26.1.05
Tereza não atende o celular

Ligo para Tereza e o celular cai na caixa postal.
Ela deve estar assustada com as notícias sobre Klaus.
Estou num hotel próximo ao Catete.
Tenho ainda alguns dias para falar com ela e lhe dar o presente.
Espero que consiga.

por Max Demian [10:01]
25.1.05
O corpo de Klaus


Li hoje no jornal que encontraram o corpo de Klaus no porta malas de um carro perto de um morro.

Senti um alívio profundo quando especularam sobre a cocaína.
Ele era meu amigo, mas acho que também poderia tê-lo matado.
Existem algumas pessoas que anseiam pela morte. Acho que elas precisam da morte para que as quatro fontes da própria doença desapareçam.

O medo do mundo, o medo da transitoriedade, o medo da dor e a incapacidade de administrar os próprios desejos. Para essas pessoas a morte pode até ser um bem.
Em certo sentido Klaus caminhava por essa estrada. Um caminho de tijolos cor de merda.
Fiquei triste por não ter podido matá-lo porque acho que ele ficaria feliz de eu ter dado essa mãozinha.
Vou ficar devendo essa a ele.

Agora só preciso de cuidado para não entrar na roda das especulações e não atrapalhar o projeto.
A meta é simples: 1º enviar o relatório o mais rápido possível; 2º sair da cidade; 3º comprar um presente e entregar para Tereza para que ela não tenha a alma carregada pelas sombras quando eu partir.
(por que eu escrevi isso? por que me preocupar com a alma dela? Uma alma a mais, uma alma a menos não faz mesmo muita diferença. No final todas vão caminhar para a mesma escuridão e para o mesmo silêncio.)

por Max Demian [09:41]
22.1.05
A polícia passou por aqui

Precisei sair rápido do apartemento de Klaus.
O porteiro disse que a polícia passou por aqui ontem a tarde.
Sinto a pressão pesar nas minhas têmporas.
Arrumei um lugar num hotel próximo do palácio do Catete.
Tereza queria que eu ficasse com ela no seu apartamento, mas não acho isso uma boa idéia.
Preciso cortar minhas ligações com as pessoas daqui e apagar as marcas de meus passos.
Isso requer precisão e frieza.
Tenho uma única cápsula. Ainda não a usei esperando o momento certo. Mas sinto que é agora.

por Max Demian [17:40]
12.1.05
Ramsey está doente

E-mail datado de 10 de Janeiro de 2005 (anexo ao diário de Demian)

Herr Demian,
Wie geht es Innen?

Estamos preocupados com seu silêncio esses dias.

Mister Ramsey tem tido sonhos estranhos desde que o senhor partiu.
Ele acha que algo no outro lado está interferindo no andamento dos trabalhos do projeto e está preocupado.
Tome cuidado. Alguém pode estar agindo contra nós e mandando sombras para lhe acompanhar no seu trabalho aí no Brasil.
Evite usar o tetrapharmakon fora de qualquer contexto ritual e durma sempre com velas acesas acima de sua cabeça. Vigie o que vê, o que ouve e o que pensa. As sombras trabalham nas nossas lacunas e, deixando espaços vazios, elas atuam.
Estamos acompanhado o senhor daqui e trabalhando com os ancestrais para que eles possam esclarecer melhor as coisas.

Assim que tiver dados substanciais mande-os para mim, não use e-mail. Mande escrito pelo correio convencional.

Aguardamos noticias suas.
Hezliche Grüsse!
Auf Wiederhören!
G. Nilsen.
Roma, 10 de Janeiro de 2005.

O estado de saúde de Mister Ramsey inspira cuidados por isso o senhor tem que agir com rapidez, lucidez e precisão.

por Max Demian [12:03]
3.1.05
uma sombra em meio a fumaça

Volto ao apartamento de Klaus e ele não está em casa. Suas coisas estão espalhadas pelo quarto numa bagunça pouco usual. Quadros, desenhos, livros, roupas, restos de comida.
Parece que meu amigo está travando uma batalha feroz com algum tipo de demônio bastante esperto e escorregadio.

O ano novo foi patético. Uma imensa nuvem de fumaça tomou conta da praia de Copacabana. Acho que algum problema com os fogos de artifício da prefeitura. Uma multidão se aglomerava na estreita faixa de terra, entre os prédios e o mar. Uma felicidade estúpida daquelas que antecedem uma grande depressão e muito, muito barulho.
Curiosamente idêntico a qualquer ano novo que eu já tinha passado antes em minha vida.

Mas havia algo de estranho no ar.
Não poderia explicar com palavras simples. Talvez o exercício do uso do Tetrapharmakon me faz perceber coisas sutis.
Acho que, em meio a fumaça, ao barulho e a multidão, percebi ao menos uma sombra rodeando os presentes.
Isso é significativo. Extremamente significativo para o futuro dessa cidade. Não consegui definir a natureza da sombra. Mas, que ela estava lá, ela estava.

por Max Demian [15:42]


 

 

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