25.4.05
Doença de Ícaro

Brasil, baía dos Porcos
23 de Abril de 2005.
após um mergulho com visibilidade de uns dez metros e duas arraias brincando no fundo do mar.

Hoje eu entendi isso:


"Chamai-me Ismael. Faz alguns anos - não importa quantos, precisamente -, tendo na bolsa escasso ou nenhum dinheiro e nada que particularmente me interessasse em terra, achei que devia velejar um pouco e ver a parte aquosa do mundo. É um hábito que tenho, para acabar com o esplim e regular a circulação. Sempre que começo a ficar austero; sempre que é um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que dou comigo a parar involuntariamente diante de empresas funerárias e a cercar fila em cada enterro que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria adquire tal domínio sobre mim que é preciso um sólido princípio moral para impedir-me de sair deliberadamente para a rua e metodicamente surrar as pessoas - então acho que está na hora de ir para o mar o mais depressa possível".

Essas palavras foram escritas no século XIX por Herman Melville e abrem o livro Moby Dick. Considerado por muitos de seus críticos contemporâneos como uma "obra menor", Moby Dick parece ser bem mais do que um livro de aventuras marítimas ou a reconstrução do mito Bíblico da luta entre Yaweh e o Leviatã (uma releitura hebraica do combate caldeu entre Marduk e Tiamat). Quem já teve a experiência de navegar sabe o que eu estou dizendo.

Num barco, sempre temos que lidar com o essencial. O assessório, o dispensável, deve ser deixado em terra.

O espaço é limitado e o tempo, marcado pelo tédio da linha do horizonte, se mostra com sua cara sisuda e selvagem.
O mar não é um lugar para a falta de disciplina.
Não é um espaço no qual o homem pode fazer seu jogo, criar suas próprias regras.
As regras são as do mar e se o sujeito não aprende rápido que deve seguir essas regras, pode perder o juízo ou, na melhor das hipóteses, a própria vida.

No fundo do mar, a gente encontra um remédio para esse vício de querer o assessório e esquecer o essencial.
Quando se mergulha ou se navega, rapidamente se aprende a respeitar aquilo que não se pode mudar. Esse parece ser o grande aprendizado que o mar tem a nos oferecer.
Já ouvi histórias de mergulhadores experientes que esqueceram os próprios limites e foram seduzidos pela beleza que se esconde embaixo da linha azul. Gente que perde o tempo e o tino, e sufoca em cavernas submarinas ou morre porque não soube a velocidade certa de voltar a superfície depois de uma variação de pressão nos tímpanos.

Acho que essa é a doença de Ícaro. Não conhecer os próprios limites e deixar-se seduzir pela beleza.

por Pablo Capistrano [10:15]
19.4.05
Ilha

estou viajando para uma ilha.
coisa estranha essa.
semana que vem entro em contato.
valeu!

liberdade, amizade e reflexão!

por Pablo Capistrano [11:07]
Poesia da semana (floresta, flor que resta)

Alessandre de Lia é o poeta da Tigrescritura, um livro denso de poesia que saiu pelo Sebo Vermelho e pela Philia.

Escreve entre a iluminação e a técnica.
seguem duas amostras:

(1)
Esta
Que aí
Está
Íntima
Flor que resta
Mescla
Amforfla
Floresta
(2)
Tebas, este deserto em ruínas.
Tebas hecatombe.
Édipo
Ou Marco Flamínio Rufo
- a mesma monotonia -
a perspcrutar pecados humanos.
Ou tu, meu senhor,
pregoeiro mudo
- a imortalidade
sua sombra incerta -
em seu terrível diálogo de cadáveres.

por Pablo Capistrano [10:59]
17.4.05
Escrever sobre escrever, escrever sub escrever

Escrever tem umas particularidades.
È um ato solitário, no qual o escritor se depara com a própria linguagem. Geralmente o momento pode ser prazeroso, mas tem gente que jura de pés juntos que se deparar com a linguagem é tão ou mais terrível do que ser esquartejado, empalado ou esfolado vivo.
Não sei se esse masoquismo é real, mas, se for é possível justificar muitas vezes o sofrimento do leitor quando tenta ler alguns textos.

Sacanagens a parte, acho muito interessante essa idéia do deparar-se com a linguagem no ato de escrever. Quando você fala a coisa se apresenta de modo distinto. Ao se falar (e eu falo muito porque sou professor dando aulas todas as noites da semana de 7 às 10:45) só há uma saída: ser possuído pela linguagem.

Ela lhe carrega e você, se for esperto, vai junto.

Mas tem professores especialistas em combater o furor da linguagem no ato da fala.
Diziam que Titio Wittgenstein era assim. Passava longos momentos de silêncio nos quais parecia que uma terrível batalha interior estava se travando, enchendo a sala de ansiedade e aflição, até que, potof! Saía uma assertiva assombrosa sobre alguma coisa.

Conclusão: "Wittgenstein não conseguiria emprego como professor em nenhuma faculdade do Brasil no ano de 2005 (a não ser nas federais, se ele fosse bem relacionado com a tchurma, vale salientar)".

Mas, voltando a escrita.
Na escrita a coisa parece um pouco diferente. A página vazia (quer seja real ou eletrônica) dá uma sensação bastante evidente de potência. A idéia é que os limites da escrita são os limites do papel e da sua imaginação. Mas isso é falso. Os limites da escrita não são os do papel, são os da sua linguagem.

Alguns escritores parecem não suportar isso e tem uma imaginação maior do que a linguagem (como Joyce, por exemplo). Outros parecem que se pacificam e usam a estratégia de enganar a própria linguagem, fingindo jogar o seu jogo para que a sua imaginação brote e se sobreponha (como J. R. R. Tolkien, por exemplo).

Então o jogo parece ser esse. Negociar com a própria linguagem ou tentar se confrontar com ela para ver até onde ela agüenta.
Isso exige paciência.
Por isso eu não gosto do MSN (ou MSM? Desculpem, sou disléxico).

Não dá para se confrontar com a própria linguagem enquanto se conversa nesse troço nem mesmo dá para ser possuído por ela como quando se fala. Um limbo. Me sinto num limbo quando uso esse negócio.
Por isso, desculpem os amigos, mais vou ficando com os e-mails e os orkuts e gazzags da vida. tá mais no balanço.

Liberdade, amizade e reflexão!

por Pablo Capistrano [08:57]
15.4.05
Enigmas de Tio Wittgenstein

Já que o amigo Marcos solucionou o Enigma do Viziadoq Moe, mostrando que eles ainda estão nesta dimensão, vamos a um enigma interessante sobre o tempo, retirado de uma obra do Tio W. chamada Gramática Filosófica. É o quinto apêndice da primeira parte da obra. Esse texto foi acrescentado às margens do texto principal:

"Uma sentença pode conter o tempo em diferentes sentidos.
Você está me machucando.
O tempo está maravilhoso lá fora.
O Inn desemboca no Danúbio.
A água congela a 0º.
Muitas vezes cometo lapsos na escrita.
Algum tempo atrás...
Tenho a esperança de que ele virá.
Às 5 horas.
Esse tipo de aço é excelente.
A terra já foi uma bola de gás."

Ele parece estar exemplificando formas de se falar sobre o tempo, ou formas de conter o tempo em proposições. Isso deve indicar que há modos distintos de se relacionar com o tempo expressos em cada uma delas (eu acredito). O problema é traduzir quais formas são essas. Aceito sugestões.

por Pablo Capistrano [10:24]
10.4.05
a estranha poesia do Viziadoq Moe

Viziadoq Moe é um grande enigma.
Uma banda realmente estranha e obscura.
Um único disco nos anos oitenta pelo selo Wop Bop e depois, o silêncio total.
Lembra um pouco Bauhaus, mas é muito rápido e pesado.
Lembra algo do hard core, mas é demasiado rítmico e com letras complexas e cheias de um misticismo desconcertante.
Quem tiver ainda a oportunidade de escutar não perca porque o silêncio do tempo e o vazio da memória ameaçam apagar o Viziadoq Moe desta realidade. Como se a banda fosse apenas uma macha estranha de nossos sonhos intranqüilos. Ou, talvez, de nossos mais sinistros pesadelos.
Segue a primeira letra do disco, composta por Fausto Marthe.

"essa noite ela vem!"

Junto ao céu

Num corredor em cobre e aço
Azul-cruel da cor do medo,
Vagueia, em ócio minha alma,
N´ocultar da luz;

Quão distante de sua terra,
Quão presente aqui no alto;
Retornando, e sem vontade, as posições...

"e não poderias mais lutar?"

São vários túneis e passagens.
Sonsa paz, por sobre as minas;
Flores tão distintas, tão cinzentas,
Cânticos entoam, de fraseado ardente
- Já viveram tudo aquilo,
Sucessão d´outras paragens;
Significando múltiplo de sinos.

"E não poderias mais viver?"

Um mar profundo, o etéreo azul,
A infinita imensidão que desafia;
Contra esse mito tudo corre em vão,
Contra esta morte tudo era contrário;
E estava bem, e estava mal,
E estava tão doente, a fome conhecia,
E estava tão faminta, no morrer-se...

"Então poderias retornar?"

por Pablo Capistrano [20:37]
7.4.05
Atitude punk

Aliás estava escutando o disco ao vivo da Plebe Rude esses dias....
(taí as únicas narrativas interessantes para um Blog que fala da vida real de um pai de família etc etc etc etc).

Devo um bocado de coisa a Plebe Rude.

Entre elas o abandono do Heavy Metal.
Era 1985 e estava havendo ainda aquela invasão de metaleiros no Rock' n' rio I. Então eu com meus onze anos fui fisgado. Comprei toda a coleção do Iron Maiden. Motohead. Dio. Judas Priest. O escambau.
Aí meu primo, Wlademir, me mostrou o disco da Plebe.
O Concreto já Rachou.
Então eu pensei comigo mesmo: ?foda-se o metal!?
Daí vieram O Colera, Olho Seco, Inocentes e Viziadoq Moe (alguém sabe o que aconteceu com os membros do Viziadoq Moe? Dizem que foram abdusidos ou desmaterializados e teleportados para um universo paralelo no qual Ian Curtis não morreu e Kurt Cobain se transformou em astro de Hip Hop)

Voltando ao mundo real.
Estava escutando o disco ao vivo da Plebe e pensei comigo mesmo.
O que falta é uma boa e velha atitude Punk!
Então comecei a pensar em alguma boa e velha atitude punk para chacoalhar a vida e fornecer alguma pimenta para minha narrativa cotidiana.

Aceito sugestões.

Obs.: Mas não precisa ser uma atitude tão PUUUUNNNKKK assim. Pode ser uma atitude punkesinha. Assim, meio de boutique mesmo, inofensiva, que não atente contra a saúde, nem contra a integridade física, a higiene pessoal e a reputação do bom e velho pablo.

uma atitude que seja reversível (então não vale suicídio nem entrar para a igreja universal do reino de Deus, ok?) e que esteja em sintonia com as indicações de temperatura e pressão do mercado imobiliário de sonhos e utópias.

Uma atitude assim, meio lírica e, quem sabe, poética.
Que faça parte do imaginário luminoso da classe média brasileira, com suas camisas pretas, seus piercings, suas tauagens de henna, suas calças surradas de fábrica e essas outras modinhas legais que de vez em quando assaltam o nosso campo de visão.

Ou seja,
uma atitude punk, derivada do inofensivo e doméstico conceito pós-qualquer-coisa de punk.
Deu para entender?

por Pablo Capistrano [14:38]
4.4.05
Um outro tipo de poesia

Esses são do livro do Francisco Bosco, lançado pela 7letras. Bosco trabalha com outras formas de buscar a "casa do ser" (como diria Heidegger em sua "definição" para a linguagem). Ele aponta para a poesia através dos aforismos e dos fragmentos, caminhando numa linha fina que separa a presença assombrosa da poesia da exatidão lúcida da filosofia.

segue uma amostra:

"As mulheres são seres de cristal líqüido: abreviam-se, compactam-se, fragmentam-se. Desconhecem distância entre a cabeça e os dedos. são leves e ágeis como o suporte: costumam a escrever os melhores e-mails."

"escrever é como perder o corpo. Para a página".

O Leitor de Si

(...)

10. Inseguro, o leitor de si pede uma opinião sincera aos amigos
11. (não sem antes, é claro, exaltar-lhes os últimos escritos):
12. se aprovam, é porque - cumplicidade - são amigos;
13. se criticam, é porque - rivalidade - são amigos;
14. se ambígüos, é porque - eufemismo - são amigos;
15. se demoram, é porque - paranóia - não gostaram.
16. Todos os leitores são suspeitos.

por Pablo Capistrano [10:17]
3.4.05
estamos órfãos

Demian me manda mensagens sinistras sobre seus rituais, bem nessa época da morte do papa. Significativo.

Acho mesmo que vivemos um momento histórico. Eu tinha quatro anos quando o Papa foi eleito em 1978. Não lembro de nada. lembro quando ele levou o tiro em 1981. estava assistindo TV e a programação foi interrompida. fiquei puto porque acho que estava assistindo túnel do Tempo, ou algum programa a altura. minha avó começou a chorar e a rezar.
Foi aí que eu entendi que a coisa era grave.

Se você parar para pensar vai entender que o Papa é aquele que guarda o espírito do império romano. A igreja retém algo do império romano. Ele é o nosso imperador. A imagem de um mundo que se produziu a uma quantidade muito distante de anos mas que, até hoje, reverbera.

Acho que as reações dele a modernidade (aborto, eutanásia, contraceptivos, pesquisas genéticas) refletem algum tipo de experiência conflitante com a modernidade industrial. Vejam que ele viveu a segunda grande guerra e isso é significativo. Ninguém que viveu, de alguma forma, a segunda grande guerra pasou por ela sem ficar marcado. Acho que Wojtyla acreditava que a hecatombe da humanidade poderia ser produzida pela sociedade industrial. Daí o conservadorismo.

até que, olhando por esse ângulo ele tinha suas razões.
Mas é isso.
Estamos órfãos.

Me sinto um romano hoje.

por Pablo Capistrano [03:38]
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