28.7.05
O Psicodélico Willy Wonka

Uma vez perguntaram a Picasso porque ele teria abandonado o realismo das pinturas que fazia quando tinha quinze anos de idade e optado por uma pintura mais primitiva, quase infantil, como a que fazia no final de seus anos.

Ele teria respondido: "passei a vida inteira tentando reaprender a pintar como uma criança".

O que mais me chamava atenção quando assistia na sessão da tarde (por volta do final dos anos setenta e começo dos anos oitenta) ao filme ?A Incrível Fábrica de Chocolates?, na versão dirigida por Mel Stuart e estrelado por Gene Wilder (no papel de Willy Wonka), era a tensão entre o real e a fantasia.

Lógico que eu não sabia disso.
Nenhum garoto de sete anos vai formalizar mentalmente as estranhas e escorregadias relações entre o princípio do prazer e o princípio da realidade (apesar de sentir isso na carne, como qualquer ser humano).
Mas por trás da fábula moral (inspirada em Dickens, mas com um colorido de Carroll e Barrie) escrita por Roald Dahl em 1964, existe uma instigante reflexão sobre o prazer e a dor, sobre o desejo e a disciplina.


Existe algo de lisérgico na figura de Wonka (um garoto abusado pelo pai - um dentista severo que o proíbe de comer doces - e que se tranca com os anões Umpa Lumpa numa fábrica fantástica para produzir chocolate). Há algo de estranho, sinistro e oculto na personalidade do personagem que o faz ser, ao mesmo tempo, inquietante e fascinante. A atuação de Johnny Depp criou um Wonka mais bizarro do que o do Gene Wilder (na versão de 1971) que parecia muito mais um homem melancólico e angustiado do que o freak traumatizado com gestos afeminados e pele cinza-esverdeada de Depp.

Isso prova a força do personagem.


Confesso que várias vezes na minha vida posterior àquelas tardes em que assistia a primeira versão do filme tive a sensação de ter entrado na incrível fábrica de chocolates de Willy Wonka.

Quando tomei meu primeiro porre de vinho; quando mergulhei pela primeira vez em Fernando de Noronha na Baía dos Porcos; quando voei sobre um colchão de nuvens em cima da cidade de Lima no Peru, quando escutei pela primeira vez Pink Floyd (especialmente See Emily Play), quando li Franz Kafka, quando entrei na primeira vez no bar El Chaco e em muitas outras oportunidades que não posso expor nesse Blog devido ao risco de ser mal compreendido.

Na verdade, entrar na fábrica não é lá tão difícil, apesar de existirem, como no livro de Dahl, poucos cupons dourados que te levam lá para dentro.

Difícil é permanecer lá e lidar com as tentações. Essa parece ser a grande lição moral da história.

O prazer e a fantasia são mecanismos extremamente poderosos. Qualquer criança sabe disso. Mas esses são também mecanismos arriscados que podem levar você à loucura ou ao inferno da obsessão e da melancolia. Esse é um aprendizado difícil que te faz, entre outras coisas ruins, virar adulto.

Hoje, mais do que nunca, eu entendo a frase de Picasso.

Acho mesmo que a vida é um exercício de esquecimento e lembrança. Uma vibração de memória e abandono.

Temos que esquecer a infância para sobrevivermos até a vida adulta e procriar, depois, vamos passar o resto de nossos anos tentando lembrar dela e recuperar o colorido psicodélico da fábrica de chocolates de nossos próprios sonhos e desejos. Nem sempre a gente encontra os cupons dourados (na infância eles são mais abundantes) para voltar lá e dar uma olhadinha no outro lado, mas com uma ajudazinha do cinema, bem que a procura fica mais fácil.

por Pablo Capistrano [07:23]
21.7.05
CONVITE

por Pablo Capistrano [10:29]
20.7.05
we´re only gona die

Sabe o que eu gosto no punk? É essa coisa cômica meio adolescente onanista cheirador de cola que aparece em algumas letras.

Os títulos das músicas também são impagáveis.
Sexta passada encontrei na Velvet discos uma coletânea do Bad Religion de 80 até 85 (tempo em que eles faziam um Hard Core feio sujo e malvado de verdade).

Olha só o título das músicas: "we´re only gona die"; "fuck Armageddon"; "eat your dog"; "slaves".

Muito engraçado.

por Pablo Capistrano [18:14]
18.7.05
sexo com livros e outras bestialidades

Por que eu fico puto quando perco um livro?

Veja.
Não sou um bibliofilo, daqueles que passam horas num sebo atrás de uma edição de 1932 do Assim Falava Zaratustra em alemão.
Não tenho com livros o fetiche do objeto.
(Curioso isso, tenho com CDs e Vinis, mas não tenho com livros).

Gosto do que os livros guardam lá dentro, no meio das páginas. Por isso meus livros são imprestáveis para venda. Todos riscados de cima à baixo. Um horror.
Parece que tenho mesmo uma relação quase sexual com eles. (O meio das páginas de um livro parece uma imagem bem vaginal, dá quase para ver o ponto G aberto na dobra entre uma página e outra). Um troço muito profano mesmo esse de abusar do corpo do livro.

Mas quando eu estou escrevendo alguma coisa e preciso de uma informação que está dentro de um livro e ele some, então o macaco de 400 kilos que mora em mim acorda e eu perco a noção da realidade.

E o pior é que a porra desses livros gostam mesmo de sumir.
Se alguém tiver noticias de meu livro sobre Heráclito escrito por Martin Heidegger, por favor, entre em contato por esse site.

Um artigo acadêmico depende desse texto para vir ao mundo.
E acho que vocês não estão muito interessados em presenciar um aborto, não é?

por Pablo Capistrano [17:36]
17.7.05
RHCP - Blood Sugar Sex Magic

por Pablo Capistrano [08:22]
14.7.05
Noite sem dormir

Começou de novo.
Mais uma noite sem dormir direito.(não é algo usual, mas ultimamente tem sido uma constante)

Uma das coisas mais interessantes na insônia é que ela tem tudo a ver com a brevidade da vida. A idéia de que a vida passa e que eu estou dormindo. Então eu acordo e penso: "preciso fazer algo".

Marcus Neves, meu camarada de viagens filosóficas, ontem me disse lá em cotovelo enquanto tomavamos uma cerveja observando a barreira do inferno (uma formação de argila vermelha imensa numa praia e que os pescadores diziam ser um portal para o inferno)que quando você começa a dominar os sonhos, dormir passa a ser algo muito mais interessante.

mas estou longe de ter esse controle de meus sonhos.
Nem lembro muito deles.
As vezes sinto como se dormir fosse uma espécie de coma natural, um estado de letargia que retira o sujeito desse mundo e o lança muito longe. em locais estranhos e inóspitos.

O mais angustiante da insônia, no entanto, é quando o sol começa a nascer e o sujeito se desespera, pensando: "a noite acabou!!! a noite acabou!!!".

ainda bem que eu sou um sujeito que adora as alvoradas e detesta os crepúsculos.
nada pior para os nervos do que a luz das cinco da tarde.
Ok.
vamos tentar de novo.

por Pablo Capistrano [04:15]
9.7.05
Under the Brigde - Gestação de uma canção

Do livro do Anthony Kiedis.

"Um dia apareci no ensaio e Flea e John estavam tão chapados que me ignoraram. Precebi pelo jeito como John me olhou que não éramos mais amigos de verdade, a não ser pelo fato de estarmos na mesma banda e nos respeitavámos. Naquele dia voltei para casa dirigindo pela autopista gelada e minha sensação de perda e solidão provocaram memórias de minha época com Ione, quando eu tomava picos com bandidos embaixo do viaduto. Senti que tinha jogado fora muita coisa na vida, mas também senti uma ligação muito forte entre mim e minha cidade. Eui tinha passado tanto tempo vagando pelas ruas de Los Angeles que senti que uma entidade sobre-humana estava à minha procura, talvez o espírito das colinas e da cidade.

Comecei a compor uma poesia no carro, coloquei as palavras numa melodia e cantei durante todo o trajeto. Quando cheguei em casa, escrevi tudo."

Sometimes I feel like I don´t have a partner
Sometimes I feel like my only friend
Is the city I live in, the city of Angels
Lonely as I am, together we cry.
I drive on her streets´cause she´s my companion
I walk trough the hills ´cause she knows who I am
She sees my good deeds and she kisses me windy
I never worry, now that is a lie.

I don´t ever want to feel like I did that day
Take me to the place I love, take me all the way
It´s hard to belive that I´m all alone
At least I have her love, the city she loves me
Lonely as I am, together we cry.

I don´t ever want to feel like I did that day
Take me to the place I love, take me all the way

Under the bridge downtown
Is where I drew some blood
Under the bridge downtown
I could not get enough
Under the bridge downtown
Forgot about my love
Under the bridge downtown
I gave my life away"

Lembrei de um dia em 1992 quando fui visitar Carlos Negreiro em Extremoz (zona norte de Natal). Ele morava num galpão de uma fábrica de detergentes, num quarto lá atrás, ou coisa do tipo. Ouvimos essa música no vinil do Red Hot umas dez vezes seguidas. Não tinhamos grana. Não tinhamos futuro. Não tinhamos espectativas.

Mas nada no mundo pode pagar esse tipo de liberdade.

por Pablo Capistrano [15:52]
6.7.05
Falando Sério II - Mapas Corticais e a hipótese Matrix

Outra coisa interessante é a idéia do Matrix sobre a criação de um universo virtual. Se for possivel identificar no cérebro áreas responsaveis pela formação das estrutras que fundamentam a nossa percepção do mundo e se for possivel manipular e reconfigurar essas áreas então a coisa tem, ao menos em tese, alguma coerência.

Há uma região no córtex humano, responsável pela cognição, de aproximadamente 40 cm de diâmetro, que se dobra como uma folha de papel e que é responsável por construir os ?mapas? do mundo exterior, impressos durante a infância.

Alguma das áreas dessa região são responsáveis pelas mensagens visuais do nervo ótico e que podem mapear, por exemplo as dimensões de um objeto, sua largura, seu comprimento ou a orientação de suas extremidades.

Em 1960 essa área foi mapeada a partir dos trabalhos de David H. Hubel e Torsten N. Wiesel que propuseram a construção de um diagrama para a construção de um córtex visual.

Não surgiria aqui a possibilidade da diagramação de outras áreas responsáveis por outros elementos da cognição, de modo a se construir uma forma de mundo diversa da natural? A hipótese de Matrix poderia ser bem mais viável e bem menos fantasiosa do que parece a primeira vista.

por Pablo Capistrano [15:25]
Falando Sério - Chips Neuromórficos

Depois da sacanagem do poster anterior vamos falar sério sobre o assunto:


Num computador tradicional ajustes realizados no software simplesmente mudam a ordem no qual as ferramentas lógicas são utilizadas. O mecanismo do cérebro parece ser diferente o nele o "hardware" é programado em nível das conexões neuronais individuais.

Isso ocorre de modo que essas conexões se adaptam as tarefas que o cérebro vai realizar num determinado momento. É como se, para cada mecanismo lógico do software o hardware se ajusta-se de um modo distinto.

Aí poderia estar uma saída viável para o problema de tentar reproduzir artificialmente a complexidade do cérebro.

A rede neuronal do cérebro humano, com um trilhão de neurônios conectados por dez quatrilhões de sinapses dificilmente poderia ser reproduzida em chips de silício.

Agora, se fosse possível desenvolver um chip neuromôrfico (a base de Cálcio talvez e não de Silício) que tivesse uma mesma capacidade de interação plástica hardware/software do cérebro humano a coisa poderia ser diferente.

por Pablo Capistrano [15:21]
3.7.05
South Park e a Filosofia da Mente

O episódio de South Park desse Sábado foi muito interessante. Só vi o fim mas acho que por algum motivo escuso o Cartman se disfarçou de Robô. Ele foi descoberto após peidar. Afinal, seria possível a criação de criaturas artificiais, cérebros de Silício, que peidem?

Lembrei das intermináveis discussões sobre a Inteligência Artificial nas aulas de filosofia da mente, no mestrado de Metafísica. A idéia parece ser a de que a consciência é uma função do cérebro, ou melhor, um modo de organização de determinadas funções cerebrais, de maneira que, se você reproduz a organização da função em outros meios, como por exemplo, numa rede de chips de Silício, poderia reproduzir a consciência.

Essa é a hipótese da tal metáfora Hardware / Software. O Hardware seria o cérebro e o Software a consciência. Os críticos afirmam que isso cria um dualismo mente/cérebro semelhante ao dualismo mente/corpo cartesiano.

Outra frente de combate a Inteligência Artificial é a idéia de que a consciência é uma função biológica (e não meramente organizacional) de determinados meios materiais formados apenas a base de CHON (Carbono, Hidrogênio, Oxigênio e Nitrogênio), ou seja, criaturas vivas de modo que, para se fazer um robô como o Cartman tentou imitar no episodio de South Park seria necessário produzir microchips a base de carbono e não de silício. Ou seja, criar um clone e não um andróide.

Agora apareceu mais um problema. Tem uma turma alegando que no caso humano as funções organizacionais de conexões entre neurônios interagem com o a estrutura material do cérebro, modificando a estrutura biológica do dito cujo.


Mas ainda tem o problema do peido.
Como imaginar que apenas a consciência define o homem? Também não somos animais que peidam? Não seria o pum um elemento também importante na constituição daquilo que chamamos Humano? Flatulo ergo sum.

Esta deve a próxima grande questão filosófica a ser respondida.

A próxima grande geração de criaturas artificiais necessitará flatular e não apenas vencer partidas de xadrez.

por Pablo Capistrano [17:43]
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