| 25.11.06 |
| Leve Desespero |
![]() Leve Desespero A história trágica da modelo que morreu aos 21 com 40 quilos é sintomática desses anos. Um dos conceitos mais caros ao estoicismo de Sêneca é o de que, na maioria das vezes, somos pegos na ilusão de que podemos mudar os fatos do mundo quando na verdade temos controle apenas sobre a nossa própria reação diante desses fatos. A riqueza da virtude, numa visão estóica, reside justamente nisso. Só ela é completamente nossa. Só ela é permanente. Num universo no qual tudo passa, no qual todas as coisas que surgem não duram muito tempo, a única estabilidade que se pode encontrar é o do nosso próprio caráter. Só ele não me pode ser tirado. Só ele será meu quando a fortuna, com sua inconstância e sua ironia sarcástica, vier para arrancar de mim tudo que tenho. A beleza é uma dos elementos da vida que facilmente é arrastado pela fortuna (uma deusa romana antiga que carregava numa mão, um leme e na outra uma cornucópia). Na verdade, a beleza é uma angulação. Ela não está no corpo, que é, aparentemente, seu objeto. A ilusão que anda matando essas meninas é a de que a beleza é algo que pode se reter. Mas esse é o erro de juízo fundamental. Não há nada que se possa fazer, no corpo, para reter a beleza. Nenhuma cirurgia plástica, nenhuma dieta mágica, nenhum programa miraculoso de torneamento mecânico dos músculos. Isso porque a beleza é um momento, é um direcionamento do olhar em determinadas circunstâncias. Greta Garbo sabia disso. Ela adorava manipular com a luz. Os fotógrafos de cinema costumavam a dizer que ela era linda porque sabia encontrar o caminho da luz e posicionar o próprio rosto para roubar, da luz, toda a beleza que necessitava. Garbo era genial porque entendia que a beleza não estava contida em seu rosto, mas no ambiente que o envolvia. Ela compreendia que a beleza era uma construção mental e não uma arquitetura especifica de um amontoado de músculos e ossos. Ela era tão consciente dessa construção que desapareceu dos holofotes da mídia na hora certa e não agonizou em praça pública, tentando reter aquilo que não se contém. Nosso corpo não nos pertence. Ele faz parte da massa natural que nos compõe e nos rodeia. Ele é um estranho e flácido casulo de carne no qual nossa mente se mantém aprisionada por certa quantidade qualquer de anos. A história da evolução e decadência de nosso próprio corpo é uma narrativa que todos vamos ter que vivenciar mais cedo ou mais tarde. O grande sintoma da doença dessa geração de saradinhos e saradinhas é que essa narrativa está a cada dia virando um conto de horror. O corpo deixou de ser um espaço de prazer e passou a ser nosso mais instigante objeto de tortura. Nossa mais agonizante e miserável fonte de angustia e ódio. Quando penso nessas modelos morrendo de fome penso no self-hate dos suicidas (desculpe Ariano Suassuna, mas não há palavra em português que possa sintetizar melhor esse estado). Morrer de fome, destruir o próprio corpo, esquartejar a beleza que te escraviza, arrasar o objeto do seu desejo, pode até mesmo ter suas fundamentações bioquímicas, mas também guarda em si um significado profundo. Odiamos nosso corpo justamente porque ele não nos pertence, porque ele vai passar, porque ele não nos obedece, porque ele não se encaixa no modelo mental que construímos para nós mesmos, porque ele, atrevido, miserável, rebelde, não quer reter a beleza. Ele não quer fazer com que a beleza que aparece uma vez ou outra no espelho, fique para sempre. Mas uma vez nos lembramos de Sêneca e de seu Praemeditatio (seu remédio para as nossas ilusões mentais de eternidade): "Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer". Minha princesa... aprenda a não confiar na beleza. Aprenda a não depender dela para viver. Deixe que ela seja uma luz, uma angulação, um brilho que nasce e morre num segundo no canto do teu olho. Porque a beleza é uma dama vagabunda. Foge de quem tenta retê-la e gruda em quem a despreza. |
| por Pablo Capistrano [09:17] |
| 12.11.06 |
| O Aleph |
![]() Essa vida tem coisas que nos surpreendem. Quando você pensa que já sabe tudo, que já viu tudo, e de repente, surge na sua frente, o mistério... Semana que passou recebi um e-mail de um aluno com uma estranha foto retirada na Argentina. Ao lado da casa rosada. Sua construção parece datar de 1822 e a foto, retirada de um complexo que ficava junto à catedral, era de um vitral. Lembro que Aldous Huxlei, no seu livro As Portas da Percepção, já falava da importância dos vitrais nas igrejas medievais. Num mundo de pouca luz, e de poucas cores, ver o brilho do sol passando por um vitral de uma igreja, em meio a uma celebração litúrgica, após dias de jejum e penitência, seria uma experiência lisérgica. Os vitrais tinham um sentido místico e pedagógico. Encantavam, entorpeciam, alucinavam e ensinavam lições através de intrincadas simbologias. Mas aquele vitral numa catedral de 1822 de um país sul-americano era realmente estranho. Uma vaca, com asas de anjo e aureola, segurava com suas patas um livro. Encontrar uma imagem zoomórfica numa catedral de uma religião que tem a figura do homem como instância sagrada (ou não foi para os católicos em forma de homem que Deus manifestou-se na terra?) é realmente estranho. Antes de ver a foto, especulei com o Emmanuel (não o anjo, mas meu aluno) que poderia ser uma alusão à primeira letra do alfabeto hebraico. O Aleph. Essa é uma letra bastante interessante. Ela não tem som. A contrapartida fonética de seu símbolo escrito é apenas uma abrir de boca e uma leve respiração, quase inaudível. A primeira palavra dos dez mandamentos começa com a letra Aleph (Anoki ? "eu"), e uma tradição cabalística antiga costumava afirmar que no monte Sinai, quando as tábuas caíram para Moisés, todo o povo de Israel havia ouvido a pronuncia do Aleph inicial. Mas, como era uma pronuncia divina só a garganta de Deus poderia exalar esse som com exatidão. Não é a toa que essa letra acabou encantando Jorge Luis Borges. Curiosamente a palavra "Aleph" está relacionada com a palavra "aluph" (boi). Vacas e bois são animais sagrados em muitas culturas. Boa parte daquilo que posteriormente se chamou de civilização deve ter começado, ao menos no ocidente, a partir da relação dos homens com os bois e as vacas. A domesticação das vacas e dos bois e seu uso como instrumento de trabalho conferiu ao homem imenso poder e uma segurança material que ele não poderia ter experimentado num período em que a base de sua constituição econômica era a caça. O Aleph também indica um ponto de contato e de separação entre as chamadas águas superiores e inferiores. A idéia da criação como uma "separação das águas" aparece na Torah e remonta ao Enuma Elish, um antigo mito babilônico. Nesse sentido a posição das patas da vaca na tal foto poderia ensejar mais uma relação com o Aleph. A apresentação do livro, deve remontar ao momento originário da apresentação da Lei à Moisés. Mesmo assim, não há como deixar de sentir algo de herético, de profano, numa imagem desse tipo. Igrejas católicas são espaços de glorificação do humano. Templos nos quais o humano em toda a sua abrangência se manifesta como sagrado. Mas o homem nunca teve uma relação pacífica com Deus. Suas manifestações religiosas sempre se estruturam com base num misto bem marcado de medo e esperança, de fé e descrença, de confiança e hesitação. O Aleph retrata essa ambigüidade básica. Sua forma indica tanto o júbilo de se perceber perto de Deus quanto à tristeza de se ver apartado Dele. Não há letra mais misteriosa nem mais fácil de entender. Curioso mesmo é saber o que é que um boi sagrado estava fazendo num vitral num anexo de uma catedral. Como eu ia dizendo, a gente vê cada coisa nessa vida... |
| por Pablo Capistrano [07:20] |