| 27.4.07 |
| O Mundo não se move |
![]() "O mundo não se move" A idéia de que o movimento do mundo (e com isso a temporalidade) é uma ilusão, acabou por estimular vários filósofos da chamada escola eléatica (de Eléia, cidade de Parmênides) por volta de primeira metade do século V antes da era comum. Naquela época a Grécia estava ressurgindo de um período bastante conturbado, chamado de "idade média grega"; que se seguiu a invasão dos povos Dórios por volta do século X ou IX. Por quase quatrocentos anos o povo grego viveu num regime de Clãs, tribos familiares; vivendo longe da vida urbana e da escrita. No Período que Parmênides apareceu com sua idéia de imobilidade a civilização dos gregos estava se reconstruindo. As bases dessa reconstrução estavam em duas ferramentas importantes: as cidades e a escrita. Foi justamente nesse universo em reconstrução que as idéias de Parmênides foram disseminadas por discípulos como Zenão com sua famosa experiência de pensamento chamada "Aquiles e a Tartaruga". Experiência de pensamento é o nome que os alemães (Gedankeserfahrung) para designar algumas histórias que os filósofos contam como forma de elucidar as suas idéias e ao mesmo tempo reforçar seus argumentos. A mais famosa nos dias de hoje foi a experiência de pensamento do "cérebro numa cuba" de Hilary Putman, que deu o mote para os irmãos Warchoski (ou alguma coisa do tipo) criarem a série Mátrix. Mas, voltando a Grécia do século V antes da era comum. O tal do Zenão, discípulo de Parmênides, imaginou uma experiência de pensamento para justificar as idéias que seu mestre havia desenvolvido no poema "Sobre a Natureza" (posteriormente eu vou falar um pouco sobre esse título). Na historinha de "Aquiles e a Tartaruga" Zenão imagina uma corrida esdrúxula entre o herói Homérico e uma tartagura, no melhor estilo do finado Papa Léguas da Warner Bros. Nessa corrida, Zenão afirma que, se a tartagura saísse com uma vantagem de 50 metros em relação à Aquiles; nosso herói, matematicamente, jamais a alcançaria. Loucura? Mais ou menos. A idéia é que, se uma distância X divide um corpo (A) de um corpo (B) e o corpo (A), após certo tempo, avançou até metade do caminho, ainda faltará 50% da distancia para que (A) encoste em (B). Se (A), alguns segundos depois, avançou até metade desses 50% que faltavam, ainda vai faltar mais 50% da metade que sobrou. Isso vai continuar assim para sempre. Sempre vai faltar uma metade para se chegar a algum lugar. Ou seja, do ponto de vista de uma lógica estritamente matemática, a gente nunca chega a lugar nenhum. Calma. Não se apavore. Você não voltou para o primeiro ano do ensino médio, nem eu sou aquele seu professor de física que protagonizava seus piores pesadelos discentes, nas vésperas da semana de provas. Na verdade, o que Zenão tentou demonstrar com sua experiência mental era que, a despeito de sentirmos que estamos nos movendo, do ponto de vista estritamente lógico (ou pelo menos seguindo uma lógica que Zenão e os seguidores de Parmênides consideravam pertinente) nada acontece. Ou seja, Zenão transformou numa experiência matemática aquilo que Parmênides havia descrito através de um poema. Esse é um elemento significativo acerca da filosofia e que, de um modo ou de outro, eu já havia discutido em outra crônica. A filosofia transita entre a matemática e a literatura. Tecendo uma tapeçaria desses dois mundos. Eu, coitado, entrei para o mundo da filosofia pelo lado da literatura. Por isso demorei ainda alguns dias pensando na história de Aquiles e da Tartaruga para poder entender o sentido da piada. Por isso, não precisa ficar irritado, amigo leitor, se você não conseguiu também entender o sentido dessa pequena anedota de filósofo. Talvez você esteja como eu, no partido da literatura, ou seja, sem saber, você pode ser um discípulo de Heráclito, um outro desses estranhos filósofos que, a dois mil e quinhentos anos atrás resolveu pensar sobre o movimento, o tempo e a morte. |
| por pablocapistrano [07:26] |
| 19.4.07 |
| A Verdade bem Redonda |
![]() "É preciso que de tudo te instruas,/ do âmago inabalável da verdade bem redonda/ e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira,/ no entanto também isto aprenderás, como as aparências/ deviam validamente ser, tudo por tudo atravessado". O autor dessas palavras, Parmênides, nasceu na Itália (numa cidade da Magna Grécia chamada de Eléia) por volta de 530 antes da era comum, e desenvolveu, através de um conjunto de versos divididos em duas grandes partes, toda uma visão de mundo baseada na idéia de imobilidade. O personagem central dos versos é o próprio poeta-filósofo, que é levado num carro incandescente, guiado pelas musas (filhas da deusa Mnemonise). A viagem de Parmênides faz referência a um tipo muito particular de transposição. Um deslocamento semelhante à ascensão de Elias num carro de fogo em direção aos céus, ou de Dante, na sua busca pelos ciclos do inferno, paraíso e purgatório, por Beatriz. Em todos os casos há uma descrição firme de um arrebatamento, de uma transição entre mundos, de uma escalada pelas esferas do céu em direção ao caminho da "verdade bem redonda". Muitas são as histórias de viagens povoando o imaginário dos homens. Talvez, todas as histórias já descritas, em verso e prosa, no tempo da humanidade, apenas à três tipos se reduzam. As que falam sobre um amor; as que falam sobre um deus que morre e as que falam sobre uma viagem. A vigem do poeta-filósofo Parmênides, um dos primeiros pensadores da antiga Grécia, marca um momento de transição no universo da cultura antiga. A filosofia está presente em seus versos, mas ela ainda não encontrou o gênero monográfico que se tornou o padrão nas universidades modernas. Ainda está ligada ao mundo mágico e lírico das musas, as mesmas criaturas divinas do mundo mágico da sagrada da deusa ancestral, que encantam e conferem poder aos poetas. A fonte do pensamento de Parmênides, antes de ser a reflexão racional, a análise meticulosa, a observação e a experimentação, é sim, o furor divino do verbo poético. Do ponto de vista de Parmênides e de seus seguidores, o movimento é uma ilusão. A geração de todas as coisas, o crescimento e a corrupção; o tempo, com seus ciclos de apogeu, decadência e morte, são apenas erros dos sentidos falhos, que não alcançam a verdade bem redonda do Ser. Se qualquer um de nós, amigo leitor, ao invés de um táxi para Ponta Negra, numa sexta feira à noite, entrasse no carro de Parmênides, seriamos alçados a um ponto de vista privilegiado. Poderíamos ver o mundo em sua totalidade, de fora dele, como se tivéssemos sido pegos na carona de um objeto não identificado e pudéssemos contemplar, não apenas a terra, não apenas o sistema solar ou a via láctea, mas todo o universo, bem de longe, em sua totalidade. Se pudéssemos ter essa experiência, se pudéssemos ver o mundo como a poesia de Parmênides nos induz, teríamos a sensação de que o ele seria inteiro, esférico, inabalável e sem fim; tudo junto, uno, contínuo. Seriamos tomados pela deliciosa sensação de que o tempo, a morte e a decomposição são reflexões, projeções, sombras de nossa mente que toma o caminho errado do entendimento e pensa que as coisas são como aparecem para a gente. Os seguidores de Parmênides entendem através da poesia, que a matéria que me compõe não desaparece. Nada no universo se cria, nada se perde. As transformações superficiais das coisas, não impõem a elas uma mudança substancial. Viver, sofrer, mudar e morrer não são, a rigor, coisa alguma, se a matéria que compõe meu corpo não se perde, voltando a fazer parte do mundo que me circunda. Se somos todos "poeira de estrelas" antigas, nada se perdeu, nem se criou na história de nossas vidas. |
| por pablocapistrano [11:26] |
| 8.4.07 |
| Mamãe Literatura |
| "Essa é a Foto do mestre". Grandes crises começam com rupturas profundas no tecido de nossas crenças particulares. Imagine se um dia alguém lhe disser que você não é filho de quem pensa que é. Definitivamente essa não é uma informação trivial. Dizer: "olha, seu carro está com o pneu furado, um abraço", não é a mesma coisa de: "olha, você é filho do dono da padaria, um abraço". Saber a própria origem é algo que ajuda a definir nossa identidade. Há um brocado jurídico que diz: "a maternidade é um fato, mas a paternidade é uma questão de profunda fé". Infelizmente essa não é também uma verdade pacífica no campo do saber filosófico. A rigor, não se tem muita certeza de quem seria nem o pai (se o oriente ou o ocidente), nem a mãe (se a matemática ou a literatura) da filosofia. Isso porque há uma idéia derivada de uma curiosa teoria, chamada de Lei dos três estágios, explorada pelo francês Auguste Comte no século XIX, mas já desenvolvida por Turgot em 1750, que afirmava possuir o conhecimento humano três etapas de desenvolvimento. O estágio religioso (mitológico); o filosófico (metafísico) e o científico. Por trás dessa idéia, além da crença de que o conhecimento científico seria a expressão última da autoconsciência da humanidade, a dupla Turgot-Comte, legou-nos a idéia de que a Filosofia teria surgido a partir de uma ruptura inicial com a mitologia. Esse tipo de pensamento acabou por se tornar mais um dos "dogmas de livros didáticos de ensino médio" e tem tudo para se tornar uma bela questão de vestibular no dia que as universidades resolverem criar uma prova de múltipla escolha com questões filosóficas. A partir dessa angulação a filosofia prepara caminho para a ciência, instigando uma postura investigativa e autônoma, diante de crenças e preconceitos de cunho religioso, poético e mitológico; ainda que sem um método eficaz e sem nada a oferecer (em termos de tecnologia) que justifique pragmaticamente as verbas para pesquisa nas universidades, a filosofia antecipa a ciência. Nesse sentido, a mãe da filosofia só poderia mesmo ser a matemática, que, antes dos primeiros filósofos pisarem nas cidades estado da costa da Turquia, vindos não sei de onde, já era largamente utilizada, quebrando o galho de muitos arquitetos, engenheiros e agrônomos mundo afora. A idéia é que os filósofos seriam então, inimigos dos poetas, e que buscavam produzir uma espécie de "matemática com palavras". Um mecanismo de argumentação e de investigação da natureza que pudesse oferecer um conhecimento livre de devaneios imaginativos, baseado numa estrutura lógica de argumentação. A dupla de ataque do positivismo Turgot-Comte, jogando pelas laterais, ou tabelando na entrada da área, acabou por chutar forte contra as tendências orientalistas e místicas da filosofia. Nossa dama problemática seria então uma antecipação da ciência, filha da matemática, da engenharia e da agronomia, que tinha como principal objetivo, romper com uma visão religiosa e mitológica de mundo, e, como principal defeito, a ausência de um método seguro e objetivo de investigação, só desenvolvido por Galileu Galiei, alguns séculos depois. A questão é que debaixo da trave do time inimigo, Turgot e Comte encontram um goleiro da categoria de um Gordon Bamks. Friedrich Nietzsche, também no século XIX, desconsiderou a interpretação matematizante e cientificista dos positivistas, levantando a idéia de que a filosofia era, na verdade, uma forma de literatura, um tipo de escritura, de mitologia branca, como iria descrever um século depois o filósofo judeu Francês Jaques Derrida. A partir daí o que contava não era o conhecimento intelectual, teórico, sobre o mundo. Para Nietzsche, o que importa, na porcaria dessa vida é a vida em si e tudo de belo e terrível que pode emergir da vida. Ora, se a filosofia era um gênero literário, um artefato estético, e não uma antecipação do conhecimento científico, então ela não havia rompido com a mitologia. Ela deveria sim ter surgido a partir da mitologia. Deveria ser uma filha da poesia, uma forma derivada do verbo dos poetas, com sua abrangência, sua liberdade, seu impacto auditivo e sua força estética. Como uma bela disciplina que se situa na zona de fronteira, entre mundos diversos, a filosofia permanece assim, indefinida, com suas nebulosas origens e suas inquietantes indefinições. |
| por pablocapistrano [16:54] |