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  • Pablo Capistrano
  • 13 de dezembro de 2016, as 22h22
O que diferencia uma revolta de uma revolução é que no primeiro caso as coisas ficam como estão. No segundo não.

O que diferencia uma revolta de uma revolução é que no primeiro caso as coisas ficam como estão. No segundo não.

 

 

Atrás de uma imensa janela de vidro pessoas bem vestidas aproveitam um coquetel. Enquanto garçons servem vinho, champanhe e camarão gratinado no salão refrigerado, os participantes da festa oficial observam pela janela, tropas de cavalaria investirem contra pessoas no gramado que fica em frente ao palácio onde o evento social acontece. Os convidados do banquete observam, com música ambiente e conversas agradáveis, a grande confusão da qual estão protegidos. Se não fosse por aquela imensa janela de vidro, talvez ouvissem os gritos, o barulho das bombas ou sentissem o cheiro de sangue, misturado com poeira, fumaça de gás lacrimogênio, e suor dos que batem e dos que apanham.

 

Essa cena poderia ilustrar o início de um livro sobre a França de 1789 ou sobre a Rússia de 1917, mas ela descreve uma imagem que circulou nas redes sociais e que foi clicada por algum fotógrafo dentro do congresso nacional brasileiro no dia 29 de novembro de 2016. Enquanto a tropa de choque da polícia militar investia contra trabalhadores e estudantes que protestavam contra medidas que descaracterizam uma constituição jovem demais para morrer; gente que serve a elite financeira do país gravava tudo com seus celulares, guardados dos ruídos incômodos do massacre pela tela de vidro que separava seu mundo do terrível deserto do real que circundava os que ficaram fora da festa.

 

A imagem que circulou nas redes sociais imediatamente me evocou uma outra, presente no filme do diretor francês Benoît Jacquot (“Adeus Minha Rainha”). O filme, lançado em 2013, conta a história de Mademoiselle Laborde (interpretada por Leya Seydoux). Ela é uma jovem criada que chega à Versalhes em pleno período de conturbação revolucionária para servir à rainha Maria Antonieta, interpretada por Diane Krueger.

 

Enquanto o país é sacudido pela fúria do acontecimento revolucionário, os nobres franceses se refugiam junto ao rei e sua família na esperança de estarem protegidos do delírio da turba que se agitava para lá dos portões do palácio. Em certo ponto da narrativa, os revolucionários enviam uma mensagem para os nobres sitiados. Trata-se de uma lista com os nomes de duques, condes, viscondes e marqueses que teriam suas cabeças cortadas tão logo as forças revolucionárias tomassem Versalhes. A gente quase chega a sentir pena quando os velhos parasitas do antigo regime começam a chorar e desmaiar pelas escadas, zanzando em desespero pelos quartos do palácio em busca de recolher o que pudessem em uma tentativa desesperada de fuga.

 

Existem algumas semelhanças entre o Brasil de 2016 e a França de 1789. Enquanto no temo de Louis XVI cerca de 400 mil pessoas entre os 23 milhões de Franceses, eram nobres e usufruíam dos privilégios de classe; no Brasil de Temer, uma casta mínima de pessoas lucra milhões com transferências de recursos do tesouro através de juros de uma dívida pública indexada à taxa Selic, enquanto uma ampla maioria se mata em meio ao caos do cotidiano, em uma busca trágica pelo tão falado “lugar ao sol do consumo”, prometido pelos profetas do capitalismo liberal.

 

A grande diferença do tempo em que as cabeças dos nobres rolavam pelas escadarias de Versalhes, deste em que rentistas voam de helicóptero sobre metrópoles atoladas na guerra social do dia a dia, é a natureza da violência que presenciamos nos dois casos.

 

A violência subjetiva dos carros incendiados, das bombas de gás e balas de borracha arrancando sangue de pessoas desarmadas é sempre a violência mais visível. Ela tem uma função ideológica muito determinada que é a de desviar a atenção de uma violência objetiva e estruturante, uma violência que na maioria das vezes é como uma matéria escura que preenche os espaços simbólicos vazios do tecido social e oferece uma perspectiva de coesão que mantém uma ordem qualquer funcionando. É essa violência objetiva o grau zero do terror diário. É ela que mantém e sustenta a nossa normalidade.

 

A violência subjetiva se apresenta a nós como um sintoma, um desvio de percepção do conjunto complexo de pequenos horrores cotidianos que deixam as coisas em ordem, e colocam as pessoas “em seu devido lugar”. Talvez por isso, a imagem do coquetel no congresso nacional, em meio a uma batalha campal entre a polícia representante da mesma ordem que sustentava o champanhe que corria solto nos salões do congresso e os manifestantes, representantes da insatisfação cotidiana com todo aquele conjunto de violências invisíveis que transformam a vida em sociedades desiguais como a francesa de 1789 e a brasileira de 2016 em um moedor de carne humana; tenha gerado tanta revolta.

 

Ela nos posiciona junto aos elegantes membros do congresso. Nossa vergonha é que estamos como eles, observando o mundo através da película vítrea dos nossos celulares ou das nossas televisões. Somos espectadores da violência subjetiva que nos cerca, escandalizados diante do chaqualhar sem fim de notícias escabrosas sobre sangue e morte, enquanto gritamos histéricos por ordem, sonhando com uma violência conservadora que nos proteja dos outros. Nos horrorizamos com a violência que incomoda e sonhamos com a violência que nos mantenha adormecidos diante dos sinais de falência de nosso regime político.

 

Estamos como os nobres de Versalhes, flertando confortavelmente com o abismo, no tênue transcurso do insuportável.

 

O que ainda não parece ter acontecido é a passagem para o ato de uma violência simbólica que desempacote esse senso de desordem que costuma a fomentar revoluções.

 

Na França do tempo de Luís XVI, o ato da violência subjetiva passou a um ato de violência divina, uma violência simbólica que arrastou a França para o acontecimento revolucionário.

 

Quando a revolução amanheceu na França o acontecimento da violência simbólica suplantou a violência invisível que suportava a velha ordem. O acontecimento emancipatório que desestabilizou o antigo regime foi suficientemente diverso do que ocorria comumente com outras revoltas modernas por dois motivos fundamentais (1) porque ocorreu no centro da civilização europeia (e não na periferia colonial como a chamada “revolução” norte americana) e (2) porque, ao contrário do que havia acontecido nos EUA, a França se transformou em algo que não era.

 

Didaticamente esse pode ser um bom sinal para se compreender a diferença entre uma revolução de verdade e uma mera encenação de revolução. No primeiro caso, as coisas mudam e o horizonte do futuro se descortina em meio a violência simbólica com um inquietante convite em direção ao desconhecido. No segundo caso as sociedades não se alteram substancialmente e não se transformam em algo que elas já não eram antes.

 

Nos 500 anos de Brasil, a velha violência objetiva da ordem sempre deu as cartas. Resta saber se a náusea que sentimos diante do insuportável dessa ordem que parece não mais se sustentar vai repetir seu padrão reacionário, encenando uma revolução de fachada, onde se muda alguma coisa para ficar tudo igual, ou se de algum modo, em um futuro próximo, veremos a violência da nossa normalidade ceder para que o futuro possa atravessar o horizonte da nação.

 

É provável que demore ainda um bocado para isso acontecer, mas, talvez ainda reste, para os países jovens como o nosso, o consolo da máxima que diz: na história das civilizações, os primeiros mil anos são os mais difíceis.

 


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2007 ® Pablo Capistrano

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