26.11.07
A ùltima banda de rock (continuação)






O Natal de 1992 tinha tudo para ser um dos mais tediosos natais de nossas vidas se o Fábio François não tivesse pensando em fazer uma festa. Em terra de marrano Natal é uma festa privada. Um período em que as famílias se escondem umas das outras e se trancam em casa para realizar seus rituais secretos. Ao contrário do que ocorre em outras cidades do ocidente a véspera de Natal em Natal é marcado por um estranho paradoxo. Ruas vazias e escuras, shoppings e supermercados fechados contrastando com as casas particulares e os apartamentos residenciais lotados de toda a parentela possível.

Então o Fábio resolveu arriscar a tal festa. Até meia noite ela parecia que ia fracassar porque ninguém, fora uns cinco meninos mal criados, haviam conseguido convencer as mães e os pais à não esperar a hora do peru para cair fora da reunião familiar. Lembro que a turma já estava estendendo os cochonetes na área, para dormir enquanto alguns insistentes bocejavam assistindo uma versão em VHS de Metrópoles, do cineasta Fritz Lang, ao som de Kraftwerk (um programa nem um pouco instigante, diga-se de passagem).

Foi quando o Antônio, o maior fã do Bauhaus (não a escola de arquitetura, mas a banda pós-punk) que eu já conheci, chegou com seu fusca (era um fusca? Não sei. Devia ser um fusca) escoltando outros carros lotados de garotos e, principalmente, garotas perdidas em busca de um Natal que valesse a pena. Subitamente a casa de Fábio François foi tomada por umas trinta almas ansiosas que entravam e saiam das salas, do banheiro, dos quartos, da cozinha, que se perdiam no quintal e se agitavam andando para lá e para cá pelo jardim e no meio da garagem estreita. Pronto. Agora sim havia uma festa.

Foi quando Cagada (essa era a alcunha do rapaz), tomou a iniciativa. Levantou-se e foi até o velho três em um da mãe do Fábio com uma fita cassete e mudou a trilha sonora. Kraftwerk sumiu e no lugar um estranho e desconjuntado rif de guitarra começou a chamar todos para a sala de estar. Rapidamente, em ondas, uma bateria poderosa invadiu a casa anunciando o apocalipse. Antes que qualquer um de nós pudesse dizer qualquer coisa, pensar qualquer coisa, objetar qualquer coisa ou olhar para o lado e suspirar, aqueles blocos ritmados de barulho explodiram, como se um calidoscópio de fúria e sentimento primitivo e sincero estivesse invadindo o ambiente.

Em poucos segundos, mas de trinta pessoas saltavam na sala de estar da casa do François, fazendo um barulho infernal e pintando com cores soturnas e distorcidas o Natal de 1992. Isso era o Nirvana. Isso era Smels Like Teen Spirit.

No começo dos noventa o mundo vivia um imenso marasmo. Uma sensação sinistra de que tudo já havia sido feito, de que tido já havia sido visto, de que todas as utopias haviam ruído com a queda do muro e com o fim dos referenciais de amor e paz da era Hippie. Vivíamos, no Brasil, o império musical de Xitãozinho e Xororó, o reinado hediondo do Country Sertanejo, com sua choradeira paraguaia. As bandas dos oitenta estavam desconjuntas. Cazuza havia morrido. No cenário internacional só o R.E.M. conseguia superar a muralha sem fim do Hip Hop norte americano.

Estávamos órfãos. Sem um irmão mais velho que pudesse dar voz a nossa fúria desconexa e sem sentido. Éramos uma geração de perdidos, filhos de lares rompidos, carentes de qualquer utopia, sem perspectivas de futuro, com um horizonte vazio de sonhos e sem um mundo qualquer para construir. Foi esse a fragrância adolescente que o Nirvana captou e foi a raiva e o vazio de uma geração enganada pelas utopias do século vinte que Kurt Cobain transformou em roquenrol.

Graças ao velho Fábio e ao Nirvana o Natal de 1992 entrou para a história.

por pablocapistrano [11:01]
18.11.07
A última banda de rock






Muito legal o programa apresentado pelo Beto Lee na Multishow. "Que rock é esse?" anda contando a história do rock brasileiro. Isso me põe particularmente preocupado. Sabe o que é? É que você acaba sendo possuído por uma desgraçada ansiedade heideggeriana quando percebe que as bandas que você viu estourar estão sendo "redescobertas" pelas novas gerações.

O pior não é ver as bandas que forneceram a trilha sonora do seus quinze anos serem esquecidas. Quando isso acontece você nem percebe porque afinal, você continua escutando e escutando os velhos sons arquitetais que compuseram o fundo musical de suas dores e ansiedades adolescentes. Isso é roquenrol!

O grau fica alto quando você percebe que essas mesmas bandas estão sendo redescobertas. Ai sim, você sente o trem do tempo te carregar por esse campo aberto de possibilidades que é a vida. Mas, antes que as amigas da minha filha me achem um animal pré-histórico e comecem a me olhar como se eu fosse um fragmento de pintura rupestre no Lagedo de Soledade, ao saberem que eu assisti um show do Chico Science no Centro de Turismo em 1994, eu vou logo abrindo o jogo: o Nirvana foi a última banda de rock da história.

Calma, calma.
Não precisa rasgar o jornal ou excluir o site da sua lista de favoritos.
Não estou dizendo que depois que o idiota do Kurt Cobain meteu uma bala na boca o rock tenha acabado. Boas bandas apareceram: Strokes, White Stripes, Belle & Sebastian.
Também tivemos alguns álbuns que tem tudo para entrar no hall dos grandes clássicos: Afrociberdelia, Califonication, Ok Computer são discos que podem situar-se em qualquer lista junto com todos os grandes álbuns da história do rock.
Como música, o roquenrol ainda continua, aos trancos e barrancos, produzindo uma coisa boa aqui e acolá. Agora, como fato social, como fenômeno cultural ele parece ter morrido junto com o Nirvana.

Certo, você já sabe quem sou eu, um balzaquiano idiota de trinta e poucos anos que tem que ir deitar às nove horas depois de pôr as crianças para dormir, tomar o seu leite de soja gelado e que perdeu o rumo da história. Mas há um dado que parece comprovar essa minha ideiazinha safada.

O Nirvana foi a última banda de rock porque ela foi a síntese da corrente oculta do rock. Sim, há um fluxo ininterrupto que sempre caminhou nos supterraneos do roquenrol. Esse fluxo é a banda escura da experiência cultural que gerou essa forma de expressão estética na década de cinqüenta. Se você esticar uma linha que começa em 1967 com o primeiro disco do Velvet Underground, passando por Stooges, New York Dools, Ramones, Pistols, Clash, Black Flag, La Mano Negra e Inocentes, vai ver que aquilo que alguém convencionou a chamar de punk é a fonte sempre presente e supterranea que traz vigor ao roquenrol.

Sempre que o rock estava começando a morrer de tédio, inanição ou solos excessivos de guitarra, alguém saia do estúdio atravessava uma ou duas quadras de uma grande cidade e encontrava algum grupo de garotos proletários criando seu próprio e espontâneo som, cru, sujo.

Essas bandas nunca deixaram de existir, mas sempre estiveram à margem da grande mídia que preferia sonoridades mais palatáveis e melódicas e posturas menos escandalosas para enfeitiçar sua audiência. Com exceção de um pequeno momento no final da década de setenta quando o punk ganhou visibilidade depois que o Pistols se apresentou no show de Bill Grundy, o punk sempre foi posto à distância do mundo Pop.

Tudo isso até que no dia seguinte ao Natal de 1991, milhares de garotos norte americanos correram para as lojas de departamento trocar seus presentes pelo disco Nevermind do Nirvana.
Motivo disso?
O Nirvana conseguiu sintetizar todos os ensinamentos de trinta anos de punk e entregou o último e definitivo petardo social do roquenrol. Se você tivesse dezoito anos em 1992 iria entender o que eu estou falando e talvez até concordasse comigo. Mas essa é uma história para a semana que vem.

por pablocapistrano [09:42]
7.11.07
Uma Semana Para Poesias

Essa semana achei algumas poesias da Emily Dickinson traduzidos pelo Ivo Bender.
Partilho com vocês esses pequenos tesouros de linguagem.

I.

Não tens como apagar um incêndio
Coisas que são inflamáveis,
Podem queimar por si, sem vento,
Ao longo da noite mais calma.

Não tens como dobrar as águas,
Nem guardá-las na gaveta -
Pois os ventos o descobririam -
E contariam a teu soalho de cedro.


II.

Depois de renunciar à vida,
É tão fácil dizer adeus ao resto
Quanto é fácil ao dia deixar perder-se
Inteiramente o oeste.

Os picos, últimos a sumir,
Em seu pesar duram tão pouco
Quanto n´água da cascata
Os cristais de iodo.



"A ausência da feiticeira
Não invalida o encantamento".

E. Dickinson (1830 - 1886)

por pablocapistrano [16:48]
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