| 27.10.05 |
| Confortavelmente entorpecido |
Nunca vi tanta gente falando em fim do mundo quanto esses dias. Se você parar para pensar o medo está em alta nessa estação. Começamos o ano com 200 mil mortos numa onda gigante. Depois o Roberto Tisunami Jéferson ganhou seus 15 minutos de fama como o arauto do apocalipse político e matou de vez a esperança nacional e a fé no Estado brasileiro. A imagem de Nova Orleans debaixo de água deu aquele gosto de "aquecimento global! Aquecimento global!". Então a Amazônia secou e todo mundo ficou assustado, com medo de demorar demais no banho e acabar com o resto de água que ainda tem. Como se não bastasse o povo deu um Não para o Sim e os argumentos do tipo "papai quero ser cangaceiro", "mamãe, tenho medo do ladrão" e "Titio, o Estado quer me maltratar" ganharam as ruas e convenceram dois em cada três brasileiros que a melhor maneira de estar seguro é se armar. Agora aparece um novo capítulo na nossa comédia humana: "a vingança das galinhas". Durante milhares de anos as aves comiam nossos ancestrais primatas. O Gastornis, uma ave pré-histórica que viveu em algum período do tempo entre a extinção dos dinossauros e o surgimento dos primeiros australopitecos à uns 3 milhões de anos atrás, já esteve no topo da cadeia alimentar, assustando os outros bichinhos pela floresta e andando tranqüilo e relaxado por aí. Mas a evolução deu seus pulos e o Gastornis encolheu e começou a ser comido e criado no quintal pelos mesmos primatinhas inocentes que pulavam de galho em galho para fugir da morte. Agora, a gripe do frango começa a assustar a espécie e causar aquele movimento histérico que é a cara da nossa mudança de milênio. Minha bisavó, Dona Joana Fernandes de Macedo, dizia que na época da gripe espanhola o pessoal trazia gente morta em carroças para enterrar em valas comuns aqui em Natal porque não dava tempo de fazer os caixões. Sinistro não? Ainda mais quando começaram a aparecer estudos dizendo que o vírus da tal gripe de 1918 pulou das aves para os humanos. O problema é que naquela época, muita gente morria por causa da bactéria secundária da pneumonia, coisa bem previsível de acontecer num mundo sem antibióticos. Talvez as galinhas estejam mesmo se vingando dos anos e anos de dominação e mostrando para a gente que estar no topo da cadeia alimentar não é lá um estado tão confortável. Hoje o tal vírus parece que tem uma letalidade de 50%. Ou seja, se dez pessoas da sua família o contraírem, amigo leitor, provavelmente cinco iriam morrer. Mas.... tenha calma! Não precisa sair correndo para comprar Tamiflu na farmácia (até porque você não vai achar mais eh eh eh). Vírus são coisas simples, mas não são estúpidos. Quando eles sofrerem a mutação para se transmitirem de humanos para humanos, provavelmente essa taxa de letalidade vai baixar porque, afinal de contas, não é inteligente para um vírus matar uma quantidade muito grande de seus próprios hospedeiros (espero!). O fato é que esse medo do fim do mundo pode ser bem útil. Saber que a morte é uma possibilidade sempre presente na vida das pessoas é uma dádiva. Uma boa maneira de retirar o homem de seu confortável entorpecimento. Então, pense em fazer alguma coisa decente nessa sua vida idiota. Aprenda a fazer sua existência valer a pena, porque mais cedo ou mais tarde ela acaba. Deixe de ficar gemendo com medo do fim do mundo e polua menos o seu ambiente. Lute para fazer a vida do seu vizinho melhor. Pare de consumir porcaria no Shopping Center e escute o que tio Wittgenstein diz: "Se por eternidade não se entende a duração temporal infinita, mas a atemporalidade, então vive eternamente quem vive no presente. Nossa vida é sem fim como nosso campo visual é sem limites". Um dia depois do outro, um dia depois do outro, um dia depois... |
| por Pablo Capistrano [11:52] |
| 24.10.05 |
| Poema de Paulo Leminski |
| acabou a farra as formigas mascam os restos da cigarra. fui! |
| por Pablo Capistrano [00:08] |
| 23.10.05 |
| Domingo de Manhã |
| Acordei hoje de manhã ouvindo Velvet Underground. Escrevi um poema (depois de uns três mil e seiscentos anos de prosa). Fiz uma lista de motivos para ir ao referendo e fui votar. Meus motivos para o sim Motivo emocional: perdi um amigo de quinze anos, um primo e um tio por arma de fogo (respectivamente: acidente, assasinato por motivo fútil, suicídio). Motivo epistemológico: não consigo encontrar um critério epistêmico seguro que me permita diferenciar um bandido de um homem de bem. Motivo jurídico: a condição para a construção da liberdade individual sob uma lei universal da liberdade implica que determinadas liberdades que sejam uma afronta a liberdade universal sejam coagidas. Motivo Político: uma sociedade que fia a sua própria segurança na auto tutela armada de seus cidadãos está caminhando para um estado de guerra perpétua e barbárie generalizada. Ou seja, vai falir e quebrar no meio. Motivo Econômico: não quero que o SUS gaste mais dinheiro do meu imposto com gente baleada. Motivo psicológico: Eu não me sinto seguro sabendo que o vizinho da minha esquerda tem uma arma de fogo em casa. Motivo de foro íntimo: não gosto de armas de fogo. Quando era criança gostava mais de brincar com o Playmobil da idade média do que com o Forte Apache. Motivo estético: um tiroteio é feio para cacete. Melhor ficar em casa assistindo o Vôo do Dragão. Motivo ontológico: armas de fogo servem ao Nada e eu prefiro o Ser. Motivo moral: "a natureza aproveita a maldade do homem para seus fins". Motivo poético: "vai, vai, vai, disse o pássaro. A espécie humana não suporta realidade em demasia". Motivo militar: armas que matam a distância são para covardes. Motivo sacana: quero falir a Taurus para que a Globo faça a tal empresa de segurança com as multinacionais Belgas e Suíças. Motivo midiático: me senti intelectualmente ofendido quando a propaganda do Não comparou um detergente a uma arma de fogo. Motivo Religioso: Se Deus existir ele não vai se preocupar em me salvar de uma bala perdida. Motivo culinário: não curto carne humana, nem carne de porco. Motivo esotérico: "o que está em cima é como o que está embaixo realizando os milagres de uma só coisa". Motivo sexual: não tenho atração por pistolas. Motivo geográfico: moro abaixo do Equador (segundo Caetano, um lugar sem pecado). Motivo familiar: meu pai me encheria de porrada se eu votasse Não. Motivo eleitoral: não existe o 3 (Sei lá! Não enche o saco!) Motivo Punk: Vão tomar no cú! Ass. Tio Pablo. |
| por Pablo Capistrano [07:57] |
| 20.10.05 |
| Só Immanuel Kant salva |
![]() "a natureza aproveita a maldade humana para seus fins" (não sei a referência - Fábio, dá uma luz aí!) |
| por Pablo Capistrano [11:20] |
| Sim, Não ou Sei Lá! |
| SIM ou NÃO Leia com atenção as questões abaixo e responda com um SIM ou com um NÃO. Você já matou alguém? Você já apontou uma arma de fogo para o tórax de um outro ser humano? Se você tivesse uma arma e munição a vontade teria tempo de treinar 300 disparos por semana e ter uma experiência de 3 mil repetições do ato de sacar e atirar? Você é feliz? Você se sente seguro(a) em saber que o seu vizinho da esquerda tem uma arma de fogo em casa? Você acha que o ser humano é um animal social? Você já leu Thomas Hobbes? Você acredita que vai viver muito? Você já perdeu alguém que você amava de verdade? Você conhecia alguém que foi vítima de um latrocínio? Você sabe o que é um latrocínio? Você acredita em Deus? Você acredita no "cidadão de bem"? Você conseguiria reconhecer um cidadão de bem quando vê um andando na rua? Você conseguiria reconhecer um bandido quando vê um andando na rua? Você lê poesia? Você sabe a diferença entre um planeta e uma estrela quando olha para o céu durante a noite? Você tem algum parente que foi alvejado por uma arma de fogo e morreu? Você tem algum amigo que ficou aleijado depois de receber um tiro? Você tem medo do futuro? Quando a noite cai, você costuma a dormir bem? Você já se sentiu sinistro(a)? Você controla as suas próprias pulsões? Você já teve vontade de matar alguém? Você sabe se o seu vizinho da direita já teve vontade de matar alguém? Você tem medo de um policial armado quando vê um andando na rua? Você assiste a novela das sete? Você já viu um cadáver? Você já foi ao circo? Você já passou a noite inteira acordado(a) diante do seu computador jogando DOOM II? Você vai ao parque no sábado a tarde? Você gosta do mar? Você já ficou bêbado(a) alguma vez? Você já pensou em ir morar fora do Brasil? Você já morou em Londres? Você acha que a Inglaterra vive sob um regime político totalitário? Você sabe quem escreveu isso: "O Direito é o conjunto das condições sob as quais o arbítrio de um pode ser reunido com o arbítrio do outro segundo uma lei universal da liberdade"? Você entendeu o que está escrito nessa citação que você acabou de ler? Você sabe o que é auto tutela? Você sabe o que é direito de resistência? Você consegue reconhecer um Estado social de barbárie e guerra perpétua quando vê um? Você consegue reconhecer um Estado de direito quando vê um? Você já acordou no meio da noite com vontade de chorar? Você é rico(a)? Você é saudável? Você passa mais de 2/4 do seu dia trabalhando? Você passa mais de 2/4 de seu dia com medo do amanhã? Você confia no futuro do seu país? Você confia no bom senso do seu vizinho? Você já mentiu para ganhar dinheiro? Você já ouviu o Quinteto para piano em Lá Maior, op 114, de Schubert? Você já atravessou o oceano de barco? Você já viu o céu do alto de uma montanha de 3800 metros? Você sabe quem escreveu isso: "Se um certo uso da liberdade mesma é um obstáculo à liberdade segundo leis universais (ou seja, é injusto), então a coerção que lhe é oposta como impedimento ao obstáculo da liberdade, está de acordo com a liberdade segundo leis universais, ou seja, é justa"? Você entendeu a citação que acabou de ler? Você sabe a diferença entre uma arma de fogo e um detergente sanitário? Você se sente seguro em saber que na sala de seu filho estuda uma criança cujo pai tem uma arma de fogo em casa? Você sabe a diferença entre um Ford Fiesta e uma arma de fogo? Você consegue reconhecer um discurso fascista quando ouve um na TV? Você ainda tem esperança? Você se considera uma pessoa justa? Você sabe o que é a justiça? Você sabe quem escreveu isso: "carrega teu carro e teu arado sobre os ossos dos mortos"? Você entendeu a citação que você acabou de ler? OBS.: Remeta as respostas para o e-mail do professor Pablo e veja se você ficou em recuperação ou passou por média. Ah, ainda tem a quarta prova... Suas opções no referendo: (1) Não (2) Sim (3) Sei Lá (4) eu estou cançado (5) minhas costas doem (6) Fuck off (7) Vou ler James Joyce "Sim, eu quero Sims" Molly Bloom no livro Ulisses de James Joyce. "I Wanna Be Sedated" Joe Ramone "O que é que eu estou fazendo aqui?" Professor Pablo (desde que nasceu). |
| por Pablo Capistrano [11:05] |
| 17.10.05 |
| Definições de uma segunda à noite |
| Natal é uma cidade fantasma. |
| por Pablo Capistrano [23:24] |
| Cinema e literatura |
| Assisti ao filme "O Coronel e O Lobisomem". Um bom exemplo de como alguém pode desperdiçar o cinema por medo de perder a literatura. Existe uma via de mão dupla nessa relação de cinema-literatura. Às vezes a literatura contanima o cinema (alguém lembra de Godard?), mas a tendência desses anos, com toda a carga de imagens que minha geração foi submetida, é a do cinema também contaminar a literatura. Ahhh... descobri também que Ana Paula Arósio é uma mulher dos anos cinqüenta (apesar de ter a minha idade). |
| por Pablo Capistrano [16:19] |
| 14.10.05 |
| Doença |
| Estou doente. Dois dias sem sair da cama com febre. Odeio ficar doente. Acho que a vida é muito curta para a gente ficar doente. Deveria ser assim: saúde, saúde, saúde, saúde, saúde e scrrrrrrassssshhhh morte. Sem intermediários. O fato é que acho que o que me adoeceu foi essa discussão sobre o tal referendo. Fazia tempo que eu não ouvia tanta bobagem ser repetida a tordo e a direito pelo país e fazia tempo que eu não sentia tanta vontade de expressar minha opinião sobre um assunto. Acho que isso acelerou minha mente e ela pegou ar. Isso é a fatal para quem tem síndrome do pensamento acelerado (não é Rosa? ? minha irmã, ela tem também só que o dela parece que é mais forte que o meu). O fato é que só me acalmei hoje depois de usar minha dose semanal de Epicuro. Sempre uso semanalmente o Epicuro ou o Sêneca, mas ultimamente tenho usado mais o Epicuro (é como quem tem diabetes e tem que tomar insulina, ou aqueles troços lá que eu não sei o nome). Epicuro disse assim: "prefiro proclamar abertamente aos homens, baseando-me no meu conhecimento da natureza, aquilo que lhes sejas útil, ainda que ninguém o compreenda, a dar, sob o caloroso aplauso da multidão, o meu acordo em tolices". |
| por Pablo Capistrano [00:28] |
| 6.10.05 |
| O Homem é bom? |
| Não amigo leitor, eu não vou falar de Rosseau. Vou contar uma história do Jean Giraud. Não sei se você já ouviu falar dele. Provavelmente, se você gosta de quadrinhos o conhece com o nome de Moebius e sabe que ele produziu, junto com Alejandro Jodorowski uma obra prima chamada: O Incal. Quando eu tinha catorze anos li um quadrinho que, salvo engano, parecia ser do Jean Giraud chamado: "O Homem é bom?". A situação era a seguinte, um astronauta se via perdido num planeta inóspito perseguido por criaturas alienígenas. Ele corria a história toda tentando fugir dos seres estranhos. Num determinado momento se via acuado, sem escapatória possível. Então, uma das criaturas se aproxima dele e schllachhhhttt.... lhe arranca a orelha. O alienígena leva a orelha à boca e começa a comê-la. Um silêncio constrangedor toma conta da horda de alienígenas até que a criatura faz uma careta horrenda e cospe, enojado, a orelha humana no chão. Depois ele diz algo incompreensível na sua linguagem de alienígena e a horda se retira frustrada. Moral da história? O homem não é bom. Metáforas gastronômicas à parte, essa discussão sobre a dicotomia faroeste que toma conta da sociedade brasileira (bandidos contra cidadãos de bem) é um dos sintomas mais curiosos do tipo de bobeira cerebral que leva a nossa espécie ao estado de pasmaceira e decadência na qual ela se encontra. Acreditar que o bem é um estado de espírito, um dado substancial da constituição de alguém, que o bem é genético, morfológico é um erro de juízo escandaloso. O bem é um hábito, uma prática, um conjunto de atitudes, não um estado de espírito, um traço psicológico ou um detalhe da natureza humana. Li numa revista de circulação nacional (que não gosto de dizer o nome para não dar azar) a seguinte pérola do jornalismo brasileiro: ?Se vencer o SIM, ele apenas vai desequilibrar ainda mais o balanço de forças entre as PESSOAS COMUNS e os BANDIDOS ? a favor dos bandidos?. Me senti num filme de Bruce Willis. Quantos tipos de pessoas existem? Que tipo de entidade é um bandido? Será que ele é um gnomo? Um elfo? Um demônio da floresta ou um saci? Não há nada de substancial que diferencie um bandido de um cidadão de bem a não ser o fato de que o bandido cometeu um, dois, três ou dez mil atos ilícitos. A diferença é acidental. O cidadão de bem (que não traz, marcado no seu rosto o selo de qualidade: "pessoas do bem") só é cidadão de bem enquanto não age como um canalha, mas nada vai impedir, que a sua canalhice potencial, que convive de mãos dadas com sua santidade também potencial, produto da mesma indefinição ontológica que junta seres humanos à anjos e bestas selvagens, ecloda. Eu não acredito no cidadão de bem. Eu desconfio do cidadão de bem como desconfio do bandido porque não há fronteiras definidas que separem os homens. Não há classe social, religião, preferência futebolística, raça, sexo, que estabeleça um abismo entre os que tomam atitudes violentas e injustificadas e os que são os mansos cordeiros do não matar. Transitamos entre os dois mundos. Nos misturamos, porque misturados e indefinidos fomos criados. Somos bons, às vezes, e maus, às vezes. Somos santos e canalhas, limpos e sebosos, e essa é a grande majestade do homem, sua grande complexidade e seu mistério. Eu não vivo num filme de Hollywood. Eu não moro em Gothan City nem em Metrópoles para saber que o comissário Gordon é do Bem e o Lex Luthor é do mal. Eu vivo num mundo real no qual a santidade e o pecado são ingredientes do mesmo molho de pimenta da vida. Um mundo no qual pais de família viram assassinos na mesma velocidade com que esquecem de controlar suas próprias pulsões. Se vamos discutir a sério o referendo da proibição da venda de armas temos que primeiro tentar ajustar melhor os conceitos para não votarmos com o intestino grosso ao invés do cérebro. |
| por Pablo Capistrano [16:07] |
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