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| 27.12.04 |
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| mais gente morta |
Parece que a tragédia foi maior do que se imagina. Começam a chegar imagens das ondas gigantes. Afirmam que a placa Indiana chocou-se contra a placa do Pacífico, deslizando por baixo dela e levantando uma grande quantidade de água que se formou em uma onda mortal que atingiu onze países.
Uma das idéias mais antigas de Mal era aquela que relacionava o mal a uma força natural descontrolada. O caos. Uma imagem da ordem natural das coisas sendo interrompida bruscamente por um aceso de fúria daquilo que nos circunda. O céu, o mar, a terra e a montanha podem acordar de seu sono e destruir a calma dos homens.
Depois alguém inventou o diabo e personificou o mal. Esse foi um serviço muito bem feito porque criou, na mente dos homens, a idéia de que o mal é algo da esfera dos valores morais. Deu aquela ilusão escrota de que os justos são recompensados e os maus punidos. Um fenômeno natural desse tipo é ótimo para aposentar o diabo. Quando justos e injustos são tragados pelas mesmas ondas, a moral perde todo o seu sentido e o homen se liberta de suas ilusões para contemplar o mundo tal qual ele é, eticamente amorfo e misteriosamente infinito em sua força.
Talvez esse seja um ponto positivo da tragédia.
Fico imaginando os turistas na praia, tranqüilos, tomando sol. Depois, a morte. O Suddeutschte Zeitung afirma que existem pessoas da Alemanha entre os desaparecidos. Preciso mandar uns e-mails para saber notícias dos amigos e do pessoal do projeto.
Se não tivesse esse trabalho para fazer aqui pelo Brasil pegaria um avião para Tailândia agora. Sinto muita vontade de fotografar os cadáveres antes que eles se decomponham ou sejam enterrados em covas coletivas ou cremados em fogueiras gigantes.
Todo homem tem o direito de ter seu rosto guardado depois da morte, para que o esquecimento não o engula sem cerimônia e para que sua morte seja para os outros, algo de significativo.
Imagino o que Ramsey deve estar dizendo sobre isso: ? a deusa está com raiva, a deusa está com raiva...? |
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| por Max
Demian [20:40] |
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| 25.12.04 |
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| ressaca básica de natal |
Tomei vinho demais na noite de Natal. Acordei com dor de cabeça. Não gosto de álcool. Mas ontem acho que exagerei. O álcool é uma das drogas que embaralham as idéias. Não gosto de drogas desse tipo. Também não gosto de drogas que anestesiem a dor. Um homem só se torna melhor quando aprende a sofrer. Enquanto ele foge do sofrimento fica menor do que deveria ser.
Mas a conversa foi boa. Havia o tal jornalista, figura afetada, meio esnobe e faladora. Havia Marcelo, um italiano que mora a dez anos em Natal (coincidência). Ele é de Nápoles e adepto do tarantinismo. Uma espécie de ritual de dança e possessão que, segundo os mais afoitos adeptos, pode servir para curar inúmeras doenças. Expandiu pela Europa na época da peste e ainda hoje existe no sul da Itália. Fiquei curioso. Ele trouxe para o Brasil a técnica e implantou um núcleo numa região chamada Pium, que fica próximo de Natal. Deve ter misturado com práticas afro brasileiras e indígenas para fazer a mistura necessária e animar os nativos. Havia mais gente sem muito a oferecer e havia Tereza. Mulher bonita, de uns trinta e poucos anos, professora de antropologia. Senti que ela estava interessada em sexo ou diversão. Só me incomodou o fato dela me tocar muito. Ela parece ter se interessado quando eu falei sobre minha idéia de diversão. Em certa altura começou um joguinho, cada um dava sua idéia de diversão. O jornalista talvez fosse leitor das porcarias que Will Self escreve e estivesse a fim de impressionar. Quando disse que achava divertido fotografar massacres eles acharam que eu estava brincando. Que não estava sendo sincero. O povo no Brasil tem uma mania de pedir licença para ser sincero. Eles dizem: ?posso ser sincero??. Não entendo isso. Será que a regra aqui é mentir e a sinceridade uma exceção? Eu fui sincero e eles acharam que eu estava mentido. Gosto mesmo de fotografar massacres. Há algo de inusitado na morte coletiva. Quando alguém morre, só uma pessoa, o fim da vida ganha um tipo de significado. Algo privado. Quando só morre uma pessoa, é possível chorar o morto e a morte ganha destaque. Mas quando são trezentos, quinhentos, mil mortos, aí a morte se dissolve e se oculta. Quando você anda em lugares nos quais a morte atua em massa, ela ganha novos significados. È muito legal freqüentar lugares assim. Uma coisa é você saber que vai morrer, outra é saber que toda sua família vai morrer, que todos os seus vizinhos vão morrer, que seu povo vai desaparecer ou que toda a humanidade vai sucumbir. Quando isso acontece as lágrimas desaparecem e o que sobra é um sentimento nefasto de vazio e perplexidade.
Por isso eu fotografo massacres. Como o de Sebernika na Bósnia. Ou em Ruanda. Para honrar os mortos. Para dar-lhes um rosto. Para emprestar a morte deles algum significado mais humano. Eu acho isso divertido. Qual o problema?
Parece que Tereza gostou das minhas justificativas. Meu deu seu telefone e disse que me levaria a lugares legais aqui no Rio. Até o ano novo acho que ligo para ela. Isto é, se não conseguir uma prostituta bonita e barata. Não estou a fim de gastar, nem muito dinheiro, nem muito tempo com sexo. Tenho coisas mais importantes para fazer esses dias. |
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| por Max
Demian [13:41] |
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| 24.12.04 |
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| Almas sem família |
24 de Dezembro de 2004
Andei muito no Rio nesses dez dias. Peguei o metrô e saí parando em cada uma das estações. Cheguei num lugar chamado central do Brasil e parti para a periferia. Não tive medo. Tirei fotos aonde podia tirar, cuidando para não ter problemas.
Agora estou cançado. Trabalhei uma média de seis horas por dia. Num prazo de dez dias cheguei a um total de sessenta horas. Achei que iria ser suficiente mais essa cidade parece mais vasta do que se imagina. Pretendo dar uma parada até o ano novo. Aproveitar um pouco para pesquisar na biblioteca nacional, um belo prédio em arquitetura do século XIX. Verei se consigo encontrar alguma coisa sobre o Livro das Figuras Extraordinárias. Dizem que esse livro existe, mas eu tenho que verificar. Falam que foi escrito à mão em Salvador, no século XVIII por um monge beneditino. Ramsey me falou muito sobre ele, mas não existem registros certos sobre sua existência.
Se não achar nada sobre ele no Brasil, é porque provavelmente não existe. Mas se existir, muita coisa vai mudar nesse mundo.
Também percebi que estou precisando de sexo. De vez em quando é bom. Mas não gosto de correr atrás de sexo. Prefiro as prostitutas. Mas rápido e fácil. Sem compromisso nem desgaste emocional.
Hoje à noite Klaus vai me levar para um jantar de Natal no bairro das Laranjeiras. Na casa de um colega escritor (jornalista parece). Não sou cristão, por isso o Natal não faz sentido para mim. Apesar de saber que as origens da festa são pagãs, me sinto entediado nas noites de Natal.
Aqui no Brasil as pessoas passam com as famílias, mas por sorte ainda existem almas solitárias nesse mundo. Almas sem família. Essas sim, as imprescindíveis. |
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| por Max
Demian [17:14] |
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| 6.12.04 |
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| A tal guerra |
Chego no Rio pela manhã. Uma estranha névoa toma conta da cidade. Diz o taxista que é devido a uma alteração na umidade relativa do ar. Estranho isso. A cidade se cobriu de uma névoa para que eu não a visse. Como se tivesse pudor em se mostrar para mim. O sujeito no Táxi é simpático. No caminho para o bairro do Flamengo, aonde mora Klaus, ele me fala de guerra, diz que o Rio é violento e me mostra um tal de ?complexo da maré?. Parece um conjunto de casas miseráveis na beira da Baía da Guanabara.
Eu não consigo ver a tal guerra. Talvez por já ter visto algumas na minha vida não acho que o Rio esteja realmente numa guerra. Meus pais e meus avós sim viram uma guerra de verdade. Meu avô paterno era operador de um tanque da divisão Panzer na operação Babarosa, morreu no cerco a Stalingrado. Ele escreveu uma carta muito bonita para a minha avó antes de morrer. Dizia o seguinte: ?Sinto que irei morrer essa semana. Carrego sua foto sempre, e quando estou operando, a ponho sobre meus joelhos. Contemplo seus olhos (sei que são azuis apesar da foto não me mostrar isso) e tenho saudade da vida que sei que não vou ter. Ontem vi uma nuvem nauseante de figuras cinza e marrom passando por nós. Era como uma imensa serpente chiando e levantando poeira. Uma imensa nuvem de criaturas que já estavam mortas e não sabiam disso. Um imenso farfalhar de almas desoladas e assustadas. Quase vinte mil prisioneiros bolcheviques sendo guiados para o oeste. Eles caminhavam em silêncio, com a cara da morte. Toda a miséria do mundo estava concentrada ali. Só tenho medo de não ter um túmulo. Amo você e o menino. Desculpe. Não foi minha culpa.?
Uma semana depois dessa carta um soldado russo conseguiu lançar uma granada incendiária dentro do tanque e meu avô morreu carbonizado. A família não conseguiu dar-lhe um túmulo. Foi enterrado em algum lugar da Rússia.
Minha avó materna também viu a guerra. Era enfermeira e andou por Dresden depois dos bombardeios de 1945. Dizia que o que mais a havia impressionado era a quantidade de pernas, braços, cabeças e troncos decepados que via pelo meio dos escombros. Demorou algumas décadas para que ela pudesse esquecer, ao menos em parte, o açougue de Churchil em Dresden.
Não. Definitivamente o que se passa aqui não é uma guerra. Se fosse, eu saberia identificar logo de cara. |
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| por Max
Demian [09:30] |
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| 5.12.04 |
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| Sobre o Atlântico |
(Algum lugar sobre o oceano Atlântico.)
Eu não voltaria ao Brasil se não fosse por causa do projeto. Quando saí daqui a quase vinte anos atrás não deixei boas lembranças. Apenas alguns amigos e a memória do calor. Reencontrei o calor nas selvas africanas, mas os amigos...
Tive que voltar em 2002. Passei um tempo em Natal, mas foi rápido. Dessa vez vai ser pior. Tenho uma longa travessia no Brasil. Não posso perder o foco do meu trabalho. Selecionar um bom lugar, a um só tempo discreto e de fácil aceso, para implantarmos a primeira célula do projeto Zaratustra no Brasil.
Quando eu era criança, em Natal, achava que não iria ter coragem de viajar muito. Me sentia como uma espécie de árvore velha, com raízes muito grossas e enfiadas de modo firme no chão. Tudo besteira. Nenhum homem tem raízes de fato. Elas são só construções de um intelecto covarde, resquícios de uma horrorosa tradição rural de sedentarismo. Hoje, os grandes homens estão soltos. O abismo abriu-se mais aos pés dos filhos do ocidente e essa história de tradição me parece mais uma estratégia para amarrar o homem a seus próprios fantasmas e preconceitos. Exercito meu português, um pouco enferrujado, lendo um jornal brasileiro. Nele, um homem chamado Suassuna fala coisas sem sentido sobre tradição, nacionalismo, cultura popular e linguagem. Esse discurso não me diz nada. Meu horizonte é muito vasto e meu campo de visão ainda é sem limites. |
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| por Max
Demian [20:17] |
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