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  • Pablo Capistrano
  • 05 de setembro de 2018, as 5h05

 

Em 1999 eu viajei à Grécia. Era meu último ano no curso de filosofia da UFRN e queria conhecer in loco a terra em que Sócrates, Platão e Aristóteles teriam andado, mais de dois mil anos antes de meu nascimento. Lembro que, ao visitar a Acrópole, fomos, eu e minha esposa Ana Cláudia, a um pequeno museu perto do Paternon, templo da deusa Atena (ou o que sobrou dele após os turcos terem dinamitado boa parte da construção durante a guerra da independência grega no século XIX). Lá chegando identifiquei de imediato um grupo de brasileiros que estava, como eu, fazendo turismo pelas ruínas. Ao me aproximar, no intuito de trocar algumas palavras em um idioma conhecido, ouvi um sujeito de aproximadamente minha idade, com um forte sotaque paulistano, dizer em alto e bom som algo do tipo: “Não acredito que a gente pagou pra ver esse monte de pedra”.

 

A frase me doeu nos ouvidos. Foi suficiente para recursar qualquer tipo de interação com compatriotas até o fim da viagem.

 

Mesmo diante desse tipo muito usual de ferida turístico-narcísica, que muitas vezes nos acomete quando nos deparamos com outros brasileiros em viagens pelo exterior, não deveríamos cair em mitologias culturalistas redutoras diante da tragédia que transformou em cinza milhares de anos de história das Américas em pouco menos de quatro horas. Não deveríamos ser nós, “o povo brasileiro”, essa abstração ideológica, os culpados pela catástrofe que destruiu o Museu Histórico Nacional da Quinta da Boa Vista. Quando a memória de um país pega fogo, culpar todo mundo é a melhor forma de não responsabilizar ninguém.

 

Mesmo assim não há como negar que o brasileiro médio dá pouco valor a história e não entende que cultura e ciência fazem parte de um capital imaterial de valor incalculável.  Em um país em que proliferam doutrinas ideológicas do tipo “Escola sem partido” que tratam professores como bandidos, em que gente nas redes sociais pede o fim dos cursos de humanas nas universidades federais (supostamente antros de formação de “esquerdopatas”) ou que vibram com força diante do anúncio do desaparecimento de disciplinas como filosofia e sociologia dos currículos do ensino médio, parece fácil entender o porquê de um patrimônio incalculável como o Museu Nacional vinha sendo negligenciado a tanto tempo.

 

Desde 2014 o museu não recebia os 520 mil reais necessários para sua manutenção. Em 2015, com o corte de gastos e a adoção por parte do governo Dilma da agenda FIESP, que abriu alas para o austerícidio do governo Temer, o orçamento caiu para 257 mil. Em 2016 subiu um pouco para cair novamente em 2017 e desabar de modo vergonhoso para 54 mil liberados até agora em 2018.

 

Se fizemos um passeio pelos arquivos jornalísticos vamos ver que sobram reportagens sobre as más condições do museu, com mofo, goteiras, ameaça de desabamento e infiltrações pelo menos desde 1978.

 

Por isso, o que todos os governantes que já passaram um dia pelos palácios desse país deveriam fazer de honesto diante dessa tragédia anunciada seria pedir perdão ao povo brasileiro ajoelhados no milho, de preferência se autoflagelando com chicotes de prego.

 

Mas a santa iniciativa privada não fica por menos. Para a decepção dos adeptos da religião do mercado, que acreditam piamente na competência virtuosa do empresariado brasileiro, fica o gosto de barro na boca quando a gente descobre que entre 2010 e 2018 o Museu Nacional teve 06 projetos aprovados para a captação de recursos pela lei Rouanet no total de 17 milhões de reais mas que conseguiu receber recursos privados em apenas um desses projetos, captando aproximadamente 10% do montante proposto nos oito últimos anos.

 

Nenhuma empresa privada apoiou o Museu quando a direção tentou ampliar o acesso a seu acervo virtual ou quando tentou reabrir nove salas fechadas a mais de 15 anos. Também não teve empresário que se dispusesse a fornecer dinheiro para a recuperação do telhado do prédio ou a criação de um sistema novo de prevenção de incêndios. Diante de uma queda de 34% no volume de visitas entre 2013 e 2017 os gentis homens do capital tupiniquim talvez não acreditassem que relacionar suas marcas a um museu seria um negócio lucrativo.

 

O lado terrível e irônico disso tudo, é que o BNDES programou para esse ano a liberação de 21 milhões de reais para a reforma do museu.

 

O fogo chegou antes do dinheiro.

 

Dizem os cronistas antigos, que Heráclito, o grande pensador de Éfeso, teria escrito em pedra seu livro “Sobre a natureza” e afixado suas palavras nas paredes do templo da deusa Hécate. Mesmo assim, a pedra na qual seu livro estava escrito ruiu com o colapso do templo da deusa e tudo que resta de seu pensamento hoje são fragmentos citados por outros autores.

 

É a consciência dolorosa da impermanência de todas as coisas que faz o ser humano recolher as ruínas da história em pedras, vasos partidos, antigos manuscritos, ossos de animais fossilizados ou estatuas mutiladas. A busca de preservar essas ruínas não apenas é uma espécie de desobediência humana contra o tempo, mas também é uma forma de recuperar os traços de uma narrativa que nos compõe nossa experiência comum. Uma narrativa que explica a nossa origem, cria as impressões de um destino coletivo e lança as bases de um futuro possível.

 

Museus são como templos. Espaços de desobediência contra o efeito cauterizador da história que reduz toda memória, como em um imensa tempestade de fogo, às cinzas da silenciosa imobilidade do esquecimento.

 

Ver o Museu Nacional desaparecer no fogo da negligência queima a esperança de todos nós que labutamos diariamente com as humanidades, a ciência  e a cultura em um país onde esquecer parece ser uma obsessão nacional.

Por isso, vou confessar uma coisa, amigo velho, é muito difícil não desistir de um país como esse numa hora dessas.


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2007 ® Pablo Capistrano

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