| 22.6.07 |
| Mundo Paris Hilton |
![]() "Ao lado foto pornográfica da modelo fazendo sexo na lavanderia de um Shopping Center em recente viagem à Patú no Alto Oeste Potiguar." Paris Hilton foi presa. Foi pega dirigindo embriagada, coisa que, nos Estados Unidos parece que dá cadeia. Depois de sair de um importante evento social, a moça dirigiu-se à prisão aonde iria passar algumas noites. A trajetória dela até o local de cumprimento da pena foi devidamente filmada e deve estar à disposição no Youtube. Seu advogado disse que ela iria aproveitar o tempo para pensar o que poderia fazer para transformar o mundo em um lugar melhor. Mas... ]antes do fim do período de reclusão ela foi libertada, sob alegação que não havia se adaptado a cela. Especula-se que na verdade, a moça não teria se adaptado à questão que se propôs a responder: o que fazer para transformar o mundo em um lugar melhor? A contemplação do grande vazio que teria surgido como resposta a essa inquietante dúvida teria sido suficiente para levá-la, como em um koan Zen Budista; ao limite de uma experiência mística. Esfera muito perigosa para qualquer celebridade que faça jus a esse nome. Dizem que quem primeiro usou o termo "celebridade" no sentido que hoje é comum foi Andy Warhol, o artista plástico norte americano que desenvolveu a Popart. Nas psicodélicas festas da factory (nome do seu estúdio em Nova York) nos anos sessenta, Warhol costumava a se referir a seus amigos e admiradores com a alcunha de "celebridade"; "Oi, celebridade! Como você está?"; algo do tipo. Esse era o termo para designar a fauna de travestis, artistas de vanguarda, hipsters, proto-punks, drogados e vagabundos de todo tipo que circundavam o ambiente underground de Nova York nos sessenta e setenta. Mas as raízes da moderna idéia de "celebridade" remontam à Europa do século XVIII. Naquela época o rei era a grande celebridade e quem orbitava ao seu redor, ou tinha a sorte de nascer com seu sangue, também ganhava um quinhão das delicias de ser um sujeito público. Na verdade a vida dos aristocratas no antigo regime era absolutamente pública e cercada de rituais. O almoço, o banho (quando acontecia), os passeios, os jogos, as caçadas, tudo era cercado de solenidade, pompa e circunstância. Não havia a rigor uma distinção entre uma reunião de trabalho do ministério real e um happy hour, com um vinhozinho, uma vitela e um bom concerto de câmara. A vida privada e a vida pública se misturavam e os ritmos ordinários do cotidiano real eram pautados pela presença sempre constante do olhar de seus súditos. Até o ato real de defecar fazia parte desses rituais. Era comum que o rei, sem ironia alguma, usasse o vaso sanitário literalmente como trono, para despachar uma ou outra ordem, ou assinar algum decreto real. Mas os EUA, um país de puritanos degredados e de imigrantes, nunca teve tradição suficiente para formar sua própria aristocracia, então, criou o conceito de "celebridade" e elegeu Paris Hilton como sua rainha na estação. Aliás, o ato de defecar ainda é, ao contrário do tempo de Luis XIV, a última grande fronteira a ser quebrada pelas celebridades contemporâneas. Só quando estiver a disposição no Youtube o momento privado de excreção intestinal de Paris Hilton, no seu maravilhoso vaso de porcelana, é que o ciclo das celebridades estará completo e nós poderemos dizer com orgulho que o homem comum, o burguês banal, o ricota vazio e incompleto, incapaz de responder a mais rudimentar pergunta existencial ("o que eu estou fazendo aqui?") vai estar definitivamente elevado à categoria de rei. Já folheamos na "Caras" nossos aristocratas instantâneos, comendo, jogando tênis, bebendo, passeado de iate, casando, tendo seus bebês, brigando na porta de boates, fazendo sexo no mar, ou em quartos de motel, cheirando cocaína e se enforcando em quartos de hotéis. Todas as dimensões cotidianas e banais da nossa curta e miserável existência já foram filmados, fotografados, divulgados em colunas sociais e revistas de fofocas e comentados por especialistas em programas televisivos cujo tema fundamental é o mais profundo e simples vazio. Vivemos uma época de vazio e silêncio. Uma época no qual o nada da vida de cada um pode ser levado ao status de acontecimento. Esse é o mundo Paris Hilton em que eu e você nascemos, amigo leitor. Um mundo sinistro, muito sinistro. |
| por pablocapistrano [10:12] |
| 12.6.07 |
| Abendland |
![]() "Na terra do crepúsculo" Conta a lenda que Martin Heidegger, entre 1943 e 1944, refugiou-se na Floresta Negra, no sul da Alemanha. Ele estava fugindo da guerra para o interior do ambiente calmo e silencioso da floresta escura e fria que abrigou, durante tantos anos, as cabanas de seus ancestrais germânicos. Diz ainda essa mesma lenda, que Heidegger havia levado apenas um punhado de escritos em grego antigo. Fragmentos e textos dos filósofos pré-socráticos. Aqueles que haviam surgido antes de Sócrates. Os chamados "pensadores originais". Que deram inicio a aventura filosófica na terra do pôr do sol (uma outra forma de se referir ao ocidente). Naqueles anos a Europa estava em ruínas. A civilização tecnológica, desenvolvida a partir da ciência moderna, havia causado uma catástrofe humana sem precedentes. Um cortejo fúnebre de cadáveres cobria todo ocidente, estendendo com seu manto sombrio, uma nuvem de sangue por todo hemisfério norte. A civilização industrial havia dado as ferramentas para a guerra total, para as máquinas poderosas de matar, para as câmaras de gás nas quais milhões e milhões de eslavos, judeus, ciganos, homossexuais, artistas e ativistas políticos de toda ordem foram sistematicamente eliminados. O mundo de Heidegger era um mundo tão sombrio e sinistro quanto à cor da sua floresta negra, da Schwarzwald alemã que lhe abrigava. Mas Heidegger também carregava consigo um constrangimento público que iria manchar seu currículo. Alguns anos antes da eclosão dessa guerra, o filósofo havia aderido entusiasticamente ao Partido Nacional Socialista de Adolf Hitler. Havia se tornado reitor da universidade de Freiburg, em pleno advento do nazismo e saudado o Füher com o seu discurso "A Auto-Afirmação da Universidade Alemã". Mas não foi apenas isso. Heidegger se tornou um líder dos jovens estudantes nazistas, um defensor fervoroso da idéia de revolução que levaria a Europa a grande tragédia humana daqueles anos escuros. Muita gente boa afirma que Heidegger nunca deixou de ser um nazista safado. È provável que eles tenham razão. Sua adesão ao nazismo e sua crítica da sociedade industrial andam juntas. Afinal, o velho Martin Heidegger era filho de uma família de camponeses e artesãos da cidadezinha de Messkirch e parecia muito natural que a ideologia nazista fascinasse um sujeito como ele, que tinha uma rejeição natural à modernidade e ao mundo superficial e vazio das grandes cidades burguesas. A busca de da autenticidade, da vida próxima à natureza, a luta por manter a fidelidade as suas origens, a idéia de terra, de povo, de cultura popular; signos que faziam muito sentido ao partido de Hitler. Foi justamente a busca de uma Alemanha pura, de uma fonte original da cultura ocidental, que fez com que o partido nazista ganhasse força. No mundo de Heidegger, a busca por esse universo perdido, se refletia no estudo dos antigos pensadores gregos. Seu esforço era o responder a pergunta: "o que deu errado?". O que havia acontecido com a aventura filosófica do ocidente (Abendland ? "terra do crepúsculo")? Por que a filosofia havia morrido e sido substituída pela ciência? O que restaria no lugar? Como reagir nesse novo mundo, industrializado, massificado, vazio de valores, seco de beleza? Heidegger acreditava que algo havia acontecido com a filosofia. Os primeiros pensadores, os que vieram antes de Sócrates, de Platão e de Aristóteles, estavam no caminho certo, mas algo havia acontecido. Uma mudança de rumo. Uma transformação, uma guinada para o lado errado. A filosofia havia virado metafísica (uma palavrinha curiosa, que merece uma crônica especial mais à frente). Platão, sim, o velho Platão; havia mudado o curso da aventura. Havia feito um desvio. Ele havia criado a idéia de que haveria uma realidade fora do alcance dos nossos sentidos. Um mundo de idéias puras e formas abstratas que poderiam ser "contempladas" pela razão. Para Heidegger, a filosofia teria começado a se perder aí. Teria deixado de ser um pensamento original sobre a natureza e passado a ser uma doutrina que dividia o mundo em dois. Que separava a nossa experiência concreta e cotidiana; da fonte das respostas mais fundamentais. O homem ocidental, depois de Platão, havia ido buscar no céu, as respostas que já estavam presentes aqui na terra e, nessa busca teórica nos mundos abstratos das esferas estelares; acabou criando a ciência. Com ela, o mundo da tecnologia e com esse mundo frio e robótico, industrializado e massificado, uma nova doença havia se instalado: o esquecimento do ser. Para Heidegger, o papel da filosofia na modernidade seria o de curar o homem dessa doença. Para isso, ela deveria retroceder até suas origens. Até seu momento inaugural. Começar tudo de novo, de uma nova forma. Se havia alguma esperança para aquele mundo em ruínas, ao menos na mente daquele filósofo, perdido nas sombras da sua própria floresta interior, cercado por textos estranhos escritos em uma língua morta, essa esperança estava em recomeçar. Retornar ao berço. Regressar para a pátria aonde tudo começou: Abandonar uma Europa em ruínas e viajar no tempo para a Grécia dos primeiros filósofos. |
| por pablocapistrano [11:18] |
| 5.6.07 |
| Virada na linguagem |
![]() Um dia uma jovem alemã que morou um ano em Natal, me perguntou: "por que as pessoas no Brasil não cumprem o que prometem?". No começo eu não entendi, mas com um pouco de esforço consegui compreender o que a afligia: a linguagem. Ela não tinha compreendido que no Brasil (ao menos no nordeste) as pessoas falam algumas vezes com um discurso subliminar. Quando uma amiga na escola dizia: "Ah! Que legal! Vamos ver se a gente marca para sair no final de semana. Eu ligo para você". Ela entendia a ultima sentença "eu ligo para você" como um alemão entenderia; ou seja, como uma promessa, um compromisso. a garota perdeu muitos sábados esperando as ligações das amigas, que prometiam as coisas e não cumpriam. Até que eu consegui explicar a ela que quando uma garota de dezesseis anos no Brasil diz, naquele contexto: "eu ligo para você" ela está querendo dizer: "Olha, você é legal quem sabe a gente se encontra por aí". A consciência de que a linguagem é problemática e que temos que pensar bastante sobre ela, ganhou muita força no século XX. Boa parte da filosofia do século passado se debruçou sobre a função da nossa linguagem e do nosso discurso. Se na Idade Média a principal questão da filosofia era D´us, na Idade moderna era o conhecimento; no século XVII a razão e no XIX a história; no XX a filosofia descobriu a linguagem. Tanto os pensadores que seguiam o time do Wittgenstein (o filósofo austríaco que eu citei algumas crônicas atrás) quanto os que faziam parte do conselho consultivo da equipe do Martin Heidegger; debruçaram-se, de um modo ou de outro, sobre os problemas da nossa linguagem. Essa estranha preocupação foi chamada de "virada lingüística". O nome já diz tudo, de repente, a filosofia virou-se para a linguagem e começou a refletir sobre ela. O século XX, com a informática, a grande mídia, a evolução dos signos, a publicidade, a indústria cultural, a cultura Pop, se tornou então a era do signo. A vida do homem contemporâneo acontece em um casulo de signos, envolvida em uma esfera de linguagem, cercada de ícones por todos os lados (dê uma olhadinha na rua e você vai perceber isso). Então, no século passado os wittgensteineanos e os heideggerianos se dividiram em falanges para darem, cada um a seu modo, respostas à questão do discurso, do logos (para usar uma palavrinha grega básica que os filósofos adoram). Nessa disputa, as fronteiras foram demarcadas. Os países de língua inglesa (especialmente EUA e Inglaterra) ficaram sob influência do pensamento de Wittgenstein e a França, pasmem, foi dominada mais uma vez pela Alemanha, ficando sobre a área de influência do pensamento de Hedeigger. Como numa boa e velha partida de War II, os filósofos da linguagem e os hermeneutas armaram seus exércitos e jogaram os dados. Curiosamente existem muitas coincidências estranhas envolvendo Heidegger e Wittgenstein. Ambos nasceram num dia 26 (Heidegger em Setembro e Wittgenstein em Abril) do mesmo ano 1889. Ambos falavam alemão. Ambos eram de famílias católicas (apesar de Wittgenstein ter origem judaica e Heidegger ter trocado a Igreja pelo partido nazista); ambos tiveram professores que muito os influenciaram, mas que depois foram deixados de lado (Heidegger renegando o seu e Wittgenstein rompendo relações). Pior, o nome dos dois professores era quase o mesmo (um Hursserl para "Heidegger" e um "Russell" para Wittgenstein). Ambos sabiam que a velha filosofia havia morrido. Ambos amavam poesia e eram profundos admiradores de Rilke e Trakl. Publicaram seus primeiros livros na década de 20 e abalaram com esses trabalhos o universo acadêmico. Mudaram de pensamento no decorrer da vida, Wittgenstein na velhice pensando como Heidegger pensava quando era jovem e Heidegger defendendo na velhice idéias parecidas com as que Wittgenstein defendia na época da juventude. Se fossem um casal não haveria tanta coincidência. Mas, ao menos uma distinção fundamental os separava (além da preferência sexual): a idéia sobre o que fazer com a filosofia no século XX. Para Wittgenstein a aventura filosófica havia acabado e era a hora de se dedicar a coisas mais úteis como jardinagem ou leitura de romances policiais; para Heidegger o que havia acabado era uma forma equivocada de fazer filosofia. Por isso, era a hora de recomeçar. Retroceder à velha Grécia para reiniciar a aventura. Ver o que tinha dado errado e começar tudo de novo, de um novo modo. |
| por pablocapistrano [11:44] |