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  • Pablo Capistrano
  • 03 de agosto de 2015, as 13h13

 

Retornar o pensamento à 1917 é uma tarefa que a esquerda do século XXI ainda necessita cumprir.

Retornar o pensamento à 1917 é uma tarefa que a esquerda do século XXI ainda necessita cumprir.

 

No dia 02 de Agosto de 2013 foi publicado no youtube um comentário do professor Olavo de Carvalho intitulado “Foro de São Paulo, KGB, Nova Ordem Mundial”. No vídeo de pouco mais de cinquenta minutos, a grande referência teórica da direita brasileira nos últimos anos acusa a imprensa hegemônica (Folha de São Paulo, Estadão, Globo) de não “entender o essencial” acerca do famoso Foro de São Paulo. Para Carvalho, seriam os encontros discretos, as conversas de bastidor, e não os discursos públicos nas assembleias que denotariam a real intenção do referido foro.

 

Para o intelectual brasileiro radicado nos EUA, o objetivo essencial do Foro de São Paulo, é justamente esse que emerge das conversas de bastidores e dos encontros secretos (não me pergunte como ele teve acesso ao conteúdo desses encontros). Em tais conversas os objetivos reais não revelados no discurso público seriam expostos. Segundo o comentarista esses objetivos convergiriam para um projeto de se criar uma “União das Repúblicas Socialistas Latino Americanas” nos moldes da antiga URSS. Apelando para frases de impacto do tipo “Os empresários, a máfia e a KGB são a mesma coisa” (fazendo referência à Rússia de hoje) Carvalho pauta seu argumento em uma petição de autoridade calcada em “uma grande quantidade de livros” que provavelmente poucos dos seus seguidores nas redes sociais leram. Seguindo essa mesma linha, ele exorta seus interlocutores virtuais a buscar informações mandando-os “estudar”, como um velho professor de escola secundária no tempo em que o ensino médio se dividia em clássico e científico, faria.

 

As conexões entre os governos ditos de “esquerda” da América Latina, e a Rússia (na verdade uma URSS camuflada, pelo que se pode depreender do vídeo) seriam explicitadas, dentre outras “evidências”, pelo o fato de que Putin era da KGB e se a KGB era comunista, então Putin é comunista.

 

Em outro vídeo postado também no youtube no dia 30 de Outubro de 2014, intitulado “O Decreto Soviético do PT” o comentarista e cineasta Arnaldo Jabor, estabelece conexões entre o decreto que visava criar a “Política Nacional de Participação Social” e os acontecimentos que antecederam a revolução de Outubro de 1917. Segundo o comentarista, Lênin teria usado os conselhos populares (existentes, de acordo com ele, desde a revolução de 1905) para desqualificar o governo de Kerensky. Posteriormente Lênin teria instrumentalizado esses mesmos conselhos para tomar o poder e viabilizar a ditadura de partido único na URSS.

 

A conclusão que Jabor chega com o exemplo histórico é que os conselhos populares “sempre foram usados” (posto que foram usados no caso da revolução de 1917) para implantar ditaduras totalitárias. Sendo assim, se eles foram usados uma vez sempre foram usados; e se sempre foram usados também serão usados pelo PT do mesmo modo. Essa constatação seria um índice de que o objetivo oculto do partido é instalar um regime semelhante ao que Lênin instalou na Rússia após 1917.

 

Os dois exemplos citados acima, além de servirem de maneira brilhante para elucidar a estrutura de falácias retóricas em aulas de lógica, também são espécimes bem característicos da chamada “retórica conspiratória”.

 

Benoit Bréville (2015), em um artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil; aponta para os dez princípios desse tipo de discurso. Alguns desses princípios são particularmente evidentes em falas como as citadas acima: (A) Nunca falar em conspiração: essa é uma regra básica. O termo “conspiração” tem conotações comprometedoras, por isso é importante falar em “projeto de dominação”, “rede de dominação”, “projeto de hegemonia”. (B) Julgar-se Vanguarda: é fundamental para o conspiracionista convencer o seu interlocutor que tem uma percepção privilegiada dos fatos, uma compressão superior da verdade e um acesso a um tipo de conhecimento que o afasta da massa e da opinião comum. Por isso a referência ao próprio currículo, aos livros que leu, ou os contatos que teve para justificar sua posição privilegiada. Neste sentido, o conspiracionista precisa se vender como alguém que faz parte de um grupo seleto de iniciados e que sua visão o afasta do senso comum do “rebanho da opinião pública”. (C) Basear-se na ciência e na razão: apelar para livros e autores pouco conhecidos como se fossem indícios de argumentos fortes; (d) perguntar sempre “quem lucra com o crime?”: sempre deverá haver alguém que se beneficiará com o fato que gera as suspeitas conspiratórias para justificar sua intencionalidade; (e) Busca por detalhes perturbadores: detalhes muitas vezes irrelevantes, como uma palavra em um documento, ou um encontro entre dois agentes políticos pode ganhar súbita e insuspeita importância no discurso conspiracionista; (f) recusar o acaso: todo fato é significativo e dois acontecimentos simultâneos devem ser sempre postos em uma rede causal; (g) Nunca subestimar o inimigo: os inimigos são sempre mais perigosos, eficazes e competentes do que a gente pode supor; (h) Nunca subestimar o inimigo (de novo): paradoxalmente o inimigo também comete erros banais que o desmascaram (por exemplo: colocar uma moção de apoio as FARC em um documento, quando se quer dissimular suas reais intenções conspiratórias); (I) recusar sempre a contradição: “Para nunca ser abalado com um contra-argumento basta desqualificar a fonte” (BRÉVILLE, 21); (J) Apoiar-se na história.

 

Acompanhando com um pouco de atenção poderemos encontrar esses traços de retórica conspiratória em inúmeros outros comentários da internet como os supracitados, tanto de direita, quanto de esquerda, vale salientar.

 

Apesar da farta oferta desse tipo de discurso nas redes sociais um aspecto me chamou atenção, especificamente no comentário do cineasta Arnaldo Jabor.

 

O apoio em elementos históricos para se fundamentar um argumento é um recurso bastante sutil e que, na maioria das vezes contribui de modo apurado para realizar certo encobrimento ideológico daquilo que não queremos que seja evidenciado.

 

Por exemplo, na comparação feita entre a Política Nacional de Participação Social proposta pelo governo do PT e o os Sovietes no tempo da revolução de 1917; o que temos é a ligação retórica entre momentos e contextos históricos completamente diversos. Unem-se em uma mesma ilação de causalidade dois momentos e dois acontecimentos históricos que não são necessariamente semelhantes, mas que parecem ser os mesmos. Deste modo o conspiraconista cria a falsa sensação que o terror totalitário do regime de Stálin foi produto do uso político dos conselhos populares instrumentalizados por Lênin com o objetivo exclusivo de tomar o poder na Rússia do começo do século.

 

Sendo assim, a ideia de que o futuro repete tediosamente o passado e que o que acontece uma vez, volta a acontecer necessariamente todas as outras vezes, antes de ser uma simples indução probabilística, se torna um salto indutivo que fundamenta nossa certeza de que a proposição da regulamentação dos referidos conselhos seria um índice irrefutável, vinculado ao que se supostamente sabe sobre as ações dos conspiradores do Foro de São Paulo (uma espécie de “Protocolo dos Sábios de Sião” da nova direita brasileira), de que o projeto de criação de uma União das Repúblicas Socialistas Latino Americanas está em curso. Tal qual se propunha em 1928 no informe apresentado em Moscou por Jules Humbert-Droz; no VI Congresso da Internacional Socialista em que se defendia a criação de uma “União Federativa das Repúblicas Operárias e Camponesas da América Latina” (REIS: 2014, p. 129).

 

Assumimos deste modo, com a mesma fé que nos autoriza a acreditar na incontestável regularidade natural dos fenômenos físicos, que a história busca sua própria repetição e que os agentes que hoje atuam nos partidos de esquerda da América Latina, são equivalentes aos bolcheviques de 1917. Imbuídos na tarefa de implantar um regime totalitário, semelhante ao que emergiu durante os anos 1930 dos restos da revolução de Outubro.

 

Quando não compreendemos bem a natureza do terror político soviético, qualquer conexão fajuta do tipo apresentada pelos comentaristas supracitados parece uma evidência forte das causas do totalitarismo.

 

Isso ocorre, em certa medida, porque há uma tarefa que a esquerda contemporânea ainda não conseguiu enfrentar completamente. Em certo sentido, essa incapacidade de cumprir uma tarefa hermenêutica desse tipo se dá porque a própria esquerda contemporânea acredita na ideia de que qualquer modelo alternativo à democracia representativa liberal do século XVIII descaba inevitavelmente em totalitarismo político.

 

Por isso é fundamental, ao invés de negar o terror político pós revolução como uma “mentira da imprensa burguesa”, enfrentar o problema dos totalitarismos de esquerda e avaliar os mecanismos que os deram sustentação. Um bom começo pode ser o de tentar compreender o sentido dos Sovietes na revolução de 1917. Para além das idealizações românticas e dos delírios de conspiração que parecem ulular nas redes sociais.

 

Os conselhos populares do século XXI e os sovietes do tempo de Lênin são a mesma coisa ou a história se repete apenas nas falácias retóricas do discurso conspiracionista?

Os conselhos populares do século XXI e os sovietes do tempo de Lênin são a mesma coisa ou a história se repete apenas nas falácias retóricas do discurso conspiracionista?

 

A impaciência histórica de Lênin

 

Na verdade foi o próprio Lênin, em 1917, às portas da revolução de Outubro, que apontou para o grave paradoxo dialético da revolução Russa: para que o proletariado completasse sua missão histórica, seria necessário que assumisse a missão histórica da burguesia russa (ainda insipiente) e promovesse o desenvolvimento industrial burguês.

 

Antes de ser lida como uma assertiva inexorável acerca das condições objetivas da Rússia pré-revolucionária, já é possível antever na ideia de Lênin uma espécie de desculpa prévia pelo fracasso da Revolução que os bolcheviques estavam tentando promover no tecido já abatido do império Czarista.

 

É certo que o papel dos sovietes no começo do processo revolucionário, evocava um modelo de democracia direta que parecia remontar à polis grega como uma resposta socialista ao modelo de democracia representativa liberal, pensada a partir das elaborações conceituais de filósofos iluministas nos séculos XVII e XVIII. Nesse sentido, a proposta política dos sovietes em sua origem, oferecia uma alternativa universalista, bem ao espírito das luzes modernas, ao modelo de representação política a partir de um sistema de pesos e contrapesos, pensado pelos iluministas liberais. Esses modelos, tanto o da democracia representativa burguesa, quanto da democracia dos conselhos socialistas, apontavam, para o núcleo estruturante da mentalidade política clássica, como se buscassem, a partir de um mergulho em direção ao núcleo radical da experiência democrática, purgar a experiência política grega de seu exclusivismo aristocrático e ajustá-la ao modelo de uma organização democrática geral, afinada com a experiência da modernidade.

 

Mas para que esse projeto pudesse ser formulado e a experiência democrática radical viesse a se instituir, seria necessário que as condições pelas quais a revolução devesse ocorrer, tivessem que sofrer um processo de “amadurecimento forçado”.

 

Em uma carta datada de 07 de Março de 1917 Lênin escreve:

 

“Não há milagres na natureza nem na história, mas toda viragem brusca da história, incluindo cada revolução, oferece uma tal riqueza de conteúdo, desenvolve combinações de formas de luta e de correlação entre as forças combatentes de tal modo inesperadas e originais que, para um espírito filisteu, muitas coisas devem parecer um milagre” (ZIZEK: 2005, 26).

A busca do desenvolvimento de uma tática política que levassem os bolcheviques ao poder deveria a partir disso, ser pensada como uma ação direta no fluxo da história e não como um “brotar espontâneo das forças produtivas” que amadureceriam a seu tempo e gerariam a revolução em um movimento espontâneo do Zeitgeist. A contribuição de Lênin, nesse sentido, é o de formular uma tática de ação revolucionária calcada a partir da observação dos fatos políticos que circundavam o seu tempo e forçar, com esse cálculo, que a revolução burguesa de Kerensky saltasse logo para uma segunda etapa, por meio de uma intervenção política estratégica que gerasse um amadurecimento forçado das condições sócio econômicas da Rússia feudal.

 

Não se trata só de queimar uma etapa, mas de avançar e torcer a história a partir de um imperativo da ação; calcado na interferência, curiosamente liberal, do indivíduo (no caso o próprio Lênin) no correr do processo histórico. O foco é que, para Lênin, essa própria interferência histórica que deve parecer à primeira vista uma interrupção no “fluxo natural da própria historia” (um milagre) é ela mesma parte dessa mesma história.

 

É irônico que tenha sido Lênin, que levou à diante o projeto de Marx de uma revolução proletária; a assumir o papel hegeliano de inserir a vontade da ação política a partir de seu próprio protagonismo individual (ao apontar para a necessidade de apresar a revolução), e mistura-la à dinâmica dialética da história como uma parte do caminho em direção a construção da totalidade.

 

Neste sentido a opção de Lênin foi a da impaciência.

 

Não seria viável esperar que as condições econômicas das forças produtivas amadurecessem. Era preciso agir no momento exato e a ação deveria ser tomada no sentido de expurgar da revolução em curso após a derrubada do Czar; qualquer traço de chauvinismo nacionalista. A impaciência de Lênin apontaria assim para uma medida profilática que retiraria do horizonte das perspectivas ideológicas da nova Rússia a ideia de uma vitória militar sobre a Alemanha.

 

Se a revolução tivesse que passar de uma primeira fase (burguesa) para uma segunda fase (proletária) dever-se-ia resistir ao discurso nacionalista e militarista da guerra. Mas não seria apenas isso. Seria necessário destruir o Estado czarista de fora para dentro, o que não seria possível sem a organização de milícias populares que pudessem resistir ao impulso contrarrevolucionário da restauração da monarquia czarista. A universalização da milícia proletária deveria abarcar todo o povo em uma organização de massas universais que esvaziasse os discursos dicotômicos das nacionalidades.

 

No intento de forçar o momento da revolução, a busca da construção das milícias operárias caminhava então, em um duplo sentido: (1) desmontar a máquina estatal czarista; (2) organizar politicamente as camadas excluídas da população no sentido de um engajamento no movimento de aceleração da história à que Lênin se propunha a protagonizar.

 

A percepção dessa impaciência, dessa incapacidade de aceitar os “milagres da história” em seu fluxo teleológico, é uma das desleituras que Lênin protagoniza em função da obra de Marx.

 

Também é justamente essa impaciência revolucionária, essa urgência de produção do momento e de intervenção histórica que empurra a decomposição do estado tzarista em um movimento antecipatório que ultrapassa a fase burguesa e a faria, supostamente, saltar para uma fase posterior, comunista.

 

A questão é que o movimento de antecipação e a ruptura aparente do leninismo com Marx e Hegel é apenas superficial. Na verdade a impaciência de Lênin tem um elemento de simulação. Lênin de certo modo apenas estrategicamente promove a desleitura de Marx. Em um sentido mais profundo ele mantem-se fiel à crença de que a história se faz com os milagres do amadurecimento das forças produtivas que se movimentam em idas e vindas em direção a um telos evolutivo. Ele aceita suficientemente o pseudo-paradoxo de ser hegeliano e marxista ao mesmo tempo, para entender que a ação do indivíduo na história não faz com que a história salte por suas fases, mas sim que materializa a tendência inerente do Zeitgeist que é negada pelas forças da reação.

 

Neste sentido, os anarquistas conseguiram perceber de modo mais apurado a mentira terapêutica (pronton pseudos) de criação do Estado bolchevique na medida em que compreenderam; de modo mais detalhado o sentido fundamental da existência estratégica dos sovietes no plano de ação política leninista.

 

Enquanto os anarquistas buscavam a realização de uma produção dispersa de unidades autônomas e decentralizadas em um modelo horizontal de organização, os bolcheviques desconstruíram o estado czarista para, no lugar, propor uma grande produção centralizada, que se conectava à necessidade de controle do Estado de “fora para dentro” a partir de uma “utilização revolucionária das formas revolucionárias de Estado” (ZIZEK: 2005, 50).

 

A tarefa fundamental da revolução para Lênin seria o de demolir o Estado burguês, não para extrair qualquer Estado possível do horizonte de possibilidades políticas pós-revolucionárias, mas sim pela necessidade de substitui-lo por outro, que forçasse o avanço das forças produtivas em direção ao seu amadurecimento. Em uma carta de 26 de Março de 1917 (ou 08 de Abril), Lênin propõe os pontos fundamentais desse processo de transição e amadurecimento que seriam: (1) a demolição da velha máquina do Estado; (2) a organização do poder a partir dos sovietes (ruptura com o modelo de democracia representativa burguesa); (3) controle do poder político pelo “povo armado”; (4) no caso especifico da Rússia, a união estratégica envolvendo camponeses e operários (ZIZEK: 2005, 61).

 

Todas as revoluções burguesas, no julgar de Lênin aperfeiçoariam a máquina do Estado, mas a revolução bolchevique necessitaria do Estado não do mesmo modo, mas para de certa forma, reconstruir a revolução burguesa a partir de outra perspectiva que pudesse refazer o percurso histórico e criar as condições para uma sociedade comunista no futuro.

 

A impaciência de Lênin aparece assim, neste passo, como uma ansiedade de retorno a um momento arquetípico de uma revolução original antiaristocrata; que deveria ser relida e reconstruída a partir de outras bases, e não como uma evolução de uma nova etapa do processo histórico.

 

A experiência de reedição da revolução moderna na Rússia não seria de todo uma nova revolução, mas uma correção histórica de uma revolução antiga, que perdeu o rumo na medida em que levou o Estado pós revolucionário no caminho de uma ditadura do capital.

 

Nas teses de Abril (ZIZEK, p.p. 62- 68) nas quais Lênin se debruça sobre as tarefas do proletariado na revolução que se apresentava, publicadas no Pravda em 07 de Abril de 1917; os pontos do projeto bolchevique para a ação política direta eram apresentados de modo claro: (1) passagem do poder para as mãos do proletariado; (2) renuncia à anexação da guerra imperialista; (3) Ruptura completa com todos os interesses do capital; (4) suspensão do exercito, da polícia e do funcionalismo público; (5) fusão bancária nas mãos de um único banco central estatal.

 

O que Lênin aponta de modo explícito é a questão em torno do poder político e do modo como esse poder poderia ser obtido em um contexto histórico específico, não um método universal de estratégia revolucionária que pudesse ser usado em todas as condições de temperatura e pressão política. O que os comunistas tiveram bastante dificuldade de entender, mas os anarquistas perceberam mais rapidamente, é que as teses de Lênin em 1917 constituíam, como as declarações de direitos da modernidade burguesa e os textos dos federalistas norte americanos, a mentira básica da construção do Estado moderno em uma Rússia anacronicamente feudal e imperial.

 

O método fundamental de organizar a agitação e controlar as energias coletivas despertadas pela possibilidade histórica presente em 1917; direcionaria essas energias para o remodelamento do Estado e não à revolução em si mesma, mas a revolução como instrumento de construção de outro Estado.

 

A possibilidade do terror político que se configurou de modo mais evidente no período stalinista, já estava assim, em potência; retida sobre a superfície do discurso de Lênin de construção de um Estado provisório, que pudesse reeditar, em outros termos a revolução burguesa de 1789 e que justificasse a viabilidade histórica de uma revolução comunista em uma Rússia feudal.

 

A presença dos conselhos e de sua função de democracia direta, atuando como um elemento que poderia substituir a democracia representativa burguesa a partir de uma releitura da experiência democrática original dos gregos; era provisório e sua função era bem diversa. Foram os anarquistas russos os primeiros a sentir, na carne, esse sinal desviante da revolução.

 

Não assumir o terror do Gulag como um elemento inerente a revolução é um grave erro estratégico da esquerda. É preciso apontar para o ponto onde o totalitarismo se encontra no pensamento de Marx para purga-lo de vez.

Não assumir o terror do Gulag como um elemento inerente a revolução é um grave erro estratégico da esquerda. É preciso apontar para o ponto onde o totalitarismo se encontra no pensamento de Marx para purga-lo de vez.

 

 

 

Só reacionários fazem planos pra depois da revolução

 

Rudolf Rocker, anarco-sindicalista, historiador e ativista alemão, publicou em 1921 um texto de intervenção em que abordava a questão dos anarquistas russos antecipando as rupturas que levariam a colocar em campos opostos da luta política os representantes da Internacional Sindical Vermelha (de orientação bolchevique) e o sindicalismo revolucionário de base anarquista.

 

No texto, intitulado Os Sovietes Traídos Pelos Bolcheviques, Rocker fala sobre a revolução de 1917:

“Se até o presente momento pouco se compreendeu foi principalmente porque sempre se quis, em todas as considerações sobre a revolução russa, unir duas coisas que são, de fato, impossíveis de unir: a ideia de conselhos e a ‘ditadura do proletariado”.  (ROCKER: 77).

Essa constatação parece, em um primeiro momento, bastante óbvia na medida em que no próprio conceito de um sistema de conselhos federados, não se encaixa elementos ligados a ideia de uma ditadura. Se o elemento que deve organizar os conselhos é a vontade da base e a energia criativa do povo expressa em um modelo de assembleias populares federadas, os dois espíritos (o dos conselhos e de uma ideia de ditadura do proletariado a partir do controle de um partido) não poderiam coincidir.

 

Na própria arquitetura conceitual da ideia de conselho, estaria implicada, a tese fundamental que: “cada nova forma econômica de organização social deveria igualmente engendrar uma nova forma de organização política” (ROCKER: 80). Desta maneira, à política do Estado Nação deveria se contrapor uma política dos conselhos, tomados como articulações orgânicas, autônomas, que se expressariam politicamente em comunas federadas descentralizadas, formando um movimento de força política que emerge da base em direção ao topo.

 

Seguindo Rocker (p. 82) a ideia dos conselhos só ganhou força, ao termino da violenta repressão contra os sindicatos e as organizações proletárias, após a Comuna de Paris, em 1871. No período imediatamente subsequente à Comuna, a intensa repressão fez migrar a luta proletária para grupos clandestinos e apenas por volta de 1900 à 1907, com a expansão do anarco-sindicalismo revolucionário, especialmente na Espanha e França é que a ideia de conselhos passa a frutificar. Não haveria deste modo, qualquer traço de originalidade na proposta Bolchevique. Não estariam marcados no “DNA político” dos bolcheviques qualquer noção de conselhos que não tivesse sido elaborada previamente pelas experiências anarco-sindicalistas.

 

A organização da sociedade em sovietes deveria, em princípio, servir como um mecanismo de interferência democrática direta no funcionamento do novo (e provisório) Estado revolucionário. A questão é que a provisoriedade do Estado não estava no foco das intenções dos leninistas.

 

O “paradoxo Lênin” se encontra na necessidade de se protagonizar uma desleitura de Hegel e Marx para justificar uma revolução comunista em um país feudal, sendo ele mesmo hegeliano e marxista o suficiente para não acreditar na viabilidade dessa própria desleitura. Lênin não parece acreditar realmente na possibilidade de uma revolução comunista que antecipasse a fase histórica do Estado nacional burguês (não existem milagres na história); por isso, precisava construir um Estado nacional, com todos os seus crimes fundadores, que não fosse burguês. Assim, ele acaba apostando na ideia de que é apenas corrigindo Marx que podemos nos tornar marxistas sinceros. Marx seria menos marxista do que Lênin e Lênin, por sua vez, distorcendo-o; seria mais marxista do que o próprio Marx.

 

Assim, os conselhos populares, necessitariam ser controlados por uma burocracia partidária que mantivesse o Estado moderno coeso. O caráter eminentemente revolucionário dos conselhos funcionaria desse modo para desmontar o velho anacronismo feudal do czarismo; mas não poderiam atuar em sua radicalidade sob pena de desmontar o Estado moderno proletário, em sua tarefa de corrigir a história e refazer a revolução francesa em outras bases. Por isso, Lênin já prevê o caráter provisório desses conselhos em Setembro de 1917, em um texto intitulado “A Catástrofe que Nos Ameaça e Como Combatê-la” (ZIZEK: 2005, 82).

 

No Livro organizado por Zizek, se encontram os escritos de Lênin que antecedem a Revolução de 1917. No calor do dia, a impaciência histórica responde a pergunta: "e se não agirmos agora?"

No Livro organizado por Zizek, se encontram os escritos de Lênin que antecedem a Revolução de 1917. No calor do dia, a impaciência histórica responde a pergunta: “e se não agirmos agora?”

 

Ali, Lênin aposta que um modelo de Estado proletário moderno não poderia, sustentar-se com base em conselhos populares autônomos, posto que seriam esses conselhos, uma etapa instrumental, intermediária entre o capitalismo liberal e o modelo socialista. Esse caráter intermediário não deve, no entanto, ser lido como um elemento histórico, que está entre dois momentos no tempo, mas um elemento intermediário conceitual. O grande equivoco que muitos comentadores cometem ao ler os textos de Lênin de 1917 é acreditar que o caráter intermediário do Estado bolchevique seria de um “interegno”, um intervalo de tempo, um momento provisório entre um modelo liberal capitalista de Estado moderno, que fundamenta sua mentira básica no chauvinismo nacionalista, e um modelo socialista futuro. O Estado bolchevique é conceitualmente intermediário, não “historicamente intermediário” (neste sentido ele não é nem Marxista nem Hegeliano, mas padece de uma doença metafísica congênita que vai corroer a própria noção de revolução). Sua função não é, deste modo, a de se estabelecer como um elemento provisório que construiria as condições para uma sociedade organizada a partir de conselhos autônomos federalizados como pensavam os anarquistas. Sua função é reconstruir a história e liberar as forças produtivas da sociedade feudal russa a partir de outras bases que não as bases da ordem burguesa instituída pela revolução de 1789 e com isso forçar uma nova síntese dialética em outras bases que não as da modernidade capitalista.

 

Isso está muito claro nos textos de Lênin de 1917: a substituição do velho aparelho do Estado burguês moderno por um novo aparelho que expresse a ansiedade por democracia real da maioria organizada do povo aparece como um momento no processo de tomada do poder, uma estratégia que permita a construção da “ditadura do proletariado” como citado em sua Carta aos Camaradas de 16 (29) de Outubro de 1917:

 

“Jamais negamos as dificuldades do poder durante a guerra imperialista mas, não obstante, pregamos sempre a ditadura do proletariado e dos camponeses pobres. Vamos renunciar a isso quando é chegado o momento da ação? Sempre dissemos que a ditadura do proletariado em um só país origina mudanças gigantescas na situação internacional, na economia do país, na situação do exército e em seu estado de ânimo. E vamos “esquecer” tudo isso agora, deixando-nos intimidar pelas ‘dificuldades’ da revolução?” (ZIZEK: 2005, 160).

 

O impasse no momento fundamental da revolução nasce assim da percepção de que a Rússia não teve uma revolução burguesa que a libertasse do feudalismo aristocrático e a lançasse no capitalismo moderno. O que separa as teses de Lênin das teses dos anarquistas é justamente a compreensão do que fazer a partir dessa constatação.

 

Se para os bolcheviques seria preciso recriar o Estado da revolução anterior (a de 1789) em outras bases, refazendo aquela revolução e corrigindo-a partir de um modelo de Estado que pudesse forçar o desenvolvimento das forças produtivas da Rússia (como ocorreu no capitalismo do século XIX) sem, no entanto, criar as condições políticas que sufocavam as possibilidades revolucionárias na Europa Ocidental; para os anarquistas tratava-se literalmente de jogar Marx fora e pular uma fase na narrativa que a dialética hegeliana emprestava à modernidade.

 

Rocker percebe isso ao apontar, com muita razão, que a ideia de “ditadura do proletariado” tem origem no jacobinismo burguês da revolução de 1789 e não das lutas sindicais que se desenvolveram durante do século XIX. Os sujeitos que desenvolveram o socialismo francês derivavam seus pressupostos de bases jacobinas e foi justamente a partir dessas bases que Marx e Engels tomaram emprestadas a ideia de Ditadura do Proletariado, como apresentada no Manifesto Comunista de 1848 (MARX; ENGELS: 2010). A noção de um governo forte e centralizado casa com a ideia de terror jacobino e nada tem a ver com o movimento emancipatório das massas, mas sim com uma tentativa de disciplinar e orientar a energia caótica da revolução em um sentido.

 

“Sob a ditadura do proletariado a Rússia se tornou uma imensa prisão onde todo vestígio de liberdade foi sistematicamente apagado, sem que se tenha, contudo, aproximado dos objetivos iniciais da revolução. Ao contrário, afastavam-se cada vez mais dela na verdade, na medida em que o poder da nova aristocracia aumentou e a iniciativa revolucionária do povo sufocou-se”. (ROCKER, 91).

 

Aí aparece um diagnostico que aponta para a evidência de que a revolução de 1917 já haveria fracassado, justamente por não conseguir fazer avançar a proposta radical dos conselhos e assumir um modelo de ditadura de um partido único a partir de um Estado intervencionista, superpoderoso, seguindo o modelo forjado a partir da influência do jacobinismo burguês e não pelo aprofundamento de um modelo federativo pensado a partir de uma radicalização da autonomia desses mesmos conselhos.

 

A unificação e o centralismo que emergiram após 1917 não foram deste modo, uma unificação das forças populares e revolucionárias, mas sim, justamente, ao contrário do que pregavam os bolcheviques, a paralisia definitiva dessas forças; bloqueadas em seu potencial emancipatório por uma unidade artificial que atuava de “cima” para “baixo” em um largo movimento que sufoca e elimina toda autonomia e independência revolucionária.

 

Na narrativa da revolução de 1917 não é possível pensar que o terror emergiu em função da existência de conselhos populares autônomos. Foi justamente o fracasso desses conselhos que possibilitou a emergência do terror político, como, nos regimes liberais burgueses, é o fracasso do modelo de democracia representativa que faz emergir os totalitarismos fascistas.

 

Segundo Hobsbawm teria sido a experiência curta da Comuna de Paris a único exemplo histórico que teria se aproximado, durante a vida de Marx daquilo que ele chamava de "Ditadura do Proletariado". Será mesmo?

Segundo Hobsbawm teria sido a experiência curta da Comuna de Paris a único exemplo histórico que teria se aproximado, durante a vida de Marx daquilo que ele chamava de “Ditadura do Proletariado”. Seria suficiente?

 

 

 

Uma ditadura pra chamar de sua

 

Mas qual é mesmo o sentido que Marx e Engels emprestam ao conceito de “Ditadura do Proletariado”?

 

Eric Hobsbawm afirma que foi justamente a Comuna de Paris, o evento político apontado por Marx como um exemplo de “Ditadura do Proletariado” (HOBSBAWM, 60). A descrição apresentada por Marx de seu conceito não parecia, neste sentido, conter os traços, ao menos explicitamente, de uma ditadura burguesa clássica. Não é evidente que tenha sido o fato da Comuna de Paris não ter frutificado ou mesmo a intenção de Marx e Engels em manter aberto seu conceito de “Ditadura do proletariado” que tenham contribuído para que não tenha sido produzido no corpus do pensamento marxista original a constituição de um modelo universal; de uma forma geral dessa “ditadura do proletariado”. O fato é que esse vazio conceitual não ofereceu para os comentadores marxistas posteriores, Lênin inclusive, um conjunto de circunstâncias políticas, históricas, sociais ou econômicas que pudessem indicar sua efetivação. Como aponta o próprio Hobsbawm: “Só podemos depreender que ela deveria combinar com a transformação democrática da vida política das massas com medidas para evitar a contra revolução da classe derrotada” (HOBSBAWM, 60).

 

Outro aspecto que eclode da obra de Marx, ainda segundo Hobsbawm é que o Estado proletário deveria ser transitório e dissolver a separação entre povo e governo. Neste sentido, a ideia marxista clássica, em tese deveria ser a de uma radicalidade democrática. No entanto, o que se depreende das experiências do socialismo no modelo soviético, é que o caminho ocorreu no sentido oposto ao das expectativas de uma leitura do marxismo clássico.

 

Desse notável escândalo ontológico, que opõe a efetividade de um modelo supostamente implantado com base em conselhos proletários à uma centralização estatal brutal, pode-se extrair algumas consequências para a problemática politica moderna.

 

Uma das saídas fáceis para esse impasse (e por isso mesmo fraca) é aquela usada pelos críticos liberais de Marx que compreendem esse traço contraditório entre teoria filosófica e prática política como o atestado da inconsistência do pensamento de Marx e de qualquer proposta que busque radicalizar a ideia democrática para além do que foi proposto pelos teóricos liberais nos séculos XVII e XVIII. Seguindo esse modelo, o socialismo em seu modelo soviético, teria fracassado em sua proposta de assumir uma leitura radical da democracia direta a partir de conselhos não em função de circunstâncias históricas, políticas e econômicas que girariam em torno do caso especifico da implantação das ideias de Marx no socialismo realmente existente na URSS.

 

Outra saída possível é a de pensar, como propõe o professor Robério Paulino (2010), que os descaminhos do socialismo soviético no século XX teriam surgido não de uma inconsistência fundamental no pensamento de Marx, mas de uma necessidade circunstancial de reação às: “(…) Violentas agressões das potências capitalistas e do baixo grau de acúmulo humano e do proletariado para construir uma sociedade realmente nova, ou seja, das difíceis condições objetivas, e até de erros cometidos no processo, mesmo pelas direções revolucionárias” (PAULINO, 28).

 

Há, por fim, uma interpretação muito usual, que se baseia em um suposto “desvio hermenêutico” da obra de Marx, protagonizado, quer por Stalin ou, mesmo pelo próprio Lênin. A chamada interpretação stalinista ortodoxa, por exemplo, posta como um dogma canônico a partir de 1938, na obra História do PCUS (HOBSBAWM, 172) teria acabado por tornar “hetedodoxo” uma parte substancial do corpus do pensamento marxista, como por exemplo os Grundrisse (MARX, 2011) publicados em Moscou entre 1939 e 1941, mas postos de lado das leituras oficiais do cânone stalinista até ser publicado em Berlim no ano de 1953.

 

Uma interpretação desse tipo, segundo Zizek (2011) contribui muito pouco para o enfrentamento das estratégias liberais de desqualificar Marx a partir da leitura de que já estaria contida, em seu conceito aberto de “Ditadura do Proletariado”, a gênese de todo terror e que, por isso dever-se-ia atestar como perigosa e fracassada qualquer proposta moderna de alternativa à democracia liberal.

 

Na verdade, segundo Zizek, a melhor maneira de contornar essa estratégia liberal é assumir que o elemento fundamental do terror político do Estado centralizador está contido na obra de Marx em seu conceito aberto de “ditadura do proletariado”.

 

O marxista sincero deveria assumir, neste sentido, o terror no pensamento de Marx com um sintoma que de o próprio Marx não teria sido suficientemente radical em seu pensamento a ponto de propor um modelo ultrarradical de democracia, deixando aberto o conceito de ditadura do proletariado como uma ideia que poderia ser apropriada em modelos altamente centralizados de controle estatal da sociedade.

 

A tese de Zizek assim, em um primeiro plano, parece bater com a leitura crítica liberal, ao assumir, no corpo do pensamento marxista, o espaço teórico que faz nascer as condições conceituais para a emergência do terror stalinista. O que diferencia Zizek dos críticos liberais é justamente, as consequências que ele estrai dessa percepção.

 

Perceber a covardia revolucionaria no marxismo (como os anarquistas perceberam já nos anos 20) não é razão suficiente para jogar fora o pensamento de Marx como um todo (como advogam alguns críticos liberais). O escândalo totalitário do pensamento de Marx, apenas de modo muito enviesado e forçado, em uma literatura panfletaria de direita, se presta a ser justificativa para o abandono do enfrentamento do pensamento marxista.

 

Assim como não faz sentido abandonar o pensamento de Heidegger pela sua vinculação durante os anos 30 com o nazismo, sendo necessário para se absorver o conteúdo político de sua obra, força-la no sentido de uma desleitura desnazificante, que liberte Heidegger de si mesmo; seria essencial radicalizar Marx e não abandona-lo, em pânico diante da contemplação do escândalo de seu totalitarismo inerente. Marx é um pensador importante demais para a compreensão da modernidade para ser deixado de lado a partir de um recuo desse tipo.

 

Desta forma, a tese essencial que subjaz a narrativa da revolução, como lida por Lênin nos escritos de 1917 de que todo Estado é em si a expressão de uma ditadura de uma classe sobre outra e que toda democracia é essencialmente uma farsa (expressão de um discurso ideológico), deve ser posta na mesa da discussão sobre as relações entre Estado e sociedade a partir de seu débito com o marxismo original.

 

O importante é fazer uma leitura que não trate o trabalho hermenêutico de Lênin como um simples erro de interpretação do pensamento original de Marx, mas como a evidência de uma exegese terapêutica de um dos elementos inerentes no projeto marxista. O resíduo positivista de Marx e Engels, que aparece de modo bastante evidente em sua crítica a Stirner (MARX; ENGELS: 2007), também surge como resíduo na projeção de uma sociedade comunista utópica absolutamente transparente.

 

A ação de Lênin foi deste modo, uma ação de construção de um traçado cuidadoso, no fio da navalha política. Uma ação que a um só tempo atuou junto ao “desempacotamento” da força revolucionária em si (Hegel), evitando a ausência de um direcionamento metodológico positivo dessa energia (Comte). Cabe aqui um exercício de imaginação. Caso a proposta leninista não tivesse vigorado e o controle dos sovietes por parte do comissariado partidário não tivesse se efetivado a partir da ideia de “ditadura do proletariado” que projeções poderíamos fazer nascer dessa abertura para o “incondicionado da história” que uma proposta de conselhos federativos construiria?

 

Se é esse incondicionado da história que leva a humanidade adiante, em seus saltos periódicos em direção ao futuro, o aspecto sombrio das totalidades modernas teria se revelado justamente no seu mais evidente trunfo, que é o devir revolucionário, contido pelo cálculo político do poder que faz planos para o dia posterior ao do delírio de embriaguez revolucionaria? Ou seria esse cálculo do poder que abastece o Estado e mata as experiências federativas na modernidade, o grande sinal do fracasso político dos projetos iluministas, que nem liberais nem comunistas conseguem superar?

 

Uma resposta para isso dificilmente será encontrada apelando para uma retórica conspiratória dessas que povoam as nossas redes sociais. É preciso mais ousadia do pensamento e menos mistificação ideológica para fazer um enfrentamento significativo dessas questões.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BRÉVILLE, Benoit. Dez Princípios da Retórica Conspiracionista. Le Monde Diplomatique Brasil. Ano 8, número 95, Junho 2015, p. 20 – 21.

CARVALHO, Olavo. Foro de São Paulo, KGB, Nova Ordem Mundial. Comentário postado no youtube no dia 02 de Agosto de 2013 acessado em 20 de Julho de 2015 e disponível em https://www.youtube.com/watch?v=NzOSNKtHOek

HOBSBAWM, Eric. Como Mudar o Mundo: Marx e o Marxismo. Tradução de Donaldson M. Garschagen. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

JABOR, Arnaldo. O Decreto Soviético do PT. Comentário postado no youtube no dia 30 de Outubro de 2014 acessado em 20 de Julho de 2015 e disponível em https://www.youtube.com/watch?v=ch4QnjhhmR8

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. . Tradução de Marcelo Backes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

________. Manifesto Comunista. Tradução de Álvaro Pina e Ivanna Jikins. São Paulo: Boitempo, 2010.

PAULINO, Robério. Socialismo no Século XX. O que deu errado? Sobre as causas do colapso da URSS e o imenso legado da Revolução Russa: as conquistas, as dificuldades e os equívocos do socialismo no século passado. Letras do Brasil: São Paulo, 2010.

REIS, Daniel Aarão. Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos. Companhia das Letras: São Paulo, 2014.

ROCKER, Rudolf. Os Sovietes Traídos Pelos Bolcheviques. Tradução de Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Hedra, 2007.

ZIZEK, Slavoj. Às Portas da Revolução: escritos de Lênin de 1917. Tradução de Luiz Bernardo Pericás, Fabricio Rigout e Daniela Jinkings. São Paulo: Boitempo, 2005.

 


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2007 ® Pablo Capistrano

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