| 31.5.07 |
| Depois da Filosofia |
![]() Há muito tempo eu não tinha idéia do que fazer com a minha própria vida. Não sei se você já sentiu isso. Mas, aos 21 anos eu não tinha idéia de que caminho seguir. Isso era grave porque eu já havia cursado quatro semestres de Psicologia na UFRN e estava perguntando a mim mesmo o tempo todo: "O que eu estou fazendo aqui? O que eu estou fazendo aqui?". Quando você começa insistentemente a se fazer essa questão é porque alguma coisa está errada, ou com você, ou com o lugar em que você está. O fato é que eu assisti uma palestra sobre Martin Heidegger (filósofo alemão do século passado) e decidi mudar de lugar. Fiz reopção (Uma espécie de vestibular interno) em 1996. No dia da prova lembro de ter visto as listas com os alunos que estavam pleiteando mudança de curso e as respectivas vagas. As maiores concorrências estavam nas engenharias, na saúde e no direito. Procurei a lista da reopção para filosofia. Uma vaga. Um único concorrente. Eu era o único sujeito naquela universidade inteira que estava prestes a entrar no estranho e pantanoso mundo da filosofia acadêmica. Confesso que senti um arrepio na espinha quando vi aquela lista. Mas já era tarde. O conhecimento filosófico começou a entrar em crise ainda no século XVI, quando a revolução científica começou a mudar a face do mundo, mas seu momento mais desesperador se deu no século XIX. Para muitos, a filosofia morreu aí. A aventura filosófica que havia começado na Grécia antiga, atravessado a avalanche do cristianismo e a queda do Império Romano, passado pela idade média e continuado renascimento à dentro, não teria suportado o advento da sociedade industrial. A ciência moderna com seu conhecimento prático, produtor de tecnologias e maravilhosas mercadorias embaladas em papel colorido; havia destroçado a velha filosofia. Derrubado os velhos sábios barbudos e, em seu lugar, posto cientistas de jaleco branco e cabelos desgrenhados. Vejam que azar o meu. Resolver me tornar filósofo justamente quando já haviam assinado o atestado de óbito do meu ofício. Richard Rorty, um dos mais importantes pensadores norte americanos da atualidade, diz que depois do século XIX a filosofia só teria três saídas para não ser enterrada de vez. (1) se contentava em ser um apêndice da ciência, uma espécie de antecipação dos problemas que as ciências iriam resolver em um futuro próximo; (2) se torna uma espécie de instrumento de assessoria e justificativa ideológica de algum governante de plantão que precise encomendar argumentos para fundamentar suas ações políticas, (3) se transforma em literatura. A idéia de que a filosofia já disse tudo o que tinha para dizer e que, hoje, não há nada mais a ser dito, nada mais a ser pensado, nada mais a ser criado em nenhuma área; gerou a noção de que viveríamos em uma era pós-filosofica e sujeitos como eu, olhando para aquela melancólica lista de reopção, único concorrente de mim mesmo na disputa para ser aluno do curso de filosofia da UFRN, teria que me contentar em ser uma espécie de especialista em uma ciência morta, dotada de uma linguagem oculta que eu teria que decodificar para algum aluno do ensino médio, que só pensa em sexo e futebol. Sinceramente, esse não parecia ser um bom prognóstico. Mais de dez anos se passaram e agora, ao menos no Brasil, a filosofia parece que ganhou um fôlego novo. Programas de TV; revistas especializadas, livros e livros aquecendo mercado editorial; retorno à obrigatoriedade nos currículos do ensino médio e até colunas como essa em jornais, levando a mensagem da tradição filosófica para um maior número de pessoas. Ainda há espaço para a filosofia em nosso mundo? Há brechas para questões sobre a morte, o ser, a consciência, o bem e o mal em nossa sociedade? Curiosamente, os mesmos pensadores que decretaram a morte da filosofia no século XX, o alemão Martin Heidegger e o austríaco Ludwig Wittgenstein, acabaram por criar filas e filas de discípulos que continuaram a reflexão filosófica e acabaram fazendo com que essa dama moribunda atravessasse o milênio e chegasse aos dias de hoje. Mas esse é um tema para a próxima semana. |
| por pablocapistrano [12:07] |
| 22.5.07 |
| Desconhecida íntima |
| Certa vez um professor que me deu aulas quando eu cursava a graduação em Filosofia me encontrou no Centro de Convivência do Campus da UFRN. Era um daqueles poucos dias chuvosos que de vez em quando insistem em quebrar a monotonia da luminosidade e do calor impiedoso, que tornam o clima de Natal tão sedutor para alguns e tão infernal para outros. Por causa da chuva eu estava parado, diante de uns 20 metros de lama que me separavam do meu ford fiesta. Pressionava a chave do carro no meu bolso, pensando se seria mais vantajoso atravessar aquela lama debaixo da chuva e tentar entrar no carro ou esperar que o céu abrisse um pouco mais. Foi quando o meu antigo professor se aproximou e me disse. "Olá, Pablo. Como é que vai? Soube que você virou jornalista." Até aquele dia eu não tinha notado, mas existe algo mal resolvido envolvendo jornalistas e filósofos. Apesar de grandes pensadores terem dedicado boa parte de suas vidas a produzir textos na imprensa (alguns inclusive, fundado jornais, como Hegel) há uma idéia de que o espaço do jornal não é um local apropriado, pela contenção das linhas e pela necessidade de textos curtos e "enxutos", para se falar sobre algo tão profundo e complexo, quanto a filosofia. Por isso o meu antigo professor estava sendo um pouco irônico quando fez o comentário naquele dia de chuva. Eu estava começando a escrever artigos e crônicas em jornais e isso poderia dar a impressão de que eu estivesse "trocando de time". Optando por esquecer a advertência que Platão, o aluno de Sócrates, havia mandado gravar na entrada de sua escola de filósofos: "Não entre aqui quem não souber geometria". Na verdade, essa parece ser uma estratégia deliberada de alguns filósofos na história do pensamento ocidental. Camuflar seu discurso atrás de uma linguagem técnica, própria e intrincada, que serve muito mais como uma cortina de fumaça que esconde o pensamento do que algo necessário, quando se começa a filosofar. A história está cheio de casos trágicos de pensadores que se deram mal, por tentar propalar abertamente suas idéias. Sócrates (o caso mais famoso); Giordano Bruno; Spinoza; Pedro Abelardo; são exemplo de filósofos que dançaram feio quando resolveram sair da toca e esquecer o lema que René Descartes mandou gravar na sua tumba: "bem viveu, quem viveu oculto". Por isso, para uma certa categoria de professores universitários, tornar-se jornalista é algo perigoso. Mas eu particularmente não pensava desse modo. Minha idéia era outra. Será possível falar sobre filosofia nas linhas de um jornal? Será digno, exato, profundo ou condizente com meu status de especialista em ciências mortas (como a metafísica) e linguagens ocultas usar um espaço pequeno entre a página policial e o caderno de política para traçar, no ritmo da crônica, um painel acerca da evolução do pensamento ocidental? Meu professor era um sujeito bem humorado, que já havia me dado algumas das melhores aulas que eu já havia tido na minha vida; mas naquela tarde eu resolvi, um dia, topar o desafio. Fazer uma série de crônicas, curtas e certeiras, que desse conta da filosofia. Essa desconhecida íntima de todos nós. Essa dama estranha, que vive na nossa casa, dorme na nossa cama e come do nosso prato, mas ama se esconder quando olhamos para ela diretamente. Naquela tarde, me despedi do meu antigo professor, e meti o pé na lama debaixo da chuva, para pegar meu carro e sair do campus universitário. Naquela tarde resolvi escrever a primeira crônica dessa série e topar o desafio de falar, na superfície da linguagem, de algo profundo; porque, a única coisa que alguém que está procurando algo não pode fazer é se perder. |
| por pablocapistrano [11:27] |
| 8.5.07 |
| Tudo Passa |
![]() Nos fins do século VI antes da era comum, surgiu na Jônia (costa da Turquia) um pensador que iria marcar a filosofia contemporânea. Seu nome era Heráclito e sua cidade era Éfeso, terra da deusa Ártemis, a caçadora, senhora da natureza selvagem e das florestas escuras. Pois foi nesse ambiente florestal de pouca luz, que esse pensador teria produzido um livro chamado, (adivinha?) "Sobre a Natureza". Sim. O mesmo título do poema de Parmênides. Não se tratava de um plágio, nem de algum erro no escritório de registro de direitos autorais (Não havia o conceito de autoria no século IV antes da era comum). Naquele período, a maioria dos pensadores escreviam um livro intitulado "Sobre a Natureza". O fato é que Heráclito teria escrito esse livro, segundo alguns, em pedra, e depositado na frente do templo de Ártemis como uma oferenda para a deusa. Mas o tempo e a história trataram de decompor a obra de Heráclito, e dela só nos restou o nome, a lenda, e um punhado de fragmentos (em forma de comentários de terceiros, espalhados pelos textos de diversos autores como Aristóteles e Diógenes Laércio). Por causa disso, Heráclito foi chamado por muito tempo de "O Obscuro". Plenamente compreensível. Só sobraram pedaços de seu livro. Se isso acontecesse, por exemplo, com a obra máxima da Bruna Surfistinha ("O Doce Veneno do Escorpião") é provável que ela também seria chamada de "A Obscura". Talvez algum filólogo do futuro pudesse fazer uma tese de doutorado de 300 páginas sobre um dos fragmentos da obra perdida da Surfistinha ("E então ele, com seu membro..."). Essa é uma diferença fundamental entre um aforismo e um fragmento. Um fragmento é um pedaço. Uma parte deslocada do todo. Então, seu sentido original se perde, por causa do deslocamento. Um aforismo é inteiro. Completo. Seu sentido está totalmente contido na extensão de sua frase. Ele é curto, mas não é fragmentário. Como o livro de Heráclito se perdeu, e só sobraram os fragmentos registrados em comentários feitos por outros autores; seu pensamento, a exemplo da deusa à qual ele rendia suas homenagens, mergulhou na escuridão e na penumbra. Por quase dois mil anos. Heráclito foi considerado durante todo esse tempo como um pensador estranho e menor. Um apêndice da obra grandiosa de Aristóteles. Mas esse foi o destino de quase todos os pensadores originais. Obliterados pelo cristianismo de Agostinho, Anselmo, Tomás de Aquino, toda essa turma da linha de frente da filosofia antiga era meio que desprezada porque, entre eles e o resto do mundo, haviam os irmãos metralha (Sócrates, Platão e Aristóteles) do cristianismo. Foi necessário muito tempo e muita pesquisa histórica para que Georg Wihelm Friedrich Hegel (1770-1831) percebesse a importância e a pertinência das idéias de vários desses pensadores originais, esquecidos e ofuscados pelo marketing cristão, que elegia os três patetas (ops, desculpe, foi um lapso!), os irmãos metralha (Sócrates, Platão e Aristóteles). Mas Hegel extraiu pelo menos uma idéia fundamental dos fragmentos de Heráclito. A dialética. Sim. "Dialética". Quem nunca ouviu essa palavra nos anos sessenta e setenta? Quem não lembra dela no movimento estudantil? Quem não lembra dos bons e velhos jargões dialéticos dos sindicatos brasileiros, ou mesmo as discussões dos intelectuais de esquerda nas mesas de bar, cheias de copos de cerveja e bolinhos de bacalhau em pratos de plástico, sobre essa tal de "dialética". Pois é amigo leitor, nem Hegel, nem Marx, nem Platão. Quem abriu caminho para o surgimento da dialética foi Heráclito de Éfeso, o obscuro; aquele que não podia entrar nas mesmas águas de um rio duas vezes. O conceito é simples: Tudo passa; tudo flui. O que a dialética nos ensina é que nada permanece o mesmo todo tempo. Que as coisas mudam, que tudo é transitório e tudo carrega em si o seu contrário. A vida já é o começo da morte. O frio, já traz, em si as marcas do calor, assim como o calor carrega sempre as possibilidades do frio. Os pedaços da obra de Heráclito fizeram Hegel pensar que tudo está contido no fluxo da história e que, mediante este fluxo, tudo se transforma no seu oposto. Um corpo vigoroso e firme, um dia, será um cadáver. O calor de uma fogueira será, brevemente, substituído pelo frio de suas cinzas. Tudo passa; tudo flui. Panta rei, panta corei. |
| por pablocapistrano [08:23] |