| 21.7.07 |
| A Função Social da Vergonha |
![]() Olímipa de Manet (1863). Pense em um quadro porreta! Esse causou escândalo quando foi exposto pela primeira vez no Salão de 1865. Uma obra prima que foi motivo das mais duras críticas quando apresentada ao público porque ousava elevar uma prostituta a categoria de modelo da grande arte (e mais, uma prostituta que acabou de trabalhar). um crítico da época escreveu: "A arte afundou tanto que não merece censura". Mas vamos ao texto da semana: A Função Social da Vergonha Pablo Capistrano www.pablocapistrano.com.br Esse artigo é dedicado aos sem-vergonha da própria vergonha (Desculpe Nietzsche, mas eu tive que escrever isso). Nelson Rodrigues foi um grande fazedor de frases. Uma das que eu mais gosto é "Se cada um conhecesse a intimidade sexual dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém". Na época de Nelson o pudor sexual era um indicativo de um tipo muito particular de sentimento moral: a vergonha. Irmã da culpa, a vergonha é aquela sensação miserável, aquele sentimento devastador e inquietante, que tira teu sono quando você é flagrado fazendo algo moralmente condenável. È certo que o que é moralmente condenável varia. Na época da minha avó, que também era a época de Nelson Rodrigues, mostrar as pernas era algo moralmente condenável. Uma mulher honesta, decente, não mostrava as coxas. Do mesmo modo, o moralmente condenável varia de lugar para lugar. Um vereador holandês flagrado recebendo propina para votar uma lei qualquer pode ser possuído por um tão profundo e avassalador sentimento de vergonha, que sua única saída seja o suicídio, mas, pode não dar a mínima se um eleitor o encontra na porta de um Coffee Shop de Amsterdã que vende a melhor e mais variada maconha do planeta. No Brasil, a coisa parece que se inverte. È o "moralmente condenável" variando no lugar e no tempo. Agora, o que parece não variar, nas sociedades humanas, são os sentimentos morais. Da mais distante aldeia, até o bairro mais descolado de Nova York; da fazenda mais fria na Baviera, até os mais caudalosos desertos cortados por caravanas de beduínos berberes; a vergonha é a mãe do homem. Ela é que nos faz humanos. Que constrói as bases desse mundo artificial que nos rodeia. A vergonha e a culpa são as melhores ferramentas para se formatar um sujeito que não roube, não receba propina e atire na cabeça de um outro ser humano Que não espanque mulheres em paradas de ônibus e não bote fogo em um homem que está dormindo na rua em uma madrugada fria. Confúcio, que viveu entre 551 e 479 antes da era comum já sabia aquilo que minha Avó me ensinou: "Se conduzirmos o povo por meio das leis e realizarmos a regra uniforme com a ajuda dos castigos, o povo procurará evitar os castigos, mas não terá o sentimento de vergonha. Se conduzirmos o povo por meio da virtude e realizarmos a regra uniforme com a ajuda dos ritos, o povo adquirirá o senso de vergonha e além disso se tornará melhor". Sem a vergonha e a culpa, fica muito caro para um sistema social qualquer se manter inteiro. Os custos que o Estado vai ter para desenvolver um aparato repressivo que coíba as atitudes consideradas moralmente condenáveis é muito alto em um mundo no qual a vergonha perdeu o sentido. È completamente inútil a existência do Direito sem que haja uma quantidade mínima de vergonha e culpa que auxilie os juizes, os promotores, os advogados e os policiais a manter a ordem social. Quando os próprios agentes do Estado, quando vereadores, juizes, policiais, prefeitos e governadores, perdem, em conjunto, a vergonha então, meu amigo, a chapa fica muito, mais muito quente; porque aquilo que nos une, aquilo que faz com que um vizinho possa viver em paz com outro vizinho se esfacela e o caminho é um só. Não estamos nesses últimos dois anos vivendo uma crise moral. Ela é bem mais antiga do que a mídia quer fazer pensar. Essa idéia de que a corrupção aumentou nos últimos anos e lá lá lá, é balela política. A crise do "moralmente condenável" no Brasil tem, no mínimo, cinqüenta anos. Ela está ligada a transição de um universo rural e aristocrático, fortemente influenciado por uma moral religiosa, para um mundo burguês. O confronto entre a geração da minha avó (a de Nelson Rodrigues) e a da minha Mãe (a de Nelson Mota) marcou esse momento de passagem no final do século passado. O Brasil abandonou a velha moral, como fez a Europa nos últimos anos do século XIX, e adotou a moral do mundo da indústria e do consumo. Hoje, para muitos pais de família, casar sua filha com um rico canalha é bem melhor do que com um pobre honesto. Hoje, a maior vergonha não é de ser "esperto". Nos sentimos culpados por não termos dinheiro suficiente para comprar um belo apartamento e uma Mercedes. Nossa maior vergonha é a de não sermos ricos, jovens, descolados, bem nutridos com o vinho mais sofisticado e o prato francês da estação. Temos vergonha de não fazermos sexo o suficiente, de não termos os músculos certos nos locais exigidos, de não usarmos a roupa cara da loja de banalidades. Nossa vergonha é a de não ser visto saindo de um carro preto na frente dos mais sofisticados restaurantes e de não ter dinheiro para pagar ao colunista pelas nossas fotos publicadas na revista de fofocas. Abandonamos uma velha moral e não conseguimos ainda encontrar uma moral melhor para pôr no lugar. A crise da nossa vergonha é de conteúdo não de forma. Se há uma função social da vergonha é a de evitar a guerra de todos contra todos e num mundo onde não há verdade, nunca vai ser possível haver paz. |
| por pablocapistrano [17:17] |
| 10.7.07 |
| Flowers. |
![]() Gosto Tanto dos Beatles que o meu disco predileto dos Roling Stones é Flowers. |
| por pablocapistrano [11:04] |
| esse mural ultrapassou o limite das duzentas postagens. Bom. Nunca imaginei que meus distúrbios pudessem chegar s produzir tantos textos. |
| por pablocapistrano [10:55] |
| 2.7.07 |
| Sócrates e Sócrates |
![]() A Invenção da Ética A primeira vez que eu ouvi falar de Sócrates foi em 1982. Tinha 8 anos e estava começando a formar um discurso mais ou menos articulado sobre o mundo que me cercava. Meu país estava passando por uma grave crise que iria durar mais ou menos quinze anos, com depressão econômica, inflação e conturbações políticas que envolveriam a queda de um regime político, o surgimento de uma nova constituição federal, a morte de um presidente e o impecheament de outro e mais uma sensação aguda de desesperança. Um dia qualquer desses de 1982, antes que eu pudesse corporificar minha idéia de crise. Meu pai ficou muito ansioso. A URSS tinha feito um à zero no jogo de estréia da seleção Brasileira na copa da Espanha. Aquele foi o primeiro jogo de futebol que eu lembro ter assistido. O Brasil virou: 2x1; e começou uma campanha maravilhosa que encantou o mundo e que poderia ter mudado o rumo do futebol contemporâneo, se não fosse aquela famigerada "tragédia de Sarriá", quando o time perdeu para uma retrancada e traiçoeira Itália de um Paolo Rossi que eu aprendi a odiar com todo meu coração. Foi naquele ano que eu conheci Sócrates. Ele era médico, como meu pai. Jogava bem. Fazia gol de calcanhar. Era alto e elegante e, além de tudo, parecia ser o mentor intelectual da "Democracia corintiana". O primeiro Sócrates que conheci era doutor. O segundo, era parteiro. Sim, havia outro Sócrates ao qual o nome de um dos meus heróis da copa de 82 fazia referência. Mas eu não tinha muita idéia sobre o que fazia esse "segundo Sócrates". Anos depois descobri que o outro Sócrates era filósofo. Se o doutor da copa de 82 era mestre na armação de jogadas e no gol de calcanhar, o Sócrates parteiro era mestre em fazer surgir idéias, como as crianças que sua mãe, parteira de profissão, ajudava a vir ao mundo. Sócrates se tornou uma espécie de "santo da filosofia" através da descrição que Platão fez de sua condenação injusta e de sua execução. Nesse sentido, comparações entre Sócrates e Cristo são inevitáveis. Os dois são personagens trágicos. Ou seja, tanto os evangelhos canônicos quanto os diálogos de Platão que falam sobre a morte de Sócrates, utilizam a estrutura das tragédias gregas. A morte de alguém muito superior a todos nós. A via crusis de Jesus, assim como os momentos finais de Sócrates na prisão, à espera da cicuta que o irá matar; têm grandes semelhanças e grande impacto psicológico. O happy end da ressurreição, e o discurso presente no Fedon (diálogo que descreve os momentos finais de Sócrates) aliviam um pouco o peso trágico dessas duas histórias. Sócrates morre sereno. Ele demonstra que todo seu esforço filosófico foi o de se preparar para a morte. De construir um trabalho espiritual e mental que o deixasse firme, pleno e tranqüilo diante do derradeiro instante. Sua superação da fragilidade dessa vida se encontra na investigação sobre a própria vida. Ora, parece muito razoável. Sócrates pensou sobre o homem. Ele inverteu o curso da pergunta dos primeiros filósofos. Se antes a grande questão da filosofia era "o que é isso que constitui a natureza?", depois de Sócrates a pergunta passou a ser "o que é isso que constitui o homem?". Sócrates inventa a ética e propõe uma investigação sistemática acerca da Justiça, do Bem, da Linguagem, da Virtude. Antes de saber como a natureza funciona, o homem deve pensar sobre o que realmente é importante nessa vida. Antes de mergulhar nos limites do universo e afundar nas partículas subatômicas, atravessar os planos multidimensionais, ou retroceder no tempo em busca do Big Bang perdido, o homem deve saber dos seus próprios limites. "Conhece a ti mesmo". A frase que está na parede da cozinha da casa do oráculo, no primeiro filme da trilogia cinematográfica de Matrix, também era a frase que estava grafada na porta do oráculo da ilha de Delfos. Templo do deus Apolo, centro de peregrinação religiosa do povo grego. A percepção dessa frase induz Sócrates a uma intuição básica. O papel da filosofia é preparar o homem para a morte, e para que o homem possa se preparar bem para a morte, é necessário que ele conheça a si mesmo, que reconheça seus limites, sua própria ignorância e que pratique um tipo particular de esporte: "a maiêutica". A arte de conseguir, por meio de perguntas e respostas, fazer surgir à verdade que mora dentro de cada um de nós, mas que, por arrogância e presunção, não conseguimos escutar. Nos calamos para essa voz interior. Fechamos os olhos para não enxergar nossa própria condição. Esquecemos nosso ser. Trancamos a janela para a luz de nossa casa não iluminar a rua. Mergulhamos na banalidade do mundo e nos surpreendemos quando a morte chega e diz: "Cartão vermelho! Fim de jogo para você". A virada metafísica de Sócrates começa, quando surge a idéia de que não importa quão grande forem os mistérios do mundo, mais importante é encarar os mistérios de nossa curta e limitada existência. |
| por pablocapistrano [20:25] |