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  • Pablo Capistrano
  • 23 de outubro de 2019, as 14h14

No tempo em que eu era aluno da UFRN, o meu orientador, o professor Glenn Walter Erickson, vez ou outra dizia nos nossos encontros sobre filosofia política: “Pablo, todo marxista autêntico deveria apoiar as políticas neo liberais”. Diante do meu espanto, o professor justificava: “quanto mais perto do ultraliberalismo, mais perto da revolução”.

 

Faz todo o sentido.

 

Sem um Estado de bem estar social para servir de air bag contra a brutalidade da exploração do sistema, a vida se torna tão insuportável, que não restaria ao provo proletarizado nada, a não ser a correntes que o prendem, como dizia o velho mouro.

 

Na cartilha de todo marxista raiz, esse seria o momento ideal para que uma revolta social generalizada pudesse ser transformada em ação política revolucionária genuinamente transformadora.

 

Por isso mesmo, não há como fazer uma leitura do que está ocorrendo no Chile, Haiti, Líbano, Equador e China, sem colocar a noção de mal estar social sobre a mesa.

 

Depois de quase 40 anos de hegemonia do modelo Reagan-Tatcher, adotado por governos de “esquerda” e “direita”, a torto e a direito, em doses variadas mundo a fora, é preciso largar as caixinhas clássicas da ciência política liberal para se fazer qualquer análise minimamente eficaz de conjuntura global, nesses tempos perturbados.

 

Se na Santiago “liberal” 50% dos aposentados recebem menos de 700 reais por mês e a maioria dos cidadãos tem de se submeter a jornadas extenuantes de trabalho, com um brutal endividamento para manter os serviços básicos privatizados; no sul da China “comunista”  por sua vez, numa Hong Kong em que vivem 67 bilionários, 20% da população sobrevive abaixo da linha de pobreza, morando em gaiolas suspensas de 5 metros quadrados, destinadas a idosos em estado de miséria ou jovens trabalhadores precarizados que labutam em jornadas extenuantes de 16 horas diárias.

 

Por isso, amigo velho, quando você assistir na TV os analistas de plantão falarem em “protestos por mais democracia” ou mesmo  “ manifestações contra a classe política corrupta”, fiquem espertos, provavelmente você está sendo enganado.

 

Essas leituras não levam em conta o mal estar social de base que o modelo de capitalismo tardio tem gerado nas sociedades contemporâneas e explica muito pouco acerca da descrença atual com as instituições da democracia liberal.

 

Se por acaso se deparar com uma dessas leituras redutoras pelas redes sociais, com memes e figurinhas de watts app, saiba também que quando os masters of universe se reúnem no Bilderberg Club pra decidir os rumos do tecnocapitalismo com dominância financeira, eles não ficam perdendo tempo com generalizações ideológicas simplificadoras, como se estivessem lendo um livro didático de ciência política pro nível médio.  A discussão é bem mais sofisticada e complexa do que parece supor nossa vã ideologia.

 

De qualquer modo, não importa qual seja o remédio prescrito, o diagnóstico do problema me leva a crer que estados de rebelião social e repressão estatal serão cada vez mais comuns, constituindo o novo normal desse capitalismo tardio que parece arfejar, de crise em crise, em  busca de algum tipo de antibiótico que o cure de si mesmo.

 

E o Brasil nisso tudo?

 

Não se avexe não, amigo velho. Aposto que mais cedo ou mais tarde essa onda volta por aqui.

 

A boa e velha elite tupiniquim não se eximirá de manter seu insistente e teimoso cacoete de dar ao povo motivos mais do que suficientes para se rebelar.


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2007 ® Pablo Capistrano

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