| 24.1.07 |
| Creio porque absurdo |
| Amanheci o dia procurando uma edição do livro de Edgar Allan Poe, "Histórias Extraordinárias". Tudo porque queria lembrar o nome de um conto. A história é a de um assassino que, perseguido pelo fantasma de sua vítima, acabava enlouquecido, confessando seu crime ao primeiro policial que vê na rua, suplicando para ser preso. Esse é um tropo recorrente na literatura. Shakespeare teve seu MacBeth de cujas mãos, o sangue não saía. Dostoievsiki produz Raskolnikhov, o mais humano dos assassinos, para defender a tese de que não é possível fugir dos sentimentos morais que nos constituem. Toda essa reflexão me pegou desprevenido na sexta feira à noite. Estava em Acari (Cidade do Seridó norte riograndense), numa pousada de frente para o açude Gargalheiras quando vi na TV uma notícia assustadora. No Ceará, um homem havia matado sua mulher com 29 facadas. Infelizmente não há, no Brasil, nada de muito fantástico nisso. O problema é que o sujeito foi ameaçado de morte pela família da vítima, fato que, no nordeste do Brasil, equivale a um passe livre só de ida para o inferno. Desesperado, o homem foi até a delegacia da cidade se apresentar. Como o personagem do conto em questão, do qual o título eu não me recordo, o sujeito implorou para ser preso, obviamente mais por medo do que por culpa. Até aí nada de novo. Mas no Brasil, os tropos literários sofrem suas metamorfoses e a história de Poe começou a ganhar contornos kafkianos quando o delegado se recusou a prender o assassino confesso. Motivo? Já havia passado o tempo do flagrante e não havia ordem judicial que autorizasse a prisão. Desesperado o assassino viajou para Fortaleza e pediu a outro delegado que o prendesse. Sem chance. A lei é clara. Nada de prisão meu amigo. Considere-se um homem livre em nome da Lei! Mas o segundo delegado foi bonzinho e deu um conselho: "fuja!". Sim. O sujeito poderia fugir. Ele fugiria, mas antes ligaria para a delegacia fazendo uma denuncia anônima sobre o próprio paradeiro e esperaria ser preso. Só ai a prisão poderia, quem sabe, ser efetuada na forma da lei. A matéria acabou com o homem chorando na sala do delegado, implorando para ser preso e dizendo em profunda aflição e angústia sem fim: "será que ninguém pode me ajudar?". A história de Edgar Allan Poe ganharia contornos distintos se tivesse sido escrita nesses trópicos sem pecado. Um dos grandes mistérios que envolvem a ciência jurídica no Brasil é o de saber por que o direito não funciona por aqui. Esse é um problema para ser pensado e repensado, teorizado e objetivado por vários ângulos e diversos pontos de vista. Sempre achei que "O Processo" de Franz Kafka deveria ser leitura obrigatória em qualquer curso de direito, junto com ao menos duas Tragédias de Shakespeare, uns três ou quatro contos de Edgar Alan Poe e com "Crime e Castigo" de Dostoievski. Não é possível se produzir um profissional jurídico que não tenha um mínimo de consciência literária num país como o nosso. Afinal, se o direito é mesmo uma ficção, é preciso aprimorar o estilo narrativo para suportar seus desníveis e suas reviravoltas. Acabei não encontrando o livro do Poe. Tem vezes que a minha estante engole meus livros e me deixa na mão quando eu mais preciso de um título e uma referência, só para que os meus detratores se animem a depreciar meus textos. Mas tenho certeza que o conto existe e está dentro desse livro, em algum lugar dessa minha biblioteca, assim como tenho uma profunda fé que a história que vi na TV na última sexta feira, nas margens do Gargalheiras, defronte os desfiladeiros do rio Acauã, era real. Creio nisso, porque no universo do direito, como já nos ensinou Franz Kafka, as histórias mais reais muitas vezes são as mais absurdas. |
| por Pablo Capistrano [17:31] |
| 11.1.07 |
| Darklands |
![]() Darklands Essa é a capa do rapaz. Esse ano eu faço 33. Pois então... aos 33 eu começo a perceber que andei perdendo tempo com algumas coisas inúteis. Que andei me preocupando com alguns problemas banais, criando algumas expeditivas falsas e que comprei um monte de CDs ruins (ou baixei muita coisa duvidosa esses últimos tempos da INTERNET) apenas para estar "atualizado". Daí essa sensação de que eu preciso recuperar certas coisas que abandonei em alguma esquina dessas da minha própria vida. Retomar certas pérolas lançadas na estrada. Acertar as contas com o que passou porque, como afirma o Rabi Eliezer "arrepende-se um dia antes da tua morte"; para que o resto da eternidade você não tenha seu nome gravado à fogo no SPC da vida. Então ando meio interessado em recolher aquilo que um dia eu já tive, mas que, por displicência ou por falsos juízos de valor acabei perdendo. Darklands foi assim. Eu já tive esse LP. Comprei em algum sebo por volta de 1989 ou 1992, não lembro bem. Eu já tinha numa K7 (para quem não sabe o que é, trata-se de um rolo de fita magnética que a rapaziada usava como uma espécie primitiva de IPOD) o Psychocandy o primeiro álbum do Jesus and The Mary Chain, uma banda cujo núcleo era formada por dois irmãos ingleses, Willian e Jimi Reid. A minha fita cassete rodou quase dois meses num aparelho de som "três em um" que eu tinha no quarto e a distorção era inevitável. O primeiro disco do J&MC era muito barulhento. Saído de um dos joelhos da banda novaiorquina Velvet Underground (1965-1970), o som explorava a distorção e os agudos altos das guitarras, com baterias secas e melodias vocais lentas e melancólicas. Tudo no melhor estilo dos oitenta e de sua escuridão contida e selvagem. Mas, quando eu cheguei em casa para ouvir o Darklands na vitrola, me assustei. O disco era bem diferente. Mas limpo, mas melódico, mas fácil de ser compreendido. Uma espécie de Beach Boys do mal. Na época eu não vivia clima para as facilidades. Queria coisas difíceis e desconcertantes, queria que um jato certeiro de distorção atravessasse a minha vida, cortando-a ao meio, explodindo seu centro e espalhando seus pedaços pela linha do horizonte. Talvez por isso tenha deixado Darklands meio de lado e passado boa parte do resto da minha vida atrás do Psychocandy que eu tinha gravado no tal rolo de fita magnética que a turma usava como IPOD. Acabei perdendo meus LPs em alguma festas dessas, entre o ano de 1989 e 1995, e a tal fita cassete acabou enrolando no gravador de modo que eu tive que parti-la em três pedaços (esse era um dos problemas de ser adolescente na era pré-IPOD). O fato é que eu nunca consegui o disco. Até essa semana, um mês antes de completar 33 anos. Veja bem, completar 33 anos é marcante. Faz você pensar em todas aquelas baboseiras que eu disse no começo do artigo, então, quando eu vejo na prateleira da Velvet Discos, juntinhos, Psychocandy e Darklands eu pensei rapidinho nas palavras do Rabi Eliezer: "arrepende-te um dia antes da tua morte". Comprei os dois. No carro, fiquei um tempo na dúvida de qual deles ouviria primeiro. Não sei porque escolhi Darklands: "and we tried so hard/ and we looked so good/ and we lived our lives in black/ but something about you felt like pain/ you were my sunny day rain/ you were the clouds in the sky/ you were the darkest sky/ but your lips spoke gold and honey/ that´s why I´m happy when it rains". Era a faixa três. Happy when it rains. A música da propaganda de automóveis. Quem imaginaria, em 1992, que eu iria passar o resto da semana encantado por uma música de propaganda de automóveis! 33 anos é uma ótima oportunidade para você se arrepender das coisas que perdeu. Quando o Rabi Eliezer disse o que disse um aluno esperto interpelou: "mas como podemos saber o dia de nossa morte para nos arrependermos um dia antes?". O rabi sorriu e respondeu: "é justamente por isso que você deve se arrepender todos os dias". Pois é amigo velho... There´s something warm about the rain. |
| por Pablo Capistrano [12:26] |
| Sacou? |
| Onde não há verdade, não há paz Rabi Nachman |
| por Pablo Capistrano [11:41] |