23.2.06
Dionisus Esporte Clube

Evoé Evoé Evoé Evoé
Dionisus vem por ai!
carnaval é uma época maravilhosa para ficar doido, fazer sexo e morrer...
então,
cuidado e sobrevivam.

próxima semana volto com mais novidades de uma viagem para ( algum lugar )

valeu!

por Pablo Capistrano [16:27]
14.2.06
Maré baixa e Maré alta


Último final de semana antes de voltar ao trabalho. Esse é um final de semana crucial. A depender do sucesso ou fracasso desse último fim de semana, seu semestre pode tanto ser um senhor semestre de trabalho como uma grande porcaria. Escolho Pipa para voltar ao mundo real. Nada de hotéis ou pousadas (impensáveis para um professor universitário brasileiro). A boa e velha amizade é providencial nessas horas. As velhas relações de camaradagem da época do curso de filosofia me levam à casa de praia do Bruno Barbalho, que mora em Goianinha, num casarão que tem mais de 200 anos, vizinho a fazenda Bom Jardim, na qual se travou o mitológico encontro entre Chico Antônio e Mario de Andrade.
Saímos de Natal tarde, 22:30 da noite de sexta feira. Chegamos na Pipa às 12:30. Pela rua, Bruno me diz que no mês de Janeiro as coisas não foram boas, para o comércio local: "Muita concorrência. O pedaço de Pizza caiu para 6 reais" ? ele diz.
Bruno conhece Pipa como a palma da mão. Tem mapeado cada quadrante da praia e vive de passar veraneios por lá desde a infância. No meio da rua (a tal rua da praia, que parece ser a única rua, num conjunto de muitas outras ruas, quase irreais) uma multidão se aglomerava. "Eles começam aqui e às três da manhã vão para a boate e ficam dançando até as nove horas" ? Bruno comenta. Haja estimulante. Falam hoje de um tal de M.D.M.A, ou coisa assim. Algum tipo de anestésico para cavalos, utilizado de forma eqüina por alguns sujeitos afoitos na busca por visões do outro lado.
Não que a cultura das pistas precise disso.
Música é muito mais do que uma simples desculpa para se chapar, no entanto, a velha ansiedade do homem em busca do sagrado ou de uma perplexidadezinha qualquer que faça sua vida valer a pena, empurra uma multidão na direção das mais psicodélicas experiências com o próprio sistema nervoso.
Coisa bem sem romantismo depois que você dobra a esquina dos trinta, mas que quando você tem dezesseis anos aprece ser o ápice de qualquer tipo de experiência que justifique o fato de ter nascido.
Essa ilusão geralmente é perigosa.
Uma aventura num limite fino que separa a loucura das majestosas visões da divindade. Lembro da frase de Blake: "O caminho dos excessos leva ao palácio da sabedoria".
Quando eu tinha dezesseis essa era uma verdade absoluta. Por isso mergulhei na noite como um maluco e durante uns dez anos corri atrás de cada migalha de maravilhamento que a noite me proporcionava. Casa mísero pedaço de sobressalto, susto ou encantamento que a noite produzia eu roubava como um colecionador de espantos. Já tive noites memoráveis e noites sinistras. Mas saltei fora do giro sem fim desse ciclo de busca e frustração quando comecei a acreditar já conhecer pessoas que eu nunca tinha visto.
Vou explicar: quando eu comecei a ter certeza de já ter ouvido aquele papo antes, quando comecei a sentir que aquela velha experiência malhada parecia estar prestes a se repetir, como num eterno retorno do mesmo, saltei fora da noite e acho que escapei de uma curiosa armadilha.
A arapuca de estar sempre em busca, eternamente alerta, sempre procurando uma nova experiência, uma nova palavra, um novo sorriso, uma nova aventura que faça com que o balanço tedioso do cotidiano se dissolva.
Uma busca do novo, no meio de uma eterna e sistemática repetição das mesmas coisas.
Com o tempo, a frase de Blake começou a me parecer mais e mais óbvia. E quando uma frase vai se tornando óbvia e perde aquele grau de incompreensão que a torna sedutora você só tem duas soluções: troca de frase ou troca de autor.
Preferi dar uma chance a Blake e fiquei na casa de Bruno, aguardando o dia amanhecer. Sábado, às 8:00 da manhã outra praia apareceu na minha frente.
A Pipa da maré baixa.
Essa é uma das duas praias que convivem em paralelo naquele lugar e o fazem tão especial. Sinistro e selvagem ao mesmo tempo. "Tem gente que vem morar aqui e fica doida, vai parar no manicômio" ? Falou Bruno.
Pipa é assim, bela e sinistra.
Na baia dos Golfinhos, com as crianças mergulhando numa poça de água morna, me vem a passagem de uma outra Pipa, uma que hoje, eu gosto mais: "carrega o infinito na palma da tua mão e a eternidade num segundo".
Mas uma do Blake.
Definitivamente esse não é um bom lugar, para quem quer voltar ao mundo real. Acho que meu semestre de trabalho vai ser no mínimo, interessante.

por Pablo Capistrano [11:14]
8.2.06
Buummmm

por Pablo Capistrano [09:09]
Radio-Activity




Depois do Fim do Mundo



Assisti a um documentário sobre o Código da Bíblia. Na verdade peguei só a última parte, mas, pelo que eu entendi, parece que alguém andou combinando alguma coisa no texto da Torah e descobrindo algumas mensagens sobre um apocalipse nuclear.
A Torah é um livro tão fascinante quanto o idioma em que foi escrito, o Hebraico anterior a reforma massorética. Uma língua sem vogais e no qual as letras têm representações numéricas.

Hoje a idéia de uma hecatombe nuclear volta à moda. Esse era um fantasma recorrente de quem passou a infância vivendo o começo dos anos oitenta como eu. Atualmente, com esse conflito de culturas, envolvendo oriente e ocidente, assistimos o retorno do espectro. Temos inúmeros canditados a besta do apocalipse.

Komehini já teve seu tempo.
Kadafi também.
Agora é o presidente do Irã.

Eu particularmente não sei se o mundo vai acabar em fogo, gelo ou num lamento entediado. Nem sei se a tal hecatombe vai vir, mas, se ela vier, eu quero dar a minha sugestão de trilha sonora.

Trata-se, na minha concepção, de um dos melhores discos de música eletrônica já composto. Chama-se Radio-Activity e é de 1975. A projeto é do Kraftwerk, grupo alemão que está no centro da música contemporânea. O disco é maravilhoso. Melancólico e irônico, a começar pelo trocadilho do título. Os ruídos de um contador Geiger abrem a obra, anunciando que o clima esfriou no meio de um mudo desolado pela radiação. Só as máquinas e os rádios continuam funcionando.
Só a voz metálica dos robôs suporta o vazio humano de um mundo sem nenhum filho de Adão para contar a história. Mensagens de socorro, sinais de colapso parecem ecoar do disco o tempo todo, como se R. Hütter e F. Schneider, compositores da maioria das músicas, estivessem modelando o som.

Partindo-o, estendendo-o numa utilização de recursos eletrônicos poucas vezes vista. Um verso em inglês, com uma rima besta, se repete como uma cantilena triste para o derradeiro entardecer da humanidade: ?Radio-activity/ This is the end for you and me?. Esse é o som que abre o disco.

Mas, interessante mesmo, é a última música: ?Ohm sweet ohm?. Uma referência curiosa e cheia de ironia ao ?Home sweet home?.

O novo lar é radioativo.
Cheio dessa força oculta da natureza que o homem aprendeu a controlar antes que pudesse aprender a controlar a si mesmo.
Uma melodia preguiçosa começa a crescer sob o pano de fundo de uma repetição em voz eletrônica do título da música. Ela se repete como um giro de uma roda gigante vazia. Um giro que começa lento e vai acelerando à medida que o andamento de uma percussão eletrônica, que mais parece o barulho de um escapamento de ar comprimido, vai ganhando corpo. Como se a esperança de um mundo vazio de humanos pudesse compor uma última sinfonia de uma terra devastada.

Uma ode à alegria de uma civilização que se consumiu depressa demais e acabou ruindo sobre o peso de suas próprias incapacidades.

Acho definitivamente glorioso viver numa época como a nossa. Essa falta de esperança no futuro, essa falta de segurança na ordem natural das coisas, essa descrença absoluta nas possibilidades da razão humana são o material perfeito para qualquer artista apocalíptico.


O retorno do pesadelo nuclear, que agora aparece diluído no espectro do terrorismo, bem que pode não dar em nada. Mas se ajudar a produzir mais discos como o Radio-Activity já vai ter cumprido bem sua função. No mais, se a besta do apocalipse não aparecer por esses dias, ao menos vamos continuar caminhando por essa vida, no meio dessa civilização tão estranha e sem porteira.
Mas, caso ela venha, cavalgando sua ogiva nuclear, vai restar ao menos um consolo: o bom de se morrer no fim do mundo é que você não fica com aquela sensação idiota de ter perdido o melhor da festa.
Até porque, não vai ter mais festa, só a trilha sonora ecoando num salão vazio.

por Pablo Capistrano [09:00]
2.2.06
Crônica sobre meu fígado

Ando tramando alguma revolta luciferiana contra os determinismos genéticos, mas até agora não consegui encontrar nada que ao menos se compare ao que o personagem de John Milton fez em "O Paraíso Perdido".

Vou explicar.
Depois de seis meses de uma rigorosa dieta, quilos perdidos e massa muscular reposta ao devido lugar, não é nada reconfortante saber que suas taxas de triglicérides ainda estão estratosféricas.

"Você deve ter algum problema no fígado", disse o meu médico.

Ótimo.

Comecei a maldizer algum ancestral meu que me passou uma droga de um gene vagabundo que não faz o fígado trabalhar como devia. Espero que ninguém resolva botar a culpa no vinho.

Lembrei logo de Nelson Rodrigues que costumava a dizer que não acreditava em nenhum homem que se dizia honesto e que não tivesse gastrite. Comecei a pensar que talvez, como consolo, a honestidade nos dias de hoje afetasse o fígado.

Sai do consultório e fui a uma das livrarias da cidade pegar minha esposa e minha filha.
Ando com o hábito de olhar a data das edições dos livros nas livrarias. Tiragens nacionais de 3000 exemplares datadas de 1998, 2000, 2001. Todas encalhadas nas prateleiras. Penso sempre: "que bosta!".
Não os livros.
Mas o fato de viver num país onde ler um livro é um ato quase subversivo.

Também gosto daquelas livrarias que tem uns aparelhinhos eletrônicos, nos quais você pode tocar com a ponta dos dedos e ver o estoque, informação sobre os autores e sobre os livros. Procuro logo o meu.
Pequenas Catástrofes (um livro muito bom, diga-se de passagem. Adorei escrevê-lo e mais ainda lê-lo e acho que você, amigo leitor, se ainda não comprou, não sabe o que está perdendo).

Depois vou procurar o Hegel.
Um possível doutorado me obriga a ler Hegel. Não gosto da Fenomenologia do Espírito. Acho o texto muito circular. Sempre que eu leio a Fenomenologia, fico tonto. Mas as Preleções sobre Estética, redimiu Hegel para mim e me fez colocá-lo no centro do meu Cânone particular. Olho o preço da obra: 63 reais. Salgado.
Dois volumes.
Mas...
De repente, vejo uma coisa estranha.
A máquina me oferece: 1. Título: Estética; 2. Autor G. W. F. Hegel; Assunto: Fitness; 3. Estante: Saúde, esporte e lazer.
Olho outra vez.
3. Assunto: Fitness.

O termo Estética vem do grego aisthesis e tinha a ver com a idéia de "percepção". A Estética nasceu fundamentalmente como uma disciplina filosófica que estuda a percepção e só a partir da obra de A.G. Baumgarten, discípulo de Leibniz, mais ou menos em 1750, passou a ter ligações com o estudo da beleza sensória, que incluía a beleza natural e artística.
Nunca havia parado para pensar que a obra de Hegel, suas tão cuidadosas Preleções sobre Estética, também tivessem ligações com a cultura das academias de fisiculturismo e dos corpos sarados.
Sei que o renascimento do culto ao corpo na Europa teve início a partir da expedição de Bassai, ainda no século XIX.
Época em que os ingleses foram até Atenas e trouxeram vários jarros com desenhos de atletas gregos nus, mostrando os músculos e os pênis minúsculos.
Mas imaginar Hegel como alguém que trata do fitness para mim foi uma grande surpresa.

Acho que estou sentindo meu fígado doer.
Será que o fígado dói? Ou será que é apenas um sinal para ir embora da livraria?

Talvez eu esteja desenvolvendo uma forma hepática do bom e velho sentido de Aranha do Peter Parker.
Sempre que o Parker se encontrava numa situação de perigo, o sentido de Aranha o alertava. Mas qual seriam os riscos que eu estaria correndo numa livraria limpa e iluminada? Talvez seja o sinal da avassaladora crise de anorexia que toma conta do mundo. Uma recusa, não em comer, mas em pensar.
Não quero ser frankfurtiano.
Prefiro sair da livraria, comer uma bela macarronada e depois ir para casa, arquitetar o próximo passo da minha vingança luciferiana contra os determinismos genéticos.

por Pablo Capistrano [11:00]
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