| 18.12.07 |
| Tio Marx e a turma da revolução |
![]() Não sei porque mas toda vez que eu olho para o meu contracheque eu lembro de Karl Marx, o sujeito que escreveu a maior obra sobre o dinheiro (Das Kapital) sem um puto furado no bolso. Marx foi o espectro que rondou o mundo ocidental por cento e cinqüenta anos e junto com a turma da revolução fez um grande estardalhaço no século XX. Guerras, massacres, torturas, guerrilhas, discussões acaloradas em mesas de bar, rupturas, divórcios, títulos acadêmicos, honras militares, filmes de aventura. Tudo isso feito em nome do Karl Marx quer seja contra ou a favor. Lembro que quando me aproximei do movimento estudantil (no começo dos anos noventa) eu era existencialista. Lia Sartre, acreditava em revolução estética e pensava que o mundo era uma imensa rota 66 na qual os verdadeiros revolucionários eram Jack Kerouack, Allen Ginsberg e Bill Burroughs (a santíssima trindade beat). Lembro que tinha verdadeiras pelejas teóricas com a turma da TPOR, da Convergência Socialista, do Correio dos Trabalhadores ou qualquer uma das facções revolucionarias marxistas que assombravam o pátio da Escola Técnica Federal ou a cantina do DCE no setor I do campus da UFRN. Naquela época, Marx estava por fora. O muro havia caído e meu pai havia, depois de trinta anos de militância no PCB abandonado a cartilha marxista e pulado nos braços da Igreja Católica. Como eu nunca decorei o Credo só tinha uma saída: virar existencialista. Então, nada melhor para fazer do quer malhar o velho Marx e a turma da revolução. Quinze anos depois aqui estou eu, olhando para meu contracheque de proletário da educação e pensando comigo mesmo: até que esse tal de Marx não era lá tão idiota assim. Na verdade, a despeito desse período de rebeldia pós-adolescente, o marxismo sempre esteve na pauta das conversas em família. Boa parte dos filhos de Seu Benjamim Capistrano (meu avó paterno) eram comunistas. Os sobrinhos também. Teve gente da família indo para Cuba trabalhar com Fidel, gente tendo aula de Marxismo com Luis Maranhão, gente envolvida com todo tipo de atuação política. Até meu tio Lula (que ganhou esse apelido no começo dos oitenta pela barba farta em homenagem ao líder sindical homônimo) chegou a ser preso por pichar os muros do Palácio do governo em Natal com o clássico "Abaixo a Ditadura!". Marx realmente entrou na pauta do mundo no século XX e poucos foram os filósofos que conseguiram, em tão pouco tempo, produzir um impacto tão significativo na vida cotidiana de bilhões de seres humanos. Com Marx a filosofia deixa de seu um curioso "inutensilho" de sujeitos esquisitos e passa a ser um instrumento de transformação social. Mas há uma sombra filosófica que paira sobre Marx. Um espectro que nunca se afasta muito dele. Um encosto intelectual, para usar um termo mais "igreja universal". Por mais que esse marrano Alemão (filhos de Judeus assimilados) tenha produzido um pensamento próprio e significativo no campo da teoria política e na economia; em filosofia ele sempre vai ser visto como alguém que fez alguns pequenos ajustes no pensamento de Hegel e ajudou a limpar o resto de metafísica que ainda lhe poluía o pensamento. Marx usa uma base materialista clássica, dos velhos atomistas da Grécia antiga (Demócrito e Epicuro) para entender o mundo moderno. Isso não teria sido possível se Hegel, antes dele não tivesse subvertido o cânone católico e ido "resgatar" os pensadores originais, "pré-socraticos". Marx põe a história em um ponto privilegiado de seu raciocínio e toma emprestadas as ferramentas dialéticas de Hegel para postular uma tese de Vico de que nós só conhecemos e dominamos aquilo que produzimos. Somos aquilo que fazemos. O trabalho de nossas mãos constrói o mundo em que nós vivemos e é com o trabalho de nossas mãos e com o esforço dos trabalhadores, que um dia foram servos, que um dia foram escravos e que um dia foram livres, que a civilização se edifica. A grande intuição política de Marx é a de inverter para corrigir a lógica hegeliana de produção da história. Não são os heróis que constroem os mundos. As civilizações humanas, todo seu drama e toda sua tragicomédia é produto da massa amorfa de mãos anônimas que erguem as grandes construções do homem. Como bem observou Walter Benjamim, Marx nunca deixou de ser um profeta judeu. Ele nunca abandonou a base do profetismo bíblico que, no período posterior a destruição do primeiro templo, lembrava ao povo de Israel qual era a verdadeira justiça do Eterno. Marx acabou se tornando o profeta político desse novo mundo, competindo com Nietzsche pela hegemonia da alma das massas no século XX. Mas, a despeito desse impacto no universo político, talvez, a maior contribuição intelectual de Marx tenha mesmo sido o diagnostico preciso e certeiro do modo de pensar que gira o moedor de carne humana do sistema capitalista. Ninguém entendeu a alma de um burguês como Marx. Provavelmente só o poeta francês Charles Baudelaire tenha penetrado de forma tão radical no abismo recôndito e profundo da náusea burguesa. Marx chafurdou na ferida da modernidade. Ele enfiou o dedo na chaga burguesa e conseguiu desmantelar a falcatrua ideológica do capitalismo como ninguém havia feito. Liberdade, igualdade e fraternidade foram os lemas da revolução que encantou Hegel. Marx seguiu o mestre e o corrigiu. Mostrou que entre os lemas da revolução francesa e a realidade de um sistema que destroça os limites morais da humanidade e transforma Deus em uma nota de cem euros havia uma grande e nauseabunda contradição. Como todo bom profeta judeu, o tio Marx desceu da montanha para quebrar o bezerro de ouro da mentalidade burguesa que o próprio capital financeiro, judaico e protestante, ajudou a construir. Deu para entender, porque é que eu lembro de Marx toda vez que olho meu contracheque? Pois é meu velho, a luta continua! |
| por pablocapistrano [22:23] |
| 5.12.07 |
| A Síndrome da Galinha de Russel |
![]() O problema das coisas insuportáveis na vida é que elas parecem insistir em acontecer mais de uma vez. O sujeito que fura a fila, o imbecil que buzina para você acelerar o carro um segundo antes do semáforo abrir, o carrinho de compras do condomínio largado no meio da sua garagem. Pequenos infernos cotidianos que aparecerem com certa regularidade em nosso mundo. Como o mal é mais visível, a gente sempre tende a notar as pequenas abominações do nosso cotidiano. Somos assim, meio que estuprados pela regularidade do mundo. Engalfinhados no misterioso tédio da repetição sem fim de todas as coisas. Mas, pense comigo um instante e me diga se realmente há algum fundamento na crença que eu e você temos na repetição. Por que aquilo que acontece várias vezes tem que acontecer sempre? Por que o algum idiota sempre tem que tentar furar a fila no banco ou um imbecil qualquer tem sempre que buzinar um segundo antes do semáforo abrir para você? Talvez exista uma conspiração cósmica para tornar a nossa vida diária insuportável (como apregoa a inusitada lei de Murfy), ou talvez, mesmo sem saber, estejamos padecendo da famosa síndrome da galinha de Russel. Já ouviu falar? Bertrand Russel, além de ativista político e um dos maiores nomes da filosofia da matemática era um sujeito bem humorado e acabou equacionando o problema de um modo inusitado. Imagine que um proprietário de um pequeno sítio, tenha comprado uma jovem franga chamada Dolores, em uma feira livre. Durante algumas semanas o bom sujeito alimenta a jovem Dolores. Todos os dias, ele vai até o quintal com milho e água fresca. Do ponto de vista de Dolores seu dono é um cara legal. Alguém em quem ela realmente pode confiar. Sempre que ele aparece no quintal, Dolores se anima e corre para receber comida e água fresca. Um belo dia algo inusitado, inexplicável, acontece. Um terrível mal entendido, uma desagradável surpresa. Dolores não consegue compreender quando seu dono a agarra pelo pescoço e a leva para a cozinha. Ela não tem como entender a brutalidade daquele comportamento completamente imprevisível. Enquanto sente a faca de seu bom dono abrir sua goela, Dolores, agora uma iminente e apetitosa canja, em um último suspiro, só consegue pensar perplexa com seu cérebro de galinha: "o que está acontecendo?". Russel entendeu que o sujeito que cortou a goela da galinha é justamente o mesmo que a alimentou. Isso mostra que, para alguém como Dolores, é bem interessante possuir uma visão mais sofisticada acerca da uniformidade da natureza. Como boa parte da humanidade, Dolores sofre de uma síndrome. Uma estranha ilusão mental de que o que acontece mais de uma vez vai acontecer sempre. Russel, ao apontar para esse dado, apenas retoma uma idéia desenvolvida pelo filósofo inglês David Hume ainda no século XVII. Hume nos mostrou que nenhuma quantidade de experiências pode provar a validade de uma teoria. Quando colocamos a chave na ignição do carro e giramos, esperamos automaticamente que o carro funcione, porque isso sempre aconteceu. O fato de que todas as vezes que você gira a chave na ignição do carro ele começa a funcionar, não oferece nenhuma garantia lógica que isso vai sempre acontecer. Nosso entendimento nos prega peças porque ele generaliza o mundo. Cria a sensação lógica de que algo que já aconteceu um punhado de vezes vai sempre acontecer e nos acostuma a esperar sempre que o mundo permaneça do mesmo modo, ou que, no mínimo, haja algum tipo de padrão na mudança. Alguma sensação de previsibilidade. Hume demonstrou que a idéia de causa e efeito é produto de uma crença, reforçada por um hábito. Com isso ele apontou para os riscos de sofrer da "Síndrome da galinha de Russel". Acordamos todos os dias de manhã e colocamos um belo copo de leite para nossos filhos acreditando que o leite "causa" a saúde deles. Ficamos surpresos ao saber que eles estão intoxicados com soda cáustica, ao invés de estarem alimentados com um coquetel de vitaminas. Essa ilusão causa muitos embaraços, especialmente no mundo da ciência experimental. Nunca teremos certeza de que uma droga testada com sucesso em três mil pessoas em um grupo de controle qualquer não vá matar nosso paciente. Ao diagnosticar essa estranha síndrome, o escocês David Hume começou a demolir o orgulho da humanidade e a confiança na sua razão, na sua própria capacidade de compreender, prever e controlar os fenômenos da natureza. A filosofia moderna começa a ser desmontada e parte dos seus pressupostos (confiança na razão, a existência de um Eu interior que pensa, dignidade especial do homem, fé na ciência) sofrem depois de Hume abalos significativos. Assim, nossa razão nos prega uma peça. Ela faz com que o homem acredite realmente que as coisas são como parecem ser e acaba perpetuando algumas mitologias e juízos falsos que muitas vezes nos colocam na mesma situação da pobre Dolores. Esperando um banquete sem saber que nós é que somos o prato principal. |
| por pablocapistrano [10:04] |