| 23.9.07 |
| SEMANA DE FILOSOFIA |
![]() Pessoal, vale a pena conferir a XVII Semana de Filosofia da UFRN. tem um minicurso sinistro do Jaa Torrano (tradutor de Hesíodo) na Terça, Quarta e Quinta das 10:00 às 12:00. No auditório do departamento de Filosofia. Na segunda, dia 01, às 14:00 a exibição do filma, Os Dias de Nietzsche em Turim de Júlio Bressane. Na quarta tem uma mesa redonda na qual eu participo: 16:00 às 18:00 ? Mesa redonda - Entre o poético e o filosófico Auditório da Biblioteca Central Poesia e informação hoje, como pensar o desencobrimento e a revelação do Ser Ms. Soraya Guimarães Filosofia: arte esquizofrênica Prof. Dr. Tassos Lycurgo (DEART/UFRN) Ironia e dissimulação: notas sobre literatura e filosofia Prof. Ms. Pablo Capistrano (FARN) O deslocamento da atividade criadora nas artes visuais: para além da inspiração e do trabalho de arte Ms. Miguel Gally E mais uma conferência do Professor Doutor Glenn Walter Erickson, intitulada: Discurso e Cultura em Aristóteles. No auditório da Biblioteca Central Zila Mamede, às 19:30. e mais uma carrada de outras coisas legais, vale a pena dar uma olhada. |
| por pablocapistrano [22:12] |
| 17.9.07 |
| Uma Carta para Márcia |
![]() Essa é uma obra do Pintor Iraniano Iman Maleki (ou pelo menos foi isso o que a Internet me disse). Hiper Realismo no estilo de Hopper, só que do lado de lá da linha do oriente. mas... vamos ao texto.
"Nenhum animal chora por longo tempo a perda de seus filhos a não ser o homem, que permanece ligado à sua dor e não se aflige tanto quanto ao que experimenta, mas ao que estabeleceu".
Essas palavras foram escritas há aproximadamente vinte séculos, pelo filósofo romano Sêneca, e estão em uma carta para uma mulher chamada Márcia. A jovem senhora romana estava transtornada com a maior de todas as dores: a perda de um filho. Metílio era um jovem de futuro promissor no mundo político romano quando morreu aos 25 anos, no reinado de Calígula. Márcia mergulhou em um luto profundo e Sêneca foi chamado para lhe escrever uma carta consolatória. Em uma época sem pirulazinhas mágicas, sem templos eletrônicos nem qualquer tipo de técnica psicoterapeutica mais avançada, as cartas consolotárias funcionavam como remédios para almas atormentadas em momentos de dor e desespero.
Sêneca foi um mestre na redação desse tipo de texto filosófico. Escreveu cartas sobre a brevidade da vida e sobre a tranqüilidade da alma, sobre o luto e a ira; textos que se tornaram clássicos da filosofia da época do império romano e que retratam de maneira elegante e aprofundada alguns dos principais problemas que atormentavam os filósofos naquele período: como enfrentar o problema da brevidade da vida? Como encontrar a serenidade em um mundo conturbado por uma intensa fragmentação e pela dissolução dos antigos valores familiares, das antigas crenças, da velha tradição religiosa que morria, na medida em que Roma crescia e se estendia para o oriente? As Cartas Consolotárias eram lidas e relidas insistentemente no leito daqueles que padeciam de uma melancolia profunda; na esperança de que a repetição sistemática dos argumentos ou que a força das palavras do filósofo pudesse abrir um horizonte no tecido de dor e prostração que a vida do enlutado havia se transformado. Para Sêneca a dor de Márcia deveria ser profunda, mas não deveria ser eterna. A busca das forças para superar o sofrimento de se experimentar a morte de um filho, deveria se basear no principal elemento da ética dos filósofos estóicos: "não lutar contra o que não se pode mudar".
Aceitar o inevitável é o principal caminho para atingir alguma tranqüilidade na alma e alguma serenidade mental em um mundo tão instável e injusto como o nosso. Márcia, pobre Márcia, havia padecido da mais mortal das dores para uma mãe, e, ainda assim, se submetia a dois sentimentos inúteis e destrutivos: a culpa e a raiva. Esses dois sentimentos expandiam a dor de Márcia e faziam com que, aquilo que é naturalmente profundo, parecesse que também deveria ser eterno. Sêneca avisa que não vai ter piedade com a dor de Márcia e que vai combater essa dor com todas as forças, para que a mãe aprenda a conviver com o dado sem volta de que seu filho estava morto. Parece crueldade, mas alimentar o luto de alguém não é algo honesto a ser feito.
O silêncio respeitoso e a tolerância diante de uma dor que se recusa em desaparecer não é uma atitude honesta. Vivemos em um sistema social que isolou a morte, assim como isolou a loucura e a punição penal. Nosso modelo de vida burguês transformou a morte, de uma assunto privado e familiar, para um tópico hospitalar, tratado em UTIs frias e assépticas.
Minha avó, Dona Aline de Farias Capistrano, por exemplo, que nasceu no Cariri Paraibano em 1921, teve 18 filhos (Não se assuste. Antigamente a turma não perdia tempo assistindo novela das oito). Desses dezoito filhos, nove morreram antes de completar sete anos. Meu pai costuma a dizer que a imagem que ele mais lembra em sua infância era a dos caixoezinhos de bebê na sala de estar das casas da família. Calma, não pense que eu estou sendo fúnebre ou sinistro nesses artigos, mas é que a morte saiu de cena nas casas de classe média do mundo industrializado. O avanço técnico fez com que, alguns poucos abastados pudessem ter acesso a um mundo no qual a mortandade infantil foi combatida com vacinas e a expectativa de vida ampliou-se. Mesmo assim, a morte ainda nos ronda e, estamos hoje, mais do que nunca, fragilizados diante dela. Sêneca mostrou a Márcia que: "a ninguém é dado nascer impunemente" e que "a morte não é um bem, nem um mal. Pois só pode ser um bem ou um mal aquilo que é alguma coisa, porém aquilo que é o próprio nada e ao nada se reduz, não interfere em nossa sorte".
Márcia não podia ter raiva do mundo, achando que a morte de seu filho era uma injustiça, porque, a morte não é uma exceção, mas sim algo que acomete a todos. Também não deveria haver culpa, porque por mais cuidadosa e diligente que seja uma mãe, ela não tem poder sobre a totalidade das circunstâncias da vida de seus filhos. Poucas reflexões são tão atuais quanto as reflexões que aparecem nas cartas de Sêneca e poucas vezes, na história da filosofia o rigor de um argumento filosófico sobre algum tema flertou tão bem com a beleza e o estilo literário. A grande mensagem que o estoicismo nos legou, vinte séculos depois de seu apogeu, é de que na vida humana há uma grande diferença entre se permitir sofrer e se auto-impor um sofrimento inútil. A velha ética clássica nos ensina que a tarefa fundamental de todo ser humano é a busca da felicidade e que se algumas vezes sofrer é inevitável, em outras, sofrer é uma escolha estúpida. |
| por pablocapistrano [10:16] |
| 7.9.07 |
| Senhora Fortuna |
![]() A Senhora Fortuna Pablo Capistrano Sempre gosto de ter uma moeda de cinco centavos em minha carteira, mesmo quando a selvageria das contas de fim de mês arrasta, com seu poder entorpecente meu suado salário de professor. Num mundo em que bolsas de valores sobem e descem, destroçando economias, devastando os nervos de investidores e o pouco de equilíbrio neurológico que resta aos operadores de pregões viva voz, o que poderia representar uma moeda de cinco centavos? Para mim ela representa o insondável campo das probabilidades. A idéia de que o homem está lançado em um intrincado joguete de probabilidades, não foi criado pelas agencias que medem a cotação dos riscos no sistema financeiro global. Na antiga Roma Imperial, já se tinha consciência de que tudo aquilo que a vida nos dá com uma mão, pode nos retirar com a outra. Curiosamente essa idéia estava representada na figura de uma deusa, cuja imagem era comumente encontrada em moedas. A Senhora Fortuna, surgiu primeiro como uma divindade da fertilidade, primogênita de Júpiter. Deusa do destino que carregava em uma mão uma cornucópia (uma espécie de chifre mágico) e na outra mão um leme. De dentro da cornucópia dava aos mortais bênçãos diversas: dinheiro, saúde, amor, fama e sucesso. Com o Leme mudava, subitamente, o destino dos mortais. Pense em um acidente de avião. Pense na quantidade de pessoas que tiveram bruscamente o destino de suas vidas modificado, pelo desastre com o vôo da TAM em São Paulo. Pense nas histórias sobre as pessoas que quase embarcaram naquele vôo. Pessoas que por um atraso de minutos ou por uma circunstância de pequenos desencontros escaparam da morte. Pensar sobre isso incomoda porque nos lança diante da evidência de nossa própria fragilidade. Somos muito pequenos diante das circunstâncias e o mundo, com seus ritmos e com seu amontoado de acasos pode, em um segundo, nos oferecer muito, e nos tirar tudo no outro. A consciência dessa instabilidade é o ponto de partida da filosofia estóica. Originária na Grécia, e depois trazida para o centro do Império Romano por Cícero, o estoicismo acabou por se tornar uma das correntes mais influentes da filosofia romana. Ao contrário da filosofia de Sócrates (cria da praça do mercado), do pensamento de Platão ou Aristóteles (desenvolvidos dentro dos muros de suas escolas) ou da prática de Epicuro, cultivada em uma fazenda nos arredores de Atenas; o estoicismo era exercido nos Portões das cidades. Zonas de transição das cidades antigas, os Portões (Stoá em Grego) eram espaços de intercâmbio, nos quais estrangeiros e cidadãos comercializavam. O estoicismo cresceu, assim, entre os cidadãos de um império imenso, em um mundo sem direitos ou garantias individuais, cercado de grande instabilidade e fragmentação. Entre os grandes pensadores romanos desse período nos encontramos Lucio Aneu Sêneca. Nascido em 3 AC, filho de uma abastada família espanhola, Sêneca se destacou no mundo político e flertou diretamente com o poder. Chegou a ser tutor de Nero e juntou uma grande fortuna cobrando impostos dos moradores da Bretanha ocupada. Escreveu inúmeras cartas que guardam o cerne de seu pensamento, tendo inclusive, segundo alguns, mantido correspondência com Paulo de Tarso. Mas nem o poder político, nem a riqueza, nem o prestígio intelectual, nem todas as glórias e prerrogativas do Império, impediram Sêneca de ter um fim de vida trágico. Vitima de intrigas palacianas, o filósofo acabou sucumbindo à loucura de Nero, seu antigo protegido e aluno, e foi condenado a escolher entre o suicídio e o empalamento. Diante dessas circunstâncias, acabou por seguir o exemplo de Sócrates e matou-se. Essa é a nossa gangorra. Um dia podemos estar bem, saudáveis, felizes; no outro sermos vítimas do leme da Senhora Fortuna. Um dos temas recorrentes do estoicismo era justamente esse: "como enfrentar a fragilidade do homem diante do destino?". Para os estóicos, nada nos guarda da possibilidade de um dia sermos vítimas de uma pequena catástrofe privada. Por isso é preciso aprender a perceber até onde nossos esforços podem interferir na ordem das coisas. O que diferencia o homem sábio do ignorante não é o volume de conhecimentos, mas a percepção da hora certa de abdicar da própria ação e aceitar o destino. Insistir em algo inútil é sinal de estupidez. Sim, a revolta contra aquilo que não se pode mudar não é uma atitude inteligente. Se eu não domino a totalidade das variáveis que determinam a minha situação, não faz sentido me revoltar contra aquilo que não posso alterar. O grande ensinamento estóico é o de que ninguém deve ter confiança excessiva naquilo que à vida oferece, porque o mesmo conjunto de fatores que te presenteia, também pode te derrubar. Os bens da vida são transitórios e a única coisa sobre o qual nós podemos ter algum controle é sobre o nosso próprio caráter. Nossa própria atitude diante da instabilidade do mundo e das surpresas desagradáveis da vida. A serenidade diante do que não se pode mudar é, na visão de Sêneca, nossa grande resposta para a Senhora Fortuna. Levantar-se contra ela, irar-se, entrar em desespero com suas idiossincrasias, perder o equilíbrio é completamente inútil. Por isso eu gosto de carregar sempre uma moeda comigo, para nunca me esquecer que, nesse mundo, a probabilidade de se ganhar e a mesma de se perder e que nem a mais azulada tristeza nem a mais ensurdecedora alegria duram para sempre. |
| por pablocapistrano [11:53] |