| 24.10.07 |
| A arte de não se odiar |
![]() No dia primeiro de Março de 1580 o Barão Michel de Montaigne, senhor da terra de Bordeaux no sul da França, escreveu a advertência que fica na introdução de seu livro "Ensaios". Como eu já tenho um pouquinho de tempo nessa labuta de escrever, mais ou menos uns dezoito anos de teclado (isso levando em conta a máquina de escrever Remington que me introduziu no mundo da prosa) posso afirmar, sem muita dúvida, que esse dia, primeiro de Março de 1580 foi o dia em que Montaigne terminou seu livro. Ninguém começa um livro pela apresentação. Essa é a última coisa que a gente escreve. È como registrar um filho. Não dá para fazer isso antes da criatura nascer e a gente olhar bem para cara dela para confirmar o nome que se tinha imaginado. Na verdade, Montaigne viveu até os 38 anos como um nobre francês do século XVI ou uma socialite do jet set brasileiro viveria, cercado de frivolidades. Mas, após a morte de um amigo, Montaigne mergulhou em uma profunda melancolia e dessa melancolia encontrou o caminho para escrever sua obra. Isolado em uma torre, cercado de livros e de citações em grego e latim gravadas nas ripas de madeira do teto, o senhor de Bordeaux, barão de Montaigne, tocou em um dos centros nervosos da modernidade: o "Eu". Na apresentação de seu livro o barão escreveu: "Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé. (...)Voltei-o em particular a meus parentes e amigos e isso a fim de que, quando eu não for mais desse mundo (o que em breve acontecerá), possam nele encontrar alguns traços de meu caráter e de minhas idéias e assim conservem mais inteiro e vivo o conhecimento que de mim tiveram. Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeitado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artifício de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto". Era o próprio Michel de Montaigne o objeto de seu livro. Ele mesmo, com todos os seus defeitos, com suas peculiaridades, com sua biologia, sua calvice, sua barriga flácida, seus odores, seus hábitos alimentares e seus procedimentos intestinais. Montaigne usou a si mesmo como campo de batalha intelectual para diagnosticar um dos mais inquietantes sentimentos humanos: a inadequação. Vou confessar, durante algum tempo, antes de começar a praticar Yôga, eu freqüentei uma academia. Sim, eu sei, foram anos estranhos para mim, mas eu tinha minhas razões para participar desse mundo, algo que talvez, como Montaigne, eu possa vir a confessar com mais detalhes após os 38, quando o tempo começar a retirar de mim os sinais de minhas vaidades ridículas. O fato é que eu percebi que uma academia de ginástica é um ambiente perfeito para a inadequação. Muitas pessoas sentem-se desconfortáveis com os próprios corpos. Existe uma sensação fundamental de vergonha com a matéria biológica que nos compõe. Hoje, se vêem filas de mulheres se mutilando em salas de cirurgia plástica para esticar, cortar, desdobrar ou paralisar partes do corpo que são inadequadas para o modelo social de beleza. Observamos pela TV meninas definharem e morrerem de fome para enquadrar o corpo em uma medida de magreza construída socialmente por algum funcionário da moda que odeia o corpo feminino. Garotos atrofiados tomando medicamentos veterinários para inchar os músculos. Pessoas, se medindo, pessoas se pesando ao lado de toneladas de lixo publicitário que vendem as mais miraculosas e ridículas formas de alguém ficar "forma" (ou melhor "em fôrma"). Nossa neurose é a mesma do século XVI. Precisamos nos sentir adequados, enquadrados, encaixados, embalados para presente. Nosso corpo tem que entrar no manequim, nosso quadril encaixar na calça. Nossas nádegas precisam estar rígidas e empinadas, nosso abdômen duro, nossas coxas torneadas, nossa silhueta esguia ou então, estaremos condenados a mais miserável infelicidade. Sabe o que é engraçado, na época de Montaigne também era assim. Só que os motivos pelo quais as pessoas torturavam o próprio corpo eram outros. Ao invés de mostrá-los, as pessoas os cobriam, escondiam seus defeitos, guardavam suas imperfeições. Naquela época de vestidos compostos e de golas fechadas, o francês médio sofria tanto pelo seu corpo como o "carioca saradão" da academia. Mas naquele tempo a inadequação vinha de dentro. Flatular, arrotar, escretar, menstruar, ejacular. Coisas consideradas hediondas e vergonhosas. Atos da mais miserável ignomia. Montaigne percebeu que essas idéias vinham da noção de que o corpo humano era a ligação com a faceta animal que nos compõe e por isso o corpo e seus processos biológicos precisava ser negado, escondido, ocultado. O corpo era mal. Os processos animalescos foram moralizados e transformados em expressões desse mal inerente à natureza que liga o homem à sua banda primitiva. Montaigne mostrou que a única coisa que conseguiríamos negando o dado fundamental que todos nós temos um intestino grosso é nos sentirmos inadequados e padecermos com cólicas. Acabamos então por cultivar um miserável sentimento de ódio contra si, um pânico, uma obsessão contra uma imagem que temos de nós mesmos e que precisa ser negada. Hoje, os motivos de nossa tortura corporal são outros. Como o corpo ficou nu ele precisa ser moldado para atingir uma perfeição visual. Nos despimos para sermos vistos. Malhamos o tríceps para impor à irregularidade natural de nosso corpo um padrão geométrico de beleza que deve ter sido extraio de algum jarro grego do século VI ac. Comemos e depois corremos para o banheiro vomitar, para deixar nosso corpo magro e fino, para que o nosso espelho não nos destrua. Aprendemos a nos odiar e nessa luta constante contra o objeto de nosso ódio, nos mutilamos, nos cortamos, nos injetamos. Estamos ainda como o homem do século XVI, negando a irregularidade natural e biológica de nossa própria herança para conseguir mais aceitação social, mais fama e mais sexo. É bom nunca se esquecer quem somos e é isso que Montaigne nos lembra quando diz: "Mesmo no mais elevado trono do mundo, continuamos sentados sobre nossos cús". |
| por pablocapistrano [06:27] |
| 10.10.07 |
| A Via do Islã |
![]() Pense na palavra "Islã" e me diga com toda sinceridade, o que é que vem à sua mente? Se a sua resposta for: (1) homens de barba e turbante com cara ameaçadora gritando palavras em uma língua incompreensível enquanto chicoteiam furiosamente as próprias costas ou batem com as mãos nas próprias cabeças; (2) mulheres cobertas de véus negros andando pelas ruas como fantasmas; (3) terroristas suicidas explodindo um ônibus, ou plantando sacolas com bombas em um metrô qualquer; lamento informar, mas acho que você anda exagerando na dose diária de Jornal Nacional, o que pode ser um sério risco para a saúde mental, vale lembrar. Certo. O Islã moderno tem dessas coisas. Mas o Islã, do ponto de vista da sua história, foi e é um pouco mais do que todas essas imagens estereotipadas que a Time/Warner e suas sucursais tentam mostrar, para justificar psicologicamente as guerras do petróleo de Bush Júnior. Em uma época na qual o ocidente Europeu havia quase que inteiramente cortado sua conexão com o mundo grego, apresentando uma visão enevoada da grande herança filosófica, jurídica e artística que o Império Romano havia deixado, o Islã aparecia como um núcleo irradiador de cultura. Em seu caminho para o ocidente o Islã travou contato com o império Bizantino. Nome medieval para o antigo Império Romano do Oriente. Esse grande império com sede na cidade que hoje se chama Istambul, na Turquia, guardava um grande tesouro. Inúmeros livros, copiados pacientemente em grego e encadernados com capas de couro de animal, que haviam escapado da catástrofe bibliográfica que se seguiu à queda do império romano no ocidente. Esses textos guardavam o que havia sobrado da tradição literária do império romano e continham dois importantes conjuntos: O codex do Imperador Justiniano (coletânea de obras sobre o direito romano clássico, produzidas e recolhidas durante o Império e a República) e as obras de Aristóteles. Lembra de Aristóteles? Durante mil anos o filósofo da Macedônia havia permanecido praticamente desconhecido por parte do ocidente cristão. Seu pensamento não dobrava a curva do estreito de Bósforo devido à escassez de cópias em latim de sua obra (apenas algumas que Boécio havia conseguido traduzir). Mas, se Aristóteles não era conhecido no ocidente, no Islã ele era um autor que já fazia os seus estragos. Sujeitos como al-Kindi e al-Fârâbi, no século IX haviam travado contato com a obra de Aristóteles, mas foi um médico nascido no Usbequistão, que iniciou o ocidente latino no aristotelismo. Avicêna, como é mais conhecido na banda de cá do mundo, teve sua obra inspirada no pensamento aristotélico. A Metafísica (mesmo nome do texto que se atribui a Aristóteles), foi conhecida no ocidente 50 anos antes das primeiras obras do filósofo macedônio surgirem à mesa de estudos dos monastérios cristãos no sul da Itália e na Espanha (aliás, foi a Espanha a primeira porta de entrada da filosofia de Aristóteles). Naquele tempo a península Ibérica passava por aquilo que os Judeus chamam de Era de Ouro da Diáspora. Um período de relativa estabilidade na convivência entre Judeus, Cristãos e Mulçumanos. As três vias do monoteísmo de Abraão, que até hoje não se entendem, viveram um período de contaminação mútua na Espanha dos califas Omíadas. Por 800 anos a presença do Islã na Península Ibérica marcou profundamente a história, a cultura e a formação étnica de portugueses e espanhóis. Nesse meio tempo a comunidade judaica floresceu em Córdoba e Toledo. Cerca de 20 por cento da população de Portugal era de origem judia (depois cristianizados à força pelo decreto de 1497) e o resto descendentes das misturas genéticas envolvendo os celtas (galegos cristãos), judeus sefaraditas e berberes (mulçumanos do norte da África). Nesse caldeirão cultural, Portugal e Espanha deram o verdadeiro início ao que se conheceu na Europa como o Renascimento cultural. Sim. Fique puto. Jogue fora aquele seu velho livro de história da sétima série no qual o autor afirma que o renascimento teria sido uma invenção italiana. Antes da Itália a península ibérica de nossos ancestrais lusitanos e espanhóis, mouros e galegos, judeus, cristãos, e mulçumanos, vivenciaram uma experiência única de mestiçagem intelectual que marcou profundamente a filosofia dos anos que se seguiram. Na virada do primeiro milênio da era comum, alguma coisa mudou na mentalidade dos povos europeus e a filosofia acompanhou essa mudança. Foi justamente a Ibéria dos califas Omíadas, o laboratório no qual essa experiência foi gestada. A Península Ibérica entre os séculos X e XIII era uma zona de fronteira entre o mundo cristão dos povos germânicos e o mundo semítico dos judeus e mulçumanos. Nesse espaço de fronteira surgiram grandes pensadores como Ibn Rushd, mais conhecido como Averrois (mulçumano) e Moisés de Maimonides (judeu sefaradita) ambos nascidos em Córdoba, ambos adaptaram as idéias de Aristóteles às escrituras sagradas das suas religiões (ao Corão e à Torah). Do mesmo modo, no sul da Itália, o contato com os Sarracenos (mulçumanos da Sicília) acabou também contaminando o pensamento cristão. Apesar de Aristóteles ter sido introduzido na Europa Ocidental através da Obra do Mestre Alberto Magno, foi seu aluno Italiano, Tomás de Aquino, o responsável pela adaptação oficial do pensador macedônio aos evangelhos. Foi nesse mundo de conflitos e interconexões culturais que a herança grega clássica, amplificada pelo mundo romano, reduzida e distorcida pelas invasões germânicas, preservada no oriente pelo império bizantino, trazida no lombo dos camelos (Camelo tem lombo?) pela ampla via que o Islã abriu no norte da África, reapresentada a Europa pelo trabalho de pensadores judeus, mulçumanos e cristãos na Espanha, renasceu. Por isso é bom ter cuidado com os estereótipos redutores até porque é muito provável que, se você for brasileiro, especialmente nordestino, mas especificamente potiguar ou paraibano, boa parte do seu sangue carregue, ao lado do sangue galego, indígena e africano, a marca genética dos judeus e mulçumanos que ajudaram a filosofia a se manter viva. |
| por pablocapistrano [16:45] |
| 1.10.07 |
| O Grande Assombro |
![]() O Em 1935, em pleno auge do seu engajamento junto ao partido nazista, o filósofo alemão Martin Heidegger escreveu: "Quando o mais remoto recanto do globo terrestre foi conquistado e economicamente explorado, quando qualquer fato em qualquer lugar e a qualquer tempo está rapidamente disponível... quando o tempo é apenas velocidade, instantaneidade e simultaneidade, e o tempo como história desapareceu de todo dasein de todos os povos, quando o boxeador passa por ser o grande homem de um povo, quando as cifras de milhões em multidões reunidas forem um triunfo ? então, sim, ainda paira sobre todo esse assombro, como um espectro, a indagação: para quê? ? para onde? ? e depois, o quê?". Eu me arrepio sempre que leio essa passagem. Num tempo em que a Inetrenet nem havia sido pensada como uma possibilidade imediata; em um tempo em que a grande cultura de massa ainda não havia cristalizado seu domínio sobre todos os quadrantes e setores do mundo conhecido, em um tempo no qual a tecnologia que atravessou o átomo e circulou as nebulosas, ainda animava quadrinhos de ficção cientifica e fazia a cabeça dos leitores de Flash Gordon; Heidegger apontou para o assombro. Outro dia eu estava na sala de aula, contando para minha turma de Filosofia do Direito algo sobre Antígona, a tragédia de Sófocles; tentando mostrar a origem da ciência jurídica, no horizonte de uma civilização morta; quando notei que um aluno me filmava com um aparelho celular. Tomei um susto. Não que não soubesse que aparelhos celulares são máquinas de conexão simbólica.Tomei um susto porque percebi que eu era uma imagem. Uma simples imagem que podia ser reproduzida e posta a disposição de qualquer pessoa a qualquer momento. Lembrei que em 1995 minha estava com minha esposa em Cuzco, no Peru e ela, com um pesado aparelho fotográfico, capturava imagens de crianças Quéchua, enquanto eu tentava acompanhar a tradicional cerimônia da Festa do Sol (uma espécie de Paixão de Cristo Inca, misturada com carnaval que acontece em Junho). As crianças olhavam irritadas para a câmera. Elas não gostavam de terem sua imagem capturada e reproduzida em papel fotográfico. A velha tradição ameríndia de compreender que a alma de alguém pode estar contida na sua imagem. Hoje, fotografar, gravar, editar e reproduzir são elementos banais. Qualquer ser humano é uma ilha de edição em potencial. Uma ilha de edição de si mesmo e dos outros. Nunca, a privacidade esteve tão em baixa como na estação desse tempo de começo de milênio. Comecei a me sentir estranho. A mesma estranheza que talvez as crianças Quéchua sentiam diante da aproximação da câmera fotográfica de Ana Cláudia, naquele inverno frio, seco e distante de 1995. Talvez eu seja uma criança Quéchua, perdida no meio de um mundo muito grande, cercado de instantaneidade por todos os lados. Envolvido em uma cápsula de signos que me define, me enquadra e me reduz. Mas, sempre vivemos nesta cápsula. Se Heidegger, e boa parte da filosofia contemporânea estiver certa, o mundo é uma projeção de nossa linguagem e vivemos em meio a signos. Mas, o que assombra, não é apenas o fato de que vivemos em um mundo de signos, cercados por informação. O assombro está no fato de que tudo isso pode estar disponível à você em um segundo. Todas as imagens que já foram capturadas, todos os sons que já foram registrados, todas as palavras que já foram escritas. Há uma sensação selvagem de que não há mais mistério e esse é o motor da grande náusea que o mundo que gerou a internet produziu na alma de cada um de nós. É absolutamente assombroso pensar que tudo está aqui ao mesmo tempo agora. Tudo se presentifica em um instante que parece ser para sempre. Essa ilusão de eternidade e de proximidade sufoca porque concentra, em um espaço muito pequeno e em um tempo muito curto, tudo que é grande e sem fim. Mas, o que mais assombra, é saber, que mesmo assim, mesmo depois de tudo, mesmo diante de tudo isso que o nosso mundo instantâneo deixou de herança, ainda sim, permanecem, sem respostas, as perguntas: "para quê? ? para onde? ? e depois, o quê?". |
| por pablocapistrano [10:29] |