31.3.05
O Barulho da cidade

Ando ansioso esses dias com os barulhos da cidade.
Sem idéias para nenhum artigo. Acontece sempre. A cidade e seu ritmo destroçam a capacidade do cérebro humano de saltar sobre o absoluto imediato do mundo e entender seus mecanismos.
Não sei como se consegue escrever uma a poesia, um artigo ou produzir uma reflexão genuína numa metrópole.
Invejo quem tem esse talento.

O preço que se paga deve ser bem alto.

Mas, quando o barulho da cidade atrapalha, eu corro até meu bunker e escuto uma boa música, para que o barulho não destrua meu cérebro e me ponha envergado sobre minhas próprias ansiedades.

Agora mesmo estou ouvindo Kraftwerk. (eu não gostava de Kraftwerk e cheguei a ter prazerosas discussões intelectuais com o Francis sobre o assunto). Teve um tempo que a turma estava animada com o filme Metropolis e nos encontrávamos na casa do Francis para assistir o filme ao som do Kraftwerk, acho que era 1992. Tudo a ver.

Eu achava mecânico. Mas aí estou aqui, rendido ao Radio-activity. Escutando Transistor e Ohm Sweet Ohm, sonhando com um tempo em que a iminência de uma catástrofe termonuclear poderia varrer a humanidade da face da terra.

Que vida intensa era aquela! A possibilidade do fim nos deixava menos presos as baboseiras do cotidiano.

"Das Leben ist ohne Sinn und Verstand, wann du denkst nicht an den Tod".

por Pablo Capistrano [10:12]
29.3.05
Constantine

Tive alguns problemas com o filme Constantine.

Primeiro eles colocaram um símbolo particular meu na tela de cinema (bem o símbolo não é só meu mais aí vai ficar batido, e o pior vão achar logo: "Porra, o Pablo está imitando o filme do Constantine!"). fazer o quê?

Segundo, quando eu li o Monstro do Pântano do Allan Moore e vi o Constantine pela primeira vez, vi de cara, que ele era um sujeito feio e malvado. Keanu Reaves está longe de ser feio e, apesar de se esforçar muito, não parecia nem um pouquinho malvado no filme.

Terceiro, o filme é de um Zoroastrísmo escandaloso. Há muito pouco da tradição judaico-cristã ali e, pior, se era para ser dualista bem que poderiam ter se espelhado mais no texto de John Milton (Paradaise Lost). Ali sim tem uma justificativa estética para essa história de "mito do combate". A imagem do Poema no qual Lúcifer emerge do mar de lava do inferno com seus anjos caídos e jura vingança contra Deus e toda a sua criação ainda precisa ser filmada.

Não gosto do dualismo teológico. Acho que essa idéia de Diabo é uma boa desculpa para livrar o homem de suas responsabilidades morais. Prefiro a boa e velha tradição cabalística que aponta o canto de onde Samael parte para efetivar a Ira de Deus.

A mão esquerda de Yahweh. A coluna escura do templo.
Valeu!
Liberdade, amizade e reflexão!

por Pablo Capistrano [17:14]
28.3.05
Poesia da semana

Do livro SAARTÃO , do Adriano de Sousa, lançando em 2004. Um poema para quem gosta de cinema e quem saca o que o bom e velho L. W. andou mostrando quando disse "Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar":

Pedagogia do Cine Plaza

aprendi
com guiliano gemma
em o dólar furado
que todo homem tem seu preço

com victor mature
em sansão e dalila
que o inferno pode estar
entre as pernas de uma mulher

com maurício do valle
em o dragão da maldade contra o santo guerreiro
que o sertão é o jardim
do demo

com john wayne
em o homem que matou o facínora
que não existe vida maior
que num filme americano

com charles laughton
em o corcunda
que o amor é um aleijão
incurável

com buster keaton
em a general
que sempre calamos o essencial
porque não há o que o diga

por Pablo Capistrano [11:23]
25.3.05
Carta do Cazuza

Nonato Gurgel é especialista em Pérolas. Me mandou mais uma do Rio. Olha só:


Carta Para Denise Dumont
Rio, 22/7/86

A saudade é grande, mulher vermelha tiro no coração, estou
escrevendo numa tarde cinzenta e fria daí resolvi bater à
máquina elétrica, estou ouvindo o úiltimo disco do The
Smiths e me sentindo meio hemisfério norte.
O cara na sala
conserta o meu vídeo. Estou com um da Billie Holiday lindo,
filmados numa boate, ela escarrando antes de cantar com
os olhos molhados boca amarga sorriso de criança baby
porque nossos corações são tão atormentados?
Ainda não estive com Rita prá saber novidades, eu sou
tão difícil de escrever, mas aqui vão novidades que
não dão no telefone, tenho trabalhado bastante, prá
espantar a solidão e os meus pensamentos.
Hoje, pela 456ª
vêz resolvi que preciso fazer análise, porque tenho sentido
muito medo, medo de voar, de entrar no palco, de amar, de
morrer, de ser feliz, medo de fazer análise e não ter mais
problemas e perder a inspiração... eu fiz 28 anos e descobri
um cara solitário sem vocação prá solidão.
Ultimamente
eu passo mal quando não tem ninguém perto, chego a ter
febre, é uma loucura.
O menino sozinho brincando de cidades
desertas cresceu e quer amar, mas é tão difícil. Eu vou
chegar pro analista e vou dizer: eu quero aprender a amar.
estou gravando um disco, está quase pronto, e as músicas
revelam muito isso que eu tô te contando, só que de um jeito
sarcástico, debochado e por isso mesmo profundamente triste.
viver é bom nas curvas da estrada, solidão que nada!
viver é bom partida e chegada, solidão que nada!s
esse é o refrão de uma balada blue que talvez seja a música
de trabalho, e é a minha vida nesses mêses, de aeroporto
em aeroporto (cada aeroporto é um nome num papel, um novo
rosto atrás do mesmo véu).
Daqui a pouco eu escrevo a letra
toda! tem um blues que fala "ando apaixonado por cachorros
e bichas, duques e xerifes, porque eles sabem que amar é
abanar o rabo, lamber e dar a pata". Forte, né?
ah, estou ficando careta, fico passando minoxidil prá fingir
que é possível parar o tempo, eu queria parar o tempo e
voltar pra barriga da mamãe, mas ia ficar tudo tão parado.
você vai continuar gostando de mim se eu ficar careca?
eu penso muito em você aí, menina linda tentando o grande
sonho americano.
eu ando muito cansado prá ir à NY, vou
tirar férias depois do disco na chapada dos guimarães,
onde uma amiga minha tem um sítio.
às vezes eu fico pensando
no porque disso tudo, ganhar dinheiro cantando as minhas
aventuras e desventuras, comprar uma fazenda e fazer filhos
talvêz fosse uma maneira de ficar na terra prá sempre,
porque discos arranham e quebram... mas eu acho que no
fundo não passa de uma grande viadagem minha esses papos.
te amo muito. do nosso jeito.
beijos em margarida. (agora botei morte em veneza na vitrola)
beijos no new american boy Diogo. e beijos prá quem é de
beijos. e abraços pra quem é de abraços. ciao!
Cazuza.

por Pablo Capistrano [09:35]
Reencarnação

Sexta Feira Santa.
Não vou comer carne hoje.
Adoro carne. Todo tipo de carne. Sou um carnívoro desgraçado e sanguinário. Na próxima encarnação acho que vou voltar transfigurado numa criatura da noite ou numa larva, ou num Bode devido a essa paixão por carne.
Meu único impecilho em me tornar budista de uma vez e atingir logo o Nirvana e acabar de uma vez com essa merda toda (digo, a roda da vida da morte e da reencarnação), é a tal da carne.

Mas, falando em Reencarnação.

Não sei se vocês viram o filme com a Nicole Kidman? Assisti ontem.
Duas coisas:
(1) Estética: muito interessante, meio Polanski/Kubrick uma coisa de imagens paradas. O diretor é louco. Ele põe um close no rosto da Nicole para ela dar show por quase um minuto ao som de uma sinfonia alucinadamente estrondosa. Senti meu intestino delgado se debater de tensão. Vocês já imaginaram o que é um minuto numa tela de cinema? Um minuto é uma eternidade, ou melhor, umas dez eternidades, loucura, loucura, loucura. Já tinha gente se balançando e babando na cadeira, a ponto de começar a dizer impropérios com o vizinho.
(2) Narrativa: O filme não é sobre Reencarnação.

Vou longo avisando.
O Nome é Birth e alguém pensou em reencarnação (não sei se isso é usado para reencarnação?). O fato é que o filme é mais uma aula sobre uns dos mais clássicos distúrbios psiquiátricos (não vou dizer qual, quem assistiu vem aqui e tenta adivinhar para não perder a graça), do que propriamente sobre a crença hindu, que passou para os órficos, que chegou nos gregos que atravessou o cristianismo e foi parar no kardecismo.

Aliás, os irmãos espíritas parece que não gostaram muito do filme.

por Pablo Capistrano [09:23]
24.3.05
Clarisse no NY Times e uma curiosidade

Nonato Gurgel me manda um artigo que saíu no NY Times em 11/03/2005, sobre Clarisse Lispector. Lendo o texto da Julie Salomon, olha só o que eu achei:

"Este gênero é uma especialidade brasileira, uma coluna de jornal que permite ampla latitude a poetas e escritores. Eles podem escrever uma espécie de diário em uma semana, um ensaio na próxima, uma história ou simplesmente um pensamento aleatório. Pense neles como blogs literários, mas impressos em jornais".

Ela está falando da crônica de jornal como se fosse algo típico do Brasil. Explicando ao público americano qual "o espírito da coisa". "Blogs literários impressos em jornais", taí uma definição no mínimo, curiosa....

por Pablo Capistrano [11:02]
23.3.05
Finalmente uma poesia

Conheci Iracema Macedo no dia do lançamento do livro Vale Feliz, estava com o Adriano Araújo, conversando sobre Nietzsche, poesia e sobre o Joy Division. Tinha ido lá a convite do Eli Celso. O que me chamava atenção em Iracema era uma torrente inquieta de vida que exalava nas suas conversas e parecia contaminar os arredores, curvando o espaço em volta.
Depois eu li os poemas e percebi que eles continham, concentrados em poderosa densidade, uma energia que parecia vir da materia da terra, do sangue e dos fluidos vitais que mantem vivas as almas humanas.

Tive medo dos poemas (já disse isso a ela uma vez).
Mas o medo é um sentimento grandioso. Filho do espanto e da admiração, é de medo e maravilhamento que se compõe a experiência estética.

Então vão dois poemas da Iracema, para compensar o atraso da chuva.

Retorno de Saturno

Saturno veio colher as romãs
brasas no pomar
Vivo nua pela casa
leio cartas, fecho as portas
Saturno me espia pelas frestas
me sussura nomes feios
vivo cheia de varais
lampiões e pássaros acessos
Parece que estou esticada entre dois abismos
entre dois homens
entre dois vendavais
Abro a janela
encaro o deus
me vejo nos seus olhos
me vejo dentro dele
Quando é que esses olhos irão me acordar?
Quando é que irão me levar?
Quieto no seu canto
Saturno me estende a mão e um cálice
e é como se a vida chegasse
silenciosa e indolor como os milagres

Resposta ao Anjo Gabriel

Agora que aprendeste a incendiar-me
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua

por Pablo Capistrano [11:43]
22.3.05
Remédios de Sêneca para a dor

Soube que um colega havia perdido uma filha recém nascida. Pensei então nessa dor alheia porque também tenho filhos e essa dor também pode um dia ser minha (essa é uma das ferramentas mais eficazes de lidar com o inesperado: pensar que ele é possivel).
Tem umas dores estranhas que não se curam nas farmácias, por mais sedutores que sejam os remédios vendidos em suas prateleiras. Não há química que seja suficiente para algumas dores.

Havia uma tradição filosófica antiga que era a das "Cartas Consolatórias", usadas para ajudar a sanar as dores que não se acabam nos balcões das drogarias.

Sêneca, Filósofo estóico romano, escreveu uma dessas cartas para Dona Márcia, que havia perdido um filho e se afundava num luto sem fim, ele disse:

"Um longo período de tempo enfraquece a dor: por mais rebelde que ela seja, por mais que ela aumente cada dia e se rebele contra os remédios, abranda-a contudo, o tempo, o mais eficaz remédio para domar os instintos ferozes. Permanece, todavia em ti, Márcia, até agora, uma grande tristeza e que já parece encontrar-se calejada; não mais aquela dor veemente, que existiu no início, mas pertinaz e constante; entretanto, o tempo, pouco a pouco, te arrancará também essa dor. Toda a vez que te ocupardes de outra coisa, teu espírito se libertará. Agora tu te aprisionas a ti mesma: Há uma grande diferença entre te permitires sofrer e te impores o sofrer. E como convém mais a fineza de teus costumes isto, que ponhas fim à tua dor e que não aguardardes aquele dia em que a dor te abandone contra a tua vontade! Renuncia tu mesma a ela!"


"Todas as coisas do exterior, Márcia, que brilham em torno de nós: crianças, honras, riquezas, imensos pórticos e vestíbulos cheios de uma multidão de clientes não admitidos, um nome ilustre, uma mulher nobre ou bela e outros bens que dependem de uma sorte incerta ou inconstante, são aparatos alheios e emprestados."

por Pablo Capistrano [10:41]
21.3.05
Chuva em Natal atrapalhou a poesia

Natal acordou com chuva hoje (fato não muito corriqueiro).
Isso me fez ficar na cama até o limite do industrialmente suportável.
Acabei atrasando a poesia da semana.
Sem problema, todo dia é um bom dia para uma poesia.

Não sei em outros lugares, mas aqui em Natal tudo fica mais lento quando a chuva resolve aparecer.

Liberdade, amizade e reflexão.

por Pablo Capistrano [14:48]
20.3.05
Comentário sobre Bach

Comentário sobre Bach, retirado de um texto de Franz Rueb.
Me fez pensar um pouco sobre essas relações estranhas que envolvem a vida e a morte.
Depois de ler é bom ouvir alguma das peças do mestre.

"Caixão por caixão, o casal Bach teve de carregar seus filhos mortos de casa até o cemitério, onde a família se despedia de algum ente querido praticamente uma vez por ano. (...) Esse conhecimento da vida e da morte na casa dos Bach permite que compreendamos melhor alguns textos teológicos do Barroco sobre a morte, o anseio pelo morte, o medo da morte, temor e esperança, e sua representação musical feita por Bach" (RUEB, 143)

por Pablo Capistrano [21:56]
17.3.05
Leminski e o zen budismo

Parece que quando o Leminski morreu um jornal de algum lugar do Brasil colocou uma manchete assim: "Morre Paulo Leminski: O Homem que a vida matou".

Morrer de vida é foda!

Imagine alguém perguntando: "fulano morreu de quê?" e o sujeito responde: "morreu de viver".

Mas a melhor definição de vida que eu tive a oportunidade de conhecer nessa existência sobre a terra retirei de uma historinha Zen Budista que está na biografia do Paulo (vou ficar íntimo e chamá-lo pelo primeiro nome, Paulo).

Diz o seguinte:

O Mestre Ykkyú e o Eremita

"Certa tarde de outono, o Mestre Ykkyú vagueava pelos campos, levando consigo uma flauta de bambu. Um eremita, ao vê-lo perguntou-lhe:
- Quem és tu?
- Sou um peregrino que segue para onde sopra o vento.
Tencionando pô-lo em apuros, o eremita perguntou:
- E quando o vento não sopra?
- Então sopro eu ? respondeu Ykkyú, começando a soprar sua flauta."

por Pablo Capistrano [10:01]
Heidegger e a poesia

Um dia para experimentar o mundo
Pablo Capistrano

Martin Heidegger escreveu um livro fundamental.
Ser e Tempo. Foi publicado, salvo engano, em 1927. Boa parte da fama inicial do filósofo decorreu do impacto desse livro no ocidente. Mas Heidegger fez um movimento de abandono das idéias contidas no Ser e Tempo. Aos poucos, com certa paciência e cuidado, foi mudando de lado. Foi abandonando o nominalismo do seu primeiro livro e mergulhando em outras praias. Por isso se falam em dois ou três, heideggers. Coisa comum na linguagem dos filósofos. O sujeito muda quando seu pensamento muda também e ele deixa de ser quem era e passa a ser outra pessoa.
O fato é que, lá para o fim da sua vida, o velho H. andou flertando muito com a poesia. Ele era um péssimo poeta, vale salientar (andei lendo uns poemas dele na biografia escrita pelo Rüdiger Safranski e senti arrepios, mas, ninguém pode tudo não é?).
Hörderlin e Trakl ganharam destaque com uma ou duas conferências. Ele extraiu então um verso do Hörderlin de um poema chamado In lieblicher Bläue ("No azul sereno") e começou a tecer observações sobre a poesia.

H. gosta de imagens fortes e sedutoras. Boa parte de seu pensamento parece girar em torno da construção de uma sedução lingüística que deixa o leitor a um só tempo tonto e encantado. Acho mesmo, quando eu leio suas obras, que estou diante de um encantador de serpentes. A linguagem é a serpente e nós somos o público que fica babando vendo o encantador se arriscar o tempo todo com seu monstrinho de estimação.

Nessa semana da poesia (dia 14 foi segunda), ao menos duas coisas da conferência de Heidegger parecem fazer muito sentido. A idéia de que a poesia é a fala original e a noção de que "poeticamente o homem habita esta terra".
Por fala original se entende a fala mítica dos primeiros homens. O que há na poesia é a evocação do mundo. Uma palavra, no meio de um artigo como esse é só uma palavra, que pode ser substituída por qualquer outra que tenha sentido mais ou menos semelhante. Uma palavra, num poema, é insubstituível. O poema morre e se recompõe a medida que morrem e se recompõem suas palavras, sua unidades constituintes. Porque a palavra, num poema, tem um compromisso com o mundo. Com a coisa que evoca. (essa é a viagem mística do velho H.)
Depois tem a história de que o homem é uma promessa da linguagem. Vejam só, que coisa interessante: o homem é uma promessa da linguagem e a linguagem uma promessa da poesia. Dá para entender? Não, mas é bonito para caralho.
Então o H. usa seus poetas prediletos para nos levar a crer na força da poesia e passar essa visão meio mística, meio enrustida de que a linguagem tem o poder de apresentar o mundo aos homens. Presentificar o Ser que é um nome que ele inventou para o Vazio.

Hoje a poesia tem seu dia, e os outros dias deixam de ser dias de poesia e passam a ser dias de prosa, dias de dissertação. Aliás, eu acho que a linguagem que usamos está cada vez mais insuportavelmente dissertativa. Até a prosa (que é mais a minha praia, diga-se de passagem) está perdendo espaço. Ninguém parece ter muita paciência hoje para ouvir os outros contando histórias. A velocidade do mundo exige precisão. Diga o que você quer e o que você pensa sem rodeios. No final, o dia da poesia é bom para se pensar que, talvez, menos interessante seja entender o mundo e mais importante seja mesmo experimentá-lo. Nem que seja num poema.

por Pablo Capistrano [09:53]
14.3.05
Dia da poesia

sem comentários...

Willian Blake

O TIGRE


Tigre, Tigre, Brilho flamejante
nas florestas da escuridão
Que imortal olho ou mão
Pôde compor tão espantosa simetria?

Em quais céus, em qual abismo
Ardeu o fogo de teus olhos?
Com qual asa ele ousou se elevar?
Qual a mão que sustenta a chama?

Qual ombro e qual arte
Pôde forjar as fibras de teu peito?
E, quando teu coração começa a bater
Que pé horrendo, que horrenda mão?

Qual o martelo, qual a corrente?
Que Fornalha fundiu tua mente?
Qual a bigorna, quais os punhos;
Que atenazam terrores fatais?

Quando os astros, congelados de espanto;
Molharem o céu com seu pranto,
Sorriria o criador com o trabalho que fez?
Quem te criou, criou também o cordeiro?

Tigre, Tigre, Brilho flamejante
nas florestas da escuridão
Que imortal olho ou mão
Pôde compor tão espantosa simetria?

por Pablo Capistrano [08:56]
11.3.05
Mar Adentro




Viver é uma experiência privada. O que significa dizer, não que se vive sozinho, mas sim que a vida que se vive é vivida só por seu protagonista. Só eu posso viver a minha vida. Por mais que haja a linguagem, por mais que haja o sexo, por mais que haja a arte, a experiência de minha vida é minha e não pode ser experimentada por ninguém.

Esse dado existencial é fundamental para o entendimento da condição humana. Por isso eu discordo quando se fala que o filme de Alerrandro Amenábar (Mar Adentro), que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro esse ano, é um filme sobre a eutanásia. No seu filme anterior, Os Outros, o cineasta falava da vida sob a perspectiva dos mortos. Nesse ele inverte o caminho e fala da morte sob a perspectiva dos vivos.
A história de Ramón Sampedro (vivido de modo magistral pelo ator Javier Barden) não é a história de um homem que odeia a vida, mas sim de um homem que ama acima de tudo, a própria liberdade. Ao ficar tetraplégico e passar vinte e oito anos em sua cama, Ramón, que era marinheiro e que havia dado a volta ao mundo jovem, decide morrer. Mas ele está impossibilitado de realizar sua decisão. Ele precisa que outros o ajudem a morrer. Esse é seu inferno. Numa cena interessante, o tetraplégico Ramón, conversa com um padre também tetraplégico, que tenta convence-lo a ficar vivo. O padre diz que "uma liberdade que atenta contra a vida não é liberdade" e o marinheiro responde que, do mesmo modo, "uma vida que atente contra a liberdade não é vida".

As discussões sobre a eutanásia e o suicídio assistido são, na maioria das vezes, toscas e conceitualmente equivocadas. Buscam-se respostas gerais em perguntas do tipo: "você é contra ou a favor da eutanásia?", como se alguém pudesse, de modo abstrato, sem tentar entender as circunstâncias que envolvem a vida de alguém, tomar uma posição para todos os casos possíveis e imagináveis (esse é o primeiro erro de raciocínio no que diz respeito à eutanásia). O segundo problema diz respeito à questão: "você deve ou não deve se matar?". Como se a questão da eutanásia fosse um problema exclusivamente moral, que diz respeito ao valor que se deve dar a vida e a própria liberdade. Mas não é isso que está em jogo.
O que está em jogo é se alguém deve ou não ser obrigado a viver. Se a vida é um direito ou uma obrigação. A legislação brasileira criou um pseudo-conceito jurídico que costuma acobertar muito dos preconceitos morais e da limitação intelectual de alguns juristas. A idéia de que existem "direitos indisponíveis". Esse eufemismo jurídico engana os leitores ingênuos e faz crer que é possível existir uma classe de direitos sobre a qual não se pode dispor. No fundo, um direito que você não pode dispor, não é um direito de fato. Um direito que eu não posso abrir mão é um dever.

Ramón Sampedro, o único protagonista possível de sua própria vida, não pode emitir, em juízo, um depoimento sobre seu estado (a legislação e a miopia jurídica dos juizes espanhóis não o permitiu). Não pode dizer que estava "de posse de suas faculdades mentais", um dado claro e evidente, porque, após o seu acidente, a única coisa que lhe restou, por vinte e oito anos, foi sua mente. E uma mente viva, num corpo semimorto, tem muito a pensar e a dizer. Vida e dignidade são conceitos diferentes, estão ligados, mas não são idênticos. A dignidade do homem não está no fato de ele ter de viver a sua vida de qualquer forma, em qualquer circunstância.
Essa é a dignidade das plantas, dos pequenos roedores e das bactérias. A dignidade do homem está no fato de que ele tem consciência da morte e de que, mediante essa consciência (suprema dádiva da natureza, de Deus, ou de nosso Cérbero), ele pode definir o modo como vai experimentar o tempo que tem nesta terra. Quando se arranca isso de um homem, leva-se junto também, toda a sua dignidade. E quando se retira de um homem, uma parte qualquer de sua dignidade de homem, atenta-se não contra um indivíduo apenas, mas contra toda a humanidade.

por Pablo Capistrano [09:16]
10.3.05
A porta sempre esteve aberta

essa semana um aluno me perguntou o que é um problema filosófico.
Lembrei de uma conversa de Ludiwg Wittgenstein com Norman Malcolm, registrada num livro chamado "Ludwig Wittgenstein: A Memoir". O bom e velho W. responde para o aluno:

"Uma pessoa apanhada numa confusão filosófica é como um homem que quer sair de um quarto, mas não sabe como. Ele tenta a janela, mas ela é muito alta. Tenta a chaminé, mas sua abertura é muito estreita. E, caso ele tivesse apenas olhado ao redor, teria visto que a porta esteve aberta o tempo todo."

Curioso.
Parece um conto de Kafka registrado em duas versões (uma, inclusive, no livro O Processo), chama-se Diante da Lei.

por Pablo Capistrano [09:18]
7.3.05
Poema para começo de semana

aí vai uma canção do Makely, poeta de Minas, retirado do belo livro "ego excêntrico", musicado por Envil fx e gravado por Alda Rezende no CD Samba Solto.

www.autofagia.zip.net

Samba Solto

hoje eu vou fazer um samba torto
um samba fino em sol aberto
um samba em si um samba incerto

hoje eu vou fazer um som modesto
eu vou fazer um samba em tom de manifesto

hoje eu vou fazer um samba solto
fazer batuque em protesto
porque o samba é o samba
e o resto é o resto.

por Pablo Capistrano [10:05]
6.3.05
Pet Sounds

Sempre desconfiei do The Beach Boys.

Eu, com minha formação de punk rock, sempre fui mais simpático a banda podre dos anos sessenta.
Velvet Underground e Stooges.
Mas aí começou essa onda de falar bem do disco Pet Sounds. Um disco de 1966 que, segundo Brian Wilson teria começado a ser concebido em 1965, quando o compositor ouviu o Rubber Soul dos Beatles e pensou consigo mesmo: "tenho que fazer um disco melhor", alguma coisa assim.

Mas para mim o The Beach Boys continuava sendo aquele sonsinho banana. Um Do-woop para brancos. Mesmo sem negar a influência deles no som do Pixies (uma espécie de religião pessoal) ou mesmo em algumas coisas do R.E.M. eu desconfiava que, por trás da rasgação de seda com o Pet Sounds se escondia algo estranho e obscuro.

Mas aí comprei o disco e ouvi por três dias seguidos sem parar. A primeira audição foi estranha, como qualquer primeira audição. Mas havia algo lá que eu não sabia bem o que era. Então eu senti que ia ouvir de novo e de novo e de novo e de novo, até descobrir.

Ainda estou procurando.

Algumas músicas me parecem demasiadamente melosas, quase grudentas. Mas já descobri, pelo menos, duas obras primas: Sloop John B e God Only Knows (essa tem uma das frases melódicas mais belas que eu já ouvi).

Se encontrar mais alguma coisa eu dou um toque.
(valeu!)
amizade, liberdade e reflexão!

por Pablo Capistrano [10:01]
2.3.05
Me and my Gin

Andei me sentindo sinistro esses dias.
Nada de espantoso nisso.
Só nunca se sentiu sinistro na vida quem mente bem.
Mas gosto de teorias estranhas e aí abri uma revista cientifica na qual um sujeito defende uma tese interessante.

Ele diz:

1.Boa parte das espécies animais que já se extinguiam na história obedecem a um padrão de desaparecimento. Elas começam com muitas variações ?raças? e essas variações vão desaparecendo aos poucos, até que, no fim só sobra uma e então... potof.

2. a 80 mil anos atrás haviam varias espécies de hominídeos na terra, como o homo sapiens e os neandertais. Com o tempo essas variações foram sumindo, sumindo e agora só sobrou a gente.

3. Conclusão? Parabéns amigo! Sua espécie está em extinção!

Só Hume nos salva dessa indução.
Mas não fique triste nem se sentindo sinistro. Há um lado bom nisso.
Aproveite seu tempo para fazer coisas legais como, por exemplo, ouvir a música Me and My Gin de J. G. Johnson na voz de Bessie Smith (a mãe negra de Janis Joplin), de preferência numa gravação de agosto de 1928, com Joe Willians no Trombone e Porter Graigner no piano. São só 2 minutos e quarenta e nove segundos.
Depois diga sinceramente para seu amigo Pablo: valeu ou não valeu a pena?

por Pablo Capistrano [10:06]
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