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  • Pablo Capistrano
  • 02 de abril de 2017, as 8h08
A liberdade guiando o povo, obra que sintetiza o espírito de 1789, mesmo tendo sido feita em 1830

A liberdade guiando o povo, obra que sintetiza o espírito de 1789, mesmo tendo sido feita em 1830

 

Em 1784, Jacques-Louis David apresentou ao público francês seu quadro: O Julgamento dos Horácios. A pitura retrata um episódio da peça Horácio, de Corneille, e mostra três heróis romanos fazendo um juramento ao pai antes da batalha. No canto do quadro as mulheres da família, desoladas, ansiosas e impotentes diante da compulsão masculina em cultivar a estupidez, choram antecipando os tempos turbulentos que vão viver.

 

A obra causou euforia em Paris. Cinco anos antes da revolução de 1789, sua apreciação pública chegou a produzir em um visitante alemão citado por David Priestland, no seu livro A Bandeira Vermelha: a história do comunismo, a seguinte observação: “Nas festas, nas casas de café e nas ruas (…) não se fala de outra coisa a não ser de David e o Julgamento dos Horácios. Nenhum negócio de Estado da antiga Roma, nenhuma eleição Papal da Roma mais recente, despertou sentimentos tão poderosos”.

 

Os sentimentos poderosos descritos pelo comentário do visitante estrangeiro, coadunavam com a perspetiva que o filósofo Jean Jacques Rosseau nutria acerca do caráter eminentemente revolucionário de um certo militarismo de tipo espartano.  Idealizado e costurado pelo espírito de um iluminismo europeu que insistia em “imitar os inimitáveis” (ou seja: os antigos); Rosseau imaginava a nova sociedade esclarecida como uma mistura da puritana Genebra com a heroica Esparta. Um lugar onde o egoísmo individual fosse suplantado pela austeridade guerreira do espírito societário e do autossacrifício em função da comunidade.

 

Assim como Rosseau, um de seus seguidores, Guilhaume-Joseph Sage, já defendia desde 1770 que: “(…) a razão pela qual nossas instituições são eternamente ruins é que em princípio são totalmente opostas àquelas de Licurgo”, fazendo referência ao famoso legislador espartano.

 

Apesar dessa nostalgia da Grécia e da influência popular da obra O Julgamento dos Horácios, não é o quadro de David, com seu imperativo absoluto do desenho sobre a cor e sua geometria obsessivamente ordenada, que melhor sintetiza o espírito de 1789.

 

Curiosamente, se você pedir a qualquer pessoa razoavelmente instruída na história da arte para pensar qual imagem melhor representa o espírito da revolução francesa, é outra pintura que vem logo à mente.

 

Em 1831, o jovem Eugenè Delacroix, filho de um membro do governo revolucionário que votou pela decapitação de Luis XVI em 1793, apresentou mais uma de suas obras no Salão de Paris. Delacroix, que ironicamente havia sido aluno de Pierre-Narcisse Guérin, antigo discípulo de David, na verdade já havia “tocado o foda-se” para as regras do classicismo europeu quando apresentou no salão de 1827-1828 o quadro A Morte de Sardanapalo, inspirado num poema de Byron.

 

O movimento obsceno da cor, o desequilíbrio dinâmico do quadro e a temática mórbida de uma orgia de morte e violência, havia chocado até os apreciadores mais avançadinhos dos cafés parisienses. O jovem Delacroix, que era uma espécie de “cratera vulcânica artisticamente encoberta por um arranjo de flores” (de acordo com a descrição que o poeta Charles Baudelaire fez do amigo) não se continha. Ele estava saltando para além da moda de seu tempo e construindo as bases para uma obra romântica e selvagem que ajudaria a pintura francesa a libertar a cor, naquela época ainda sufocada pelo desenho, e abriria caminho para toda a revolução da pintura moderna que se seguiria nas décadas vindouras.

 

Talvez por isso, mesmo sem ter tido nenhuma participação efetiva no frison revolucionário de 1789; o quadro A Liberdade Guiando o Povo tenha capturado de modo tão intenso o espírito daqueles anos incontidos.

 

Na verdade, a pintura não foi feita em função da revolução que derrubou a bastilha e devastou o antigo regime aristocrático na França.

 

Ele faz referência a revolução de 1830, que derrubou o rei restaurado Carlos X e colocou no seu lugar o duque Luís Felipe, queridinho da burguesia parisiense.

 

No começo, quando os confrontos de 1830 eclodiram, Delacroix ficou bastante temeroso com a presença de grandes quantidades de miseráveis e pobres na rua; mas, como descreveu Alexandre Dumas: “quando viu a bandeira do império, o entusiasmo tomou lugar do medo e glorificou o povo que a princípio o assustava”.

 

Essa mudança de perceção acerca dos acontecimentos daquele ano aparece claramente no quadro.

 

Num primeiro plano, o pintor retrata cadáveres caídos, tanto de revolucionários quanto de militares fieis à monarquia de Carlos X. A esquerda, em meio a um turbilhão de fumaça, a multidão armada avança com três figuras lançadas em destaque. Um operário parisiense com espada na mão, um burguês com um chapéu cilíndrico e uma espingarda (no qual o próprio Delacroix teria supostamente se retratado) e um camponês, lançado em uma adoração religiosa aos pés da figura épica que aparece no centro do quadro.

 

A mulher que, com os seios à mostra, portando o barrete frígio símbolo da antiga revolução, carrega em uma mão a bandeira tricolor e na outra uma baioneta.

 

Para Delacroix, a liberdade que guia o povo em 1830 é a mesma liberdade que o guiou em 1789.

 

A obra, considerada por alguns críticos conservadores (eles sempre enchem o saco nestas horas, não é?) como “feia e ignóbil”, foi retirada da vista do público algum tempo após ser exposta; para não “estimular desordens”.

 

Logo, logo, para a massa de pobres franceses, ficou claro que a revolução de 1830 não iria mudar substancialmente o status quo econômico que havia se consolidado na França no período posterior a queda de Napoleão. O consorcio de banqueiros, industriais e comerciantes não tinha nenhum interesse sério de atender as demandas de uma massa de trabalhadores e pequenos proprietários que ainda pensava a sua luta emancipatória nos moldes do que havia acontecido quarenta anos antes.

 

Pois é camarada, isso é sempre recorrente.

 

Na história das revoluções os fracassos são elementos incontornáveis.

 

Eles apontam para o fato do esgotamento que comunidades humanas tem em tempo de desordem, bem como para o receio que uma parte majoritária da sociedade tem em mergulhar a fundo em experiências sociais radicais de transformação de estruturas, crenças e valores.

 

A covardia revolucionaria que geralmente produz o terror, também puxa o freio do furor revolucionário, mesmo quando as ondas da história insistem em se repetir.

 

1830 parecia ser uma reedição de 1789, mas não era.

 

A nova revolução fracassada, a despeito da vitória política e da deposição de Carlos X, deixava claro que o modelo das revoluções liberais que varreram o globo por décadas já se esgotara, afogado em seus próprios erros.

 

Curiosamente, o espírito daquilo que embalou as gerações no final do século XVIII, pode ser captado de modo intenso até hoje no quadro de Delacroix, que se tornou um ícone daqueles anos.

 

Talvez por isso, os senhores da nova ordem, tão logo os cadáveres tenham sido retirados das ruas e a massa recolocada em seu lugar doméstico de sempre, tenham empurrado o quadro de Delacroix para dentro de um sótão. Ele só sairia de lá quando, em 1848, uma nova vaga revolucionária, dessa vez com novas cores, tomasse de conta da Europa.

 

A arte, o maior e mais desconcertante mecanismo de desempacotamento da imaginação política, fazia seu serviço de movimentar o entulho da história, criando fendas na muralha ideológica e mostrando, para quem tivesse olhos para ver, ou ouvidos para o ouvir, que a tarefa política que chama ao campo de batalha cada mulher e cada homem que tenha de algum modo aprendido a cultivar esperança no futuro, era a de fazer valer a velha máxima que diz: “erre de novo, erre melhor”.

 


Um Comentário para “Erre de novo, erre melhor”

  1. Paulo Vergolino19/4/2017 às 15:57

    Bravíssimo o texto. Sinto-me sortudo por encontra-lo no dia de Hoje. Esta obra é imensa e vista pessoalmente, de fato, é ainda mais impressionante. Parabéns e esperarei os próximos. Grato, Paulo Vergolino.

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2007 ® Pablo Capistrano

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