29.12.05
por um 2006 mais legalzinho

Entrando no ano que vem
Para os camaradas de escritura e de leituras, um poema de Dylan Thomas, na tradução impecável do Ivan Junqueira. Em 2006 amanheça mais poesia.

"Meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim,
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da Lua enfurecida
Nem para os mortos e alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício e minha arte".

por Pablo Capistrano [11:25]
27.12.05
maus


"sem dúvida os judeus são uma raça,
mas não são humanos"
Adolf Hitler






Histórias sobre o holocausto são as vezes tediosas.
porque parece que elas obedecem mais ou menos a um mesmo padrão.
se você assiste muitos filmes, lê muitos livros sobre o assunto,
ou vê documentários vai ver que as etapas do processo
parecem ser as mesmas: segregação, confinamento, extermínio.

mas o quadrinho Maus do Art Spigelman
foge à regra por alguns motivos:
1. é uma narrativa contada a partir da ótica de alguém que não viveu o holocausto (Spiegelman é filho de um sobrevivente).
2. a história é a de um filho tentando entender o pai.
3. há uma intercalação entre o presente e o passado, então você sempre começa no agora e depois os personagens voltam no tempo num exercício de recuperar a memória perdida.
4. não é uma história melosa. Ela é seca, documental, jornalística.
5. os dezenhos são bons.
6. a narrativa prende você do começo ao fim.

a trama das histórias do holocaustro contadas por sobreviventes produz sempre o mesmo suspense: "como esse cara sobreviveu a isso?"

a trama dos que morreram (tipo Anne Frank e coisa e tal) é diferente: "isso não deveria ter acontecido".

mudam-se as cores, mudam-se as religiões, as ideológias políticas, os governos, as raças e os programas de TV, mas o velho e tedioso ódio continua o mesmo.

por Pablo Capistrano [11:24]
22.12.05
Natal, natal, natal...

O Natal é mesmo um tempo de solidões compartilhadas.

Aliás, parece mesmo que estar vivo é um intenso exercício de tentar compartilhar a própria solidão. A gente tenta isso quando casa, quando tem filhos, quando reúne os amigos para uma cerveja, quando vai ao cinema, quando ouve música ou lê um poema.

Outro dia uma misteriosa frase de Tralk me fisgou. Ela dizia mais ou menos isso: a alma é um nômade sobre a terra.

È absolutamente normal se sentir estranho.
È desconcertantemente banal achar-se um estrangeiro no mundo. Um detalhe fundamental de ser gente e não bicho.

O natal sempre é, depois que a gente dobra a esquina da infância, lá pelos 35, um período de responsabilidades. Comprar pressentes, jantar com a família, ligar para os avós que moram longe. Tudo isso para camuflar a estranheza. Tudo isso para esconder, por um certo punhado de horas, o fato de que existir é experimentar a própria solidão. A história que cada um constrói entre o berço e o túmulo é uma história própria e radical. Uma história de cada um. As dores e alegrias de cada um, as derrotas e as vitórias de cada um, a euforia e o torpor de cada um.

Então, quando você tem alguém para compartilhar sua própria solidão na noite Natal, a celebração do nascimento de cristo se torna suportável. Difícil é estar longe de casa. Difícil é estar consigo mesmo e mais ninguém.

Através da noite entusiasmada inúmeros animais selvagens, cheios de escuridão, encontram-se à margem da floresta (isso também é Trakl).


Ela poderia ser fatal.
Poderia ser indescritivelmente assassina essa noite.
Um momento de alegrias forjadas e de tristeza sincera pela nossa orfandade.

Mas a engenhosidade humana fez nascer uma poderosa estratégia de manutenção da espécie. A mais importante das invenções humanas depois da rede de dormir e das técnicas de controle do fogo.

A música é quem nos salva definitivamente da noite de Natal.
Ela é quem nos ajuda a superar a estranheza da travessia da vida. Ela nós salva da nossa solidão compartilhada e nos apresenta, de uma maneira convincente, um lugar para se estar. Um lar para depositarmos o cansaço dos dias e a aridez que mora lá fora e contamina por dentro. Um bom momento de música pode ajudar a significar o mundo.

Então, se você estiver a fim de dar um presente a alguém, como um convite para que se partilhem as solidões, dê uma música.
Sugestão?
Procure o Cânone em Ré Maior de Johann Pachelbel.
Nunca ouviu falar?
Ele foi professor de Bach.
Estranho isso, não?
Imaginar que Bach tenha tido um professor.
Mas teve.

Ele indicou ao pupilo o caminho para a elaboração das fugas. Ajudou a Bach a harmonizar as escolas musicais do norte e do sul da Alemanha e definir o caminho que o levaria o mais próximo de Deus que um ser humano já pôde ter chegado.

Mas a grande generosidade de Pachelbel, para com a humanidade, foi ter composto o seu Cânone em Ré Maior.

Uma peça que antecipa os modelos clássicos. Plena de ordem e proporção. Suave e espaçosa. Exata no uso do órgão e das cordas.

Seria bom, que nessa noite de Natal do ano de 2005, todas os rádios do mundo, todos os aparelhos de CD, todos os I-Pods da vida, pudessem reverberar em uníssono o allegro do Cânone de Pachelbel. Duraria apenas 5 minutos e 29 segundos.

Você poderia me perguntar: o que são 5 minutos e 29 segundos diante de um ano como o que nós acabamos de ter?

Sem música seriam apenas 5 minutos e 29 segundos, mas, com música, bem que poderia ser a eternidade.

por Pablo Capistrano [11:01]
18.12.05
a árvore da vida (ao som de Fortuna)


A la derecha Michael
Y la issiedra Gavriel
Y sobre la cabeça shechinat el Dió
Cada dia y cada noche

por Pablo Capistrano [19:46]
15.12.05
Só roquenrol mas eu gosto pra...

Nada que o século XX não explique



Uma discussão se arrasta a algumas semanas no orkut. A comunidade (que a Mariana criou) chama-se Rock Alternativo Natal. Tem 529 membros e o tópico em questão é: "o que é Atitute-Rocker?", proposto pelo Carlos Costa.

Bem, o fato desencadeante parece ter sido uma apresentação de uma banda da cidade num espaço cultural aqui de Natal. Algum imbecil acabou fazendo um ato de vandalismo durante o show e a polêmica estourou.

O fato é que o roquenrol sempre foi identificado com um tipo particular de atitude, uma postura de contestação, rebeldia e fúria juvenil que, entre outras coisas, rendeu muito dinheiro para a indústria e levou muita gente mais cedo para a cadeia e o cemitério.

Mas o interessante é que de todo o conjunto de mitologias que cerca o roquenrol não se tira um único padrão de atitude que tenha nascido depois que o esse estilo musical apareceu. Falar sobre o binômio sexo-drogas é falar de algo quase tão antigo quanto a própria humanidade.

Vamos pegar a Maconha, por exemplo.
O primeiro registro concreto do convívio do homem com a maconha data de 12 000 anos atrás, em vasos de barro encontrados no sítio arqueológico de Yuan-shan na ilha de Taiwan. Os vasos estavam amarrados com cordas e pela aparência das marcas, os arqueólogos acreditam que as fibras que compunham as cordinhas eram de Cânhamo. Isso muito antes de Robert Zimmerman (mais conhecido na feira do alecrim pelo nome de Bob Dylan) dar um tapa com os Beatles nos anos sessenta.

Festas regadas a sexo e substâncias entorpecentes com registros dos mais psicodélicos excessos pululam na história das civilizações humanas, muito antes de Jim Morrison se entupir de Tuinols e sair mijando nas calças pelos bares de Los Angeles.

A idéia da criação de comunidades alternativas (que também embalou os sonhos hippies) talvez tenha até uma data e lugar de origem. Século III antes de cristo, nos arredores da cidade de Atenas, lugar no qual Epicuro encontrou refúgio para construir seu jardim e divulgar seus valores de amizade, liberdade e reflexão.

A atitude punk de se vestir com lixo e parecer o mais desagradável e escandaloso possível que apavorou, na hora do chá, as senhoras inglesas nos anos setenta, encontra o registro de seu ancestral mais remoto em Diógenes, O Cínico, que andava nu, dormia dentro de um barril e comia junto com os cães no portão da cidade, mostrando todo seu desprezo pelos valores artificiais da tradicional família ateniense.

A postura combativa dos grupos mais politizados, como as bandas de Hard Core californiano nos anos 80, que buscavam usar a música para atuar politicamente e instigar a massa para a revolução encontram referência nos grupos anarquistas que se espalharam pela Europa no século XIX.

Querer se matar é tão velho quanto o mundo.

Se vestir de preto e sair andando por cima das tumbas nos cemitérios públicos tomando vinho na lua cheia já era prática recorrente no século XVI (não foi Robert Smith, nem sua confraria gótica nos anos 80 quem inventou esse tipo de atitude).

No fim das contas, o rock não cria atitudes, porque o rock é um estilo de expressão musical e não uma filosofia ou uma religião.
O que o rock faz, e bem, é catalizar a pulsão de ansiedade e rebeldia juvenil que está disseminada em alguns sistemas sociais e transformá-lo em arte (algumas vezes).

Não há uma única atitude roquenrol que não tenha sido testada antes do rock existir.

A sua importância para a cultura contemporânea está justamente em sintetizar o espírito de uma época, intensa, fragmentada, furiosa e desesperadamente selvagem.

Nada que o século XX não possa explicar.

por Pablo Capistrano [11:34]
Antes de votar


Antes de votar leia Bakunin e fique puto.

por Pablo Capistrano [11:32]
10.12.05
Só o óbvio

Em 529 o imperador Justiniano fechou a Academia de Atenas.
Essa não foi uma atitude descontextualizada.

Ela marca o ápice de uma relação conflituosa entre a filosofia e seu entorno. Desde seu início a atividade filosófica foi posta em questão e os filósofos, empurrados para dentro dos muros da academia de Platão, para o Liceu de Aristóteles ou mesmo para fora da cidade nos Jardins de Epicuro, tinham que dedicar muito do seu tempo em defender sua própria atividade. Aliás, parece que toda a história da filosofia foi mesmo uma história da busca de um lugar, de um espaço para que seu exercício pudesse ser realizado de modo livre.

No começo foi a praça pública da Pólis, depois o interior das escolas, os portões das cidades antigas e os jardins em seu entorno. Sempre pareceu que as cidades clássicas exerciam um movimento de expulsão dos filósofos de sua esfera urbana. Na idade média ela foi incorporada pela Igreja, que a trouxe para dentro do seu ventre e, providencialmente, a escondeu do mundo no corpo das ordens monásticas. Depois, a partir do século X ela foi se esconder nas universidades.

Talvez esse movimento de isolamento seja o marco da derrota da filosofia no seu combate com a poesia (na época clássica), com a religião (na idade média) e depois com a ciência (na modernidade). A retirada da filosofia do espaço público e seu confinamento em lugares fechados a fez sempre um corpo estranho e seu poder de influência política parece que foi sendo lentamente minado até que hoje, ela se tornou algo exótico, incompreensível para as massas.

Sempre que alguém se apresenta como filósofo tem que, quase que imediatamente, se justificar ou, na melhor das hipóteses, se contentar com a solidão reverencial que o medo alheio sempre impõe.

Platão optou por se esconder na academia colocando o pouco convidativo anúncio na porta de sua escola ?não entre aqui aquele que não souber geometria?. O Zaratustra de Nietzsche preferiu voltar para a caverna, depois que suas palavras perderam audiência para um circo que chegava na cidade. Descartes resolveu pôr no seu túmulo: ?bem viveu quem viveu oculto?.

Negar-se a exposição pública parece uma reação recorrente no mundo dos filósofos. Mas essa não é uma atitude hegemônica, muita gente boa procurou os jornais (Hegel, Marx e Sartre) ou os cafés para tentar trazer a prática filosófica de volta ao seu lugar original.

Hoje, esse drama se repete nas salas de aula das universidades federais do país (as únicas que tem interesse de oferecer cursos de filosofia).

Quem entra num curso de filosofia tem que, a priori, pensar sobre o sentido de sua própria atividade e imaginar qual o seu lugar num mundo no qual a técnica vale mais bolsas de estudo, mas vagas de estágio e mais um punhado miserável de empregos com carteira assinada.

"Filosofia não faz pão", é o alerta que o professor Glenn Walter Erickson sempre dá ao seus alunos na UFRN, quase como se fosse um teste para sentir até que ponto o sujeito tem força para agüentar o tranco de buscar praticar uma atividade que não parece, a primeira vista, oferecer um primoroso campo de trabalho. Apesar disso eu tenho um orgulho meio sacana de pertencer a classe.

A vida ganha mais significado quando você faz alguma coisa que acredita.

Não somos imprescindíveis porque, a rigor, nada, a não ser a gravidade, é imprescindível para que o mundo seja o que ele é. Mas, o poder de agir na sombra, que às vezes pode matar de amargura os que sonham com algum tipo de glória social, é embriagante.

Mesmo que não seja verdade, mesmo que seja só fachada, mesmo que seja essa a capa de invisibilidade dos filósofos é cômico perceber que os outros acreditam que sabemos algo que eles não sabem.

No fim nós só praticamos uma técnica milenar de enxergar o óbvio (e o óbvio, na maioria das vezes, é o que menos se enxerga). O bom é saber que, no fim das contas, daquilo que nunca se esconde, não pode ninguém, por muito tempo, permanecer oculto.

Um dia, amigo leitor, mesmo que você não queira, por mais que você se esquive, o óbvio vai explodir na sua cara (mesmo que não tenha nenhum filósofo por perto para você por a culpa).

por Pablo Capistrano [22:37]
9.12.05
Lítio

"Toda unanimidade é burra, dizem por aí. É como dizia uma pichação que vi num banheiro público: 'vamos comer merda: milhões de moscas não podem estar erradas'."

citação do Livro Lítio do Patricío Jr. lançado dia 08 pelo selo Jovens Escribas. Vale a pena conferir o texto.

Nova safra de escritores potiguares.
Urbanos, furiosos e criativos.

por Pablo Capistrano [11:56]
6.12.05
Mark Chapman

Depois de 25 anos parece que vão colocar o Mark Chapman para falar.
Acho que foi a BBC (quase sempre é a BBC, não é mesmo?)
A pergunta é: por que Mark Chapman resolveu dar cinco tiros no John Lenon?

Ele disse que estava numa missão.
Alguém o havia instruído a matar o cara.
Diz que ouvia uma voz que o mandava ir lá e passar fogo no John.
Depois ele disse que os reais motivos para o assasinato poderiam ser encontrados no livro The Catcher In The Rye (traduzido no Brasil com o campestre título de "O Apanhador no Campo de Centeio") do JD Salinger.

Talvez aí esteja mesmo a resposta.
Mark Chapman é louco.
O cara que consegue enxergar num livro que conta a história de um adolescente que leva bomba na escola e passa o fim de semana perdido nas ruas de Nova York, atrás de encontrar alguém para conversar antes de enfrentar o sabão dos pais, uma ordem para matar John Lenon só pode ser esquizofrênico.

Mas a pergunta está mau colocada. Deveríamos perguntar: "por que a tal voz não mandou Mark Chapman matar Frank Sinatra?".

Três parecem ser as respostas mais plausíveis:

(A) porque a voz trabalhava para os Rolling Stones
(B) porque a voz votava no partido republicano
(C) porque a voz preferia o Paul

por Pablo Capistrano [10:45]
1.12.05
Paranóia Carnatal

acho que vi alguém com um abadá púrpura andando pela sala da minha casa.
Eles estão aqui!
Eles estão aqui!

por Pablo Capistrano [16:02]
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