29.4.06
Novos Horrores

Data triste a que foi comemorada semana passada.
Data sombria.

Vinte anos atrás um dos reatores da usina de Chernobyl explodiu espalhando radiação e câncer numa nuvem de morte invisível. Ninguém sabe ao certo o número de vítimas. O horror radioativo é uma novidade da era da revolução cientifica. Difere substancialmente do horror natural porque sua origem tem a ver com as escolhas humanas.

No início da cristandade o problema do mal assolava o pensamento de muitos filósofos cristãos. Se Deus era onisciente, onipresente, onipotente e sumamente bom, como poderíamos explicar o mal? Ou Deus o permitia, e então não seria sumamente bom; ou Deus não poderia combatê-lo, e então não seria onipotente. Se Deus não soubesse do mal sua onisciência estaria posta em questão. Se não alcançasse o mal, se não estivesse aonde o mal está, não estaria em todos os lugares. Este embaraço teológico levou Santo Agostinho a propor uma solução curiosa. O mal não existiria. Se o bem é o que existe, é a vida, o Ser; o mal, como seu oposto, seria o nada, a morte, o inexistente. Como o nada não existe o mal só poderia ser coisa nenhuma. Então haveria só o tal pecado. Uma inversão estranha na hierarquia dos bens, produzida pelo livre arbítrio dos homens.

Até o grande terremoto que arrasou Lisboa em 1755 o mal ficou guardado na caixa das escolhas humanas. Foi preciso a intervenção de Voltaire para que a consciência da existência da dor injustificada voltasse a perturbar o sono da humanidade.

Entre as tragédias naturais e as humanas, as segundas assustam mais. Assustam porque lançam o homem na iminência de pôr em questão suas crenças, seus valores e suas ilusões acerca da ordem natural das coisas. O horror natural muitas vezes escapa a idéia de previsão e controle tecnológico. Por isso o esforço da ciência em tentar prever e controlar a natureza e a luta de se reduzir seu impacto à interferência das escolhas humanas. Assim o furacão que destruiu Nova Orleans poderia ter seus efeitos minimizados se Bush tivesse levando em consideração as previsões dos climatologistas. O Tsunami que lavou a costa do Índico poderia ter matado menos gente se houvesse um tal sistema de prevenção de ondas gigantes.

O horror humano é, aparentemente, mais confortável, porque cria a sensação de que há uma razão, uma causa, uma justificativa plausível para explicar o mal.

Mas, olhando por outro ângulo, o horror humano, como o horror de Chernobyl, também nos lança numa encruzilhada.

O homem desenvolveu um sem número de pequenas maravilhas tecnológicas.

Inventou a mariposa quando quebrou o átomo, quando usou o conhecimento acerca da força da gravidade para pôr macacos e cachorros em órbita da terra, quando formalizou a lógica para gerar máquinas que parecem pensar melhor do que nós. Mas a velha dificuldade de se prever e controlar o horror humano continua. Continua porque o homem falhou e falha em prever e controlar a si mesmo.

Falhou e falha sempre em derrotar seu maior inimigo, o seu maior predador, o seu maior algoz. A sua incapacidade de evitar a sua própria destruição, produto da ingerência de suas próprias carências, parece ser o maior vexame da humanidade.
Tão inteligentes e tão inaptos. Tão fortes e tão frágeis. Tão absolutamente seguros de seu poder e tão instáveis diante da própria incapacidade de usar esse poder para evitar o horror.

por Pablo Capistrano [12:35]
12.4.06
Concurso para titular

Olha só pessoal, essa é uma pedida para a semana que vem acompanhar o concurso de professor titular. Um combate dos bons.

As conferências oferecidas como requisito à prova didática para o concurso de professor titular em filosofia serão como seguem:

Prof. Cláudio Costa
Dia: 17/04?próxima 2ª feira
Horário: 14:00
Local: Auditório C, CCHLA

Prof. Glenn W. Erickson
Dia: 17/04?próxima 2ª feira
Horário: 16:00
Local: Setor II, sala D3
Título: O conceito de potencialidade

Defesas de memoriais:

Prof. Cláudio Costa
Dia: 18/04?próxima 3ª feira
Horário: 14:00
Local: Auditório C, CCHLA

Prof. Glenn W. Erickson
Dia: 18/04?próxima 3ª feira
Horário: 16:40
Local: Auditório C, CCHLA

Ambos são eventos públicos. Não deixe de testemunhar esse agon---à moda grega mesmo...

por Pablo Capistrano [23:18]
9.4.06
V de vingança ou de vexame?




Semana passada estava conversando com Eric, um Norueguês dono do Bare Pub, em Ponta Negra. Eric é um cara que já morou em vários lugares do mundo, inclusive na Tanzânia. Gosta de conversar e quebra o estereotipo do escandinavo frio e distante.
Entre uma dose e outra de uma água ardente com sabor de anis cujo nome não consigo me recordar (o que prova o bom efeito do negócio) digo que o brasileiro é um povo aberto, cordial, miscigenado, que costuma a sorver antropofágicamente a cultura alheia.

Eric ri e discorda firmemente.
"I don´t think so" ele diz.

Para Eric o natalense é bastante preconceituoso com os estrangeiros, quase como os europeus.
Fico surpreso.
Tento me ancorar em Oswald de Andrade, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre ou qualquer outro autor que possa me salvar dessa estranha xenofobia revelada. "Somos mestiços" -Eu digo. "Não podemos ser xenófobos ou racistas. Somos homens cordiais".

Mas Eric não concorda, ele diz que há uma atmosfera tensa em Natal, uma espécie recorrente e subliminar de conflito entre os moradores locais e os novos habitantes, que vem aqui em busca de sol, fugindo dos rigores de um clima cada vez mais selvagem no norte.

Curiosamente, enquanto tomava a cachaça norueguesa com o Eric, uma mega operação policial se processava em Ponta Negra.
Homens das diversas corporações que cuidam da lei e da ordem e impõe a repressão estatal, fechavam a orla da praia e faziam um arrastão envolvendo não sei quantos órgãos do estado, da prefeitura e do governo federal.

Uma daquelas grandes e espalhafatosas operações que pode fazer qualquer sujeito descuidado pensar que algum tipo de profecia, extraída da HQ V de Vingança (que virou filme), estaria se materializando nos trópicos (junto com as câmeras nos postes da praia). Ouvi dizer que prenderam oitenta estrangeiros, sem passaporte, e mais um outro grupo de donzelas em perigo (as nossas meninas, que eram nossas e agora são deles).

Parece que teve até dono de estabelecimento comercial que saiu algemado, gente fazendo fila para entrar nas vãs e funcionários da covisa caçando baratas nas cozinhas dos restaurantes.

Pois é, amigo leitor, o inferno são os outros, e hoje, os outros são caras como o Eric, que resolvem morar em Natal e investir um pouco dos seus maravilhosos Euros(que todo mundo quer mas que ninguém assume procurar).
No íntimo eu sei que essa é uma típica reação pós-fantástico. Uma espécie de justificativa moral para a tal reportagem que mostrou Natal como uma das capitais da prostituição turística no Brasil.

Nada melhor para apaziguar o sentimento de culpa e vexame que povoa o inocente coração da aristocracia rural potiguar. Sim, aquela aristocracia que veraneava em Ponta Negra nos anos setenta e perdeu a praia para as inocentes mocinhas pobres, exploradas pelos gringos malvados. Que perdeu a orla para os abusados e barulhentos vendedores de CD pirata.
Para o povo.
Essa massa de gente sem classe.
A velha aristrocacia do algodão, do açúcar e da xelita.
Os tradicionais senhores de escravos portugueses que dominaram a capitania por tantos anos e sofrem com a exploração de seus antigos servos.

Na verdade parece que estamos vivendo um novo conflito já antigo. Uma disputa pelo controle da costa do Nordeste brasileiro, que já opôs franceses, portugueses e holandeses em guerras sangrentas.

Dessa vez o mote é a honra sexual das meninas potiguaras, tão ingênuas e desprotegidas, que precisam de uma mãozinha do Estado para defender suas virtudes e suas vergonhas, tão asseadas e cheirosinhas, como dizia Pero Vaz de Caminha na sua carta.

No final Eric diz: "mas nós vamos continuar vindo para cá". Eu pergunto "por que?" Ele sorri e me diz: "aqui é quente, perto e barato". Damos uma gargalhada. Essa é boa. Quente, perto e barato... eh eh eh. Mas é verdade. Vamos ter que aprender a conviver. Com ou sem vexame, com ou sem guerra de reconquista.

por Pablo Capistrano [21:21]
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