade de interesses de facções, partidos e grupos em disputa pela hegemonia institucional.

 

Por esse caminho vamos acabar (como na música cantada pelo finado Raul Seixas) travando essa eterna e inútil luta com os galhos, sem saber que é lá no tronco, que está o coringa do baralho.

 


4 Comentários para “Essa Eterna Luta Com Os Galhos”

  1. Agamenon Tavares28/4/2015 às 9:11

    Alie-se a isso, amigo Pablo, a realidade social vigente, predominantemente hedonista, egoísta e predisposta e buscar foco mais em problemas que em soluções, com a temática menos ampla do que realmente deveria ser, centrada em análises que não aceitam contraponto. É o nosso mundinho “velho de guerra”.

  2. Gomes da Silva28/4/2015 às 18:15

    Primeiro, meu camarada, não existem férias coletivas nos if’s. Durante o recesso estudantil os professores devem estar a disposição das atividades do instituto, inclusive prontos para participar das assembléias do sindicato.
    Segundo, os técnicos não querem tirar os direitos dos docentes, nivelando por baixo as demandas da luta. Mas sim garantir direitos que foram recentemente retirados da categoria.
    No mais, concordo que devemos nos unir e ter noção da luta a nível global, mas a categoria dos docentes não esta interessada na pauta das demandas dos TAE. Por isso foi oportuno a articulação durante o recesso envolvendo vários dos TAE do ifrn. Acredito que o mais sensato seria mesmo a separação do sindicato em dois, já que não existe consonância e união entre as categorias.

  3. José Adriano29/4/2015 às 5:56

    Parabéns, amigo, pela clara e excelente avaliação desse atual movimento.


  4. Muito bem colocado: ” Sindicídio”! Isso tudo pede até um ato ao retorno das aulas: “o enterro do SINASEFE!”.

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2007 ® Pablo Capistrano

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