| 26.7.06 |
| Crônicas Portuguesas - V - Cenas de um Confronto Lusitano |
| Estava ainda obcecado com a idéia de saber o que tinha dentro da tal escrivaninha no corredor da casa da rua da cerâmica em Almoçageme. Mas precisava de uma chave para abrir o móvel. Foi ai que observei, subindo a escada que leva ao andar de cima, por trás de uma estante, um buraco na parede. Parecia um lugar para uma janela ou uma coisa assim. Pensei que talvez, por algum motivo qualquer, ali devesse estar escondida a chave que me faria abrir a tal escrivaninha. Mas não tive tempo de empurrar o móvel, porque rapidamente, surgiu a idéia de fazer um churrasco brasileiro para a família de australianos e o Andrew (irlandês casado com a Suzan, também australiana e que viajava conosco. Depois eu explico melhor as razões da viagem e aí vocês vão entender). Meu cunhado se prontificou a amaciar a carne com um molho que leva cerveja, mostarda e um pouco de sal; além, é claro, de acender o fogo e pôr a carne para assar. Eu com o talento culinário que herdei de meu pai (que também só domina a técnica ancestral do ovo frito e nada mais) tive a incumbência de procurar um açougue em Almoçageme e comprar a bebida (ingrediente que, tão importante quanto a carne o vinagrete e a farofa, ao lado do pagode, e das meninas embriagadas gritando e pulando de roupa na piscina não pode faltar num bom churrasco brasileiro). Perto do corpo de Bombeiros da bela e pacata vila de Almoçageme (espero que não esteja rebaixando o status político da localidade, mas não sei se é um município ou só um distrito), na Avenida Brandão de Vasconscelos, que segue em direção à Praia da Adraga, tem uma praça, um coreto e uma Igrejinha. Nessa praça algumas mulheres põe umas bancas (tabuleiros como eles dizem por aqui) e vendem verduras e frutas, como uma micro feira. Alguma dessas mulheres usam preto da cabeça aos pés, passando por meiões que cobrem até os joelhos. Isso parece ser uma antiga vestimenta mediterrânea porque lembro de ter visto senhoras vestindo-se de modo semelhante na Grécia e em Capri no sul da Itália. O fato é que, quando eu estava passando em frente ao coreto da praça, na minha busca por preciosos pedaços de picanha, vi duas crianças. Uma menina e um menino de aproximadamente a mesma idade. As vezes pareciam gêmeos de tão parecidos que eram, mas também, as vezes, pareciam ter alguma diferença mínima de anos, talvez sete e nove ou oito e dez, não sei. Eles discutiam como só irmãos sabem discutir e, de repente, como só irmãos sabem fazer, eles começaram a se espancar. O garoto virou o corpo e deu um chute forte na coxa lateral da menina. Ela nem se mexeu. Só soltou um grito de dor e se posicionou com os punhos em formação de defesa. A luta não tinha a beleza de um combate entre Bruce Lee e Chuck Norris no clássico O Vôo do Dragão, mas parei para a assistir o desfecho do combate. Pensei politicamente incorreto: "a menina vai correr". Sem sombra de dúvidas não se fazem mais irmãs como antigamente, a garota revidou a pancada, atingindo com o pé o flanco esquerdo do menino. De longe, parecia uma luta de Tae Kwon Dôo numa olimpíada. Um violento combate de pernas, mas sem jogo de cintura porque os dois não saltavam, nem quicavam, nem rebolavam de lá para cá tentando fugir do chute. Logo, o irmão (sim, só podia ser o irmão dela porque só os irmãos se tratam assim com essas bordoadas apaixonadas) aponta para a menina, diz algo que eu não consigo entender, tanto pela distancia em que me encontro quanto pelo sotaque da região central de Portugal, e... Caramba! Fazia tempo que eu não via um chute assim. Até eu pude sentir a dor e me contorci, quase gritando junto com a menina, como se a dor, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, pudesse ser transmitida de um corpo à outro sem o intermédio de algum tipo de ligação biológica maço perceptiva. Ele deve ter atingido em cheio o rim ou o fígado, não sei bem porque não consigo ter uma noção exata de que tipo de coisa ocupa que lugar dentro do corpo humano (por isso sempre levei pau na disciplina de anatomia quando cursava psicologia na universidade à longínquos treze anos atrás). Mas deve ter sido mesmo algum desses órgãos que, quando param de funcionar matam gente, porque a garota caiu no chão chorando e gemendo enquanto o menino, assustado com a força do próprio chute e com as conseqüências de sua justa vitória sobre uma oponente tão resistente, dispara numa fuga louca pela lateral da igreja, na direção da Praia da Adraga. Se esse for mesmo um modelo padrão de uma briga-lusitana-entre-irmãos-ciumentos-de-quase-a-mesma-idade devo concluir que em Portugal, a turma briga diferente. Sei que do ponto de vista das regras de um raciocínio indutivo essa conclusão não tem absolutamente o mínimo valor probabilístico por que um, do ponto de vista quantitativo é só um grau maior do que zero. Mas se isso vai comprometer o rigor antropológico de minha empreitada por Portugal pouco importa. O fato é que deve haver alguma diferença entre o modo como as crianças brigão em Portugal e o modo como isso acontece no Brasil. Explico. No Brasil a molecada pula muito. O mais importante parece ser desviar do golpe e não acertar. A idéia fundamental aqui é não levar pancada, se conseguir acertar uma bem no meio das fuças do oponente, ótimo! Mas se não, a luta termina empatada e não há problema. Cada um vai para a esquina da sua casa, xingando a mãe do outro e prometendo um revide no próximo encontro. É por causa desses empates que surgem rivalidades ancestrais, que passam de geração à geração nas famílias brasileiras (especialmente as nordestinas). Como a capoeira, briga e dança no Brasil andam juntos e a idéia de que o mais importante é derrubar o oponente não parece ser de bom tom. Eu, particularmente, adoro ver uma boa roda de capoeira, mas tenho arrepios toda vez que, sem querer, passo com o controle remoto num canal de esportes, no qual dois mastodontes musculosos e suados se enroscam homo eroticamente no chão de um ringe. Aquela luta em Almoçageme foi diferente de todas as lutas entre crianças que eu já presenciei no Brasil (e bem diferente das poucas nas quais eu mesmo já participei). Havia uma grande concentração de força em cada chute e nem o irmão e nem a irmã (Porra, isso já está ficando psicanalítico) se preocupavam em desviar-se dos golpes. O mais importante era acertar o outro e não evitar ser acertado. Diziam os cronistas que os índios antropófagos da costa do Nordeste do Brasil (os potiguaras em particular) não gostavam de comer o cérebro dos Franceses porque eles eram meio frouxos. Ajoelhavam-se e começavam a gemer e a chorar, pedindo perdão. Isso compromete o guerreiro. Imagine se um grande guerreiro Potiguara comesse um cérebro de um sujeito desses! Iria ficar tão apático e medroso quando um lateral esquerdo da seleção brasileira na copa de 2006. Os espanhóis e portugueses não. Esses eram bons de comer (num sentido culinário, vale salientar). Firmes no combate, raivosos, violentos, não abriam nunca para o inimigo. Não sei se há verdade histórica nisso e espero que a embaixada da França não faça algum tipo de objeção a minha humilde interpretação, mas a julgar pela briga que vi em Almoçageme é bem provável que os cronistas tivessem mesmo razão. |
| por Pablo Capistrano [10:10] |
| 19.7.06 |
| Crônicas Portuguesas IV - Mudando o Conceito de Praia |
| Depois de 3 dias de um céu nublado, de uma neblina fria e de um vento úmido; de casacos para suportar os 19 graus da serra de Sintra e de muito tremor e ranger de dentes o socorro veio da África. Embalados por uma massa de ar quente que atravessou o Sahaara os termômetros em Portugal se agitaram. Na sexta passada, em algumas estações do Comboio que junta Sintra à Lisboa, a temperatura chegou a 38 graus. Tempo perfeito para uma praia. Pegamos a estrada da Serra, mais para sudeste em direção à Cascais e Estoril. Se você, amigo leitor, achou a estrada entre Sintra e Almoçageme estreita, espere para andar na estrada que dá acesso ao farol da Roca! Em alguns lugares, com mão dupla, só há espaço para se passar um único carro, então botam-se espelhos para que você veja em quem vai bater. O cabo da Roca é o ponto mais ocidental do continente europeu. Là tem uma placa aonde se lê: "A Europa acaba aqui" e uma outra que diz "Aqui acaba a terra e começa o mar". Deve ter sido no Cabo da Roca que os navegadores portugueses começaram a cultivar o seu desejo de perscrutar o Abismo. Sim, porque aquilo ali só podia ser o Abismo. O grande buraco. A imensa fossa. A gigantesca garganta aberta do leviatã. Restos da batalha na qual Javé trucidou a serpente, repetindo o mito cosmológico registrado no Enuma Elish, no qual Marduk teria esquartejado sua mãe Tiamat. E o Cabo da Roca lembra mesmo o cenário de uma imensa batalha. Como se toneladas de rocha tivessem sido cuspidas em direção ao mar num penhasco de 140 metros, após algum cataclismo geológico desses de animar a audiência da Discovery Chanel. As rochas fraturadas, ovento frio e úmido, as ondas explodindo violentamente sobre as mesmas rochas fraturadas, me dão a nítida sensação de que eu estou dentro de um quadro de Turner ou bem no meio de dois acordes de algumas daquelas horrorosas peças musicais de Wagner. Depois de sair do Cabo da Roca nos dirigimos à Cascais, mas paramos para comer alguma coisa na praia do Guincho. Ai um primeiro grande impacto no meu conceito de praia: os restaurantes da praia do guincho não permitem a entrada de pessoas molhadas ou sujas de areia. Como se a praia pudesse ser posta entre parênteses. O outro problema é o do fuso horário que, para nós, com os corpos acostumados a dias e noites de uma estabilidade doentia, todas com a mesma duração, da a impressão que a hora do almoço sempre é mais tarde do que o de costume por essas bandas. 3 da tarde e todos os restaurantes estavam com a cozinha fechada. Demos meia volta numa busca desesperada por um supermercado. Achamos um em Colares na Praia das Maçãs. Casas branquinhas penduradas em penhascos rochosos me fazem lembrar a Grécia. Dois bares perto da areia me fazem lembrar velhas barracas em ponta negra. Uma juventude meio rasta, meio punk, meio novela das oito se espalha pelas cadeiras tomando uma "imperial" e ouvindo The Doors. Ai surge o segundo grande impacto no meu conceito de praia: ninguém está dentro da água. Perto da área das ondas tem uma placa onde se lê algo: "não entre na água se você tem amor a sua vida". Olho o mar e, com uns 32 anos de contato quase diário com a criatura, aprendendo a observar seus caprichos e suas variações de humor,percebo que aquilo é um senhor mar aberto, sem nenhum bom arrecife, sem nenhum parrachozinho que possa impedir que as correntes marinhas do atlântico selvagem levem um banhista displicente até a costa da Bretanha. Mas eu sou teimoso. Levo meu filho Uriel até a beira da praia só para, pelo menos, sentir um pouco a água do mar de Portugal. Não sei, amigo leitor, se você já mergulhou os pés numa bacia de gelo alguma vez na sua vida. Eu costumava a fazer isso quando era criança, para testar o limite da dor e atingir o barato que vinha depois, quando o pé começava a ficar dormente. Mas eu era criança e não tinha ainda formado em mim o conceito cirúrgico de amputação. Quando a primeira onda grande veio eu e Uriel gritamos. Gritamos e corremos para longe do mar com toda a força. Enquanto a água gelada ia deixando aos poucos a ponta de nossos pés completamente dormentes. Com certeza nossa vida estaria em perigo se entrássemos na água. Nessas férias, com certeza, a minha relação com a água do mar vai ser meramente contemplativa. |
| por Pablo Capistrano [16:04] |
| 16.7.06 |
| Crônicas Portuguesas III - Sintra foi ocupada por gente da Atlântida |
| Almoçageme - 12 de Julho de 2006 "Os Esotéricos dizem que Sintra foi ocupada por remanscentes da Atlantida, o continete perdido". Foi o que disse o marido de uma amiga de minha sogra, quando nos visitou em Almoçageme. Tinhamos ido a Sintra no mesmo dia, visitar um Palácio construido por Don João I. Perto do Castelo dos Mouros. Parece que o Palácio é de 1200 e la vai fumaça. Foi construido numa área anteriormente ocupada por chefes mouros depois da invasão na península ibérica. Tem uma fachada gótica, com arcos muito bonitos, um belo jardim (jardim dos princípes) interno, uma cozinha gigante com um espeto para churrasco que dá para espetar três carneiros um atrás do outro e duas imensas chaminês. Também tem uma bela sala árabe, ornada com azulejos de temas abstrados como só os mouros da gema sabiam fazer. Gostei mesmo da sala dos Brasões, uma antiga sala de banquetes com brasões de 72 antigas famílias nobres lusitanas. Da minha linhagem identifiquei os Tavares, os Castro, Farias e Menezes. Da minha mulher os Lima e os Sousa. O melhor da visita foi saber que fim levou a nobreza européia. Antes, na época do João I ou do Jão II ou sei lá que João da vida, entrar num palácio desses seria uma tarefa quase impossivel para um pequeno proprietário de terras, um marrano desgarrado das tribos de abraão, como meus ancestrais nordestinos. Hoje o Estado usurpou a casa da nobreza aristocrática e transformou a história de nossas calamidades sociais em museus nos quais qualquer um pode entrar e se servir do panquete silencioso dos defuntos por simples 4 euros. Uma boa pedida para quem quer saber mais sobre as curvas dessa história de dominações políticas e conflitos sangrentos que levou tanta gente para a cadeia, para o degredo e para a fogueira. Agora, só falta esperar o sol sair e procurar uma praia para relaxar. |
| por Pablo Capistrano [11:47] |
| Crônicas Portuguesas II - a Economia dos sorrisos |
| Almoçageme esteve frio por dois dias. Uma névoa cobrindo toda a serra de Sintra. Isso me fez pensar que esse verão português iria ser bem mais gelado do que o pior inverno passado em Natal. Fomos a um café na rua Brandão de Vasconcelos, no caminho para a praia da Adraga. Logo na entrada já percebo que não deve ser fácil a vida de um bebum em Portugal. Uma lei (seria uma lei municipal?) proíbe a venda de bebidas para menores e para pessoas visivelmente embriagadas. Também é proibido que menores e essas tais pessoas visivelmente embriagadas bebam em público. Já o fumo... Bem, sempre soube que essa paranóia anti-tabagista é mesmo uma coisa anglo-americana. Em Portugal não há muito pudor em se fumar e todo mundo fuma em lugares fechados e ninguém diz um aí sobre isso. No Brasil, pode até dar cadeia, degredo, confisco de bens e confinamento em campos de extermínio de fumantes. Mas meus cigarros de cravo acabaram e, como eu sou um fumante vagabundo (desses que fumam dois ou três cigarros por dia), vou ficar essa viagem na contra mão. Sem fumar. No café Adraga há uma caricatura de dois homens. Um careca de óculos e um outro de barba fechada. Eles existem. Devem ser os donos do lugar. Quem sabe irmãos? Quem sabe primos? Sócios? ou até mesmo um casal homo que resolveu abrir um negócio? Um (o de careca de óculos) fica sempre no balcão. O outro atente aos clientes. Ficamos um pouco constrangidos quando fomos pedir alguma coisa para comer. O sujeito de barba fechada parecia muito irritado. Puto com alguma coisa. Sisudo, ele nos atendia com palavras curtas e diretas, como se estivéssemos a cometer algum tipo de ofensa pessoal em perguntar o preço do polvo ou se o bacalhau era ou não salgado demais. Fiquei com medo de perguntar aonde era o banheiro e levar uma patada. Mas logo logo a impressão de grosseira se desfez. Helena (minha filha) irritada e com sono começou a chorar na cadeira. Então, o barbudão com cara fechada, chegou e começou a brincar com ela de modo afável. Eles não são grossos. Não são rudes. São só sérios. Foi ai que eu percebi que você pode compreender a natureza de um povo pelo modo como ele lida com a economia dos sorrisos. Nós, brasileiros, sorrimos o tempo todo. Facilmente. Por qualquer coisa. Por nada. Em outros locais o sorriso é mais caro. Talvez haja um estoque limitado de sorrisos que faz com que as pessoas relutem e desperdiçar sua cota. Quando Levi-Strauss conheceu os Bororo, na década de 30, registrou que eles passavam boa parte do dia a se bater jocosamente, se tocar e rir à toa, sem um motivo aparente. Mal costume de índio esse meu de achar que a simpatia ou a sensibilidade de alguém pode ser medida só por um sorriso. As vezes, a seriedade também guarda sua dose de doçura. Assim como muitos sorrisos podem apenas esconder um grau qualquer de raiva e rancor. |
| por Pablo Capistrano [11:26] |
| 10.7.06 |
| Crônicas Portuguesas I |
| O Avião que nos levaria até Lisboa atrasou. Isso fez com que eu e Uriel perdêssemos a final da Copa do Mundo. Aliás, não perdemos totalmente, ouvimos o segundo tempo, a prorrogação e os penâltis no aeroporto, pelo rádio. Ninguém tinha idéia de um lugar no qual se pudesse assistir o jogo pela tv e tomar uma cerveja. Por um lado isso foi providencial porque o jogo parece que foi uma bosta e, pelo rádio, com o narrador impondo uma emoção acústica à partida, qualquer ABC e América se torna um jogo histórico. Alugamos um carro e viajamos até um lugar chamado Almoçageme. Deve ter algo a ver com os árabes esses nomes com "Al". Fica à noroeste de Lisboa e tivemos que circundar a serra de Sintra durante a noite, perdendo a vista e cuidando para sobreviver a estrada, escura, estreita e cheia de curvas sinistras. Hoje o dia está coberto por uma neblina. Por aqui está muito frio para qualquer verão tropical que eu já tenha sentido alguma vez nessa minha curta vida. O lugar parece estar cheio de turistas e nós alugamos uma casa na Rua da Cerâmica. A casa é confortável e tem uma escrivaninha estranha, que eu não consigo abrir. O que terá dentro dela? Talvez uma cópia antiga do Livro das Transmutações ou alguma carta secreta de um alquimista português que não seja leitor de Paulo Coelho. Em todo local se vêem bandeiras de Portugal. Parece que eles estão experimentando um mesmo tipo de surto nacionalista que nós Brasileiros experimentamos de quatro em quatro anos. o mais curioso, além de ter assistido depoimentos com sotaque português de Portugal sobre a fogueira santa da universal na TV (outro produto de exportação brasileiro, além do futebol e do seriado malhação que passa aqui também) é a incrível semlhança física do povo de Lisboa com o povo do Brasil. Especialmente com o povo do sertão. Enquanto comia uma pizza na estrada para Sintra, ontem à noite, pude abstrair o espaço geográfico e o sotaque. olhei apenas para o rosto das pessoas, a cor da pele, o formato dos narizes, a cor dos cabelos. Parecia que eu estava em uma Currais Novos ou numa Campina Grande da vida, só que mais rica e mais fria. Vou aguardar o Sol. Talvez amanhã ele apareça para acalmar minha alma tropical e dar uma forma de verão a essas férias. Ah. outra coisa curiosa. A Lua daqui é diferente da do Brasil. Ela parece maior e menos iluminada. é como se estivesse mais perto da terra e mais longe do sol. talvez esse seja um sinal significativo para e entender o temperamento português ou, quem sabe, apenas um detalhe irrelevante que só seduz astrológos freaks como eu. |
| por Pablo Capistrano [15:40] |
| 3.7.06 |
| A França descobriu o Brasil |
| Quem descobriu o Brasil? Pergunta estúpida, resposta besta. Quem descobriu o Brasil foi Jean Cousin. Já ouviu falar dele? Eu também nunca tinha ouvido falar do Jean Cousin até ler o livro Tristes Trópicos do antropólogo Francês Claude Levi-Strauss. Lá na página 78 da edição brasileira do livro, Levi-Strauss fala desse tal Cousin, que trazia a bordo de seu navio uns tais de Pizón (nome de família) que teriam estimulado Colombo no seu projeto falho de circunavegação do globo. Teria sido um Pizón a comandar a caravela Pinta durante a primeira viagem de Colombo e um outro Pizón que, um ano depois, teria seguido uma rota conhecida que o teria levado até o cabo de Santo Agostinho, antes de Cabral. Verdade ou alucinação, o fato é que os arquivos de Dieppe, que levantavam a hipótese da descoberta do Brasil por Cousin, se perderam num incêndio no século XVII, o que pode ser de um modo ou de outro, bastante frustrante para os nossos amigos franceses. Também é fato que a palavra Brasil já era documentada na Europa desde o século XII, e que designava um continente mítico, de onde surgiriam as madeiras usadas para tingir as vestes da aristocracia européia. De imediato, o nome Brasil teria sido atribuído pelos franceses à tal Terra de Santa Cruz, o estranho Pais dos Papagaios, o que poderia indicar um trato íntimo com a terra nova. Fato é que os franceses já estavam espalhados pela costa brasileira quando os portugueses finalmente resolveram ocupar essa terra e preparar o terreno para imensa limpeza étnica que gerou o espaço vazio necessário para esse povo mestiço se desenvolver. Da Guanabara ao Maranhão s franceses quase colonizaram o Brasil. Talvez por isso, depois que Don João veio para o Rio com sua corte e mandou chamar uma comissão de artistas franceses para ajudar a ?civilizar? seu novo lar, essa francofilia tenha se instaurado na intelectualidade brasileira. Uma francofilia que contaminou poetas, cientistas, músicos e até imperadores brasileiros (veja só Dom Pedro II) por mais de cem anos. Disputas históricas à parte, talvez esteja na quase colonização francesa do Brasil a origem nesse nosso hábito tupiniquim de perder para a seleção da França em copas do mundo. Se você relembrar, amigo leitor, vai perceber que a escola francesa de futebol é a que mais se parece com a brasileira, na Europa. Tanto é assim que a esperança dos apaixonados por futebol era que a final da copa de 1982 fosse entre o Brasil de Zico e a França de Platini. Duas escolas que primariam pela técnica dos jogadores e que não se contentariam em jogar esse futebolzinho funcional e burocrático que contamina as seleções européias, especialmente as de influência da escola germânica. Está definido. Somos fregueses da França. Adoramos perder para a França. Depois do show de Zidane no último sábado, não ouve choro nem ranger de dentes no campo. Poucos jogadores se desesperaram, houve sorrisos, abraços, piscadelas, beijinhos e afagos. Até mesmo uma certa cumplicidade no ar. Perdemos para a França mais uma vez e ninguém se matou em campo depois da partida. Talvez tenha sido uma grande perda o incêndio que levou embora os arquivos de Dieppe no século XVII. Talvez ali houvessem documentos de uma paternidade perdida e isso pudesse realmente resolver esse dilema edipiano que move a cultura brasileira. Mas, mesmo sem os tais arquivos, depois de ver a partida contra a França no último sábado, posso afirmar sem sombra de dúvidas que Levi-Strauss está certo: A França descobriu o Brasil. |
| por Pablo Capistrano [12:42] |
| 2.7.06 |
| Pequenas Catástrofes do Futebol |
| 1982 - Melancolia e orgulho 1986 - Depressão e desejo de vingança 1990 - Raiva e rancor 1998 - Perplexidade e incompreensão 2006 - Tédio e vergonha. Ps.: para aqueles que gostam de futebol de resultados e adoram as estátisticas é bom gravar o show de Zizu (Allez les Bleus!). |
| por Pablo Capistrano [09:04] |