28.1.06
Cachorro

Atenção homens,
vai começar o ano do cachorro.

por Pablo Capistrano [17:53]
Frase estranha

acordei hoje com essa frase estranha na cabeça

"núvens densas num espaço preto"

acho que sonhei com a previsão do tempo.
ou
talvez
apenas estivesse tentando flatular.

por Pablo Capistrano [17:50]
19.1.06
Almoço Grátis.

Madrugada de terça para quarta.
2 e 45.
Desisto de tentar dormir e vou procurar um livro para ler.

Escolho "Breve Romance de Sonho" de Arthur Shnitzler.
O livro conta a história de Fridolin um respeitável médico da burguesia vienense da época dos Habsbugo que mergulha em uma viagem pelo mundo oculto do desejo após descobrir uma quase-traição de sua mulher. Na sua viagem noturna, se envolve com a jovem filha de um paciente. Encontra uma prostituta e um dono de uma loja de fantasias que explora sexualmente a filha. Termina numa orgia, onde mulheres nuas com máscaras e homens disfarçados de monges copulam por um imenso salão ao som de um piano. Em nenhum momento da viagem Fridolin completa o ato sexual. Ele apenas caminha pela superfície do desejo e nessa superfície acaba mergulhando no mais profundo de si mesmo.

O livro foi publicado em 1926, mas parece sintetizar a idéia que Karl Kraus (crítico de arte e escritor vienense) tinha sobre a Áustria da virada do século passado ("a proving ground for world destruction"). Num ensaio "Sittlichkeit und Kriminalität" (Moralidade e Criminalidade), Kraus defende as chamadas "minorias" e aponta que os verdadeiros agentes da decadência e da perversão social eram as forças policiais que perseguiam os homossexuais e as prostitutas.
Kraus ia mais longe, e dizia que os homens são seres que padecem de uma urgência sexual, ao passo de que as mulheres são a própria sexualidade em si.

Stefan Zweig, discorrendo sobre a Viena de sua juventude, aponta para um "papel social" da prostituição.
Num mundo burguês no qual o casamento era um negócio entre famílias e a virgindade a moeda de troca desses negócios, as prostitutas providenciavam a única iniciação sexual possível para os jovens da burguesia vienense. Desta forma ela era, a um só tempo, imoral e socialmente necessária. O fato é que a função social da prostituição na Viena do século passado era muito parecida com a função social da prostituição no nordeste brasileiro até uns anos atrás.

Num mundo no qual a virgindade das moças de família ainda era um bem precioso, nossos avôs costumavam a utilizar, de modo bastante freqüente, a prostituição como forma de ascese mística.

Mas as prostitutas tinham o seu lugar.

Os bordeis eram locais apropriados para o exercício dessa arte antiga. Eram também, muito bem freqüentados. Espaços no qual o desejo poderia ser confinado entre quatro paredes e, com as máscaras sociais, a hipocrisia da tradicional família nordestina poderia compor sua sinfonia, de culpa e redenção no meio da carne.
Mas os tempos mudaram e hoje, nossos adolescentes já exercitam, cada vez mais cedo, a arte da sagração sexual.

Então a prostituição teve que sair do bordel.

Hoje ela está dentro do shopping center, numa loja H. Stern, comprando jóias caras. Nas praias mais badaladas, nos restaurantes chiques da cidade, nas concessionárias de automóveis.

Mas o nordeste, por mais que mude, continua o bom e velho nordeste.

O escândalo, desta vez, tem um componente étnico e social. Porque a menina pobre da periferia das grandes cidades ou que chega do interior, não se contenta mais em ficar trancada num bordel, esperando seu cliente, ela vai com seu cliente para o centro nervoso do consumo e clama seu direito sagrado de comprar e ser comprada. Do mesmo modo da madame. Retirando a máscara ela diz: "sou sua igual, e daí?".


4 e 15. Vou tentar dormir agora. Mas antes dou uma olhada na TV. Na GNT vejo um documentário sobre as praias do Rio de Janeiro. Em Ipanema, uma mulata escultural recebe uma massagem na beira da praia. Diz que casou com um alemão e morou na Europa, tem dois filhos com o gringo. O documentarista pergunta se ela namoraria alguém por dinheiro. Sorindo. Cultivando o seu "proving ground for world destruction" particular, diz: "Mas é claro! Não existe almoço grátis".

por Pablo Capistrano [09:35]
14.1.06
Colonizados

"Nós colonizamos vocês".

Essa foi uma frase que minha irmã ouviu bastante quando viajou à Portugal no final do ano passado. Ela só não me explicou se os irmãos patrícios diziam frase como um alerta, um lamento ou um pedido de desculpas.

Se for um alerta deve ser algo do tipo: "Cuidado. Não se esqueçam que nós colonizamos vocês".

Caso seja um lamento pode ter o sentido de: "oh, que desgraça! Por que nós não colonizamos a Argentina?".

Caso seja realmente um pedido de desculpas pode ser: "Foi mau, gente. Desculpe por não termos deixado os holandeses colonizar vocês".

O fato é que esse estigma da colonização não é algo que se perde fácil. Ter sido colonizado por algo ou alguém aparentemente implica sempre um débito, de ambas as partes, colonizados e colonizadores. Uma relação meio sado-masoquista, de cobranças e acusações mútuas.

Embutido nesse modelo parece que se esconde uma idéia subliminar de uma certa hierarquia de povos no mundo. Um misto de culpa e redenção, de amor e ódio. Como se nós devemos aquilo que somos a alguém que vive longe, um pai utópico que demora em nos visitar e que não reconhece, toda hora, a própria paternidade.

Mas há um dado curioso em relação ao Brasil. Nós somos filhos de muitos pais.

Temos os pais Fon da costa da África, os pais índios dos sertões, os pais mouros de Portugal, os pais judeus novos e os pais galegos. Dizem que temos pais holandeses e com certeza temos pais italianos, alemães, ucranianos, japoneses, libaneses.

Temos tantos candidatos a colonizadores que daria para lotar as salas de psiquiatria por muitos anos, com aquela crise de identidade que nenhum exame de DNA resolve. Na verdade, a impressão que eu tenho, sem nacionalismo barato, é que o Brasil é que colonizou o colonizador. Talvez seja mesmo essa a grande brincadeira.
Ninguém fica imune à contaminação cultural.

O padrão recorrente no processo de intercâmbio entre culturas e civilizações parece ser o do isolamento mútuo. Basta olhar o problema dos turcos na Alemanha. Já estão na terceira geração e quase não apareceu ainda o Zé Ninguém.

Esse sim um tipo que deveria ser o padrão.
O Zé Ninguém é colorido. Vazio e livre. Olha para o futuro porque não tem só um passado, tem inúmeros passados. Varias matrizes genéticas e varias variações de rosto, cor, culinária, língua e religião. Compreender essa diversidade é fundamental para compreender o brasileiro, e se o Português já esqueceu disso, tem que ser lembrado.

Gosto de saber que minha bisavó era neta de escravos da costa ocidental da áfrica e que minha outra bisavó era índia, que meu outro tataravô era judeu e que, em algum lugar do passado, talvez houvesse um celta galego fazendo chacoalhar minha mistura.

O melhor do Brasil é que ele não é um imenso Portugal, apesar de muita gente tentar nos convencer disso. No fim das contas é importante manter o padrão. Ou seja, estimular a integração sexual.

Acho que, a despeito da polêmica sobre o sexo pago nas praias do nordeste, deveríamos, como exercício de boas vindas, estimular o sexo com os estrangeiros (e as estrangeiras também, a depender da preferência do leitor ou da leitora).

Assim como se convida para jantar em casa ou dar um passeio pelas praias.

Para que a mestiçagem seja sempre a regra e a pureza racial uma daquelas utopias malignas que a gente joga no lixo da história.

Tudo bem.
Eu sou colonizado.
Mas gostaria, se possível, que reconhecessem que sou colonizado pela humanidade, para que não continue ocorrendo aquilo que a música do Bob Marley já alertou:

"Until the philosophy which hold one race/ Superior and another inferior / Is finally and permanently discredited and abandoned / Everywhere is war, me say war / That until there are no longer first class / And second class citizens of any nation / Until the colour of a man's skin / Is of no more significance than the colour of his eyes / Me say war."

por Pablo Capistrano [11:20]
Lua de Janeiro

Essa é cruel.
Muito boa para quem quer ver o mar subir.
As melhores ressacas de vinho e de água salgada são na Lua cheia de Janeiro.

por Pablo Capistrano [11:19]
Bird


be bop
be bop
be bop
be bop
be bop
be bop
be bop
beat bump

só para lembrar
a música do século passado

por Pablo Capistrano [11:13]
11.1.06
secos e molhados

um grito de estrela
vem do infinito
e um bando de luz
repete o grito

todas as cores
e outras mais
procriam flores astrais

um verme passeia
na lua cheia

por Pablo Capistrano [03:35]
10.1.06
Abstração para ir dormir

Se o tempo é um fluxo, nada se repete.
Se o tempo é um tabuleiro de xadrez, nada acontece.

por Pablo Capistrano [23:59]
Benny Goodman é maior do que Hegel

Júnior veio aqui em casa.
Tomamos dois litros de vinho. Eu, ele, Jaqueline e Ana.
Muito bom papo.
Chegamos a algumas conclusões sobre Reencarnação.

(1) O Eu é como aquela fita que mantém unido um buquê de rosas. Frágil.
(2) Você é algo mais do que simplesmente aquilo que dizem ser seu Eu. Você é seu tempo, seu espaço. Você é tudo aquilo que compõe o ambiente que te circunda. Você não está imune ao mundo.
(3) Reencarnar é como ser "quase alguém".


Esse terceiro tópico é a chave para se entender o processo.
Tem um cara, em 15e cacetada que era tão parecido comigo, porque a base matemática que me compõe parecia estar repetida nele (ou o oposto) que não há como diferenciar um do outro. Se alguém colocasse duas fotos, uma ao lado da outra, diria: "são o mesmo sujeito".

Mas há algo que não se repete. Há um elemento que é tão peculiar a cada um desses sujeitos que não pode autorizar alguém a dizer: "São o mesmo sujeito".

O tempo e o espaço em que alguém acontece.

Já pensou nisso?

Você acontece.
Isso é muito bom.
Cada ser humano acontece num tempo e num espaço.
Cada pedra acontece num tempo e num espaço.
Cada buquê de rosas,
Cada casa e cada árvore.
Cada pedaço de poeira e cada partícula de cristal de quartzo solto na atmosfera.
Tudo acontece.

Acontecer é um detalhe.
Mas é fundamental.
Eu não posso acontecer duas vezes.
Todo acontecimento é único.
Porque o tempo e o lugar em que o acontecimento ocorre é único.
Não se repete no tempo.
A não ser que o tempo congele (aí é a eternidade)
ou que se repita para sempre (aí é a infinitude)
Então!
Parabéns leitor!
Parabéns, parabéns, parabéns!

Você é um acontecimento único na tessitura do cosmos!
Você não vai se repetir a não ser que o cosmos se repita como um todo (e aí não é mérito seu).
Então....
Foda-se com suas idéias de achar que você pode viver sua vida de modo displicente.
Sua vida é única.
Aproveite-a enquanto pode para fazer algo decente (ou indecente) para que ela valha a pena.
Porque o mundo só termina quando acaba.
E o resto está contido em 2 minutos e 57 minutos.
Bygle Call Rag. Regido pelo mestre Benny Goodman.
Um presente que eu recebi do François na Barata Ribeiro, em Maio de 2005.
Lá, onde Copacabana, faz o mundo parecer maior do que ele é.

por Pablo Capistrano [23:52]
7.1.06
Pesadelo

Tive um pesadelo horrível ontem a noite.
Sonhei que um grupo de pessoas chegava na minha casa falando em inglês.
Eles pareciam realmente acreditar que eu era o goleiro da seleção inglesa de futebol e que eu teria que entrar em campo para jogar contra o Brasil na final da copa da Alemanha.

Fiquei fingindo que a coisa era séria para não assustar, mas estava em pânico.
Porra.
logo eu que nunca gostei de jogar futebol.
Desde que participei de um camponato no conjunto mirassol (zona sul de Natal) em 1982 (depois daquela derrota imunda da seleção para a Itália) e nosso time perdeu a primeira partida por 11 à zero e foi miseravelmente desclassificado, todos os meus sonhos futebolísticos foram destroçados e só me restou...

a literatura.

Então,
de repente lá estava eu,
na final da copa do mundo,
como goleiro da seleção da Inglaterra,
Para jogar contra o Brasil!

caralho.
Todo mundo me dizia: "está nas suas mãos. Não ganhamos uma copa desde de 1966".

então eu encontrei meu pai no sonho (que é psiquiatra no mundo dos vivos).
eu disse: "Pai! Por que essas pessoas estão falando comigo em Inglês? elas pensam que eu sou o goleiro da seleção inglesa e querem que eu entre em campo para a final contra o Brasil!"

então,
de modo terrivel,
meu pai responde:
"of course, of course, don´t worry about it. I´m going to help you. Soon you are going to find your real identity."

Depois eu só lembro de uma manchete no The Sunday Times

"Goleiro da seleção inglesa tem crise nervosa antes da grande final com o Brasil".

no corpo do texto dizia:

"O goleiro da seleção inglesa de futebol tem crise nervosa antes da grande final com o Brasil na copa da Alemanha. Ele afirma categoricamente que não é goleiro, nunca jogou futebol e que na verdade é um escritor de livros de ficção que mora em Natal (Christmas City), uma cidade turística na costa nordeste do Brasil e dá aulas de filosofia para sobreviver".

sinistro não?
esse sim é um pesadelo.
só consigo imaginar um pior se eu fosse goleiro do ABC.

por Pablo Capistrano [11:02]
4.1.06
Sentando o pau no pixies pós 11 de Setembro

O Aristeu Araújo me mandou direto da cidade maravilhosa essa crítica que o Tom Leão fez sobre o retorno do Pixies.
vamos fazer uma enquete sobre o assunto?

Uma das mais influentes bandas do ?indie? rock volta a tocar por dinheiro

Tom Leão

Nada pior do que ver uma banda se reunir apenas por dinheiro. Foi o que aconteceu recentemente com os Pixies. Os americanos, que há dez anos não pisavam num palco juntos e que acabaram a banda brigados, resolveram se juntar no ano passado para uma grande turnê mundial (que passou também pelo Brasil). O resultado dessa volta oportunista está no DVD, apropriadamente batizado, "Sell out" (vendido), prova que eles pelo menos têm algum senso crítico.

Muitas bandas já se reagruparam pelos mesmos motivos, nostalgia, decadência, falta de dinheiro, demanda de uma nova geração de fãs. Mas para os fãs dos Pixies isso soou um tanto estranho já que eles eram os reis do rock alternativo, contra jogadas comerciais, que sempre gravaram de forma independente e influenciaram uma legião de bandas aqui e pelo mundo afora (uma delas sendo uma certa Nirvana, de Seattle, segundo o próprio Kurt Cobain). Eles nunca fariam isso, certo?

Nenhuma imagem do show no Brasil é mostrada no DVD

E então, como reagir frente a esse DVD? O fã de primeira hora, que os pegou no fim dos anos 80, sente um misto de medo e prazer, com receio de quebrar a magia do impacto original, quando se ouvia o disco "Surfer Rosa" até furar. Mas quem já os viu ao vivo fala de shows espetaculares e inesquecíveis. Não poderia ser menos do que isso. Mas por esse DVD, gravado no Eurockéennes Festival, em BelFort, na França, fica difícil acreditar: o show é um tanto frio e quase feito no piloto automático. Em cena, o vocal/guitarra Black Francis, que cortou relações com a baixista Kim Deal, mal olha para ela e ainda guarda uma certa distância.
Pode ser que o calor brasileiro (que ficou de fora do DVD, que, além do show principal, tem faixas-bônus com registros de outros sete lugares ao redor do mundo, menos Curitiba, onde eles tocaram), faça falta. Pode ser que quem estava do lado de cá do palco tivesse mais fissura de testemunhar aquele momento histórico do que os que estavam no palco, tocando apenas profissionalmente, mesmo que a gente saiba que a postura da banda em cena sempre foi mais para o cool .
Mas, como fã, mesmo admitindo que em cena eles ainda façam bonito, nota-se a preguiça e o modo largado (no mau sentido) como o show é tocado, nos dois sentidos. Eles não conseguem nos arrepiar nem em músicas certeiras como a empolgante "Gigantic" (parece que estão com sono). Já "Where is my mind?" se vale da boa resposta da platéia, muito mais animada. Mas em "Velouria" há uma faísca.
Nas faixas-bônus, captadas em festivais diversos, como o Coachella, na Califórnia; o Fuji Rock, no Japão; e o T in the Park, na Escócia, palcos menores do que o da França, eles parecem estar um pouco mais animados em cena. E antes da abertura do show principal passa uma montagem feita em cima da música "Bone machine", que junta várias partes de diferentes performances. Também há um extra que permite trocar os ângulos da música.

Ainda que seja bem melhor ver um Pixies morno e requentado através do vídeo e do som caseiro do que uma bandinha da moda ao vivo, eles ficam devendo um show histórico para os fãs e os neófitos. Que, ainda assim, vão apreciar o DVD. Levando em conta que essa turnê foi única e que a banda (parece) vai voltar para a tumba, é melhor ver antes que acabe de vez.

por Pablo Capistrano [16:24]
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