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  • Pablo Capistrano
  • 26 de maio de 2018, as 6h06

 

Durante os quase 10 anos em que fui professor em faculdades de Direito de Natal vi todo tipo de aluno entrar em minha sala de aula. Desde aqueles recém saídos do ensino médio, verdinhos, verdinhos, na vida acadêmica, em busca do sonho de uma certa mitologia social que gira em torno do Direito, até médicos, engenheiros, arquitetos e oficiais das forças armadas, em busca de mais conhecimento ou mesmo frustrados com suas primeiras opções profissionais.

 

Tudo isso sempre me pareceu muito normal, afinal, o Direito tem historicamente esse apelo para aqueles que querem galgar espaço na máquina do Estado e os salários do judiciário ainda são, no campo do funcionalismo público, os mais apetitosos.

 

Mas confesso a você que me assustei quando descobri que na minha sala de aula havia um padre. Pensei comigo mesmo: “Meus Deus. A situação está mesmo difícil. Até a Santa Madre Igreja anda perdendo seus melhores quadros para o mundo do Direito…”.

Um dia, como quem não quer nada, perguntei a Padre Bianor, só para tirar a prova das minhas suposições acerca da força centrífuga do bacharelismo jurídico, o porquê dele ter optado em fazer um curso de Direito. Se era mesmo intensão dele trocar a batina pela toga.

 

Padre Bianor me respondeu que não tinha interesse em abandonar a batina, nem o chamado vocacional que o levou ao caminho de Cristo. Mas que tinha muito interesse em compreender o Direito porque, na sua vida pessoal, havia a marca de uma injustiça. Um parente muito próximo, o pai, se não me falha a memória de uma década, havia sido assassinado e isso o havia marcado profundamente.

 

Percebi na hora que o Direito ganharia muito com a presença de Padre Bianor em suas trilhas. Só um homem marcado pela dor da injustiça, que compreende o sentido profundo do perdão de Cristo, pode compreender realmente a importância que o Direito, ou  a falta dele, tem na vida das pessoas.

 

Anos mais tarde, quando Padre Bianor me convidou para escrever o prefácio de seu livro “A Batina e a Toga: paralelos entre os princípios Bíblicos e Religiosos com o Direito Penal Brasileiro”, vi que as duas metades de sua busca em torno da justiça e do perdão haviam se encontrado.

 

Mas não se engane pelo título, o livro não é um panfleto contra o Estado Laico, ou em busca de uma substituição da Constituição pelas escrituras sagradas, como propões alguns perfis mais radicais nesse tempo de polarização em redes sociais. Os paralelos que Padre Bianor traça, são pontos de contato, entre o mundo do Direito penal e as doutrinas éticas cristãs. É um percurso de confluências e encontros entre o mundo jurídico  ocidental e sua base ética profunda, marcada pela presença do pensamento cristão.

 

Infelizmente não poderei estar hoje com o amigo Bianor no lançamento do seu livro, em Ceará Mirim. Uma inflamação no joelho causada por  44 anos de ação implacável da gravidade sobre minhas articulações e mais uma semana de sofrimento nos engarrafamentos de Natal, pilotando um carro 1.0 de câmbio manual, me deixaram de molho no gelo.

 

Mas mantenho minha alegria e orgulho de ter sido professor de Padre Bianor e de alguma forma, ter ajudado e contribuído, nesse seu percurso, tão difícil de ser cruzado, entre sentimentos pessoais diversos e perplexidades conceituais variadas diante de um Direito tão cheio de contradições. Um percurso que ensina a encontrar a fonte do perdão na trilha da justiça.


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2007 ® Pablo Capistrano

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