| 28.8.06 |
| Crônicas Portuguesas IX - Atalho para Santiago |
| Não sei de quem partiu a idéia de viajarmos até Santiago de Compostela na Espanha. Estávamos em Portugal, em um balneário próximo à Viana do Castelo. De repente a idéia de irmos à Santiago tornou-se hegemônica. Acordamos numa quinta de manhã, arrumamos o carro e partirmos para o norte pela estrada costeira que nos levaria a Valença e de lá, para a Espanha. No meio do caminho percebemos que não tínhamos a mínima idéia de onde ficava Santiago. Aliás eu nunca tinha pensando aonde ficava Santiago. Sabia que era na Espanha e que um monte de gente andava a pé para lá atrás de alguma coisa que ninguém sabe bem o que é. Mas a Espanha não é um país. È um amontoado de regiões com identidades étnicas e lingüísticas particulares que torcem por times de futebol diferentes e que tem um mesmo rei. Precisávamos de um mapa. Mas não havia mapas da Espanha em Valença. "Nessa época do ano todo mundo vai para Espanha e os mapas desaparecem" me falou um frentista num posto de gasolina na beira do rio Minho. Pegando uma informação ali e outra acolá descobrimos que o caminho era para o norte, passando por Vigo e Ponte Viedra. Bastava então seguir as placas, tomar a autoestrada certa e em mais ou menos uma hora e meia estaríamos lá. Essa história de estrada é interessante. Quando li On The Road de Jack Kerouack senti um profundo desejo de fugir de casa. Tinha 18 anos e quase todo mundo aos 18 anos já teve o desejo de fugir de casa. Kerouack me disse que haveria de ser na estrada que a pérola me seria ofertada e por isso resolvi viajar. Atravessei o sertão umas duas vezes, de ônibus para São Paulo; andei de carona pelo litoral sul do meu estado até João Pessoa. Voei até Lima só para depois descer até Arequipa no Peru e seguir pelos Andes até Cusco. Zanzei pela Bahia e pela Europa, atrás de ilhas e igrejas antigas e só consegui umas duas ou três pérolas quando voltava para casa. Tudo que a estrada me ofereceu foi lentamente deglutido nessa biblioteca onde escrevo essas crônicas, cercados desses livros e com a tela desse PC na minha frente. Sempre que vou viajar lembro de Woody Alen, num documentário sobre uma excursão de sua banda de Jazz pela Europa. Woody estava em Roma e reclamava sem parar que os pombos estavam cagando na sacada do hotel. Sua esposa disse: "Não te entendo Woody, quando você está em Nova York quer vir para a Europa, quando está na Europa quer voltar para Nova York". "È porque eu nunca gosto do lugar aonde estou". Por isso, ir até Santiago não me parecia nada tão instigante. Alguém me disse: "Você tem, que fazer o caminho de Santiago". Sem chance. Já resolvi minhas pendengas com Deus e se tivesse que ir até Santiago pegaria um atalho. Nosso atalho foi ótimo. Uma estrada bonita segura e rápida, com cenários deslumbrantes. Chegamos em uma hora e meia e a cidade estava completamente deserta. Eram três da tarde e o povo estava na siesta. Procuramos um restaurante argentino, comemos uma picanha, tomamos um vinho seco e começamos a ter nossas revelações espirituais embalados pela carne mal passada e pelo álcool. A primeira delas tinha a ver com as placas. Escritas num idioma bem familiar elas pareciam mais português do que Espanhol e minha sogra, que domina perfeitamente o castelhano, chegou a duvidar que ali fosse a Espanha. "Isso é Galego" eu disse. Mãe de nossa língua, o Galego-português foi a base do idioma lusitano e, segundo alguns, era falado no norte de Portugal. Isso fazia com que entendêssemos mais a fala do povo de Santiago do que o de Lisboa. Repentinamente as ruas foram começando a encher de gente. Saídos não sei de onde, galegos e turistas começavam aos montes a invadir as ruelas medievais que davam para a catedral. Pegamos a esmo uma dessas ruelas e fomos descendo junto com a multidão. Dezenas de lojas vendendo quinquilharias com bandeiras galegas, símbolos celtas, faixas anunciando a grande comemoração do dia da pátria galega e camisas do La Corunha e do Celta de Vigo na vitrine, exerciam em nós um fascínio esotérico sem precedentes. Começamos então a nossa segunda grande revelação espiritual e fomos tomados por uma energia poderosa que nos obrigava a entrar em cada loja daquelas e gastar os poucos euros que nos tinham sobrado comprando camisas com símbolos antigos e estatuazinhas toscas. Numa praça, ao lado da Catedral, um sujeito que parecia estar num surto esquizofrênico gritava seminu, num misto de inglês e espanhol: ?Stop! Terrorismos! Stop terrorismos!?. Fiquei olhando o cara e pensando que tipo de revelação espiritual tinha deixado ele naquele estado, quando um grupo de umas sessenta crianças passou por mim, guiadas por jovens e mulheres, cantando canções incompreensíveis entrecortadas por misteriosas palavras de ordem. Numa loja em que uma vendedora galega (não loura, mas galega da Galícia, com longos cabelos negros, pele branquíssima e olhos azuis parecendo a irmã gêmea da Amy Lee do Evanescence) nos atendeu, fui possuído por uma estranha energia cósmica que me levava a não retirar os olhos de dois CDS do Luar Na Lubre. Eles estavam lá. Já havia ouvido pela Internet as músicas do grupo e tentei em vão resistir a tentação de gastar mais um bocado de Euros para trazer um pouco de som para o Brasil. Com algum esforço conseguimos nos libertar da poderosa atração espiritual que as lojas de suvenir do centro de Santiago exercem em peregrinos despreparados e rumamos para a praça da catedral. Era um dia de sol e sentamos no chão da praça de armas, em frente as poderosas torres com imagens de Santiago e com um tipo de cruz celta que parece uma adaga e que era vista em todo lugar pintada numa concha, presa a um bastão que podia ser adquirido por qualquer peregrino por um euro e cinqüenta. Repentinamente comecei a ouvir um som hipnótico. Parecia uma orquestra tocando um conjunto de instrumentos do século X. Não conseguia saber de onde vinha, mas tinha certeza que vinha de algum lugar que não era minha própria mente porque o som tomava conta da praça e meu filho de dez anos jurava que estava ouvindo também. Me deslocando para a direita, descobri, na lateral da igreja um jovem gordinho, numa escadaria escura, tocando uma gaita irlandesa. Não é como a gaita de fole do povo da escócia. É mais suave. Tem três bicos e um fole. O rapaz ajustava dois desses bicos que ficavam emitindo tons diferentes e constantes e, no terceiro, ele tocava a melodia. Uma invenção simples que podia transformar um homem numa orquestra. Deixei mais uns euros no saco que ficava no chão, na frente do tocador e fui procurar a turma para voltar à Portugal. Às sete horas já estávamos de volta para o jantar. Silenciosos, cansados e sem dinheiro. Se você me perguntar o que aconteceu em Santiago de Compostela eu lhe direi sem hesitar, amigo leitor: nada. Absolutamente nada. Mas estranhamente, duas semanas depois, já de volta ao Brasil, minha filha de dois anos estava vendo as fotos da viagem num dia de sábado e começou a gritar, quando se deparou com uma imagem das torres da catedral: ?Santiago! Santiago!? Paulo Coelho que me perdoe, mas se um dia eu voltar a Santiago eu vou de avião, porque o lance é estar lá, não importando o jeito de se chegar, o resto é viagem. |
| por Pablo Capistrano [12:34] |
| 21.8.06 |
| Crônicas Portuguesas - VIII - O Rio da Minha Aldeia |
| Sempre fui fanático por mapas. Uma das imagens mais recorrentes da minha primeira infância são os mapas de um imenso Atlas branco que minha mãe ganhou após ter comprado todos os fascículos da Enciclopédia Barsa. Talvez por ter nascido numa cidade litorânea sempre desconfiei do horizonte. Sempre desconfiei que, depois do horizonte, não poderia haver um abismo, um buraco, uma linha divisória onde se lê uma placa com os dizeres: "aqui acaba o mundo". Então eu passava um bom tempo da minha vida de criança olhando os mapas de lugares estranhos e distantes. Foi assim que eu aprendi o nome de quase todas as capitais, os nomes dos desertos, dos oceanos e das cadeias de montanhas. Lembro que tinha medo da Ásia. Não sei porque, mas eu tinha medo da Ásia. Ela era muito grande, muito estranha e muito distante. A África também me assustava, mas, talvez devido algum impulso genético também me deixava fascinado. Especialmente a costa oriental. Sempre que eu olhava o mar meu pai dizia: "Do outro lado é a África". Por causa do meu tetravô escravo (Antônio Fernandes de Macedo, negro alforriado pela lei da princesinha brasileira) sabia que a África guardava algo meu, assim como sabia também que algo meu estava em Portugal. Foi olhando o mapa de Portugal que eu vi o nome daquele rio. Não sei qual é seu sobrenome, amigo leitor, mas deve ser estranho para você também ter no seu nome, o nome de um rio. O meu rio é o rio Paiva. Afluente do rio Douro, nos limites entre a região das Beiras e a região Norte de Portugal. Tem gente que tem nome de árvore, outros de bicho, eu, tinha o nome de um rio. Mas esse deveria ser um rio muito pequeno porque ninguém no Brasil sabia que ele existia. Conheciam o Tejo, alguns conheciam o Douro, mas o Paiva... nem minha avó que me respondia: "nossa família veio de Portugal"; de onde? "não sei... só sei que é de Portugal"; quando? "Não sei... só sei que faz tempo". Na verdade a região de Paiva parece ser uma importante região desconhecida de Portugal. Isso porque ela não aparece no meu guia de viagens publicado pela Folha de São Paulo e porque ninguém que eu tenha perguntado em Lisboa sabia onde ela ficava. Se a Folha não sabia que a região de Paiva existia e ninguém em Lisboa também sabia, é porque, talvez, de um modo ou de outro, ela não existisse mesmo. Na Internet, num site de famílias portuguesas o rio de Paiva não é citado. Sobre a família e o brasão eles dizem apenas: "o seu nome é de raízes toponímicas, pois deriva do nome da terra de Paiva". O nome da família parece ter surgido como apelido com um tal João Soares de Paiva. Um trovador que viveu entre 1275 e 1325. Nascido setecentos anos antes de mim, João Soares de Paiva parece ser o primeiro Paiva registrado na história. Nesses setecentos anos, o nome desse rio atravessou o mar e foi parar na Serra do Martins, no oeste de um estado minúsculo do nordeste do Brasil. Como isso pode ter acontecido é um mistério dos mais densos. Mas o fato de não se saber muito sobre a existência desse rio não implica que, de um modo ou de outro, essa não seja uma região importante. Afirma a Internet (essa grande matrix cheia de porcarias geniais) que a região de Paiva teria refugiado as primeiras tribos celtas que habitavam Portugal antes mesmo da invasão romana. Esses celtas adoradores da virgem teriam ido parar lá depois da invasão moura, e teriam formado um núcleo de resistência cristã, contra a influência semítica. Paiva seria então uma região de fronteira. Um limite que separava os mundos. Comprei um mapa mais detalhado e teci um plano de viagem até um lugar chamado Castelo de Paiva. Atravessaríamos o Porto e pegaríamos uma estrada pela margem norte do rio Douro. Uma hora de viagem ou um pouco mais e chegaríamos no castelo. Ele fica bem na confluência do Douro com o Paiva. Lá eu encontraria meu rio, meu castelo e um bocado de parentes que me receberiam com festa e poderiam me responder a estranha questão: "como eu fui parar em Natal?". A estrada é uma das mais belas que eu percorri em Portugal (apesar dos buracos). Numa região cortada por montanhas, o vale do Douro se estende por vários e vários quilômetros de paisagens exuberantes. Cidadezinhas penduradas em colinas, parreirais que se estendem por todo lado, pontes e barcos que enchem seus convés de uvas que vão se transformar em vinho em Vila Nova de Gaia (cidade do vinho do Porto, na foz do Douro). Numa determinada altura pegamos uma ponte que nos leva para à margem esquerda do rio, seguindo as placas que me indicam "Castelo de Paiva". A região é acidentada e bem povoada. Passamos por uma ponte estreitissima que, a despeito de só permitir a passagem de um carro por vez, é de mão dupla. Meio que sem saber o que fazer nem para onde ir, resolvemos parar num lugar que parecia um estacionamento, ao lado do Café São Miguel. Com uma vista privilegiada, o café São Miguel tem um belo terraço, com uma vista do alto para o Douro. Um rapaz com um problema na perna vem nos atender. Pedimos algo para comer e eu pergunto se ele sabe como se faz para chegar no Castelo de Paiva. Ele explica que as pessoas do lugar dizem que realmente havia um Castelo naquela área, mas que hoje ele não existe mais. Nem a localização de suas ruínas é mais exata. Parece uma espécie de Castelo Fantasma, habitado pelos espectros dos antigos cavaleiros da ordem de cristo. Alguns dizem que ele ficava numa ilha fluvial, bem na foz do Paiva. No local aonde ele se dissolve para se misturar com o Douro. "Você conhece alguém da família Paiva, que more por aqui?". O rapaz olha para mim como se demorasse a entender minha pergunta. "Paiva... havia uma senhora que morava cá em baixo e era dessa família. Mas ela vendeu a casa e se mudou para o Porto". Nada de parentes. Nada de castelo. Ao menos o rio deveria realmente existir. O rapaz diz que tem um balneário bem perto da tal ilha e que, com um pouco de esforço da para chegar lá de carro. Pagamos a conta e na saída descobrimos que o estacionamento era, na verdade, um pátio de compra e venda de veículos e que, o pior, a dona do estabelecimento havia fechado o portão. Estávamos presos. Confinados para sempre no café São Miguel. Condenados a ficar lá em cima dos montes vendo o passeio tedioso dos barcos que sobem e descem o Douro em busca de uvas. Mas o rapaz é gentil, e mesmo com o problema na perna vai atrás da dona do estabelecimento para que ela possa abrir o portão. Há realmente uma ilha na foz do rio Paiva. É uma ilha pequena, com belas árvores e alguns banquinhos para os namorados. Se houve ou não um castelo ali, eu não sei. O fato é que o Paiva é realmente um rio pequeno e marrom, que desce dos Montes Portugueses para sumir nas águas do Douro. Não é um rio imponente, nem largo. Tão pouco parece ser um rio navegável. È só um riozinho que corre por uma dessas inúmeras aldeias do mundo. Não é o Tejo, nem também é o rio da minha aldeia. Talvez meu nome não seja o nome desse rio. Talvez os Paiva do Brasil tenham vindo de outras terras e de outros rios. Talvez eles tenham esquecido os nomes de seus rios nas brumas metafísicas da grande dor, da grande guerra e do festim de sangue e sexo que foi a colonização do sertão do nordeste do Brasil. Na página de famílias portuguesas na Internet, não aparece o nome de Francisco Dias de Paiva, amo do Capitão Mor de Pernambuco, Mascarenhas Homem, que em 1598 partiu do Recife em direção ao Forte dos Reis Magos, em Natal, para libertar os portugueses sitiados pelos Potiguaras. Esse mais antigo Paiva brasileiro que eu tenho notícia não tem lugar na genealogia das famílias nobres portuguesas. Seu nome atravessou o oceano e deve ter se espalhado pelos sertões depois de muitas guerras, muito fogo e muito sangue e foi parar, de um modo ou de outro, no alto da Serra do Martins, só para depois se espalhar pelo oeste do meu estado. Há uma bruma que torna nebulosa a visão de nosso passado. Tal qual um castelo fantasma, numa ilha minúscula, na foz de um rio perdido que não aparece no guia de Viagens da Folha, minhas origens são vazias e suaves. Posso ser quem eu quiser. Posso escolher para qual pedaço de meu corpo e para qual gota de meu sangue eu quero render minhas homenagens. Sou um negro fora da África, um celta sem castelo, um judeu sem minha Lei, um índio sem minha tribo. Tenho todos os rios, de todas as aldeias do mundo erodindo minhas veias. Essa é minha mais especial benção e minha mais terrível maldição. |
| por Pablo Capistrano [08:46] |
| 8.8.06 |
| Crônicas Portuguesas - VII - Auto-Estrada |
| Até os 25 anos nunca pensei que fosse aprender a dirigir. Eu sou assim. Boto na cabeça que nunca vou conseguir fazer alguma coisa e então, de repente algo acontece, chego lá e faço. Sou uma espécie de contra-exemplo da neuro-lingüística, uma antítese da auto ajuda, um inimigo mortal do Lair Ribeiro. Depois que aprendi a dirigir tomei gosto pela coisa. Mas nas férias, bem... o melhor nas férias é andar de Metrô ou de Trem. Mas, como alguém tinha mesmo que pegar o carro eu fui o escolhido para guiar de Almoçageme até Viana do Castelo. Cortaríamos Portugal pela auto-estrada A1. Atravessaríamos o Douro e chegaríamos à parte Norte do país. Confesso que no começo me senti um pouco ansioso. Não conhecia o caminho. Tinha um mapa, meu cunhado como navegador, um carro de quatro portas, muita bagagem e boa vontade para chegar em algum lugar. Acostumado com as estradas brasileiras, me preparei psicologicamente para viver momentos de emoção e ansiedade. Lembrei de imediato uma viagem que fiz em 1998 para São Paulo. Ia apresentar um trabalho na USP e peguei um Buzão com o camarada Jaadiel, que na época estava se dedicando ao estudo sistemático da correspondência de Leibniz com... com... com... bem, com alguém que eu não me lembro agora quem era. Saímos de tarde. Ônibus da empresa São Geraldo, com ar condicionado, algo que dizem ser um frigobar (tenho sérias dúvidas sobre a categorização de frigo-bares em ônibus inter-estaduais mas deixa para lá) e um banheiro. Tivemos azar de pegar uma cadeira perto do banheiro e de ter entre os passageiros um senhor com problemas estomacais. Sempre que o pobre homem se levantava da sua cadeira, perto do motorista, metade do ônibus abria as janelas ou se deslocava para perto da porta. Era uma espécie de calvário. Um constrangimento existencial sem precedentes. Viajaríamos quase quarenta e oito horas, parando de cidade em cidade pelos sertões da Bahia e pelo interior de Minas até Molloch (o grande Leviatã de ferro, aço e concreto. Capital industrial do Brasil). Na primeira noite, paramos em algum lugar entre Alagoas e o resto do mundo. Um novo motorista entrou no ônibus. De tantos em tantos quilômetros havia uma troca de motoristas. Ele era jovem e foi logo se apresentando para todo mundo: "meu nome é fulano de tal. Sou casado, pai de uma filha. Meu Rg é 0000000000, meu CPF 000000000". Então retirou um retrato de Nossa Senhora do Perpetuo Socorro do Bolso. Beijou a imagem e disse: "Com muita fé em Deus e com a ajuda de Nossa Senhora eu vou levar vocês até Feira de Santana". Um silêncio sepulcral se seguiu a apresentação do motorista. Então eu ouvi duas senhoras conversando no banco de trás: "por que ele disse isso?" ? perguntou uma. "Porque na semana passada mataram um motorista nesse trecho da estrada. Assaltaram o ônibus. Colocaram todo mundo nú na beira da estrada e levaram a bagagem". Essas são as estradas brasileiras. Ótimas para se morrer. Você não tem como imaginar, amigo leitor, a quantidade de emoções conflitantes e de orações que são lançadas ao vazio numa viagem de ônibus de Natal para São Paulo. Morrer numa estrada brasileira é uma possibilidade tão real que viajar de um lugar para outro, por mais perto que seja, sempre é motivo de comoção. Mas em Portugal as coisas não são assim. È absolutamente tedioso dirigir numa auto-estrada européia. O asfalto impecável. Pistas triplas. Acostamentos sinalizados. Placas para todo lado. Viadutos. Túneis. Painéis eletrônicos avisando de um acidente à 15 quilômetros. Tudo que a moderna engenharia de tráfego pode proporcionar para fazer com que a viagem corra no mais absoluto e completo tédio. Aliás, a impressão que a gente tem é que a estrada leva o carro. Talvez o maior problema das estradas européias seja mesmo o sono. È inevitável que um estranho e hipnótico sono tome conta do motorista. Por mais descansado que ele esteja. As estradas européias sintetizam toda uma imensa quantidade de ordem e razão que se acumulou naquele continente a partir da revolução ciêntifica do Século XVI. Toda uma grande construção mental e geométrica. Toda uma imensa rede neuronal de fios invisíveis interligando as cidades, os paises, os estados. Dirigir em Portugal, numa dessas A1, A2, A3 é quase uma experiência mental. Quase como ler o Prefácio da Crítica da Razão Pura. Nada mais sistemático e previsível. Depois de dez quilômetros numa auto estrada você pode prever toda a pista, saber o que vai acontecer em dez, quinze, vinte minutos. È como se cada quilometro se repetisse numa constância obsessiva. Nada acontece numa auto estrada Européia até que algum humano resolva se revoltar com dois mil anos de racionalidade e mude de faixa sem ligar a sinaleira. Como sempre, os humanos. Essas máquinas estranhas e imprevisíveis que algum deus misterioso ou muito bem humorado resolveu colocar na terra. |
| por Pablo Capistrano [11:29] |
| 3.8.06 |
| Crônicas Portuguesas - VI - O Deus de Portugal |
| O bom da MTV de Portugal é que ela ainda passa música. E se engana quem pensa que a música de Portugal é só o Fado. Também tem Hip Hop e umas fusões curiosas de Reggae com ritmos africanos das antigas colônias. No caminho do comboio entre Sintra e Lisboa fui anotando na mente a forma das pichações e dos grafites que se espalhavam nos condôminos de apartamentos de não sei quantas periferias. Bandeiras de Angola, Brasil e Portugal nas janelas mostravam que a zona urbana de Lisboa era bastante heterogênea, com margem a ritmos diversos e variações sonoras que ultrapassavam a imagem tradicional da música portuguesa. Assim como a Bossa Nova não é o Brasil o Fado também não deve ser Portugal. O festival de Vilar de Mouros prova isso. Você nunca ouviu falar? Eu também não. Por azar, justamente no dia em que eu iria partir, Iggy Pop e The Stooges estaria fazendo uma apresentação nesse festival. Vilar de Mouros é uma pequena aldeia que fica as margens do Rio Minho, bem perto do lugar aonde eu iria passar meu último dia em Portugal (Viana do Castelo), já na fronteira com a Espanha. Desde 1971, três anos antes da revolução dos cravos, que derrubou a ditadura salazarista em Portugal que essa espécie de versão lusitana de Woodstock é realizada. Justo nesse ano eu estaria a poucos quilômetros dessa festa, mas com uma passagem marcada num vôo da TAP no mesmo dia em que Iggy iria montar seu ritual de Caos e bizarria. Sobraria apenas uma ida ao show do Seputura (realizado um dia antes) junto com uma banda chamada Xutos e Pontapés; Monjave 3; The Vicius Five e Deluxe. Um consolo ridículo para quem perdeu o melhor da festa por desconhecer o mínimo da história contra cultural de Portugal. E deve ter sido realmente uma revolução esse festival de rock nos anos setenta. Quem viveu pode contar. Sim porque Portugal, durante a ditadura de Salazar era um Portugal muito diferente. Enquanto as meninas inglesas subiam as saias, e as loucas californianas tomavam ácido lisérgico no Summer Love as raparigas portuguesas na ditadura de Salazar ainda tinham que tomar banho no balneário de Cascais com saiotes. Portugal era um país rural, com 40 por cento da população analfabeta nos anos 50; apenas 20 por cento das mulheres eram empregadas e a maioria como domésticas. Era um Portugal pobre, conservador, e entregue aos mesmos tipos de problemas sociais que assolam paises do terceiro mundo. Hoje as coisas mudaram, parece que mais aceleradamente depois da entrada na União Européia. Hoje há espaço para Iggy Pop nas páginas das grandes revistas e dos principais jornais. Mas, mesmo com toda a força Punk, mesmo com o Hip Hop lusitano e a contaminação cultural das ex-colonias colocando pimenta no molho sonoro português ainda sinto nesse país uma incrível força de tradições antigas e profundamente enraizadas gemendo nos subterrâneos. Pelo verniz do Portugal Punk rock parece existir ainda um Portugal arcaico firme e conservador. Talvez seja a força da religião e do catolicismo que mantenha acesa esse espírito no país. Mas o catolicismo de Portugal me pareceu levemente distinto do brasileiro. Vi isso logo quando cheguei em Fátima, num dia de calor escaldante e sol abrasador. Ao redor da praça do santuário, local onde foi erguida a pequena capela no espaço aonde a virgem teria aparecido para as três crianças (a força simbólica disso é extremamente poderosa, amigo leitor), uma multidão de romeiros erguiam acampamento e se arrumavam ao redor de mesas de pedra para o almoço. Uma festa familiar bem bonita, nada parecida com o festival de Vilar de Mouros. Mas, ao contrario do que poderiam pensar alguns católicos brasileiros mais radicais, não era um piquenique seco em cada mesa, junto com a comida, litros e litros de vinho eram sorvidos para comemorar o dia de sol. Afinal de contas não é o vinho a bebida sagrada dos cristãos? Em Portugal pecado mortal deve ser não tomar um bom vinho do Alemtejo ou da região do Douro num dia de sol como aquele. Mas quando se vai para o norte é que se vê que o Deus de Portugal é bem característico. Em varias casas de Viana do Castelo (ao norte do Porto) pude ver azulejos com figuras. Não eram como os azulejos do palácio de Sintra, abstratos, mouriscos. Eram Azulejos com a imagem da virgem. Sim, parece que o norte de Portugal é a terra da virgem. Ela está lá. Forte, presentificando-se como o aspecto feminino do Deus de Abraão. Diz-se que o primeiro grande poema escrito no galego-portugês foram as Canções de Santa Maria, produzidas por Afonso X (provavelmente para ele e não por ele). No norte, se encontra, conforme dizem, a origem de Portugal e essa é uma origem que envolve uma longa guerra na qual a religião se identifica com o elemento étnico que separava as tribos celtas dos mouros do norte da áfrica. A virgem está para os cristãos como a deusa está para as antigas tribos celtas. A imagem dela nos azulejos do norte, se contrapõe aos arabescos abstratos da sala árabe no castelo de Sintra. A identificação entre a deusa e a virgem já foi explorada por Marion Zimmer Bradley no seu best seller céltico-feminista As Brumas de Avalon. Mas essa é uma identificação polêmica. Fato fundamental é que para Portugal ser o que ele é hoje teve que andar entre três mundos possíveis: o mundo mulçumano, o mundo judaico-sefaradita e o mundo celta-cristão. Desse confronto de forças culturais e de raízes étnicas parece ter surgido o povo português, por isso que, por essas bandas, a religião não é só uma questão de fé. Mas um componente de identidade cultural. Uma força aglutinadora de uma ancestralidade que tem cheiro de sangue, de ferro e de fogo. Não há como entender o Deus de Portugal sem compreender esse conflito. Nós brasileiros, tão sincréticos, capazes de ir a missa no Domingo, ao centro Espírita na Terça, ao terreiro na quarta e ao culto da igreja universal na quinta só para depois cair na cachaça na sexta feira, talvez tenhamos um pouco de dificuldade em entender isso. Na verdade eu precisaria de um pouco mais de experiência nessa terra para sentir a fundo o que é ser católico em Portugal. Ah Iggy Pop! Seu grande filho da Puta! Por que você não marcou seu concerto para a Sexta Feira!?! |
| por Pablo Capistrano [04:31] |