27.6.05
Torquato Neto

Texto de Torquato Neto, escrito em Fevereiro de 1963 (provavelmente numa mesa de bar).


"Neste momento em que devem existir centenas de outros bares
espalhados onde outros tantos poetas também sentem e exalam esta verdade
sem que possam compreendê-la e a aceitarem; neste momento
em que os que compreendem também têm que aprofundar-se no raso de alguns
copos e também sentem a necessidade de algum
de muito jazz
com o qual possam realizar o exorcismo que os acorde
deste pesadelo insuspeitado
e muito triste;
neste momento em que os homens e as mulheres continuam a se vender
por qualquer outro momento
e em que os homens e as mulheres quase têm certeza que continuam
a vender suas angústias
em troco de malquebradas ilusões sem base ou cimo;
neste momento em que todos se abraçam em um só desespero
e procuram um ponto de apoio
e encontram apenas um ponto de apoio;
neste momento é preciso amar este ponto de apoio;
neste momento é preciso louvar esta cabeleira branca
esta força última
estes olhos que brilham ainda lúcidos
esta garganta que protesta e sempre
esta velhice que é a juventude de um mundo que ainda consegue alimentar
esta vontade de ser estufa da vida e o pasto dos homens
esta trágica vontade de ser mundo
- e se mande dizer à cabeleira branca
e à força última
e aos olhos ainda lúcidos
e à garganta que protesta de Lord Betrand Russel
que os poetas do mundo e que os homens do mundo o amam
e o veneram
e lhe precisam".

(citado por Toninho Vaz)

por Pablo Capistrano [11:52]
Scar Tissue

Dica de livro para as Férias: Scar Tissue. A Biografia do Anthony Kiedis.
Adoro biografias. São as mentiras mais verdadeiras que se pode contar sobre a vida de alguém.

por Pablo Capistrano [11:41]
São João e Carnaval

Nasci no dia 07 de Fevereiro acho que por isso gosto mais do carnaval do que do São João.

Carnaval é uma festa litorânea, o São João é sertaneja.
O carnaval é uma festa da água o São João é do fogo.
O Carnaval é no verão o são joão no inverno.
No carnaval as pessoas bebem no São João elas comem.
No carnaval as pessoas ficam nuas e fazem sexo no São João elas se vestem para casar.
No carnaval você dança como quer, no São João você ensaia uma quadrilha.
O carnaval é a festa da horda informe, da massa amorfa. O São João da família patrilinear.

Só uma opinião.

por Pablo Capistrano [11:38]
21.6.05
Depois da Cana - Posto 06

por Pablo Capistrano [11:09]
Centenário de Jean Paul

Outro dia um antigo professor meu do curso de filosofia me encontrou na rua e perguntou: "E aí Pablo, virou jornalista?".

Lembrei imediatamente de Sartre e de uma história que contam sobre ele (não sei se é verdade). Dizem que Sartre tentou marcar uma audiência com Martin Heidegger e que o filósofo alemão teria dito: "diga que não recebo jornalistas". Fofocas à parte, existe um subtexto nessa história de "jornalista".

Para um filósofo "sério" o jornal não é um lugar para se escrever. A velocidade e massificação das idéias suscitariam um sem número de equívocos conceituais e uma tão grande quantidade de mal entendidos que não seria, filosoficamente correto, expor suas idéias para a massa, nas páginas de um jornal.

Sartre subverteu essa idéia e agora, que fazem cem anos de seu nascimento, a popularidade que ele conseguiu em vida parece atuar como um fantasma, no que diz respeito à respeitabilidade acadêmica de seus textos. Esse é um preço que se paga por tentar transformar a filosofia em algo compreensível para as massas. Bertrand Russel, filósofo inglês, passou pelo mesmo processo. Passou a bola da filosofia da matemática e da lógica para seu aluno, Ludiwg Wittgenstein e foi fazer política nas páginas dos jornais ingleses.

O fato é que esse preconceito platônico acaba por condenar a obra de Sartre, mas, curiosamente, não condena a obra de Hegel, um compulsivo escritor de artigos de jornal. Podem gemer e jogar pedras, mas acredito que Sartre tenha sido realmente o último grande pensador francês. Sua tentativa filosófica mais ousada parece ter sido a de unir o pensamento pós-metafísico de Marx à ontologia do monstro Nietzsche-Heidegger, a fim de produzir uma resposta Franco-germânica à avalanche das idéias derivadas da filosofia analítica inglesa, de Russel e Wittgenstein.

Além disso, Sartre tentou também salvar o humanismo do colapso inevitável que o século vinte impôs às utopias iluministas. Seu esforço foi sobre-humano e sua influência, foi tão marcante na política e nos costumes do século vinte que podemos pensar em Sartre como o grande articulador conceitual da revolução dos anos sessenta. Sua ontologia subversiva, que inverte a idéia tradicional de que a essência é condição para a existência, mexeu com a cabeça da juventude do pós-guerra e deu a um mundo vazio e desertificado pelo massacre tecnológico uma lufada de ar e de esperança.

A liberdade poderia ser não apenas um valor, mas um componente original da própria natureza humana. A liberdade não seria um acidente de circunstâncias históricas, mas um dado inexorável de nossa condição de homens. O medo da liberdade deveria ser enfrentado. O pânico de termos de escolher aquilo que somos, sem nenhuma determinação histórica, genética ou espiritual deveria ser combatido. A mitologia do destino e a ilusão de que poderíamos nos esconder atrás de desculpas esfarrapadas deveria ser contraposta por uma postura que nos impõe, a todo instante, a escolha de nós mesmos.

Isso pode ser até utópico, ontologicamente questionável, cientificamente desprovido de sentido, mas que é estimulante pra cacete, ah, isso é. A maior inveja que eu tenho de Sartre é dele ter nascido num país que não tem vergonha de pensar. Que não se sente minimizado ou desconfortável com a inteligência alheia. Que sabe dar àqueles que se dedicam à tarefa de empurrar a massa cefálica da humanidade para a borda de suas possibilidades, o devido reconhecimento.

Quando ele morreu no começo da década de 80, cego e detonado pelo cigarro, cinqüenta mil pessoas foram às ruas de Paris chorar seu enterro. Algo impensável num país só consegue chorar a morte de seus pilotos de fórmula 1.

Em algum lugar da minha biblioteca, de onde escrevo essas crônicas e artigos para você, amigo leitor, tenho um quadro de Sartre, retirado da coleção Pensamento Vivo, onde o velho feio e com distúrbio ocular me diz sempre: "O inferno são os outros".

Hoje, cem anos depois de seu nascimento, penso em todos outros, e nessa inevitável doença do pensamento, que fazem a todos os filósofos, jornalistas ou não, acadêmicos ou não, a dedicar a vida à tarefa silenciosa e solitária de pensar. Espero que um dia o Brasil tenha cinqüenta mil almas para chorar a nossa morte.

por Pablo Capistrano [09:50]
18.6.05
Canções das estações

Inverno: Daffodil Lament - The Cranberies
Primavera: Clube da Esquina - Clube da Esquina.
Verão: Redemption Song - Bob Marley
Outono: I´ll be your Mirror - Velvet Underground

por Pablo Capistrano [15:22]
15.6.05
Tempo Rei III - Potengi na época da guerra do Peloponeso

por Pablo Capistrano [11:16]
esperando o inverno passar

Enquanto o Brasil se rasga em dois com as denúncias de corrupção eu sigo ouvindo The Cranberries e lendo Jonathan Swift.

Ouvir Cranberries no inverno é uma de muitas de minhas idiossincrasias.
Tem a ver com imagens tão particulares que, muito provavelmente, devem dizer respeito apenas a mim e aqueles que, como eu, tiveram experiências semelhantes durante o mês de junho.

A embriaguez em campo aberto, o som da música propagando-se ao redor da fogueira, as alucinações de mundos estranhos, distantes e de objetos que voam no céu, criando portas e passagens para a imaginação, a face de Deus no orvalho molhado ao amanhecer, vales úmidos cobertos de cana de açúcar, montanhas de 4800 metros de altitude, roupas coloridas, pára-choque do carro coberto de lama, uma conversa em Saqsaiuaman com uma moça do hawai e depois eu sozinho e perdido pelas ruas de Cuzco.
Coisas que só eu e o inverno somos capazes de entender.

Então, sempre que ele (o inverno) aparece, eu retorno ao primeiro disco do Cranberries para subverter a idéia de Aristóteles, presente na sua Metafísica, de que o tempo é linear.
Essa ilusão estranha de que as coisas só se sucedem umas as outras, e de que nada retorna, nada se repete, de que tudo é único e irredutível a si mesmo.

Retorno as canções de Noel Hogan e Dolores O´Riordan para tentar recuperar a intuição de Nietzsche nos montes do sudoeste da Suíça.
A intuição do eterno retorno do mesmo.
Intuição do ciclo interminável da vida e da circularidade do tempo.
A intuição de que, a despeito de toda transitoriedade, é possível encontrar algo de regular no vai e vem das estações.

Então, porque é inverno, eu não estou interessado no mundo, e se Deus, ou o demônio, me propusessem escolher entre o mundo e Jonathan Swift, eu escolheria Jonathan Swift.
Porque o mundo, apesar de poder existir sem Swift, perderia seu sentido e é melhor não haver mundo algum do que um haver um mundo sem sentido.

Então, quando o inverno passar, e o primeiro disco do Cranberries deixar de tocar no aparelho de som do meu carro eu prometo que irei pensar na corrupção, que irei discutir política, que irei tecer teorias sobre os destinos da raça humana, tomar posição sobre o escândalo do momento.

Por enquanto Gulliver, em suas viagens, ainda está em Brobdingnac, conversando com o Rei e dizendo para mim: "Mas logo me informei, tanto por conversas quanto pela leitura da história daquele país. No decorrer de muitas eras, eles tinham sido contaminados pela mesma doença da qual toda a raça humana é vítima: a nobreza brigando pelo poder, o povo pela liberdade e o rei pelo domínio absoluto".

Ele me faz lembrar que o inverno passa e que tudo, tanto as folhas úmidas no amanhecer do mês de junho, quanto os escândalos da política, parecem se repetir, de modo absurdamente tedioso, no vai e vem das estações.

Mas, porque Gulliver ainda não chegou em Laputa e ainda não cheguei à faixa sete do primeiro disco do Cranberries eu ainda tenho um crédito com a realidade.
Enquanto houver uma chuvinha rala no pára-brisa do meu carro eu vou me dar ao luxo de pôr a realidade no canto que ela sempre deveria ter estado, bem longe de meu inverno.

por Pablo Capistrano [10:59]
11.6.05
Poema de amor

O Romance da Cidade do Natal foi escrito por Nei Leandro de Castro em 1964 e publicado pela primeira vez em 1975. Ganhou uma segunda edição no século XXI e costuma a iluminar a cidade de poesia quando a chuva bate forte e o frio de junho chega.
segue um fragmento:

"uma cidade não se abre
fácil, como um guarda-chuva,
a quem sequer não a tem.
Uma cidade é como a luva:

sem o gesto e a medida
exatos de quem a calça,
jamais se entrega a alguém
por mais força que se faça"

mais pistas para decifrar a cidade.

por Pablo Capistrano [12:47]
Tempo Rei II - Ponta Negra na pré-história

por Pablo Capistrano [12:44]
8.6.05
Escrever

Duas regras básicas sobre escrever:

(1) nunca perder a paciência quando o papel insiste em ficar em branco.
(2) acostumar-se com a solidão da própria linguagem.

por Pablo Capistrano [02:42]
Meio mosquito

Hoje a doutora do hospital são Lucas me disse: "Como o nível de suas plaquetas está baixo é possível que seja dengue".

Depois de dois dias de febre não é muito reconfortante saber que você foi nocauteado por um mosquito.
Imediatamente me lembrei de um ataque numa sala de aula da UFRN na semana passada. Entrei na sala e fui violentamente agredido por uma horda de mosquitos invisíveis que, a semelhança das hordas demoníacas descritas no livro de John Milton , O Paraíso Perdido, pareciam querer transformar minhas pernas em um deserto vazio e inóspito.

Na hora eu lembrei da dengue, mas já era tarde.

Minha vó sempre dizia que eu tinha o sangue doce. Sempre fui alvo preferencial de mosquitos. Talvez por causa da minha alergia. Não sei. O fato é que por algum dado do acaso a dengue sempre passou por mim mas nunca se instalou.

Depois disso andei pensando um pouco nas idéias malucas de Demian sobre a teoria das mutações genéticas produzidas por vírus. Ele acredita mesmo nisso. A noção de que um vírus é uma cápsula de transmissão de material genético de um espécie para outra. Um agente de promiscuidade evolutiva que vai transformando os corpos por onde passa, alterando a constituição genética das células hospedeiras e carregando informações genéticas de um lado para outro, cruzando a barreira das espécies e forçando o caminho da evolução.

Não sei se há base científica nessa hipótese (acho que não posso chamar isso de teoria), mas que parece bem instigante para mentes susceptíveis aos delírios da literatura, isso sim.

O fato é que estou me sentindo meio mosquito hoje. O quê, olhando para alguns membros da minha própria espécie, não parece lá ser um grande demérito.

por Pablo Capistrano [02:37]
4.6.05
trabalho, trabalho, trabalho

250 artigos para corrigir. trabalhos acadêmicos.
Pernsei na frase grafada no portão de Auschwizt:
Arbeit macht Frei.

nada mais irônico e atual.

por Pablo Capistrano [20:35]
3.6.05
cena musical

No Orkut tem uma comunidade interessante chamada Rock Alternativo Natal, na qual 354 membros (atualmente) discutem questões relativas a produção musical contemporânea. Surgiu na lista a informação que o Paulo André, produtor do Abril Pro Rock (festival tradicional de Recife) teria dito numa entrevista à revista Outra Coisa, o seguinte:

"A grande diferença entre o APR e o MADA, que é um grande festival nordestino e um dos grandes do Brasil, ao lado do Porão, é que eles não têm a produção musical local como há aqui. O APR privilegiou a cena local, e mostrou que ela não era fogo de palha. Esta produção continuou existindo. E vai continuar por muito tempo mais."

sem querer instigar um conflito armado RN/PE e, levando em consideração que o rapaz tenha dito isso mesmo (não li a revista e não posso atestar) vale a pena uma reflexão?

por Pablo Capistrano [09:39]
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