29.6.06
A Metamorfose

Falar de Futebol é fogo.

A Metamorfose

Pablo Capistrano
www.pablocapistrano.com.br

A África estava em festa. Especialmente Gana, chamada por muitos de "O Brasil da África". A Seleção quatro vezes campeã da copa africana, finalmente, iria disputar um jogo de copa do mundo com o Brasil. Seria uma grande partida. O confronto de duas seleções de escolas parecidas. Futebol alegre, solto, jogado pra frente. O Brasil com grandes jogadores, o melhor do mundo e o maior artilheiro de todas as copas em campo.O quadrado, triângulo retângulo, círculo, trapézio ou losangulo mágico do Brasil, contra a velocidade africana.

Para assistir a partida reúnem-se no estádio Tony Yeboah (grande jogador de Gana nos anos oitenta que foi contratado pelo Leeds United) e seu desafeto Abedi Ayew Pelé (que jogava na França no início dos anos noventa). Durante muito tempo o conflito entre esses dois astros do futebol Ganes atrapalhou os planos dos "Estrelas Negras" de participar de uma copa, mas agora, diante do sonho de jogar com o Brasil, diante de um confronto mitológico entre mestre e discípulo de uma escola de futebol que acostumou a encantar o mundo, até os velhos desafetos superavam suas disputas idiossincrásicas.

O jogo começa.

Logo no início o gol de "Ronaldo (por que todo mundo pega no meu pé?) Fenônemo" parece indicar que a partida iria ser boa. No entanto, de repente, Abedi Pelé se volta para Yeboah e pergunta: - Peraí? Aquele ali não é o Cláudio Gentille? ? Assustado Yeboah responde: - È mesmo! Mas o que é que ele está fazendo com a camisa da seleção Brasileira?

Como se estivessem imersos num pesadelo kafkiano, os antigos astros do futebol de Gana, percebem que os Estrelas Negras haviam caído numa armadilha fatal. Disfarçados de jogadores brasileiros, com graxa na cara, estava ela: retrancada, arisca, se defendendo obsessivamente, recuada, preparada para jogar no contra ataque; ela! A seleção italiana campeã do mundo em 82. E foi assim, despertos de um profundo sono dogmático, que os dois maiores astros do futebol de Gana perceberam que, a despeito de parecer muito com o astro brasileiro, quem fez o primeiro gol da partida foi mesmo o Paolo Rossi.

por Pablo Capistrano [12:19]
20.6.06
Copa Cult

A Piadinha que a turma está contando é a seguinte.

véspera do Jogo Brasil e Japão.
Zico liga para Parreira:

_ Parreira, rapaz, sabe como é... o japão precisa vencer... o Brasil está classificado... será que não dava para aliviar?

Parreira que, apesar de ser tricolor tem uma profunda solidariedade de classe, resolve ajudar seu colega rubro negro.

_ Pois não colega. Vou entrar com o time reserva.

Zico, deseperado, responde:

_ Não! Não! por favor! O time reserva não! Entre com o titular mesmo.


sacanagem...
piadinha sem futuro.
mas,
falando sério...
estou numa coletânea da Rocco sobre a copa do mundo, falando sobre Portugal.

Um texto com 32 escritores de todos os locais do planeta sobre suas relações pessoais com os paises que estão disputando a copa.

é uma notícia boa porque o livro, lançado numa editora gringa, teve uma boa recepção mundo afora e parece que só tem dois autores brasileiros na jogada.

vou publicar um relise e solicitando que meus leitores aqui do mural se prestem a divulgar pela net e dar uma comprada no livro para ajudar esse escritor de província a pagar o leite das crianças que a situação está preta.

Ps.: também chegou carregamento novo do Pequenas Catástrofes nas livrarias de Natal para a turma viajar antes dos jogos da copa.


O GUIA CULT PARA A COPA DO MUNDO

Matt Weiland & Sean Wilsey (organização)



?No futebol, o pior cego é o que só vê a bola?, dizia Nelson Rodrigues. Na Copa do Mundo, o pior cego é o que só vê 32 seleções nacionais disputando um título mundial. Assim como o verdadeiro futebol é muito mais do que 22 seres suarentos disputando uma circunferência branca, a Copa do Mundo é o encontro ? e obviamente o embate ? entre 32 culturas nacionais. É isso que mostra O guia cult para a Copa do Mundo, a reunião de 32 textos sobre cada uma das seleções que estarão disputando o título na Alemanha. Muito mais do que táticas de jogo e aplicação técnica, os 32 craques das letras de diferentes nacionalidades contam como cada país se relaciona com o futebol.

Além dos jogadores de cada seleção, os textos mostram que também entram em campo fobias, traumas e identidades nacionais. Entram também cada um dos incalculáveis torcedores pelo mundo afora, com seus momentos particulares de vida. Entram a história e o momento político presente. Cada França X Alemanha reviverá para sempre a Guerra Prussiana e a ocupação na Segunda Guerra Mundial. Cada Brasil X Argentina será uma nova encenação da disputa entre duas nações que brigam eternamente pela hegemonia continental.

O guia cult para a Copa do Mundo traz relatos pessoais de como craques das letras se relacionam com as seleções que estarão na Alemanha e sobre a importância da competição para cada um dos países participantes. Leitura obrigatória durante o aquecimento para a competição e agradável para fazer passar menos dolorosamente o intervalo entre um jogo e outro.

Além dos textos, O guia cult para a Copa do Mundo tem informações úteis para quem quer assistir aos jogos tendo todas as informações possíveis sobre a competição, nem que seja para ganhar as apostas sobre fatos do passado e curiosidades presentes, uma espécie de disputa paralela quando um grupo de amigos se reúne para acompanhar as partidas. São estatísticas sobre as copas passadas; tabelas, bolsa de apostas, descrição dos estádios e relação de todos os árbitros escalados pela Fifa para 2006; fichas e tabelas com dados sócio-políticos-econômicos, retrospectiva histórica e campanha nas eliminatórias de cada um dos 32 participantes.

O guia traz também curiosidades para todos os gostos, como a relação dos maiores artilheiros de todos os tempos, o aproveitamento em cobranças de pênaltis e até o número de prisioneiros por cada cem mil habitantes e a quantidade de filmes produzidos por cada milhão de habitantes. Para quem não se agüenta de curiosidade, os primeiros lugares no ranking pertencem, respectivamente, a Estados Unidos e França.

A escalação dos autores: Tim Adams (República Tcheca), Courtney Angela Brkic (Croácia), Jorge Castañeda (México); Robert Coover (Espanha), Geoff Dyer (Sérvia e Montenegro), Dave Eggers (Estados Unidos), Pablo Capistrano (Portugal), Jim Frederick (Japão), Aleksander Hemon (França), Isabel Hilton (Paraguai), Peter Ho Davies (Coréia do Sul), Nick Hornby (Inglaterra), Max Mallmann (Argentina), Paul Laity (Costa do Marfim), John Lancaster (Brasil), Cressida Leyshon (Trinidad & Tobago), Alexander Osang (Alemanha), Tim Parks (Itália), Benjamin Pauker (Ucrânia), Caryl Phillips (Gana), Ben Rice (Austrália), Sukhdev Sandhu (Arábia Saudita), Saïd Sayrafizadeh (Irã), Eric Schlosser (Suécia), Jacob Silverstein (Equador), Peter Stramm (Suíça), Wendell Steavenson (Tunísia), James Surowiecki (Polônia), Tom Vanderbilt (Holanda), Binyavanga Wainaina (Togo) e Matthew Yeomans (Costa Rica).

Além dos ?jogadores principais?, O guia cult para a Copa do Mundo conta também com a entrada em campo de um luxuoso reforço: Franklin Foer, autor de Como o futebol explica o mundo, que escreveu o apêndice ?Como ganhar a Copa do Mundo?. Tudo isso sob o comando técnico de Sean Wisley e Matt Weiland, os organizadores.



Sobre os organizadores:

Sean Wisley é autor de Oh the glory of it all. Seus trabalhos foram publicados pela London Review of Books, pelo Los Angeles Times e nas publicações especializadas em literatura da editora McSweeney's. Ele também já trabalhou como assistente editorial da revista The New Yorker, foi revisor da Ladies Home Journal e responsável pela correspondência da Newsweek. Wisley vive em Nova York.

Matt Weiland é subeditor da revista Granta e editor executivo da editora Granta Books. Antes disso, foi editor da The New York Press, em Nova York, e editor executivo da The Baffler Magazine, em Chicago. Ele co-editou o livro Commodify your Dissent: the bussiness of culture in the new gilded age, com Thomas Frank. Os textos de Weiland já foram publicados em veículos como The Washington Post, Village Voice, Newsday. Ele vive em Londres.

por Pablo Capistrano [12:19]
9.6.06
Olhos




Já publiquei essa crônica em outros locais, mas como muita gente gostou e daqui a pouco vai ter o jogo da Alemanha contra a Costa Rica pela copa do mundo, vou pondo ela por aqui também.
um abração.



Seus Olhos



Ando meio desconfiado da modernidade.
Acho que no fundo sempre fui meio arcaico.
Gosto de coisas velhas e sinto o cheiro das coisas velhas nas coisas novas.

Talvez seja mesmo uma percepção curiosa sobre o tempo que me faz ver o velho no moderno e enxergar, sem separar em caixinhas distintas, o que foi feito desde sempre.

Ando vendo antigos rituais de possessão nas festas de música eletrônica. Velhos símbolos de civilizações mortas pendurados nos pescoços de garotos e garotas de quinze anos.
Chaves de antigas angústias. Sinais de ansiedades medievais e ritos de passagem velhos e mofados brilhando em letreiros luminosos. Repetimos o nome de nossos mortos. E são os nossos mortos que conversam conosco quando deitamos para dormir e ouvimos, naquele estagio letárgico que antecede o sono, suas vozes sussurradas. Eles dizem que estão em nós. Que moram em nós. Que continuam em nós. Temos os olhos de nossos mortos. A pele de nossos mortos. A urina ácida de nossos mortos. Exalamos suas vidas. Devemos a nossos mortos todo o nosso tempo, com toda a glória e toda a ruína de nosso tempo.

Andei pensando outro dia, de onde vinham meus olhos. Sim, porque meus olhos continuam, estranhamente, nos olhos da minha filha. Alguém me disse: "sua filha tem seus olhos". Mas de onde vem meus olhos? Seriam meus olhos uma invenção minha, ou teriam eles outra origem, outra fundamentação? Então resolvi visitar uma irmã de criação de meu avô na cidade de Mossoró, no Oeste do estado do Rio Grande do Norte. Um lugar quente. Uma capital sertaneja cercada por fantasmas de morte, escravidão, dor e resistência. Quanta dor e quanto sangue não devem ter sido derramados para que aquela cidade surgisse? Porque uma cidade se faz com sangue e com dor, e não apenas com sinais de júbilo e glória, com festas e acordos políticos de encantamento. Para que eu entenda meus olhos, ganho de presente, em Mossoró, a foto de uma mulher que morreu há muito tempo.

Seu nome era Aurora. Ela casou nova, com um tropeiro que morreu numa viagem pelo sertão. Naquele tempo morrer cedo era muito comum. Então Aurora ficou sozinha, com dois filhos homens, crianças ainda. Pequenos demais para entender que a dureza do mundo exigia de todos os que o habitam a terra, uma rigidez de propósitos sem conta. Solitária, Aurora teve que abandonar um dos filhos. O que poderia fazer uma mulher de vinte e poucos anos, viúva de um tropeiro morto no sertão, nas primeiras décadas do século vinte? Ela entregou seu filho para ser criado pelo tio, um proprietário de terras do alto oeste potiguar que tinha uma máquina de descaroçar algodão. Não sei o que significa ter uma máquina de descaroçar algodão em 1920, mas acho que deve ser algo de grande importância.

Esse garoto, que foi abandonado pela mãe, cresceu, casou e teve uma filha. Essa filha ainda é viva. Conseguiu abandonar a terra seca em que nasceu, fugiu da fome, da morte e do analfabetismo, e vive viajando pelo Brasil, trabalhando com capacitação de professores em comunidades rurais. Sem saber, Aurora continuou naquele garoto, que era meu avô. Continuou na filha dele que é minha mãe. Continuou em mim e na minha filha. Sem saber, Aurora deixou que seus olhos sobreviessem depois que ela partisse. Fez com que seus olhos continuassem pelo tempo. Hoje os olhos de Aurora compõem, de um modo ou de outro, o rosto da minha filha. Por isso eu sei que meus olhos não são meus. Por isso, por essa foto que ganhei nessa viagem à Mossoró, sei que meu corpo não é meu. Que minha alma não é minha. Que se eu vivo hoje, é porque tomei a vida de empréstimo, de todos os meus mortos. Como eu ia dizendo, ando meio arcaico esses dias. Ando meio lento, pensando que o tempo, esse rei sem forma que tanto nos assusta, pode ser simples, como simples e sem cor é uma foto antiga, que depõe sobre nossos olhos e nossos estranhos e inocentes sonhos de imortalidade.

por Pablo Capistrano [12:11]
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