| 28.3.07 |
| Começo de conversa |
![]() Pouca gente pára e se pergunta: "o que significa dizer que a filosofia começou na Grécia?". Sim. A Grécia é um país fascinante. Quem tem mais de trinta anos no Brasil, com certeza lembra bem das viagens de Dona Benta e Tia Anastácia para a Grécia de Péricles no famoso seriado da Globo (Sítio do Pica Pau Amarelo). Lá os Gregos vestiam aqueles ridículos lençóis brancos, pregados com broches no ombro direito e aquelas coroas idiotas de louro na cabeça. Mas, se formos pensar, a Grécia é muito mais do que aquilo que aparecia nos episódios da TV. Aliás, a Grécia a rigor, nunca existiu. Na verdade, se você procurar um país, com fronteiras definidas, com uma bandeira, um hino nacional e uma seleção de futebol (ou seja tudo o que realmente importa para se fazer uma nação), chamado "Grécia", na antiguidade, você não vai encontrar. Isso porque a Grécia (ou Hélade) não era um país, no sentido moderno do termo, mas um amontoado de cidades estados, mais ou menos independentes umas das outras, com regimes políticos próprios, deuses particulares, composição étnica e jurídica distinta. Essas cidades se espalhavam por todo o mar Egeu (por aquele amontoado de ilhas legais que ficam lotadas de européias nuas na beira da praia no verão), pela costa da Turquia, pelo norte da África, pelo Sul da Itália e Sicília. Talvez, a única coisa que realmente tivessem em comum era um certo sentimento de pertencimento a uma só comunidade, derivado, em muito, do uso de um idioma mais ou menos homogêneo e de uma escrita comum. Por isso é muito impreciso se dizer que "A filosofia começou na Grécia". Primeiro porque Tales, o mais antigo filósofo grego conhecido, que nasceu por volta do século VI antes da era comum, morava em Mileto, na costa da Turquia. Então talvez, mais exato seria dizer que a filosofia começou na Turquia. Mas, dizer uma coisa dessas é perigoso. Poderia gerar sérios problemas políticos; porque gregos e turcos têm uma relação um pouco menos amistosa do que a de brasileiros e argentinos às vésperas de uma final de Copa América. Na verdade esse é apenas um dos problemas sobre a origem da filosofia. Existem autores (chamados de orientalistas) que defendem a idéia, por exemplo, que essa novidade chamada filosofia nem sequer foi uma invenção do povo da Hélade. Para os orientalistas, os gregos, uma civilização bem mais recente do que os Sumérios, Egípcios, Persas, Chineses, Indus e Judeus, não estaria imune a influência dessas outras civilizações e poderia ter recebido as bases da filosofia de outros povos e não a inventado do nada. Um reforço dessa idéia pode se encontrar na tese de que a filosofia, em seu começo, não era muito diferente das seitas místicas, dos mistérios órficos, e da religião monoteísta dos judeus. O cristianismo primitivo, por exemplo, bem mais judaico do que romano, quando aparece pela boca de Paulo na costa do Egeu, é confundido de imediato com mais uma escola de filosofia e não com uma religião. Mas, como tudo na filosofia é polêmico, um sujeito chamado Diógenes Laércio, eurofilo militante, defendeu a idéia de uma espécie de "milagre grego". Assim, a filosofia teria surgido repentinamente, bruscamente, sem antecedentes. Ela seria produto do "Gênio Grego". Uma contribuição decisiva da Grécia para a humanidade. Sem nenhuma influência do oriente. Na verdade essa idéia parece bem mais uma crença política para embalar o nacionalismo grego e salvar a Europa do vexame de não ter criado nada de original para a humanidade. Sim, porque quase tudo de realmente importa na vida da gente parece ter sido produzido, ou na África, ou na Ásia (ou na América, talvez, se levarmos em consideração o milho, motivo básico das festas de São João e de toda aquela ralação de órgãos sexuais nos forrós da vida durante o mês de Junho). As cidades, a escrita, a agricultura, a domesticação de animais, o fogo, o papel higiênico e o macarrão, foram criados por outras civilizações. Sobraria então, para os Gregos e os Europeus, a tal da filosofia. |
| por Pablo Capistrano [19:49] |
| 17.3.07 |
| Juízes e Filósofos |
![]() O mundo anda tão sinistro que peço licença ao leitor desse meu espaço, que já mantenho a quase oito anos, para iniciar uma série de artigos sobre um tema técnico. Calma. Não se preocupe. Meu objetivo aqui não é de assustar ninguém com um rosário de citações estranhas e termos intrincados. Lembro da declaração do sábio Akiba, que viveu na Palestina entre os anos 40 e 135 d.c.: "Se tivesse em meu poder um intelectual, o espancaria como a um jumento!". Pois bem, como vivemos numa época em que intelectuais correm o sério risco de serem espancados com a um jumento (se alguém prestar atenção no que eles dizem, é claro) então vou procurar, nessa série, me afastar, por motivos de segurança e manutenção da minha integridade física e da minha propriedade literária, de jargões lingüísticos e de intricados conceitos técnicos. Falar de filosofia em linguagem de gente normal é uma tarefa difícil. Às vezes mais difícil do que falar de filosofia na linguagem técnica de um filósofo. É como pedir a um neurocirurgião, que explique no jornal do meio dia, para a dona de casa e o estudante de nível médio brasileiro, a diferença entre um aneurisma cerebral e um derrame. No final das contas, é necessário algum poder de síntese, alguma falta de pudor em falar as coisas de modo impreciso, um certo descompromisso com o rigor dos conceitos, uma boa dose de humor e uma leve e distante vontade de que as pessoas entendam o que você está dizendo. Ou seja, tudo aquilo que um filósofo acadêmico despreza. Mas a filosofia é assim mesmo. Ela ama esconder-se. Quando mais você corre atrás dela, mas parece que ela foge de você. Por isso, na origem, o termo filósofo, ganhou essa conotação: "amante do saber". Se o termo tivesse a ver com o Direito o termo correto seria: "marido do saber". Sim, porque, oficialmente quem sabe das coisas é o bacharel. Ele é o marido do saber. De papel passado, com direito a regime de separação parcial de bens e solidariedade familiar em caso de Divórcio. O juiz, ao contrário do filósofo, fez um concurso e por isso está casado com a sabedoria. Dorme com ela, acorda de manhã, toma café, almoça, janta e assiste as partidas da Copa do Brasil, na quarta à noite, enquanto ela, entediada, come um saco de pipocas no sofá. O filósofo, que difere do juiz justamente por não ter emprego público (a não ser como professor) e pelo salário, é o "amante da sabedoria". Encontra-se com ela nos motéis clandestinos da verdade ou nos restaurantes psicodélicos da argumentação. Livre do tédio do cotidiano conjugal, o filósofo se ressente de não ter esse vínculo oficial com a sabedoria, ao passo que o juiz, sonha em se livrar dele (mantendo, é claro, o salário e pagando o mínimo de pensão alimentícia). Para se entender a natureza da filosofia é preciso remontar a relação entre filósofos e juizes, que está tão bem retratada no diálogo Eutífron, de Platão. Lá, Sócrates (o Ricardão da Filosofia) se encontra na escadaria do templo com Eutífron (o juiz, esposo da dita cuja). O juiz tem a obrigação pública de dizer o que é a justiça. Sócrates não. O juiz tem o dever de não entrar em contradição e explicar as perguntas que lhe são feitas. Sócrates não. O juiz está atrasado para mais uma audiência. Sócrates passa o dia na praça do mercado batendo papo com os amigos e fica irritado quando Xantipa, sua mulher, vem reclamar que não tem nada para cozinhar na hora do almoço. O juiz fica constrangido quando não consegue achar uma solução para o problema proposto por Sócrates ("O que é a justiça?") e se envergonha quando deixa claro que a sabedoria só está casada com ele de papel passado, mas que se diverte com o filósofo nas horas vagas. Sócrates sente orgulho de "saber que nada sabe" e sua grande curtição é ficar procurando sua amante pelas ruas, esperando a hora em que ela resolva dar uma "rapidinha" antes de voltar para o templo, para o fórum, ou para o palácio real prestar expediente. Saber porquê algumas pessoas preferem ser juizes ao invés de filósofos é algo difícil, especialmente quando você não faz uma comparação dos contracheques. Nos próximos artigos vamos tentar compreender um pouco mais a natureza dessa estranha relação que os homens mantêm com essa tal "sabedoria". |
| por Pablo Capistrano [19:39] |