| 30.5.05 |
| Mico do Guarda-chuva |
| Só fui ao último dia do MADA para ver a Plebe. Vinte anos esperando um show. Valeu a pena. Pogo e cerveja até o juízo ficar diluído. Nunca é bom se esquecer que o Superego é solúvel em Álcool. Gostei também da Rádio de Outono de Recife e dos Boonies (?). Agora o grande mico foi o do guarda-chuva. Descobri que você está velho quando saí de casa e tem a idéia de levar um guarda chuva para um show de Rock. Sinal dos tempos. Pior que, a despeito da minha experiência ocular com o céu de Natal, não choveu nada o show inteiro. Ficaram me parando e falando: "guarda-chuva, ehn?". Parecia que eu estava vestido de paraquedista ou estava verde com antenas azuis. Qual o problema de não querer se molhar? Podre. Fiquei lembrando de Woodstock e daquela lama toda. No rain! No rain! O bom da velhice é que ela é democrática, se você não morrer logo ela te pega em algum lugar da tua vida. Preparem-se meninos, um dia vocês também andarão com guarda-chuvas! |
| por Pablo Capistrano [11:16] |
| 28.5.05 |
| Drummond do posto 06 |
| Uma vez estava no consultório de uma terapeuta e depois de falar uns dez minutos perguntei: "Então doutora? O que a Senhora acha disso tudo?". De repente percebi que ela havia sido retirada de um estado letárgico, de um vazio distante e inacessível, no qual, deveria estar imersa em pensamentos diversos, muito diferentes daqueles que eu trazia para o seu consultório. Recuperando-se do susto ela disse: "Vamos discutir melhor isso, o que você acha?". Foi a primeira vez que eu senti como deve ser absolutamente insuportável passar dias e dias dentro de uma sala ouvindo as mais diferentes pessoas destilar seus dilemas morais, suas idiossicrasias e pequenas catástrofes cotidianas. Achei uma saída honrosa para o problema semana que passou. Estava no Rio de Janeiro e me encontrei com o Francis. Sempre que chego à cidade faço um tour pelos bares do Rio. Fomos a um Pub irlandês na General Osório e a uns botecos em Copacabana. Esse é um detalhe curioso sobre os cariocas. Eles não conseguem ficar parados muito tempo num mesmo lugar. É preciso muito fôlego para acompanhá-los numa noitada. O natalense não. Nossas nádegas tem uma fidelidade absoluta a um único bar. Sentamos às nove da noite num boteco e saímos às três da manhã para casa, já trôpegos e sonolentos. As nádegas cariocas são infiéis. Não respeitam a sacralidade de um único bar. Já no amanhecer do dia, passeamos pelo calçadão comprando cerveja nos quiosques da beira da praia até achar o Carlos Drummond de Andrade. Ele estava lá, no posto 06, sentado de modo impassível em seu banco, observando a vida passar pelo calçadão. O Rio de Janeiro soube como homenagear Drummond. Poupou-lhe o suplício do pedestal. Terrível seria pensar num Drummond sentado num trono, observando o mundo de cima, como fizeram com o José de Alencar no Largo do Machado. Seria uma ofensa ao poeta. Mas a cidade é sábia com seus ícones, e pôs a estátua do Drummond na horizontal. No nível da rua. Os Cachorros podem urinar nos seus pés, jovens solitários podem chorar suas dores no ombro do poeta. Drummond pode participar de luais ao som de violões, pode ser o receptáculo de despachos para Iemanjá, pode segurar vela para namorados afoitos e pode também ouvir os lamentos dos passantes que sentam ao seu lado e, cochichado no seu ouvido, confessam seus pecados e suas dores. Também existem riscos. Ele pode perder os óculos, ter suas calças pichadas ou sua cabeça cortada por algum transeunte afoito em derreter metal para vender no varejo. Mas acho que os benefícios compensam os riscos. O fato é que eu e o velho Francis batemos um bom papo com o Drummond, oferecemos até cerveja para o poeta mas ele não se mostrou muito interessado. Passou o tempo inteiro calado, segurando seu livro. Ouviu pacientemente nosso papo de bêbado e não reclamou nem fez menção de ir embora. Pensei que Drummond deve ter se tornado o maior terapeuta do Rio de Janeiro. Nada mais freudiano do que o silêncio do poeta no posto seis. Nada mais maiêutico. Imagino a quantidade de iluminações, visões, aprendizados e percepções que o poeta já presenciou. Nesse dia eu compreendi a função social das estátuas e seu imenso potencial psicanalítico. Talvez, se houvesse uma estátua de Drummond em cada banco de praça do Rio de Janeiro, a cidade pudesse exorcizar melhor seus demônios e aprender a se enxergar de um modo mais sincero, despido de vaidades, ilusões e preconceitos. Eu aprendi há um tempo atrás, muito a contra gosto, que o mundo se move com dinheiro, poder e vaidade, mas que, no fim das contas, é mesmo a poesia a única ferramenta que pode fazer com que o movimento do mundo ganhe algum sentindo e nos salve da tristeza, do vazio e do silêncio irredutível de nossos interlocutores de carne e osso. |
| por Pablo Capistrano [15:42] |
| O poeta e o mar |
![]() |
| por Pablo Capistrano [12:43] |
| 26.5.05 |
| Poltergeist |
| cheguei em Natal e fui acossado pelos resíduos de um Poltergeist. 1. chuveiro elétrico queimado. 2. computador quebrado. 3. gavetas do escritório arreadas com o peso dos livros. 4. problema na fiação dos telefones. 5. relógio da cozinha atrasado. 6. greve de ônibus na cidade. 7. chuva pra cacete. ainda bem que eu não sou superticioso. |
| por Pablo Capistrano [14:06] |
| explicando o morrer |
| viajar é como morrer. quando você se desloca do lugar em que está algo acontece com você. não fica mais o mesmo. não volta mais o mesmo. qualquer viagem é uma forma de se morrer. mas tem a tal da morte mesmo. aquela que acaba o corpo físico e coisa e tal. não é essa que eu estou falando. panta rei, panta corei, etc etc etc. mas eu acho que o ritmo do Rio é muito louco. vale a pena testar para ver até onde o sistema nervoso de um natalense aguenta. somos muito mal acostumados com essa lentidão da cidade. muitos espaços vazios, muita escuridão à noite. um céu absurdamente azul e amplo demais para ser real. no fim pode-se esquecer o céu. no fim eu me acostumaria com as grandes cidades. mas não é se acostumar uma forma de morrer? |
| por Pablo Capistrano [13:51] |
| 24.5.05 |
| Voltando quase vivo |
| De volta do Rio. Quase vivo. Precisei de um dia para me recuperar. Estamos acostumados a ruas semi-vazias e a umas noites bem escuras aqui em natal. Mas aprendi coisas importantes: 1. Cariocas não ficam muito tempo no mesmo lugar. 2. As pessoas saem às três horas da manhã para passear com seus cachorros no calçadão de Copacabana ("tem muita gente nessa cidade que se casou com o cachorro" - diz o Francis). 3.Jacarepaguá (não sei se é assim que se escreve) é o fim do mundo como nós o conhecemos. 4. A cerveja Guiness do pub irlandês na Praça General Osório em Ipanema é boa para cacete, mas a conta que vem depois te deixa extremamente lúcido. 5. A banda do Nix toca um bom Blues. 6. Drummond é um cara legal, mas sua estátua no posto 06 é muito calada. 7. Ninguém sabe onde é o forte de Copacabana. 8. Táxis com motoristas gentis e cultos são mais caros que os táxis com motoristas enfezados e broncos. 9. A livraria Leonardo Da Vinci é um paraíso extremamente fácil de se entrar mas absolutamente inviável de se sair com seu cartão de crédito ileso. 10. A Barra da Tijuca parece Miami. 11. Eu morreria em seis meses se morasse lá. |
| por Pablo Capistrano [15:25] |
| 15.5.05 |
| Poesia da semana |
| Antes de ir ao Rio vou deixar uns poemas com vocês. São do Thiago Barbalho. Um jovem poeta que constrói seus versos entre o desejo e a reflexão, num espaço onde a ausência nos preenche com inusitadas surpresas. Bom prestar atenção no cuidado com que ele constrói o ritmo dos poemas e como nos apresenta, no tempo certo, cada uma de suas imagens. MAÇÃ Desvio uma maçã no momento em que a mastigo eu a traço e a trago para o oco eu a faço fermentar, e sem sufoco; e falsifico seus fragmentos descobertos. Amontôo a morte entre os dentes e depressa pressiono-os sob a despida a gorda prenhe no espaço saliente de visões impróprias no meu modo de apodrecer. E lá age, suculenta, às costas arde porque não se mostra, amassa e lança gérmen, sucumbe mas tenta toda, a maçã morreu por mim. FESTA uma letra alerta: uma porta aberta: uma forma concreta: uma noite: festa MINHA MÃE CHORA Meu pai morreu Minha mãe chorou Meu tio morreu Minha mãe chorou Eu vivo, Eu e minha irmã E minha mãe chora A morte Todos os dias. |
| por Pablo Capistrano [11:55] |
| Tempo Rei I - 16/06/95 |
![]() |
| por Pablo Capistrano [00:05] |
| 11.5.05 |
| Ginsberg fazendo beiço em North Beach |
![]() |
| por Pablo Capistrano [11:29] |
| Crônica - dia das mães de tio ginsberg II |
| Uma deusa de carne e de osso Estranho saber que em algumas comunidades humanas não existe lugar para a palavra Pai. Isso se dá porque, segundo os antropólogos, a base da família é matrilinear. As mulheres, desfrutando de uma liberdade sexual pouco vista nas sociedades patriarcais, tem encontros sexuais fortuitos com diversos homens e criam seus filhos sem, necessariamente saberem quem é o pai de cada um deles. Escandaloso para os nossos padrões morais? Pois é. As culturas humanas são ricas em sua diversidade e isso às vezes assusta. Mas o instituto "mãe" parece ser bem mais recorrente, se não, universal, mesmo que muitos tipos de mães possam ser encontrados por essa aventura de se viver. Abrindo o livro Kaddish, do poeta Americano Allen Ginsberg vejo os seguintes versos: "estranho pensar em você agora que partiu sem espartilhos & olhos, enquanto percorro o calçamento ensolarado de Greenwich Village na direção do Centro de Manhattan, meio-dia claro de inverno e passei a noite toda acordado, falando, falando, lendo o Kaddish em voz alta, escutando o grito cego dos blues de Ray Charles na vitrola,". Essas são as palavras iniciais de uma elegia para uma mãe morta. Naomi Ginsberg era judia, operária, pobre e comunista, filha de imigrantes russos, que ficou louca e morreu num manicômio, deixando o poeta órfão, assolado pelos seus próprios fantasmas. Naomi Ginsberg não foi uma mãe de comercial de TV. Ela não era bonita, não era rica, não foi bem sucedida profissionalmente, não conseguiu manter a sanidade mental exigida de uma mãe para criar seus dois filhos. Presenteou, ao menos o poeta Allen, com o a sombra da insanidade, do abismo e da fragilidade que assola cada um de nós seres humanos lançados no mundo. Mesmo assim, três anos após sua morte, Ginsberg lhe dedicou um dos mais belos poemas escritos em língua inglesa na segunda metade do século XX. Nesse mês de deusas inefáveis. De mães utópicas e ideais. De mulheres superpoderosas exalando uma candura e uma bondade inumana, penso em Naomi Ginsberg e sua maternidade humana, demasiado próxima de nossos fracassos e de nossas perdas. Quantas Naomis andam por nossas avenidas esses dias? Quantas Naomis sucumbem ao peso de uma imagem inatingível de maternidade vendida nos outdoors dos shopping centers? Mesmo sendo judia, como Maria a mãe de Jesus, Naomi nunca conseguiu fiar-se em seu exemplo divino de abnegação e controle. Suspeito que deve ser um grande alívio para uma mulher ler o Kaddish. Escrito pelo poeta em 48 horas de alucinações. Trancado em seu apartamento, sob efeito de um coquetel de anfetaminas. O poema é forte. Com uma grande influência de Whitman, com uma tradição de oralidade que beira o êxtase das profecias bíblicas. A parte IV do livro é espantosa: "Oh, mãe o que eu deixei fora, Oh mãe o que eu esqueci, oh, mãe! Adeus! com um comprido sapato preto (...) adeus, com tua barriga flácida, com teu medo de Hitler, com tua boca de histórias sem graça, (...) com teus olhos de Rússia, com teus olhos sem dinheiro, (...)com teus olhos de aborto, com teus olhos de ovários arrancados (...) com teus olhos de divórcio, com teus olhos de ataque, com teus olhos, só com teus olhos(...)". A mãe operária de Ginsberg é uma mãe que existe em cada esquina dessa terra. Uma mãe de carne e de osso. Uma mãe que, louca, acossada por anjos e por sombras, conseguiu escrever um último bilhete, de dentro do manicômio, para o filho e diz assim: "a chave está na janela, a chave está na luz do sol na janela - Eu tenho a chave - Case-se Allen não tome drogas - a chave está entre as barras, na luz do sol na janela. Com amor, sua mãe". |
| por Pablo Capistrano [11:00] |
| 8.5.05 |
| Poema - dia das mães de Tio Ginsberg I |
| CANÇÃO O Peso do mundo é o amor. Sob o fardo da solidão, Sob o fardo da insatisfação o peso o peso que carregamos é o amor. Quem poderia negá-lo? em sonhos nos toca o corpo, em pensamentos constrói um milagre, na imaginação aflige-se até tornar-se humano - sai para fora do coração ardendo de pureza - pois o fardo da vida é o amor, mas nós carregamos o peso cansados e assim temos que descansar nos braços do amor. Nenhum descanso sem amor, nenhum sono sem sonhos de amor - quer esteja eu louco ou frio, obcecado por anjos ou por máquinas, o último desejo é o amor - não pode ser amargo não pode ser negado não pode ser contido quando negado o peso é demasiado - deve dar-se sem nada de volta assim como o pensamento é dado na solidão em toda a excelência do seu excesso. Os corpos quentes brilham juntos na escuridão, a mão se move para o centro da carne, a pele treme na felicidade e a alma sobe feliz até o olho - sim, sim, é isso que eu queria, eu sempre quis, eu sempre quis voltar ao corpo em que nasci. Allen Ginsberg. trad. Cláudio Willer. |
| por Pablo Capistrano [16:33] |
| 7.5.05 |
| Darwin em 1840 |
![]() |
| por Pablo Capistrano [08:45] |
| Cadernos de Darwin |
"A origem do homem foi demonstrada. A metafísica deve progredir. Aquele que compreender o Babuíno contribuirá mais para a metafísica que Locke". 16 de Agosto de 1838 "Platão (...) diz em Fédon que nossas 'idéias imaginárias' derivam da existência anterior da alma, não nascem da experiência. Ler macaco no lugar de existência anterior". 23 de Setembro de 1838 "Estudar metafísica da forma como ela sempre foi abordada me parece tão ineficaz quanto compreender astronomia sem a mecânica. A experiência demonstra que o problema do espírito só pode ser resolvido com uma abordagem direta do problema. Devemos ter uma base sólida a partir da qual conceber nossa argumentação". 04 de Outubro de 1838 |
| por Pablo Capistrano [08:31] |
| 4.5.05 |
| Distúrbio da galinha de Russel |
| Olhando para uma canja você pode pensar que o sujeito que torceu o pescoço da galinha que a constitui foi o mesmo que, durante muito tempo, cuidou dela e alimentou-a, zelando pela sua saúde e segurança desde que saiu do ovo. A galinha morreu por ter uma visão equivocada acerca da uniformidade da natureza. Ela acreditou que o seu dono iria repetir o padrão de comportamento que sempre teve para com ela. Russel indica, seguindo Hume, que nenhuma quantidade de experiências poderá provar a validade de uma teoria. Então: cuídado com suas induções. Elas podem te levar, de modo inexorável, no caminho da canja. |
| por Pablo Capistrano [09:37] |
| 2.5.05 |
| foto |
![]() |
| por Pablo Capistrano [08:44] |
| 1.5.05 |
| Leminski mesmo |
| Coisas estranhas na rede. um poster metafísico do Leminski apareceu no mural do Pablo. Alguém acredita em comunicação mediúnica via internet? Tio Leminski deve estar, lá do outro lado, pedindo um espaço no mural. Pedido atendido. Pau na máquina! Epístola a Régis Paulo, pequeno irmão, da pequena cidade de Curitiba, ilha de certeza cercada de pequenos problemas por todos os lados, a Régis, grande irmão, na grande cidade de São Paulo, cercado por um grande problema ....................................... pare de se lamentar como uma velha carpideira siciliana esse teu medo de ter secado tua fonte de poesia é apenas para nos deixar preocupados eu já te disse PARA SER POETA TEM QUE SER MAIS QUE POETA v. tem que ser um monte de outras coisas mais senão daonde? v. vai acabar fazendo literatura de literatura v. tem que esculhambar mais pintar mais por fora das molduras EXISTENCIALMENTE esculhambe-se vire-se altere dê alteração considere a possibilidade de ir pro Japão rejeite o projeto de felicidade q a sociedade te propõe eu sei v. é paulista mas ser paulista não é tudo rompa fique mais irregular seja mais inconveniente é a linguagem que está a serviço da vida não a vida a serviço da linguagem a linguagem vem sai na urina acontece fazer poema não é a coisa mais importante mas para quem faz é e tem que ser assim o signo é nosso destino nossa desgraça e nossa glória uma aranha sempre sabe que depois desta teia virá outra teia e outra teia e outra uma aranha não duvida v. vê não há pressa: malarmé deixou meiadúzia de coisas augusto idem não se importe com a frequência/a fecundidade/ a abundância uma década pode esperar um bom poema. (OUTUBRO 77) |
| por Pablo Capistrano [20:17] |
|