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  • Pablo Capistrano
  • 05 de março de 2017, as 8h08
A revolução haitiana ecoou nos trópicos o espírito de 1789

A revolução haitiana ecoou nos trópicos o espírito de 1789

 

 

Entre os anos de 1796 e 1797, quando reinos de toda a Europa se reuniram em um consorcio conservador para matar a revolução que eclodiu na França em 1789, o jovem Hölderlin escreveu os seguintes versos:

 

“Vazos sagrados são os poetas

onde fermenta

o álcool da vida, e o espírito

dos heróis

 

Mas o espírito desse jovem

não deveria romper facilmente

o vaso que tenta retê-lo?

 

Que o poeta o deixe livre

como a alma da natureza

pois o aluno, em tal figura,

se torna mestre

 

No poema

ele pode não permanecer

nem viver

No mundo

vive e permanece”.

 

O poema, fragmentário e peculiarmente moderno para a época, levava em seu título o nome de um jovem militar que havia se destacado na campanha italiana, ao lado das tropas revolucionárias: “Buonaparte”.

Não é de se espantar que Hölderlin, envolvido na atmosfera revolucionaria daqueles anos, tenha ficado fascinado com a figura de Napoleão.

Até Hegel, que dividiu com Schelling e o próprio Hölderlin um quarto em uma república estudantil, durante os anos em que o poeta estudou teologia em Tübingen, encantou-se com a figura do general francês.

 

Reza a lenda que Hegel estava em Jena quando as tropas francesas invadiram a cidade em 1806. O filósofo olhava pela janela para o acampamento montado pelos soldados na praça do mercado. A fumaça das fogueiras enchia seu escritório, mesmo com as venezianas fechadas. Em meio ao barulho de explosões e tiros dos últimos focos de resistência à invasão napoleônica, e das assustadoras notícias de saques e estupros, o filósofo escrevia as páginas finais da sua obra monumental “A Fenomenologia do Espírito”. Tomado pelo furor da história e pela sensação de que o espírito do tempo se manifestava diante de seus olhos, Hegel teria fugido da cidade no dia seguinte, com os originais do seu livro debaixo do braço. Antes disso, porém, teria visto Napoleão e tido uma epifania. O espírito do mundo teria passado a cavalo diante de sua janela. A confluência da história, no ponto em que o universal se concretiza na figura finita de um homem, teria transitado diante do olhar atônito do pensador.

 

Mesmo tendo se coroado imperador, Napoleão encarnava, naquela época, a ideia de revolução. Ele razia consigo uma perigosa inspiração subversiva para todos os povos da terra.  Era a velha ordem de transmissão aristocrática do poder a partir de uma imensa rede familiar que repassava os tronos europeus para linhagens de primos e primas, que estava ameaçada. Formada por uma mesma e única família real, que tinha lá seus conflitos, mas que sabia se unir diante de um inimigo comum como era a ameaça subversiva da revolução liberal, a aristocracia europeia se articulou para sufocar a influência de Napoleão.

 

As vitórias dos revolucionários franceses no final do século XVIII e começo do século XIX traziam a marca romântica do imponderável ao mesmo tempo que embalavam, na figura de seu líder militar, o tropo trágico que perpassa o destino de todo herói.

 

Encontrar a rocha em que o mito napoleônico naufragou diante da reação conservadora da Santa Aliança, surgida após o Congresso de Viena; é uma tarefa que pode ajudar a explicar o momento em que a Revolução de 1789 chegou ao seu primeiro grande fracasso.

 

Um dos candidatos a assassino do espírito revolucionário, talvez o mais aceito pela historiografia Europeia, antes mesmo do “general inverno” que devastou as expectativas francesas de domino militar sobre a Rússia, foi o nacionalismo prussiano.

 

Mas não é só isso.

 

É pouco provável que o entusiasmo dos jovens românticos alemães de Tübingen (Hegel, Hölderlin e Schelling) tivesse permanecido por muito tempo se compreendessem, como Marx depois faria, as profundas contradições que a revolução liberal dos franceses trazia em seu âmago.

 

Antes mesmo da derrota militar na Rússia, ou da derrota ideológica para a reação prussiana na Alemanha, o sintoma do fracasso da revolução de 1789 já havia se manifestado em outro palco, nas praias selvagens do mar do caribe.

 

Quando a notícia da queda da monarquia francesa chegou aos trópicos, uma ilha vizinha à Cuba foi agitada por uma vaga revolucionária.

 

Com cerca de 35 mil brancos, 30 mil mulatos livres e cerca de 430 mil negros escravizados, o Haiti, então uma colônia francesa, resolveu participar da festa da revolução.

 

Liderados por Toussant L’overture os negros de São Domingos se rebelaram contra o domínio colonial francês.

 

Narra Slavoj Zizek em seu livro “Primeiro como tragédia, depois como farsa”; que quando as tropas de Napoleão chegaram na ilha com o objetivo de sufocar a revolução dos negros, teriam ouvido um ruído indistinto no meio da multidão que se armava para o combate. No início pensaram se tratar de mais uma canção de guerra tribal, mas aos poucos teriam percebido que os sublevados entoavam a Marselhesa, a mesma canção que os revolucionários franceses cantavam nos campos da Itália, quando as primeiras vitórias de Napoleão inspiraram Hölderlin.

 

A revolução Haitiana, e a repressão que se seguiu a seu estopim com a posterior prisão de L’Overture e sua morte em um cárcere na França, ensinam algo muito importante sobre a natureza do fracasso da revolução liberal.

 

Nenhum filósofo ou poeta Europeu daquela época, entendeu tão bem e acreditou tão fervorosamente na mensagem da revolução francesa como os escravos haitianos.

 

A ideia de uma liberdade, fraternidade e igualdade, levada a sua acepção radical, apontava para um universalismo que a Europa iluminista não estava preparada para aceitar.

 

Sim, seriamos livres.

 

Mas a condição para a liberdade, como preconizava Hegel, tinha a ver com o fato de que na gloriosa aurora mental da revolução: “Todos os seres pensantes sentiram o mesmo júbilo daquele momento”.

Seres pensantes? Quem seriam os “seres pensantes”?

 

Foi o Haiti, mais do que a coroação de Napoleão como imperador, que trouxe o grande embaraço ideológico para o liberalismo europeu.

 

Não seria o “júbilo daquele momento” um sentimento para os seres de caráter elevado e de racionalidade construída por uma civilização iluminada? Não haveria na experiência do Haiti, um problema? Como justificar que “bárbaros selvagens” das ilhas tropicais tivessem ouvido o apelo universal de emancipação que nasceu nas ruas de Paris? Como sustentar ao mesmo tempo um discurso de emancipação e de liberdade geral, e uma ordem escravista e colonial que reduz a humanidade a estamentos raciais?

 

Antes de ser a queda de Napoleão, o primeiro grande fracasso da revolução de 1789, foi o silêncio que se seguiu ao que ocorreu em São Domingos.

 

Segundo se comenta, em meio ao caos e a fumaça dos incêndios, antes de fugir de Jena, Hegel teria completado os parágrafos finais da Fenomenologia do Espírito: “(…) A história e os conceitos reunidos através da história, constituem a um só tempo a memória do sofrimento do espírito absoluto, a realidade, a verdade e a certeza de seu trono, sem o qual não seria mais que um solitário sem vida; porque somente do cálice desse reino dos espíritos efervesce sua Infinitude”.

 

Talvez, assim como Hölderlin em seu poema, Hegel pensasse em Napoleão quando escreveu esse parágrafo, mesmo que sem saber, estivesse falando na verdade, de Toussant L’overture.

 

 

 


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2007 ® Pablo Capistrano

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