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  • Pablo Capistrano
  • 26 de setembro de 2018, as 5h05

 

Parece sempre mais forte no Brasil a ideia hegeliana  de que os conteúdos não superados da história tendem a se repetir. Já tivemos Jânio, com suas vassouras; Collor o inesquecível “caçador de Marajás”, além do insuperável “pato amarelo da Fiesp” com sua ridícula dancinha anticorrupção. Agora, mais como tragédia do que como farsa, a história em seu usual percurso de bêbado, traz de volta os militares ao centro do debate político.

 

Tal qual em 1964 eles retornam de mãos dadas com a paranoia anticomunista e o surto moralista do caça aos corruptos, pautas que serviram de mote para todos os golpes que sacudiram o cenário nacional desde a década de 1930. A julgar pelas pesquisas mais recentes a animação nos quarteis deve estar em alta com a possibilidade da turma de Caxias ser recolocada no poder, dessa vez, através do voto direto. Mas, como toda disputa eleitoral tem seu teor de imponderabilidade, é preciso antes confirmar com os russos. Ou melhor, com o eleitor.

 

O fato é que, se o segundo turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro se consolidar, teremos provavelmente uma eleição plebiscitária em que os conteúdos de antipetismo e antibolsonarismo darão as cartas na definição do resultado do pleito. Em meio a tanto talvez, a única certeza é que essa será a eleição do não. O problema é saber: não a quê?

 

De fato, nem só de conteúdos afirmativos vivem os grandes projetos coletivos que guiam o destino dos povos. A negação, em muitos casos, é uma forma de afirmar a própria existência. Dizer não, em certos sentidos, é também dizer: eu existo, me recuso, não aceito, não me submeto. Negar é reagir, mas a reação, no campo político, pode também ativar o botão de autodestruição, em um bizarro balé onde, ao tentar eliminar o outro, a gente acaba destruindo o próprio tecido democrático.

 

É por isso que o termômetro que mede a febre coletiva dessa eleição será a da rejeição; e nesse quesito Bolsonaro parece imbatível. Desprezado especialmente pelas mulheres mais pobres, que enxergam, na sua retórica belicista uma ameaça a vida de seus filhos e netos (as grandes vítimas da violência coletiva que arrasa o pais com seus 60 mil mortos anuais), o ex-capitão do exército é rejeitado por aproximadamente 46% da população, um dado que pode ser fatal em uma campanha de tiro curto como é um segundo turno de uma eleição presidencial.

 

Mas o próprio Fernando Haddad, o mais tucano dos petistas (em quase todos os quesitos pessoais um antípoda de Bolsonaro), na medida em que herda os votos do lulismo também recebe a rejeição ao partido. O ex-ministro da educação, bacharel em direito e doutor em filosofia, acaba sendo rejeitado por aproximadamente 30% dos eleitores por motivos muito menos ligados a seus atributos pessoais do que pelo antipetismo visceral (uma das formas mais curiosas de transtorno político ideológico contemporâneo nesse Brasil que grita e baba).

 

Nessa brincadeira de “nãos” e “nuncas” o tal “centro” segue fazendo farinha e o caminho que o eleitor indica parece que será o da repetição da polarização que fez estrago nas reuniões de família aos Domingos e nos grupos de watts appdos amigos da escola no segundo turno de 2014, lembra?

 

Pois é, amigo velho, ainda estamos pagando um preço alto por aquela eleição que ainda não terminou. O acirramento da campanha de 2014 no segundo turno e o não reconhecimento do resultado por parte do grupo derrotado, que culminou na derrubada da presidente eleita, deixou marcas fundas na nação nos deu de presente esse ódio irracional que ameaça jogar uma democracia de pouco mais de 30 anos na sarjeta do autoritarismo.

 

Hoje, com a entrada dos agentes fardados na disputa, atuando em conjunto com alguns camaradas togados como um verdadeiro partido político, dispara o alarme de incêndio.  Em uma democracia que nunca teve tempo de crescer, num país acostumado a golpes de todo tipo, a impressão que a gente tem é de viver em um pesadelo, como se estivéssemos atados a uma eterna pulsão neurótica de repetição. Quando achávamos que já havíamos passado de fase no jogo civilizatório eis que aparecem mourões fardados falando em reescrever a constituição e ameaçando suspender a normalização do calendário eleitoral.

 

A grande tarefa agora, nesse Outubro que promete ser o mais tenso dos últimos anos, é de tentar encontrar algum “sim” em meio a tanto “não”. Numa campanha em que o ódio disputa com o medo, achar um lugar para esperança pode ser um ato de afirmação política fundamental.

 

E a esperança, nesses tempos sombrios rima com democracia, diversidade, respeito e liberdade, essa utopia que o sonho humano alimenta, mesmo que ninguém a explique, ainda que todo mundo a entenda.


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2007 ® Pablo Capistrano

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