| 19.12.06 |
| Já era |
![]() Uma vez, num show transmitido pelo canal Multishow, o David Bowie disse o seguinte: "Disseram que eu tinha matado os anos sessenta, mas é mentira! Eu apenas enterrei o cadáver". Hoje, lembrando a frase do Bowie eu posso pensar: "Disseram que a grande indústria de entretenimento matou o roquenrol, não sei disser se isso é verdade, mas eu sei quem enterrou o cadáver". Quando ouvi a notícia de que uma faculdade do sul estava lançando o primeiro curso superior de roquenrol do Brasil (talvez do mundo?) pensei: "já era". Se do ponto de vista da estética musical, das formas sonoras, das linhas e das tradições do rock; quase tudo que veio depois dos anos sessenta é reciclagem, ao menos, do ponto de vista sociológico, o rock vinha mantendo, a trancos e barrancos, seu papel. No meu entender, o último suspiro dessa função sociológica do rock se deu nos anos noventa, quando o grunge despontou dando gás a cena alternativa e o ativismo político derivado dos grupos de Hard Core californiano ajudou a produzir a trilha sonora dos movimentos contra a globalização naqueles anos sombrios de neo liberalismo alucinado. Se você retroceder aos sessenta, vai encontrar a matriz de quase tudo que o rock fez, com exceção talvez, do punk do Ramones e de seus seguidores do psycobilly, que é sugado da matriz original dos cinqüenta. Mas se os Beatles inventaram todo o Pop, foi o Velvet Underground que inventou todo Noise, todo Indie, todo Pós-Punk, assim como Black Sabath e o Led Zepelin, cada um no seu caminho, teceram os rumos do metal e o Stogges ensinou aos meninos de Londres o que era punk. Tudo está lá, nos sessenta e começo dos setenta. As fontes do rock foram geradas no período do último grande boom criativo da civilização ocidental, provavelmente seu canto de cisne. Sim. Nos anos sessenta o futuro era bom. O futuro era quente. Então, pelo futuro, as formas estéticas foram recicladas e transformadas e esse Boom da civilização e da cultura teve um último suspiro. Mas isso se explica, porque, afinal, os anos sessenta foram a última rebarba do pós guerra. E depois de uma guerra sempre há esperança, afinal nada que venha pela frente pode ser pior. O roquenrol nasceu com esse espírito. Foi filho dessa sensação de que era possível tecer o futuro (mesmo com bandas apocalípticas como o Stogges e o Velvet Underground, que andaram na contra mão como bombas de efeito retardado). Mas apesar dessa característica de eterna reciclagem e colagem de matrizes de sonoridades anteriores, o rock seguia firme mantendo sua linhazinha, até que veio essa notícia avassaladora. O roquenrol morreu (essa já era velha), mas já foi enterrado e talvez já tenha tido até a missa de trigésimo dia. Imagine o que aconteceria com Iggy Pop, Lou Reed, Thurston Moore ou Frank Black se, para formarem uma banda, tivessem que estudar três anos numa faculdade, aprendendo com professores doutores em roquenrol todas as técnicas e dicas para conceber, produzir, vender e gerenciar o resultado de uma obra prima. A primeira grande academia do mundo foi formada por Platão na Grécia antiga. Ela serviu de modelo para o renascimento das universidades européias a partir de Bolonha, em 1088. Junto à idéia grega, uma boa dose de disciplina e hierarquia escolástica foi anexada ao modelo universitário, criando instituições que primam por ritos de passagens, provas e testes, sabatinas, currículos, comprovações de capacidade técnica e moral, ensino, pesquisa, extensão. Já deu para imaginar Kurt Cobain, ou Arnaldo Baptista num ambiente desses! Tendo como objeto de estudo, num laboratório qualquer, medido por estáticas ou reduzido fenomenologicamente a um conceito esse tal de "roquenrol". Pois é amigo velho, tudo tem seu tempo, e se o roquenrol morreu já faz umas décadas, agora enterraram o cadáver. |
| por Pablo Capistrano [17:30] |
| 11.12.06 |
| Javé, Jesus e Alá |
![]() "Com efeito, quando houver cinco em uma casa três serão adversos de dois. Dois se oporão a três. O pai será inimigo do filho e o filho será opositor do pai. Eles se confrontarão e ficarão sozinhos". Evangelho de Tomé (16b) A idéia mais comum e recorrente que temos sobre a natureza das três grandes religiões monoteístas é de que todas elas, cada uma a sua maneira, cultua de um modo distinto um mesmo Deus. Esse parece ser um ponto tão consensual que pouca gente pensa: "se cultuam um mesmo Deus, qual o motivo dessas disputas sangrentas no decorrer de tantos séculos envolvendo cristãos, judeus e mulçumanos?". Essa é uma questão inquietante e, na maioria dos casos, quem pensa nela se depara com uma estranha sensação de absurdo. Há uma explicação político social que pode ser aplicada ao problema e que levanta a hipótese de que o cerne dos conflitos que se estabeleceram no decorrer dos séculos entre esses três ramos da árvore de Abraão não é de cunho teológico, mas eminentemente político e econômico. Neste sentido, teriamos um mesmo Deus para interesses completamente distintos. Rotas comerciais, domínio estratégico do mediterrâneo, controle dos poços de petróleo e das nascentes de água do Jordão. Indícios muito mais mundanos de um conflito que passa longe de qualquer dogma religioso. Essa explicação, no entanto, tem um risco. Primeiro, ela contorna o problema e não explica realmente como um mesmo Deus pode instigar tanta discórdia; depois, ela, sutilmente, desmerece a força dos dogmas religiosos na construção da psicologia dos povos. Pode ser realmente correto imaginar que o motivo fundamental do ódio contra os judeus no meio da comunidade cristã tenha se espalhado no final da idade média, motivado pela expressão de um conflito envolvendo a atividade mercantil e financeira da classe burguesa ascendente e os interesses da aristocracia feudal européia. Mas uma visão dessa natureza não é suficiente para explicar a violência da guerra da reconquista espanhola, nem explicar o massacre de Lisboa 1506 que forçou a passagem de muitas famílias sefaraditas para o nordeste brasileiro. O ódio que jogou cristãos contra judeus no fim da idade média e que produziu a Inquisição Ibérica, deve muito ao evangelho de João e sua interpretação anti-semita da morte de Jesus assim como ao ressentimento das interpretações escolásticas terem reduzido a Torah a um apêndice do Novo Testamento. Não há como negar que, se o aspecto teológico não é suficiente para explicar todos esses conflitos ele é, ao menos, necessário. Da mesma maneira, que não há como explicar o conflito árabe-isrraelense (por si só essa expressão já denota um certo conteúdo ideológico, tendo em vista que, do mesmo modo que existem judeus árabes, existem mulçumanos que não são de modo algum árabes) apelando apenas para justificativas econômicas e geo-políticas, posto que algumas das raízes desse conflito residem em interpretações teológicas específicas do significado das escrituras sagradas, que se entranham no imaginário popular e no corpo doutrinário de setores ortodoxos dessas religiões, muitas vezes, dificultando o diálogo. Uma interpretação pouco ecumênica é a defendida por Harold Bloom no livro "Jesus e Javé". Como Bloom não é Teólogo, mas crítico literário, e procura enxergar as escrituras sob a ótica de seu texto e das implicações semânticas do que está escrito nele, enxerga de um modo não muito ortodoxo a questão do monoteísmo que surge a partir de Abraão. Para Bloom está claro: Javé, o Deus cristão (Pai-Filho-Espirito-Santo) e Alá não são o mesmo Deus. A dificuldade de estabelecer uma conexão dogmática entre essas três grandes tradições reside justamente no fato de que elas não falam a mesma língua teológica e as influências culturais na composição das doutrinas religiosas são tão diversas que acabam por construir interpretações completamente diferentes acerca da face deste suposto mesmo Deus único. A idéia da unicidade de Deus, que eclodiu no Egito num primeiro momento e depois foi arquitetada pelo povo de Israel, não parece ter conseguido resolver um dos maiores problemas humanos: a incapacidade que temos de lidar com as diferenças. |
| por Pablo Capistrano [15:54] |