25.2.07
Amores Virtuais






"Felice querida, o que dizes de uma vida conjugal na qual o marido, pelo menos alguns meses por ano, sai do escritório às duas e meia ou às três horas, almoça, deita, dorme até as seis ou sete horas, engole rapidamente alguma coisa, vai caminhar por uma hora, depois começa a escrever e continua até uma ou duas da manhã?"

O amor tem suas grades e suas armadilhas e uma visão de um cotidiano conjugal desse tipo pode destroçar os sonhos românticos de qualquer mulher. Apesar disso o escritor Tcheco-judeu-alemão Franz Kafka, autor das linhas acima, não teve pudor em expressar à sua noiva Felice Bauer, a idéia de um futuro muito pouco atrativo, para quem acredita no amor. Na verdade, o interesse de Kafka parecia ser justamente o de dissuadir sua noiva, da esperança de construir uma vida a dois.

A história de amor entre Kafka e Felice Bauer é curiosíssima. Os dois se encontraram uma única vez, na casa dos pais de Max Brod (amigo íntimo e guardião póstumo do espólio literário de Kafka). Era o dia 13 de Agosto de 1912 e Franz anota em seu diário suas impressões muito pouco instigantes sobre aquela senhorita. "Rosto ossudo e insignificante, que suportava francamente sua insignificância".

Essa não parece de modo algum uma descrição de um homem apaixonado, no entanto, um mês depois do encontro, Kafka inicia sua correspondência com Felice mantendo-a intensamente por mais ou menos quatro anos.

Sempre achei estranho o universo dos amores virtuais. Nunca compreendi muito bem o motivo pelo qual alguém se apaixona por uma foto num desses sites de relacionamento e começa a entabular uma conversa ou com uma imagem borrada que aparece na tela de um computador. O curioso é saber que esse não é um fenômeno recente, derivado do incremento de uma mídia informatizada.

Muito antes de Turing equacionar sua máquina e pensar na raiz lógica que iria gerar os futuros computadores, homens como Kafka se apaixonavam pela linguagem e usavam moças como Felice Bauer para deixar vazar todo seu potencial afetivo através das próprias palavras. Os dois só se encontraram pessoalmente duas ou três vezes depois do contato inicial na casa dos pais de Max Brod. Todo universo afetivo que move o virtual amor sem fim de Kafka ocorria no universo estreito de sua linguagem, no campo minado de suas cartas, na ansiedade louca das suas idas à caixa do correio atrás de um pacote qualquer ou um envelope vindo de Berlim. Quando o negócio era partir para o efetivo, o velho Franz se esquivava.

Difícil imaginar se um amor virtual pode ser mais forte, intenso ou sincero do que um amor sensorial. Complicado saber se é o amor que é uma invenção da linguagem ou se é a linguagem que se alimenta de um amor real e mais amplo, para se duplicar e se perpetuar. Se o vazio das palavras pode substituir o calor do corpo de alguém e a força magnética do seu cheiro. Parece que não estamos diante de um mesmo tipo de experiência. Nunca acreditei que existisse alguma coisa que pudesse ser chamado de "amor". Para mim, o amor é um nome que se refere a uma grande quantidade de sentimentos díspares. Às vezes pode ser amor a dor física de quem sente a ausência de quem se ama. Às vezes, pode ser amor o prazer que eu sinto em tocar o corpo que eu amo. Às vezes, pode ser amor a calma que toma conta da cozinha na hora do café, quando dois amantes de muitos anos se olham como fazem todos os dias. Às vezes, pode ser amor a fúria cega de uma paixão que consome a carne a o equilíbrio dos amantes, lançando-os no limite de suas próprias vidas.

Não acredito nesse singular, que usamos como forma para justificar e padronizar todas as formas por meio das quais nós, humanos, solitários e presos a nossa própria e irredutível alma, nos relacionamos. Essa é uma das palavras que só deveria ser dita no plural. Para não macular seus labirintos e não excluir do campo de sua influência histórias de amor como a que uniu Kafka, um jovem escritor, a sua noiva fantasma.

por Pablo Capistrano [15:13]
6.2.07
Correndo para ficar no lugar



Alice através do Espelho.

quase como nós.


È possível que o pensamento tenha surgido com algum tipo de refinamento, alguma especialização cerebral. O núcleo comum dessa especialização provavelmente está na articulação da linguagem e na capacidade de fazer previsões. Conversar consigo mesmo é um passo fundamental para o nosso próprio pensamento.

Fazemos narrativas todo o tempo.

Construímos pequenas histórias cotidianas em nossa mente. Basta tentar estacionar num supermercado num dia de sábado. Buscamos por uma vaga. Observamos que um carro está com a luz de ré ligada, então construímos nossa pequena narrativa particular sobre o fato. Imaginamos que alguém já fez as compras e está para sair, deixando a vaga livre. Fazemos uma pequena previsão de vantagens. Calculamos uns sessenta segundos de espera para que a família do carro na frente feche os vidros, ponha os cintos, ligue o ar, sintonize na rádio de sua preferência e desloque o carro desocupando a vaga.

Um exercício desse tipo, simples e cotidiano, mostra como a narrativa, a conversa consigo mesmo, é fundamental para que eu tire uma vantagem na competição acirrada por uma vaga no estacionamento de um supermercado. Caso eu não possuísse essa capacidade, poderia perder um precioso tempo em busca de uma vaga ideal livre e perder a promoção relâmpago de latinhas de cerveja.

A base das relações entre linguagem e pensamento se firma nessas narrativas e parece ter como fundamental finalidade a busca de adaptação e a imperativa necessidade de aproveitar a promoção das latas de cerveja.

O mais provável é que uma habilidade desse tipo tenha se desenvolvido a partir dos resfriamentos abruptos que devastaram varias vezes os eco sistemas terrestres no passado. Quando a terra aquecia, mais água era lançada no oceano que almentava seu volume e com isso o nível de evaporação. Resultado: mais chuva e mais florestas. Quando o clima esfriava, a água ficava acumulada nos pólos, o nível do mar baixava e o clima secava. Com a chuva escassa as florestas encolhiam e os animais que dependiam de um ecosistema florestal morriam aos montes. Se a seca e o resfriamento fosse lento, gradativo, as espécies animais poderiam se locomover em direção a ambientes mais quentes em busca de alimento. Mas como a coisa se processava de forma rápida a única solução viável, num curto prazo, era mudar o cardápio com urgência. A rigor: aprender a comer grama, ou, desenvolver mecanismos para aprender a comer os animais que comem grama.

È possível que essa narrativa pessoal que me ajuda a encontrar uma vaga no estacionamento de um supermercado qualquer e desenvolvida a partir do incremento do nível de abstração da linguagem, surgiu num desses períodos de esfriamento. A diferença entre a habilidade humana e a habilidade dos grandes macacos no uso da linguagem tem a ver então com a sintaxe. Enquanto os grandes macacos manipulam um repertório fixo de sons, os humanos recombinam os sons que tem produzindo palavras com um significado diverso dos seus fonemas originais.

Esse mecanismo deve ter sido desenvolvido a partir da necessidade que nossos ancestrais tiveram de desenvolver estratégias coletivas de caça para poder sobreviver a algum desses grandes invernos glaciais que de vez em quando destroem civilizações. A habilidade de fazer com que "nossas hipóteses morram em nosso lugar" como indicava Karl Popper proporcionou uma vantagem enorme para a nossa espécie e foi talvez, uma grande catástrofe para os Mamutes e os Neeandertais.

O hoje, com as mudanças ambientais aceleradas, é que definirá que sociedades conseguiram sobreviver ao futuro. Certamente serão aquelas que investem em uma tecnologia de previsão de cenários possíveis e se prepare com antecedência para as mudanças próximas. Ou seja, quem usa a capacidade de sintaxe não apenas para estacionar um carro no supermercado, mas para gerar ciência e tecnologia a serviço da sobrevivência da nação, ou seja, do jeito que as coisas vãos estamos lascados se não apreendermos rápido a lição da rainha Vermelha em Alice Através do Espelho: "é preciso correr muito para ficar no mesmo lugar".

por Pablo Capistrano [11:54]
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