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  • Pablo Capistrano
  • 19 de setembro de 2019, as 14h14

Talvez eu seja um dos poucos nordestinos que podem ser classificados como “de esquerda” que não viu ainda Bacurau.

 

E não vi, não porque não gostaria de ver, mas sim pelo motivo de “quarentena doméstica causada por bebê de quatro meses em casa”.

 

Por isso não tenho como escrever nada sobre o filme em si enquanto ele não baixar pela telinha nos canais a cabo ou no streaming.

 

Apesar disso, pelo que li de críticas e ouvi de pessoas que foram ao cinema, Bacurau me soa como uma versão sertaneja de Django Livre ou de Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino (hipótese que ainda preciso confirmar).

 

Por enquanto, o que mais tem me chamado atenção nas polêmicas em torno do filme é o que elas parecem mostrar sobre os sentidos da revolta no Brasil e o modo como lidamos com a violência.

 

Pra começo de conversa parto de um pressuposto partilhado por Slavoj Zizek de que o cinema não representa nossos sonhos e conteúdos psicológicos mais secretos. Ele produz esses sonhos e configura esses conteúdos.

 

Como não pensar, por exemplo, que durante anos, o cinema norte americano construiu o ataque às torres gêmeas no onze de Setembro, com um sem número de filmes catástrofe ,em que a fantasia coletiva de uma nova York destruída ganhava forma na tela do cinema para o deleite pervertido de uma audiência fascinada?

 

Como não imaginar o típico Redneck morador do Bible Belt (Cinturão da Bíblia) no sul dos Estados Unidos, que tem aquele ódio informe e pouco nítido em relação a tudo o que a liberal Nova York representa, assistindo o noticiário sobre a queda das torres do World Trade Center, sentido que a fantasia criada por Hollywood finalmente ganhava vida?

 

Penso que algo semelhante ocorre com o Brasil no que diz respeito a violência da revolta.

 

Há um mito nacional que afirma que somos homens cordiais (de cardio, coração). Penso que somos muito mais um povo cozinhado em fogo brando por séculos de violência e opressão, do que um tipo de bicho emotivo, como o racismo cultural conservador costuma a pintar.

 

É muito difícil para qualquer estrangeiro atento que venha ao Brasil, não se espantar em como uma ampla maioria da população pode ser submetida diariamente a uma quantidade tão miserável de aberrações e violências de toda sorte, e  não se revolte com uma energia brutal, afogando esse país em sangue e fúria.

 

Explicar a servidão voluntária do brasileiro passa por entender como a violência cotidiana é uma força conservadora no país.

 

E aí vai só uma especulação de quem quer ver o filme e ainda não viu (mas que conhece a obra de Kleber Mendonça Filho desde o sinistro “Vinil Verde”): talvez seja justamente por essa paradoxal confluência de violências que estruturam a sociedade brasileira que Bacurau seja tão polêmico e politicamente controverso.

 

No Brasil, dar uma forma narrativa e imagética ao desejo mal formado de um povo por um banho de sangue redentor, que desmonte a violência estruturante e a troque por uma violência divina, é um risco estético, muito empolgante para aqueles que gostam de caminhar no fio da espada.

E como diz a sabedoria judaica: “viver é como caminhar no fio de uma espada. Do lado esquerdo está o mundo dos mortos. Do lado direito está o mundo dos mortos. A  vida anda no meio.”


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2007 ® Pablo Capistrano

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