| 27.8.07 |
| Medicina da Alma |
![]() Quinze dias atrás uma amiga me liga quase na hora do almoço. "Pablo, você tem notícias do Correia?". Eu estava dentro do carro, ligando a ignição. "Não. Me encontrei com ele acho que no mês passado, no setor I, não, acho que foi no CCHLA. O que foi? Algum problema". Eu já sentia. Sim, a gente sente que é notícia ruim quando alguém te liga desse jeito. "Pois é". _ Disse minha amiga _ "ele suicidou-se hoje de madrugada". Não sei quanto tempo passei com o carro ligado, parado, zunindo aquele barulho clássico de motor um ponto zero, enquanto o ar condicionado se esguelava para tentar combater o bafo tórrido que vinha do asfalto do centro da cidade, ao meio dia. Em minha mente só vinha uma pergunta fundamental, que todo o ser humano se faz diante de todo suicídio: "por que?". No Mito de Sísifo, o escritor francês Albert Camus, aponta: "Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia". Estar vivo é experimentar um pequeno intervalo de tempo entre a infância e a velhice. Uma boa parte das pessoas passa esse curto intervalo de tempo sem saber "o porquê". Essas pessoas apenas existem, como as pedras, e as plantas. Fazem parte da paisagem, são ligadas a terra que as pariu com vínculos tão poderosos que não sentem toda a dimensão da própria vida. Toda a fúria e a ansiedade que esse pequeno intervalo de tempo apresenta. Algumas pessoas, se fazem a pergunta fundamental: "por que?". O que significa, apostar todo dia de manhã, que a vida vale a pena? Epicuro entendia que uma das funções fundamentais da filosofia era a cura da doença da alma. Do mesmo modo que a medicina (entendida na antiguidade como um conjunto de práticas que envolvia nutrição, exercícios físicos e não apenas o consumo de remédios) curava o corpo, a filosofia contribuía para o desenvolvimento de um estado de pacificação do espírito. A prática da filosofia e da medicina (sim, a medicina era uma prática e não um saber) levaria o sábio mais próximo de um estado de ataraxia e de aponia. Falta de perturbação na alma e falta de dor no corpo. Mas, o intervalo de tempo entre a infância e a velhice que os humanos costumam a chamar de "vida" é cheio de dor e sofrimento. Boa parte do tempo que você passa na terra tem a ver com a luta para se evitar a dor que é inerente a nossa passagem nesse mundo. Você trabalha para ganhar dinheiro e ganha dinheiro para não morrer de fome, frio ou de doença. Você se esforça para ficar bonito para não sofrer com a solidão e luta para manter o vigor físico depois de uma certa idade para não perder a autonomia. Essa é a nossa comédia. Viver em constante luta contra o tempo, jogando xadrez com a morte, na certeza de que cada jogada é apenas um adiamento do xeque mate. Epicuro buscou responder a questão: "como é possível ser feliz em circunstâncias tão adversas?". A primeira idéia é a de que a felicidade não é um estado de espírito, mas um momento, decorrente de uma prática, de um conjunto de hábitos. Eu nunca poderei "Ser" feliz. A felicidade não é um estado de "ser". Eu posso estar feliz quando eu estou sereno, e, antes de mais nada, estar sereno é estar saudável. Saúde não se reduz a falta de doença. Sintetiza-se em uma prática mental que alivie meu espírito de suas ansiedades e pavores e de um conjunto de práticas corporais que diminua o efeito desagregador do tempo sobre minhas partes materiais. Estar feliz é estar envolto em um momento que decorre de um longo esforço de superação dos próprios medos e de gerenciamento dos próprios prazeres. Para Epicuro, nossa perturbação mental derivaria de quatro fontes fundamentais: medo da morte, medo do castigo divino, medo da dor e do sofrimento e, dificuldade em gerenciar o próprio desejo. Todas essas fontes da doença de alma criam instabilidade, fraturam o equilíbrio do espírito e podem levar, facilmente, qualquer homem a um estado de desespero. A ciência moderna nos deu inúmeras pílulas mágicas que podem alterar o funcionamento de nosso cérebro e produzir estados de serenidade química. Isso talvez seja útil em estados patológicos avançados da doença da alma que pode nos arrastar para o suicídio. Mas não são suficientes. A resposta à pergunta fundamental de Camus, não se encontra em uma farmácia. A farmácia nos ajuda a recuperar a quantidade mínima de falta de dor no corpo e falta de perturbação na alma para que a gente não sucumba à desconforto de estar vivo e apresse aquilo que sempre chega.. Mas ela não basta, porque, não está embutida em nenhuma bula de remédio, o conjunto de práticas e de atitudes mentais que me levam a recuperar minha serenidade e com ela a minha saúde. Epicuro nos ensinou, na antiguidade profunda de uma Grécia em decadência, um modo de educar a nossa mente para que as idéias que reforçam o pânico, não nos destruam. A morte de Correia deixou uma estranha sensação de tristeza e perplexidade. Especialmente porque ele era um sujeito muito querido e cheio de uma envolvente energia vital. Diante da questão fundamental de toda a filosofia, sua resposta não foi a que seus amigos, colegas de universidade e familiares desejavam. Mas não é possível julgar o que se passa no mais profundo da mente de ninguém. Diante do suicídio do poeta Russo Sierguéi Iessiénin, Maiakovski, outro suicida ilustre, ofereceu uma resposta epicurista para o dilema de Camus: "Para o júbilo/ o planeta está imaturo/ é preciso arrancar alegria/ ao futuro./ Nesta vida/ morrer não é difícil/ O difícil é a vida e seu ofício". |
| por pablocapistrano [10:22] |
| 13.8.07 |
| Arte de Cultivar Jardins |
![]() A Arte de Cultivar Jardins Uma madrugada dessas acordei sobressaltado: "Meu celular! Meu celular!". Não sei se você já passou por isso, mas acredito que um dos distúrbios mais significativos de nossa era, junto com o diabetes, a pressão alta e a Síndrome do Pânico seja o medo de perder o próprio celular. Ultimamente eu tenho percebido que as pessoas andam se apalpando, colocando a mão nos bolsos, girando o olhar em volta ou por cima das mesas, prestando atenção nos assentos do cinema quando se levantam no fim da sessão. Tudo isso é um sintoma da grande doença contemporânea: a ansiedade de perder o próprio celular. Mas, o que há de tão importante em um celular? Comprei meu primeiro Motorola em 1997, um Tijolão preto com uma anteninha ridícula. Isso significa que vivi 23 dos meus 33 anos sem um aparelho celular. 23 anos. Quase um quarto de século sem um celular e sabe o que é mais interessante? Eu era feliz. Sim, era feliz sem um celular. Aliás, durante 23 anos eu nunca tive a mínima necessidade de um celular. Podia sair de casa e ligar para a minha namorada, marcando um encontro com hora e local certo e me deliciar com a incerteza da espera. Vivia feliz sem rádio digital, sem acesso à internet, sem poder enviar mensagens, mandar fotos ou registrar algo com uma câmera portátil. Minha vida era tão boa e serena sem nenhum apetrecho que pode ser encontrado em um celular, quanto a vida de qualquer humano médio em uma grande cidade. Mas tudo mudou depois que eu comprei meu primeiro aparelho Motorola. Hoje, eu sou um dependente digital. Um viciado eletrônico. Um maníaco refém das operadoras de telefonia móvel. Hoje, eu acordo de madrugada com medo de ter deixado meu celular em cima da mesa, da sala de aula. Hoje, só Epicuro pode me salvar. Nascido em Atenas no ano de 341 antes da era comum, Epicuro partiu para Samos, na costa da Turquia, ainda criança, retornando a terra natal em 321. Muito provavelmente foi Epicuro o filósofo mais difamado da história ocidental. Objeto de distorção por parte da Igreja cristã romana, seu pensamento se transformou em uma espécie de febre hedonista, uma busca desenfreada pelos prazeres da carne e do corpo, a ponto de ter seu nome vinculado a uma famosa revista de futilidades da Inglaterra, Epicurean Life (especializada em publicar artigos sobre Hotéis, Iates e Restaurantes). Mas Epicuro não é nada daquilo que dizem que ele é. Vivendo em um período de decadência de Antenas, a geração de Epicuro amargou os dissabores da desagregação política e econômica da Grécia clássica. Sem expectativas reais de atuação política, Epicuro preferiu se retirar da vida pública e fundou sua própria escola filosófica, longe dos muros da cidade e do burburinho da praça do mercado. "O Jardim" era uma espécie de "comunidade alternativa"; talvez a primeira comunidade hippie da história. Lá se buscava a liberdade econômica através do cultivo da terra, a amizade dos vínculos de afeto e do diálogo, e a reflexão genuína sobre o que o homem deve cultivar para encontrar um estado de felicidade em sua vida. A busca pela tranqüilidade da alma e pela saúde do corpo era o grande objetivo da escola de Epicuro. Mas, para se chegar a essa serenidade, seria necessário enfrentar o desejo. Filho da ausência, o desejo é um tipo de prazer diante daquilo que não se tem. Desejar é sofrer diante da ausência. Quando eu quero aquela Toyota, aquele apartamento com vista para Ponta Negra, ou aquela bolsa Prada, ou aquela modelo gostosa da propaganda de cerveja, eu quero o que eu não tenho e isso me leva a um estado de ansiedade e intranqüilidade que me tira do eixo. Por isso é tão importante para o consumo em um grande Shopping que o desejo das pessoas seja ativado mediante um conjunto de mecanismos artificiais de produção de necessidades. Diante da ansiedade do desejo, seu comportamento se transforma e você; usa mais, fala mais, olha mais, bebe mais, corre mais, come mais, gasta mais e pensa menos. Sua vida se torna um ciclo sem fim de desejo, ansiedade e consumo, em busca da blusa perfeita, do computador mais moderno e do namorado ou namorada mais fashion. Diante desse estado de coisas você se prende a um mundo de necessidades forjadas e perde o sono à noite pensando que perdeu seu celular e que, por isso, sua vida não faz sentido. Diante desse quadro patológico coletivo, Epicuro propõe um novo tipo de prazer oposto ao desejo. O prazer na saciedade é o prazer na presença daquilo que se necessita e não naquilo que se deseja. Para Epicuro, feliz é o homem que busca os prazeres naturais e necessários à vida. Aquele que, ao invés de estar escravo das próprias compulsões e do consumo idiota, busca a satisfação naquilo que tem, e não a ansiedade por aquilo que não pode possuir. O jardineiro Epicuro nos ensinou que a felicidade genuína só pode ser atingida quando a alma está serena, e sua serenidade só pode ser atingida quando aprendermos a não trocar nossas noites de sono por causa do medo de perder aquilo que temos, ou pelo desejo de possuir aquilo que ainda não chegamos a ter. Afinal, "a quem não basta pouco, nada basta". |
| por pablocapistrano [15:37] |
| 1.8.07 |
| Resenha sobre o Pequenas Catástrofes |
| Olha só, mas uma resenha porreta sobre o PC (Pequenas Catástrofes). A Carol Medrado, do Blog, "O Cão Celestial", escreveu sobre o livro do tio Pablo. Leitura certeira, bem no centro da narrativa, que é o que importa. valeu Carol! e visitem a página! http://ocaocelestial.blogspot.com/ Eu não entendo nada de filosofia e nem de música. E minha "viagem" sempre partiu da literatura. Por isso posso ter perdido algumas referências importantes para entender o livro Pequenas Catástrofes de Pablo Capistrano. Tive uma certa resistência inicial ao livro por causa disso, mas resolvi jogar pra cima e terminar de lê-lo. Ainda bem. Algumas peças ainda não encaixaram. E é o que me faz achar que eu entendi a história: o livro é um jogo de desencaixe. Sai da caixa, sai do centro e se possível sai do ego ou da persona. Explore a sombra.O livro conta a história de um professor universitário que reencontra, muitos anos depois, um amigo de infância. O nome do amigo é Demian. Não vou dar o segredo do cofre, cabe dizer apenas que seria interessante ler Demian de Hermann Hesse, assim como ler Nietzsche e Wittgenstein e ouvir a trilha sonora do livro. O Demian de Capistrano é fotógrafo e por isso viajou o mundo todo. Foi durante as suas viagens que ele conheceu o Projeto Zaratustra em que pretende "iniciar" o personagem principal. O Projeto Zaratustra é uma mistura de ciência e religião no qual seus "adeptos" crêem que através do uso de uma droga chamada tetrapharmakon podem provocar a própria evolução e ter contato com Deus. É com o intuito de realizar essa iniciação que os dois viajam para a Europa. É a partir daí que começam as "pequenas catástrofes"? Eu acho que o personagem diria que não, as catástrofes já estão aí, já aconteceram e continuam acontecendo. Basta se atentar à revisão histórica que o personagem faz em sua viagem a Europa. Nessa viagem, que começa pela Alemanha, o personagem rememora a história de seu povo, os judeus, desde as perseguições anteriores às cruzadas até o holocausto. Continuando a viagem os dois chegam até a Grécia, onde será feito o ritual de iniciação. Nesse ritual ele usa o tetrapharmakon e passa cinco dias "suspenso" sobre o efeito da droga. Quando o efeito passa, ele não consegue se lembrar de nada e se vê num quarto de hotel ao lado de mulher que conheceu na viagem, Helena. É a terceira (?) Helena de sua vida, sua mulher e a mulher de Demian tem o mesmo nome. Parece até Manoel Carlos, né? Mas o nome, como tudo nesse texto, não é à toa. Como disse antes, não darei os segredos do cofre. De volta à realidade, ele tem que conviver com o mistério do que aconteceu nesses cincos dias de "ausência" e do que ocorreu entre ele e essa Helena. Nos preparativos de volta para casa ele descobre qual a real intenção de Demian ao procurá-lo: ele acaba sendo usado para levar uma mala cheia de tetrapharmakon para o Brasil. Chegando à Natal ele percebe que não passou incólume ao uso da droga, sendo acometido por pequenas crises de "ausência". Quando é que começaram as "pequenas catástrofes"? Impossível dizer. O que sei é que a partir de então o personagem se perde totalmente, não tendo controle nem resposta nenhuma sobre a sua própria vida. Onde está Deus? Onde está a verdade? Onde eu estou? No final também acabei perdendo as minhas certezas e referências. Sentia-me como a imagem da capa do livro, entrando em caixinhas cada vez menores, cada vez menores, cada vez menores... sem saber onde tudo começou. Quem segura a caixa? Alguns podem dizer que é Deus. Eu prefiro dizer que é o próprio Capistrano. Resenha de CAPISTRANO, Pablo. Pequenas Catástrofes. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. |
| por pablocapistrano [11:33] |