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  • Pablo Capistrano
  • 27 de outubro de 2019, as 14h14

Quando a barra pesou mesmo aqui pelo Brasil, depois do AI-5, era o Chile que parecia trazer esperança de que o cerco de chumbo na América Latina poderia ser enfrentado.

 

Por isso, todo filho de militante de esquerda, como eu, lembra na infância dos Vinis da “Nova Canção Chilena” a rodar na vitrola. Victor Jara, Violeta Parra, Inti Ilinami. Aprendi esses nomes ainda menino junto com a memória do que havia acontecido na América Latina, nos anos que antecederam meu nascimento, em 1974.

 

Talvez por essa ligação afetiva e acústica com o castelhano falado na cordilheira que eu tenha me empolgado tanto e passado o fim de semana escutando rádios de Santiago, no aplicativo “Radio Garden” do meu celular, para entender melhor o que está acontecendo na terra do meu xará, Pablo Neruda.

 

Muita gente está tecendo comparações entre o Chile de 2019 e o Brasil de 2013 e dizendo: “Olha, cuidado! Veja o que aconteceu aqui. Depois das Jornadas de Junho veio a antipolítica de Bolsonaro. Essas manifestações são autoritárias. É um erro a esquerda apoiar etc e tal.”

 

Sobre esse “alerta” dos amigos liberais é importante pontuar algumas coisas:

 

 

  1. Realmente há algumas semelhanças entre o Chile de 2019 e o Brasil de 2013. Há registros de casos em que militantes com as bandeiras do partido comunista chileno, por exemplo, foram hostilizados por gente que assume o discurso do “povo sem partido”, que aqui no Brasil descambou para a proposta fascista de um “presidente sem partido”, no melhor estilo totalitário de direita.
  2. Apesar disso há uma distinção que me parece evidente: o discurso moralista difuso da anti corrupção, que colou por aqui e fez as viúvas de 64 saírem do armário para emplacar sua versão distópica do #UstraVive na eleição de 2018; não parece ser o elemento central da grande manifestação de sexta passada, que levou mais de um milhão de chilenos para as praças de Santiago.
  3. Pelo contrário. O que parece ter movido as massas no Chile, foi fundamentalmente uma reação a perspectiva de um fechamento ditatorial do regime, na medida em que o presidente Piñera fez a besteira de convocar o exército para barbarizar o povo na rua, matar manifestantes, estuprar, saquear lojas e justificar a implantação de um toque de recolher e um estado de exceção constitucional que evocava a ação de Pinochet no dia 11 de Setembro de 1973.
  4. A reação do sistema político também é totalmente diferente. Se aqui o sistema se fechou para impedir que as mudanças ocorressem, derrubando uma presidente eleita num golpeachement tabajara e mantendo um outro presidente em um grande acordo nacional, com o supremo e com tudo; no Chile, Piñera pediu perdão ao povo do Chile, demitiu todo o corpo ministerial, mandou recolher o exército de volta para os quartéis, e acena com uma ação legislativa que mudaria o modelo econômico neo liberal que vigora desde o governo Pinochet.
  5. Por fim, o condicionamento feito pela narrativa lavajateira contra a “classe política”, retirando do centro da pauta de 2013 o elemento econômico, talvez não seja tão fácil de emplacar no Chile. Lá o inimigo está bem determinado: é a privatização generalizada dos serviços públicos, especialmente da água e da saúde, e a situação de abandono que muitos idosos se encontram depois que a promessa das maravilhas da previdência privada deram com os burros n´água.

 

 

No fim das contas, não sabemos o que vai acontecer no Chile.

 

Usar o Brasil como um contra exemplo pra esvaziar o apoio ao povo chileno não parece ser estrategicamente aconselhável para uma esquerda nacional que coleciona derrotas nos últimos anos.

 

Além do mais, é sempre bom lembrar que Hegel afirmava que os conteúdos não superados da história tendem a retornar e que Marx completava jocosamente lembrando que eles primeiro ocorrem como tragédia para depois retornar como farsa.

 

Se no caso do atual governo militar brasileiro parece que é esse mesmo o caso, no caso do Chile, ainda é muito cedo pra jogar fora a esperança e já apostar de antemão na desilusão.

 

Deixei-mos a cada dia o seu mal.


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2007 ® Pablo Capistrano

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