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  • Pablo Capistrano
  • 06 de janeiro de 2018, as 4h04

Vontade de Potência

 

 

 

NIETZSCHE, Friedrich. Vontade de Potência. Tradução de Mário Ferreira dos Santos. Petropolis: Vozes de Bolso, 2017.

 

Esse livro já começa complicado pelo título. Em alemão, “Der Wille zur Macht”. Em português, a opção do tradutor Mário Ferreira dos Santos (que usou como base a edição de 1901, que aparece nas obras completas de Nietzsche publicadas em Leipzig) foi evitar o termo exato “Poder” (Macht) e substituir por “Potência”. Afinal, o ano em que essa tradução chegou as livrarias pela primeira vez, pela editora Globo de Porto Alegre, era 1945 e as reverberações da política de extermínio do terceiro Reich ainda soavam demasiado escandalosas para qualquer alusão, mesmo que periférica, à retórica de Hitler. Mas o fato é que esse texto de Nietzsche é sem sombra de dúvidas o mais perigoso e o mais comprometedor. Para alguns o livro se trata de uma mera falsificação, pelo simples fato de Nietzsche nuca tê-lo escrito como livro e se tratar apenas de uma compilação de fragmentos póstumos, ordenados para ter uma feição de obra completa pela irmã do filósofo Elisabeth Förster-Nietzsche e pelo seu amigo Peter Gast. Muita gente advoga que a irmã de Nietzsche, uma nazista avan la lettre, teria enxertado algumas das passagens que serviriam de bases para as interpretações nazificantes de Nietzsche nos anos de 1930 por gente como Alfred Baeumler, por exemplo. O fato é que nesse livro é que aparecem muitas passagens que levaram uma “crápula de pequenos burgueses megalomaníacos” como descreveria Thomas Mann anos mais tarde, a encontrar sentido e grandeza de modo despudorado na tarefa de sacrificar seres humanos em câmaras de gás. Por isso que Vontade de Potência é um livro de Nietzsche que precisa ser enfrentado com um cuidado redobrado. Ainda mais em uma época em que a extrema direita nada de braçada em vários países do mundo e que aqui no Brasil, mesmo setores ditos “letrados e instruídos” da sociedade, ameaçam relinchar e bater os cascos nas ruas ao som do discurso ruidoso de Bolssonaro; mais um dos incontáveis Messias de araque que aparecem na história da humanidade, tal qual aquele que levou os alemães ao delírio do fogo e do sangue, no século de passou. O livro vale o preço, se você ler devagar e com parcimônia.


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2007 ® Pablo Capistrano

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