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  • Pablo Capistrano
  • 07 de abril de 2019, as 5h05

 

No meu tempo de adolescente (ou seja… no final do século passado) meus amigos trotskistas costumavam a contar uma piada bem curiosa sobre o período dos grandes expurgos do stalinismo.

 

Um certo dissidente do regime havia sido condenado num dos julgamentos de Moscou e mandando para um Gulag(o que de certo modo denotava alguma sorte, afinal, a outra alternativa seria a execução sumária). Lá chegando, o sujeito encontrou dois camaradas já alojados em sua cela. Intrigado, ele pergunta ao primeiro camarada: “por que você foi condenado?”. O camarada responde: “porque eu sempre chegava atrasado às reuniões do partido”. Mantendo a curiosidade o dissidente interpela: “mas qual a acusação?”. O sujeito então responde sem rodeios: “sabotagem”. Voltando-se para o segundo camarada o dissidente faz a mesma pergunta e obtém a seguinte resposta: “estou aqui porque sempre chegava adiantado nas reuniões do partido. Acusação: entusiasmo revolucionário excessivo”. Diante do espanto do dissidente os dois camaradas, já veteranos naquela cela de Gulag, devolveram o questionamento: “E você, camarada? Por que está aqui?”. O dissidente suspirou e respondeu: “Porque eu sempre chegava na hora nas reuniões do partido”. Acusação? – “Conformismo pequeno burguês”.

 

Na verdade há um farto conjunto de piadas desse tipo sobre o período stalinista que vão no mesmo sentido. Todas mostram um traço fundamental de qualquer modelo totalitário, que pode funcionar tanto para a inquisição ibérica dos séculos XV e XVI, quanto para o objetivismo modernista dos regimes autoritários do século XX: a ideia de que qualquer traço de comportamento externo pode ser interpretado como o sinal do seu oposto e de que não importa o que você faça, você sempre será suspeito de alguma coisa que você não fez.

 

A loucura hermenêutica que nasce da quebra de todos os parâmetros fixos de interpretação da conduta alheia e das interações humanas, está na base da paranoia total dos regimes totalitários e, em certo sentido, diz muito mais sobre os expurgos stalinistas do que algumas platitudes interpretativas acerca da “monstruosidade dos tiranos” e da “opressão dos cidadãos pelo Estado”. Uma loucura hermenêutica desse tipo fica muito evidente quando, em 1940, Nicolai Iejov, o principal carrasco de Stálin, acusado de executar injustamente milhares de bolcheviques inocentes, foi, ele mesmo, executado! No fim das contas, a execução de Iejov indicava algo de bastante sintomático, bem típico do regime stalinista: quanto mais perto do poder, mais insegura era a condição do indivíduo.

 

Ao contrário da estrutura do totalitarismo nazista, no qual o “princípio do Fūher” atuava como um elemento estabilizador diante do permanente conflito de grupos e forças antagônicas dentro do partido nacional socialista, o militante bolchevique no tempo de Stálin estava sempre posto diante da possibilidade de ser acusado daquilo que costumava a acusar os outros, porque, afinal, não há ninguém mais suspeito de fazer algo errado do que os que se esforçam pra fazer tudo certo.

 

Hoje, depois de ler um bocado sobre o assunto,  apesar dos esforços e da boa vontade de meus amigos trotskistas em colocar nos ombros do camarada Stálin todo o ônus pelo terror revolucionário, sei que os expurgos já eram uma prática usual bem antes da morte de Lênin.

 

Em 1921, ainda durante o período da sangrenta guerra civil que se seguiu a revolução de Outubro, os julgamentos sumários entre os bolcheviques já eram aplicados em larga escala. A questão é que eles não tinham ainda, como regra geral, a eliminação física da dissidência como nos períodos dos julgamentos de Moscou. Seus efeitos geralmente circulavam em torno de um rebaixamento na posição dos militantes na hierarquia do partido ou mesmo o ostracismo e a expulsão, a não ser, é claro, nos casos de traição ou sabotagem que envolviam o cenário das operações militares contra os exércitos brancos no palco da guerra que se estendeu até 1922.

 

Outro aspecto interessante que se manteve posteriormente no tempo dos expurgos eram as longas sessões de autocrítica. Reuniões coletivas em que os membros do partido  eram obrigados a confessar publicamente  seus crimes contra revolucionários, seus erros exegéticos ou equívocos nas análises de conjuntura. Essas sessões muitas vezes faziam eco às encenações teatrais farcescas dos julgamentos públicos no tempo da Inquisição ibérica, retratados de maneira espantosa por Francisco de Goya em suas pinturas.

 

Apesar disso, meus amigos trotskistas podem objetar que foi apenas em Maio de 1936, após Stálin enviar à cúpula partidária uma “carta secreta” detalhando atividades de sabotadores e de “inimigos do povo” que colaborariam em segredo para preparar a invasão do “inimigo nazi-fascista”; que o chamado “Grande terror” começou a se consolidar. Tal qual um mecanismo de purgação interna, a checagem da moralidade e da pureza ideológica dos membros do partido transformou-se num ato de irracionalidade política generalizada. O terror dos expurgos acabou levando à morte centena de milhares de militantes bolcheviques, na sua maioria funcionários exemplares e militares experientes que não apenas tinham ajudado a consolidar a revolução de Outubro como também haviam sido fundamentais no esforço de guerra que derrotou os exércitos brancos em sua aliança com um consórcio de forças internacionais que buscavam sufocar a revolução ainda no nascedouro.

 

Aqui é importante dizer uma coisa para você que sempre viveu em ambiente mais ou menos democrático: em sistemas autoritários o combate à dissidência ou à subversão (como ocorria no tempo do regime militar brasileiro) tinha muito mais a ver com o discurso público do que com o domínio das crenças privadas dos indivíduos. Quem perturbava o bom funcionamento do discurso público, dizendo de uma maneira ou de outra aquilo que no íntimo todos já sabiam, era bem mais perigoso para o regime do que aqueles que apenas fingiam acreditar no modelo. O curioso é que é justamente nesse ponto, de hipocrisia pública compartilhada, onde reside o fracasso da dominação stalinista se comparada aos mecanismos ideológicos dos modelos liberais capitalistas. Se, no íntimo, a maioria absoluta dos que viveram sobre algum tipo de ditadura stalinista sabiam que eram vigiados e tinham de fingir publicamente que eram livres em um esforço constante de se livrar da loucura hermenêutica coletiva que o terror de todos contra todos impunha, num universo liberal capitalista, em seu modelo turbinado pelas redes digitais, todos acreditam piamente que são livres enquanto se expõem constantemente em público de modo compulsivo, escancarando a vida privada em fotos, vídeos e comentários de Facebooka fim de serem mais eficazmente vigiados, monitorados e condicionados.

 

Talvez isso explique o porquê da necessidade do uso massivo de milhares de agentes secretos da Stasi(polícia política da Alemanha Oriental) para vigiar a própria população no tempo da guerra fria. A inadequação do alemão oriental médio à ideologia dominante do regime durante o período comunista exigia um esforço operacional muito maior por parte do sistema repressivo para se construir um mecanismo eficaz de controle social do que o modelo posto no lado ocidental capitalista. É por isso que, não importa se você é trotiskista, gramisciano ou stalinista de carteirinha, se há uma lição que o fracasso dos modelos de socialismo realmente existente legaram à posteridade foi a noção de que é muito mais fácil dominar uma sociedade que pensa que é livre do que uma que sabe que é presa.

 

Uma outra estranheza que precisa ser melhor compreendida para aqueles que se aventuram a estudar, sem o ranço neurótico de alguma doutrina política particular, é que durante a loucura dos expurgos stalinistas e dos julgamentos de Moscou, era possível notar algumas discrepâncias em relação ao seu modelo original: o grande terror revolucionário que acometeu a França no esteio da revolução de 1789.

 

A lógica do terror revolucionário, no seu modelo clássico francês, foi bem explicado por Danton como uma espécie de “ação preventiva”. A ideia era de que seria preciso que fossemos “(…) terríveis para que o povo não seja obrigado a sê-lo”. Nesse sentido a violência do terror ganhava uma dupla função: por um lado serviria para consolidar o carater “missionário” da ação revolucionária, embebida na ideia de uma missão redentora que salva as massas do ônus da violência ao aplicá-la contra a própria comunidade; por outro, ganharia uma função contrarrevolucionária usada para impedir que a “violência divina” da turba continuasse a ser empregada permanentemente, impedindo que qualquer nova ordem surgisse do caos original da revolução.

 

Nenhum desses dois aspectos se aplicam de maneira automática aos expurgos de Stálin por dois motivos básicos: (1) eles ocorreram em um período de relativa estabilidade, quando os momentos mais conturbados da guerra civil já haviam passado e os distúrbios causados pela aplicação da “Nova Política Econômica” de Lênin já estavam arrefecendo; (2) o resultado do terror além dos aproximadamente 680.000 executados e 1.570.000 presos em Gulags foi um caos total na economia, um desmantelamento completo da estrutura administrativa, burocrática e militar soviética que não contribuiu em nada para a consolidação de uma ordem comunista. Na verdade, os expurgos quase causaram o fim do regime quando a URSS foi invadida pelas tropas de Hitler.

 

Hoje, 82 anos após a circulação da sinistra “carta secreta” de Stálin que abriu as portas para a grande loucura hermenêutica dos expurgos, dizimando a sociedade soviética e o partido bolchevique, os significados profundos desse fenômeno ainda precisam ser melhor compreendidos. A dificuldade é que essa tarefa só se completará no dia em que alguém conseguir ler os expurgos bem longe das reduções interpretativas e doutrinarias que povoam tanto o imaginário dos que se dizem de esquerda quanto dos que se identificam como de direita, o que é uma tarefinha bem complicada, para não dizer impossível, em um momento de polarização política como o nosso, diga-se de passagem.

 

O importante é que, quem se aventurar nesta odisseia de pensamento político, que implica em entender, muito longe das reduções doutrinárias, a experiência dos expurgos de Stálin, nunca esqueça a dica de Hannah Arendt, ao mergulhar na experiência do totalitarismo nazi-fascista: compreender, não é perdoar.


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2007 ® Pablo Capistrano

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