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  • Pablo Capistrano
  • 14 de maio de 2015, as 5h05

 

Todo divórcio é uma merda, mas tem vezes que o divórcio é inevitável.

Todo divórcio é uma merda, mas em alguns momentos, por pior que seja, o divórcio é inevitável.

 

 

Em 2012, quando o IFRN saiu de sua segunda greve em dois anos consecutivos, alguns dos meus colegas, tanto docentes, quanto técnicos administrativos tinham o entendimento de que a tarefa histórica mais urgente da então direção do sindicato seria a de promover um debate amplo, franco e aberto sobre o futuro da representação sindical no Instituto Federal.

 

A ideia era que termos uma secção sindical em Natal de um sindicato unificado, congregando técnicos administrativos e docentes, talvez pudesse fazer muito sentido nos tempos em que eu era aluno da ETFRN. Naqueles anos, nossa instituição era pequena, espremida entre a sala da direção e a gráfica, embebida em um ambiente de provincianismo doméstico que facilitava a manutenção de alguma estabilidade conjugal entre técnicos administrativos e docentes; ao menos na esfera sindical.

 

As greves de 2011 e 2012, e a “quase greve” de 2014 mostraram que algo havia mudado no IFRN. As tensões recorrentes e subliminares à convivência de duas categorias diferentes em um mesmo sindicato, cada dia, se mostravam mais e mais insustentáveis. O quadro de servidores mais do que dobrou nesses vinte anos e a minha velha Escola Técnica se transformou em uma rede de aproximadamente vinte campi. As contradições estruturais das carreiras, os interesses coletivos, as auto percepções particulares de cada grupo começaram a se tornar mais evidentes.  A anacrônica estrutura sindical do sinasefe pensada no século passado para dar conta de uma realidade institucional que não existe mais, não se adaptou a esse novo quadro.

 

Hoje, depois de um mês de deflagração de uma greve, a meu sentir politicamente desastrosa (tanto para a gestão e quanto para o sindicato), começamos a receber notícias de que na maioria dos campi do IFRN os docentes, desrespeitando a decisão da “assembleia soberana” da última segunda (11/05) realizam reuniões e decidem o retorno às aulas.

 

Amigo velho… vou te dizer uma coisa, eu que sou filho de pais separados sei que todo divórcio é uma merda. Por menos litígio que envolva o processo, é sempre doloroso ter de assumir a falência de uma relação (especialmente para os filhos). Apesar disso, temos que admitir que em alguns momentos o divórcio, por pior que seja, é inevitável.

 

 

A greve de Abril comprometeu a legitimidade de um sindicato unificado no IFRN.

A greve de Abril ampliou a divergência entre técnicos e docentes e comprometeu a legitimidade de um sindicato unificado no IFRN.

 

 

O que estamos vivendo hoje no IFRN é a expressão catártica de um sentimento de insatisfação e deslegitimação de um sindicato que não conseguiu acompanhar a tarefa histórica que lhe foi imposta e se reinventar, para ganhar um novo significado em um contexto institucional e social completamente diverso daquele que lhe viu nascer.

 

A greve de Abril abriu (perdão pelo trocadilho infame) a caixa de Pandora de nossos ressentimentos coletivos. Libertou as mágoas não ditas, os sentimentos de ranço e a rivalidade muitas vezes inflamada artificialmente por atores políticos muito pouco interessados no futuro da nossa instituição e das categorias que a representam.

 

O que parecia ser uma greve contra a gestão (muito conveniente em ano eleitoral, diga-se de passagem), acabou se tornando uma greve contra nós mesmos, com técnicos e docentes em quadrantes divergentes, em uma queda de braço pra demonstrar quem tem mais força no IFRN.

 

Não se engane, amigo velho; não se cria uma unidade de categorias ou de classe com retórica. São as condições objetivas do trabalho (lá vai a gente ter de voltar pra Marx) que definem a convergência ou a divergência entre categorias em um contexto de luta sindical.

 

O que essa greve conseguiu, após um mês de desencontros e conflitos internos foi abrir espaço para que a crise que se aguardava chegar eclodisse. Uma crise no relacionamento institucional entre técnicos e docentes, que é uma crise da representação sindical e que é uma crise de uma gestão sistêmica que se despede sem conseguir oferecer um candidato de consenso para a continuidade do projeto político do grupo que a sustenta.

 

Comumente, Peter Baelish (personagem mais conhecido nos livros de George R. R. Martin como Littlefinger) afirma que se, para alguns, o caos é uma vala onde se enterrar, para outros é uma escada, por onde se pode subir. No meio do caos dessa crise, a relação conjugal entre técnicos administrativos e docentes no IFRN parece estar indo pra vala de um divórcio litigioso. Já o nome daqueles que a escada vai levantar, só saberemos mesmo quando Setembro chegar com sua campanha eleitoral. Então nós, pobres espectadores dos jogos de bastidor da política institucional, poderemos ter uma leitura mais apurada sobre os interesses obscuros que movem os fios dessa greve.

 

Talvez só o maquiavélico Peter Baelish pudesse dizer quem vai surfar na crista da onda dessa greve.

Talvez só o maquiavélico Peter Baelish pudesse dizer quem vai surfar na crista da onda dessa greve.

 

 

Enquanto isso, a única certeza que eu tenho, olhando pra esse cenário minado por paixões e alucinações coletivas, a partir dessa minha biblioteca empoeirada cheia de livros, é que o poeta Paulo Leminski tem mesmo razão quando se pergunta:

Amor, então

também acaba?

não, que eu saiba.

O que eu sei

é que vira

uma matéria-prima

que a vida se encarrega

de transformar em raiva

ou em rima

 

 

E rima; amigo velho é o que eu menos tenho ouvido nos corredores do IFRN esses dias.

 


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2007 ® Pablo Capistrano

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