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  • Pablo Capistrano
  • 21 de janeiro de 2018, as 4h04

Lênin na estação Finlândia

 

Vivemos anos estranhos.

 

O futuro prometido pela modernidade parece ter finalmente chegado na nossa cozinha e na nossa sala de estar, mas mesmo assim nos sentimos profundamente distópicos. Sonhamos com cenários pós-apocalípticos, imaginamos facilmente uma realidade dominada por máquinas, vazia de humanidade, simulada por matrizes digitais, mas não conseguimos encontrar um caminho para que a nossa imaginação criativa supere o capitalismo atual, hegemônico após o colapso do bloco soviético na virada dos anos 80 para os anos 90.

 

Hoje é bem mais fácil imaginar o fim da humanidade, a explosão de um asteroide contra a superfície do planeta, uma extinção em massa, um mega vulcão despejando morte em forma de material piroclástico por sobre as grandes metrópoles globalizadas, do que projetar um modelo alternativo qualquer ao novo capitalismo digital com dominância financeira.

 

Um dos efeitos mais significativos dessa doença da imaginação é a construção de utopias regressivas. O desejo obsessivo de retorno a um passado idealizado, que se manifesta em fantasias medievais, em universos paralelos onde dragões lutam com gigantes de gelo ou mesmo, como é o caso do Brasil, em fantasias psicossexuais com homens fardados, aristocratas de um passado monárquico e religioso; ou mesmo um desejo de um regime de força qualquer que imponha uma suposta antiga ordem, rompida por um pecado original que pode ser desde a eleição de Lula em 2002, até a proclamação da República em 1889.

 

Talvez por isso, hoje, no Brasil da crise, tanta gente chame de “comunismo” qualquer coisa que não seja uma variação mais ou menos consistente da Suma Teológica de São Tomás de Aquino.

 

Esse movimento, encabeçado pela extrema direita, que emergiu como fenômeno político significativo após levas de pré-adolescentes (incluindo o músico Lobão) travarem contato com o filósofo e youtuber Olavo de Carvalho, acaba por materializar duas tendências: (1) a designificação completa da palavra “comunismo”, apresentada na redes sociais de modo completamente diverso do sentido do termo no século XX; (2) a imposição de uma reavaliação da experiência do comunismo realmente existente, que joga no colo da esquerda a tarefa nunca concluída de exorcizar seus próprios fantasmas e exumar os esqueletos de seus mortos, guardados no armário das experiências autoritárias que marcaram o século XX .

 

Ao tratar qualquer coisa que não seja o catolicismo da contra reforma como “comunismo” o olavismo acaba por produzir um esvaziamento semântico do termo, o que permite, por outro lado, a sua completa resignificação. Nesse sentido, a questão posta pela direita ululante é: o que a esquerda deve fazer com essa palavra?

 

Apelar para a história e tentar recuperar um sentido mais exato dos termos do discurso? Procurar um uso para a palavra “comunismo”, sem que se recaia nos anacronismos que povoam esse tempo em que a verdade é um comentário em um post de Facebook? Ou aceitar o jogo dos neo tomistas e admitir que toda modernidade, que tudo aquilo que surgiu a partir do iluminismo, que os anseios por liberdade, igualdade e fraternidade das revoluções modernas, são simplesmente variações do termo “comunismo”?

 

Diante dessa histeria conservadora, a reação inicial dos liberais de esquerda, dos socialistas moderados, ou mesmo dos que ainda se dizem comunistas, é rir e pensar que variedade de narcótico ideológico esse povo deve estar usando para ter um tipo de alucinação dessas e delirar com o camarada Stálin na porta das fábricas a panflear e conspirar por uma revolução vermelha iminente.

 

Mas… e se fizermos um esforço de imaginação e entrarmos no jogo do olavismo? Se supormos, por um instante, que eles estão certos? E se estivermos mesmo em um momento histórico único, nos derradeiros dias do capitalismo tardio, na iminência de uma grande e nova revolução que vai derrubar a ordem financeira globalizada e construir um sistema diferente?

 

Esse jogo, de apostar no impossível, de seguir o fio do improvável, de encontrar no aparentemente inviável um caminho estratégico, foi uma das grandes virtudes políticas de Vladimir Ilich Ulianov (mais conhecido na Feira do Carrasco com o pseudônimo de Lênin).

 

No inicio de 1917, quando as greves da revolução de Fevereiro eclodiram e o cenário político levou a deposição do Czar e a construção de um governo revolucionário, em uma composição plural de diversos setores da esquerda russa, Lênin estava cético quanto ao futuro da revolução russa. Ainda exilado na Suíça, e falando a uma assembleia de operários, declarou que não veria, em seu tempo de vida, uma verdadeira revolução socialista eclodir na sua terra natal.

 

A leitura do marxismo clássico autorizava esse prognóstico, afinal, a despeito de já ter iniciado sua industrialização, a Rússia czarista ainda era, em larga medida, um vasto império camponês, que não havia passado pelo choque de modernização burguesa, proposta na hierarquia das etapas dialéticas pela qual a história parecia caminhar depois que Hegel, e seus diluidores do século XIX, haviam construído a última grande teleologia metafísica do pensamento ocidental.

 

Mas algo ocorreu com Lênin enquanto atravessava a Europa em direção a Estação Finlândia, em São Petersburgo, onde desembarcou para confrontar os posicionamentos majoritários, inclusive do grupo Bolchevique, acerca dos caminhos da revolução de Fevereiro.

 

Compreender a metamorfose de Lênin e sua mudança de posição em relação a urgência da revolução é fundamental para entender o que ocorreu para que a insurreição de Fevereiro, iniciada com meio milhão de mulheres na rua protestando por pão e paz, se insurgindo contra uma guerra desastrosa, tenha se transformado, para o bem ou para o mal, num dos mais significativos fenômenos políticos do século passado.

 

Enquanto Nicolau II, que era um sujeito que nunca pareceu ter interesse real por política, que via as relações internacionais como um mero assunto familiar a ser resolvido entre parentes (ele era primo do Kaiser alemão), que nunca arredou o pé de seu conservadorismo atávico, se enxergando sempre como uma espécie de guardião da tradição e que se opunha a todo e qualquer arremedo de reforma, teve de renunciar ao trono diante da maré revolucionária; Lênin, nos meses subsequentes a abdicação do Czar, foi tomado de uma intensa impaciência.

 

Mesmo diante da oposição de Stálin e Kamenev, dirigentes da facção bolchevique que estavam inquietos com a possibilidade de ver a desordem tomar conta do país, Lênin construiu suas teses de Abril, nas quais dava o tom de urgência do momento e lançava a toda esquerda revolucionária a questão fundamental: “e se não agirmos agora?”.

 

É impossível compreender os acontecimentos que culminaram na revolução de Outubro sem levar em conta a impaciência de Lênin, que construiu uma leitura heterodoxa de Marx, defendendo a ideia do “elo mais frágil da cadeia imperialista” que justificava ser a Rússia, feudal, agrária, e profundamente fincada no medievo ortodoxo, o espaço onde deveria eclodir a “revolução socialista mundial” e não a Alemanha ou a Inglaterra, já bem mais adiantadas no processo de industrialização.

 

O enigma da transformação do prognóstico de Lênin, durante a travessia que o levou da Suíça à São Petersburgo, e a sua atuação na mudança de tática do grupo bolchevique, que deixou de apoiar o governo da frente ampla e preparou o golpe de Outubro que derrubou Kerensky, lançando a palavra de ordem “todo poder aos sovietes”, é um elemento fundamental para compreender os desdobramentos da chamada revolução comunista de 1917.

 

Lênin rompe com a tradição do socialismo russo que, ou lia o Marx de O Capital, acreditando na necessidade imperativa de se passar por uma fase democrática liberal antes de que uma revolução proletária pudesse ser implementada, ou recaia em um anarquismo romântico, projetando uma sociedade idealizada, baseada em comunas camponesas. Essa impaciência com as etapas históricas do marxismo clássico já se manifestava desde 1902 quando Lênin publicou “O que fazer” e apresentava, já naquele tempo, uma reação feroz a ideia majoritária, que derivava das leituras dos Sociais Democratas que seguiam a linha de  Karl Johann Kautsky,  de que os trabalhadores russos tinham de abrir mão da revolução em prol de uma concessão de reformas burguesas, que pudesse construir uma base proletária urbana semelhante a que já existia na Inglaterra e na Alemanha.

 

O que moveu Lênin naqueles anos, além de sua profunda impaciência com um suposto “fluxo natural dialético da história” foi a crença no impossível. A ideia de que seria factível pensar uma revolução proletária em um país que se situava como elo mais frágil, ponto mais distante e atrasado da cadeia imperialista do capitalismo europeu.

 

Guardadas as devidas proporções históricas, nas vexaminosas condições de desindustrialização que o Brasil vive desde os anos 80, no profundo retrocesso em direção a uma economia periférica, cada vez mais focada em comodites naturais, muito distante dos players globais que se inserem como potências tecnológicas na nova economia mundial, o Brasil e (em certo sentido a América Latina como um todo), parecem estar ocupando hoje, o lugar de “elo mais frágil” da cadeia da globalização internacional.

 

Diante da paranoia dos olavistas e dos neo tomistas de toda sorte  com uma suposta revolução comunista iminente, e do ceticismo de uma esquerda que olha ao redor e só consegue ver imensas dificuldades em implantar qualquer tipo de reforma, minimamente progressista, em um país que ainda tem seus pés fincados em uma tradição escravocrata, embalada em um racismo estrutural que move uma desigualdade social escandalosa, a questão posta por Lênin em 1902 ressoa como um sonora e inquietante lembrança de que a história, antes de ser construída pela covardia conservadora que treme de medo do futuro, ou das idealizações românticas que projetam a tarefa de agir num longo e sempre adiado amanhã, é feita no calor imprevisível do agora, com a impaciência inconsequente do presente.

 

E então? O que fazer?


Um Comentário para “A Impaciência de Lênin”


  1. Muito desconfio que a impaciência já está queimando os últimos cabelos que lhes restam na esperança de que os indignados (reais ou virtuais) percam a paciência sonolenta e menchevique que paira entre eles.

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2007 ® Pablo Capistrano

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