29.1.08
Olhar do Girassol







Alberto Caeiro, um dos heterônomos de Fernando Pessoa escreveu: "O meu olhar é nítido como um girassol" e eu me perguntei muitos anos, após ler esse verso, como é ter o olhar nítido de um girassol.

Sinto que apenas dois dos meus sentidos prestam para alguma coisa. Meu olfato sempre foi comprometido por uma renite renitente (desculpe o trocadilho, foi inevitável) e alguns anos de fumo (já devidamente abandonado). Meu paladar, talvez justamente por causa do olfato, não é lá muito sofisticado e também não tenho nenhuma habilidade manual.

De bom mesmo só sobram as "oiças" (como minha avó Adélia designava o sentido da audição) e a visão. Foi justamente por esses sentidos que algumas das impressões mais espantosas que eu já tive nesse mundo invadiram minha consciência.

Lembro quando cheguei em Macchu Picchu em 1995 e vi a montanha sagrada (o pico famoso que todo mundo já nas fotos da cidade Inca) ser rapidamente iluminada por um facho de luz cortando uma imensa barreira de nuvens que cobria a cúpula do céu. Vi o azul definitivo no mar de Fernando de Noronha. Consegui suspender a realidade enquanto contemplava o Narciso de Caravaggio em uma exposição no palácio Barberini, em Roma. Em Campina Grande deixei de pensar quando ouvi a Cítara de Alberto Marsicano, no encontro holístico de 2003. Viajei no tempo na praça da catedral de Santiago de Compostela, enquanto um rapaz solitário tocava uma gaita celta em meio as sombras daquela cidade medieval.

Todas essas experiências eu tive simplesmente pelos meus dois sentidos que ainda servem para alguma coisa. Sem ter fumado nada, cheirado nada, bebido nada nem feito nada com qualquer outra coisa.

São experiências como essa que dão a nitidez da percepção e que fazem com que possamos ter contato com o pasmo essencial, com o maravilhamento básico de olhar o mundo como se fossemos crianças.

Sarah, minha filha que hoje tem cinco meses, guarda na sua condição de neófita na vida, o olhar do girassol. Todas as coisas, por mais triviais que pareçam, guardam a grande novidade e o maravilhamento profundo. Um bebê sabe olhar, sabe ouvir, sabe sentir o mundo, porque ela vive em uma cápsula de devaneio estético. A alegria, o espanto e o horror são elementos constantes na vida de um bebê.

Com o tempo, endurecemos nosso olhar e cerramos nossos ouvidos para perceber o barulho da vida. Ter o olhar do girassol é não perder a atenção para a eterna novidade do mundo.

Quantas vezes você já viu um pôr do sol ou um nascer da Lua no mar? Saber porque o pôr do sol ou o nascer da Lua no mar já tão vistos todos os dias, encantam repetidamente os homens a milhares de anos é compreender o poder da experiência estética do mundo. Essa parece ter sido a grande tarefa de Nietzsche. Exultar o homem a perceber a tarefa estética da vida.

Dizem que ele escreveu: "eu não acredito em um deus que não dance".

A dança e a festa fazem parte da experiência de uma existência estética, que tentou ser superada pelo melancólico Kierkegaard e exaltada pelo bipolar Nietzsche. Se pegarmos três grandes pensadores poderemos visualizar melhor os três caminhos que se configuram para aqueles que não querem apenas sobreviver e passar pela vida como sombras, condenados a insignificante redução biológica de estômagos com pernas e braços.

Há uma diferença entre "viver" e "sobreviver". Michael, meu antigo professor de alemão, me disse isso, quando eu perguntei porque ele havia deixado a Alemanha e se mudado para o Brasil. Ele respondeu: "porque na Alemanha você existe, aqui no Brasil você vive".

Viver (nesse sentido) difere de existir porque as pedras existem, as vacas existem, os ornitorrincos e as pequenas amebas existem, assim como boa parte dos seres humanos, condenados a desperdiçar sua temporada na terra com as banalidades miseráveis do comer, defecar, dormir, fazer sexo e comprar bolsas Gucci. No entanto, alguns poucas criaturas podem realmente transcender o cotidiano e mergulhar em uma experiência que faça sua vida valer a pena.

Entre os que não se contentam com o feijão com arroz de uma existência meramente biológica, há os que buscam a verdade como Platão, os que morrem pela santidade como Kierkegaard e os que teimam em encontrar a beleza como Nietzsche (há também os que buscam o poder, mas para esses daí eu precisaria de uma outra crônica, sobre Maquiavel, para tentar entender).

Buscar a verdade e desprezar a beleza foi para Nietzsche, o grande erro de Platão. Kierkegaard ao tentar superar uma vida de deleites e encontrar a santidade e a perfeição moral estaria negando justamente a força vital que nos empurra na direção de uma existência digna. A mortificação dos que se sacrificam em prol de uma perfeição moral e de uma bondade inatingível teria sido o erro dos pensadores cristãos. A busca fundamental deveria a do poeta.

Transformar o sofrimento da vida e o tédio melancólico do cotidiano em beleza é a opção do poeta. Enquanto o sábio filósofo tenta entender o mundo e o santo tenta ser perfeito diante das misérias e imperfeições da vida, o poeta, em seu deleite estético, mergulha na vida para extrair, da dor e do prazer, a matéria prima de sua obra.

Nietzsche apontou para a prevalência desse dado estético e mostrou a inutilidade de se entregar em busca de uma verdade inatingível e de uma santidade inútil (porque bem e mal são conceitos históricos e variáveis e a perfeição de um santo católico pode ser a maldição para um mártir mulçumano).

Estar diante da beleza e contemplá-la com a nitidez do olhar do girassol é encontrar o fio que conecta a nossa existência ao maravilhoso. Para recuperar esse espanto inicial, é preciso pensar como Picasso, que à medida que envelhecia abandonava cada vez mais o figurativismo e mergulhava em pinturas simples e ingênuas. Quando perguntado o porquê dessa redução pictográfica, ele teria respondido: "eu levei a vida inteira para aprender a desenhar como uma criança".

por pablocapistrano [13:53]
16.1.08
Nordeste Pombagira





Depois de assistir pela sexta vez na TV da Câmara Municipal de Natal, a reprise da solenidade de entrega de título de cidadão natalense ao mestre Ariano Suassuna eu tive um sonho estranho.

Na verdade eu pensei que fosse só um verso da música da banda pernambucana "Astronautas" ("Todos os nossos sonhos nascem da TV"), mas acabei descobrindo que é isso mesmo. Hoje a TV determina o funcionamento do nosso subconsciente enquanto dormimos.

A tal solenidade, reprisada dia e noite por semanas a fio me fez sonhar com um terreiro de Catimbó. Ariano estava lá, guiando os trabalhos, bebendo jurema e recebendo Mestre Carlos, Mestre Seu Zé Pilintra, Manoel Cadete. Na assistência uma pequena multidão se aglomerava para ouvir o que saia da boca de Suassuna que, com os maracás da santidade, fazia a ponte mediúnica entre nosso mundo e o reino dos encantados. Repentinamente Ariano, servindo de cavalo para algum desses mestres e arquetipais, já sob o efeito mágico da bebida sagrada dos Tarariús, vira-se para mim e enuncia: "Pablo Capistrano é um multiculturalista safado!".

Sonhos são realmente estranhos.
Não há como pensar que eles não sejam portais que nos conectam com velhos mundos. Passei um tempo sem sonhar e depois que voltei, de vez em quando aparece um troço desses. Não sei se Freud, Jung ou Salvador Dali seriam os mais indicados para interpretar o sentido desse sonho, nem qual o grau de responsabilidade que a TV Câmara tem nele, só sei que eu reconheço: Eu sou um multiculturalista safado.

Na verdade, todo multiculturalista é meio safado, porque é necessário certo grau de enxerimento para defender teses desse tipo. Mas eu queria completar o mestre encantado do meu sonho, meu multiculturalismo não é francês. Na verdade ele se baseia em dois elementos fundamentais que compõe minha visão de mundo.

Uma crença e uma habilidade. A crença é a de que só há uma escapatória para a humanidade: a integração sexual.

Defendo veementemente que o cemitério do gênero humano, tal qual antevisto por Kant em seu livro "Para a Paz Perpétua" não será evitado apenas pela existência de uma federação internacional de nações independentes. È preciso que haja uma ampla política de miscigenação e de trocas sexuais que diluam em um sem fim amarronzado todas as raças e todas as manifestações culturais até que, em um grande vórtice, ninguém consiga mais distinguir o que é seu e o que é do outro. Para isso será preciso que o sexo e a linguagem andem juntas fazendo a grande orgia multicultural de um mundo sem um rosto definido.

A habilidade é a distinguir uma canção de Chet Baker de um Big Mac. O Big Mac é uma das mais hediondas porcarias que a cultura globalizada já produziu. Não há nenhum tipo de parâmetro estético, ético ou ontológico que possa ser utilizado para comparar uma tapioca à um Big Mac.

Agora, eu consigo perceber que há uma diferença fundamental entre um Big Mac e uma canção de Chet Baker, ou de Woody Guthrie. Não sei se isso é suficiente para me transformar em um multiculturalista safado não francês, ou um filho idiotizado da globalização estúpida das grandes empresas de hamburger.

Me sinto cada vez mais nordestino, natalense, brasileiro e ainda sim não me sinto distante do mundo. Não sei se é minha aversão a monoglotia (em outra crônica talvez eu explique porque eu me interesso em aprender línguas estrangeiras) ou se é o fato de eu ter crescido olhando o horizonte em uma cidade litorânea, o fato é que eu gostaria que o meu nordeste, mesmo continuando a ser o nordeste de sempre, fosse um nordeste assim, mais pombagira, se é que você me entende.

por pablocapistrano [11:23]
2.1.08
Saudades do amor II





Há um poema de Willian Blake, traduzido para o português por Paulo Vizioli chamado "O Torrão e o Seixo". Ele diz assim:

O amor jamais a si quer contentar
não tem cuidado algum com o que é seu
sacrifica por outro o bem estar
e, a despeito do Inferno, erige um Céu.


Essa é a primeira estrofe na qual, em inglês, o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo com o quarto. Na segunda estrofe, Blake elucida:

Esse era o canto de um torrão de terra
pisado pelas patas da boiada
mas um seixo, nas águas do regato
modulava essa métrica adequada.


Como em um contraponto anunciado o poema gira e o enfoque muda, transformando a face do amor:

O Amor somente a si quer contentar
atar alguém ao próprio gozo eterno
sorri quando o outro perde o bem?estar
e, a despeito do céu, ergue um inferno.


Somos uma civilização analfabeta na cartilha do amor. Andamos esquecidos da sutileza com que os antigos compreendiam a complexidade desse estranho fenômeno. Na Torah judaica, o verbo para designar o amor era Deah, que é a palavra hebraica para os relacionamentos sexuais íntimos, mas também designa opinião ou conhecimento. Biblicamente amar é conhecer, partilhar, atingir certo grau de intimidade com o outro, por isso o amor é filho do tempo, mestre das horas, senhor da passagem contada das respirações partilhadas.

"Quantas vezes eu respirei com você" ? poderia ter perguntado Romeu a Julieta _ "para que meu amor seja real?".

Os velhos sábios da Grécia falavam de vários "amores". O amor sexual do eros, o amor divino e sagrado do ágape (a caridade de Paulo de Tarso), o amor da intimidade e da afinidade retratado no termo filia e o amor doença do pathos (o patológico distúrbio dos apaixonados). Curiosamente, a paixão era vista com receio e qualquer família ponderaria várias vezes em permitir que seus filhos se casassem por paixão. Afinal, a paixão não se sustenta, ela é fogo que arde sem se ver e é infinita só enquanto dura. O conhecimento, a intimidade adquirida com a aprendizagem de uma vida à dois, sempre foi vista como uma base mais sólida para o amor até o final do século XVIII quando jovens alemães foram possuídos por um estranho furor.

Em 1774 o mundo conhecia "Os Sofrimentos do Jovem Werter" (a figura de cima é uma gravura relativa a esse livro) a fatal história de amor e loucura escrita por Goethe, que gerou uma onda de suicídios na Alemanha.

Na verdade o livro apenas fez eclodir um impulso que andava retido no subsolo cultural do ocidente. A paixão e seus desdobramentos fatais foram transformados com o movimento romântico na totalidade do amor. Tudo que se refere a essa palavra extremamente complexa e multifacetada foi reduzido àquela poderosa e nauseante descarga bioquímica que distorce a razão dos apaixonados e faz correr, de baixo para cima, aquele relâmpago gelado que empurra nosso estômago para o alto. A mitologia do amor romântico, que tem raízes nas histórias medievais de cavaleiros torturados por amores impossíveis e belas damas casadas e intangíveis, adoradoras como a própria virgem Maria, representação mais particular da grande deusa da cultura celta (lembra de Tristão e Isolda?), foi apropriado pelo mundo burguês e acabou produzindo uma imensa indústria de serviços de casamento, filmes românticos, seriados de TV, telenovelas, advogados especializados na área de família e sessões de psicanálise semanais.

A paixão, o amor que é para a morte e a loucura, o amor intenso e sagrado, o amor que devora os limites, as imposições das convenções sociais e arrebata os apaixonados para os céus e depois os lança de volta aos portões do inferno acabou se tornando a totalidade do amor e não apenas uma de suas facetas.

Para Arthur Schopenhauer, autor de um livro que dedica um capitulo sobre "O Amor" intitulado: "As Dores do Mundo", a redução do amor à paixão era o sinal de uma das misérias fundamentais dos humanos. Talvez, se Schopenhauer tivesse vivo hoje, não fosse um conselheiro sentimental muito popular. Sua idéia sobre o amor romântico (o pathos dos antigos) carregava uma forte crítica à sociedade do século XIX com sua autoconfiança no avanço da técnica, no progresso da ciência e na razão humana.

De certa forma "As Dores do Mundo" ataca o espírito romântico de confiança na evolução da civilização, que serviu de base para a popularidade do pensamento de Hegel, um outro filósofo Alemão, contemporâneo de Schopenhauer e também seu mais profundo desafeto.

Tendo experimentado uma vida extremamente solitária e obscura (até a velhice quando atingiu a fama repentina) é de se espantar que alguém que tenha cunhado uma frase como: "a vida é uma inútil perturbação na tranqüilidade do nada"; tenha alguma coisa a nos dizer sobre o amor.

Schopenhauer não era um cético quanto as possibilidades humanas de convivência, apesar de frequentemente admitir que gostava mais dos Poodles do que de gente. Sua idéia fundamental é que a paixão é um engodo. Uma estratégia da espécie que engana os apaixonados. Acreditando estar a serviço dos próprios interesses e desejos, comumente nos apaixonamos por pessoas que muito pouco tem a ver conosco. Isso se dá pelo fato que a paixão não trabalha para os indivíduos, é ao gênero humano que ela serve, atuando sobre a vontade de cada um, criando uma força que nos empurra no sentido da reprodução. Espantosamente atual essa interpretação, não é? Em um mundo sem ciência genética e com um arremedo de teoria da evolução, Schopenhauer teceu uma visão típica das modernas teorias biologicistas.

A paixão não é uma boa medida para o amor.

Transformar a intensidade auto destrutiva da paixão em uma base sólida para uma vida construída junto é uma arte que poucos sabem realizar com maestria e que anda esquecida esses dias. Na matemática sentimental das "Dores do Mundo" o amor romântico é uma das grandes melancolias que afligem o homem. Saber transformar a paixão em amor é a chave da arte da convivência.

O segredo dessa arte é nunca esquecer, (como diz o pessoal do Teatro Mágico) que os opostos sempre se distraem, e que apenas os dispostos verdadeiramente se atraem.

por pablocapistrano [04:34]
Fevereiro 2005
Março 2005
Abril 2005
Maio 2005
Junho 2005
Julho 2005
Agosto 2005
Setembro 2005
Outubro 2005
Novembro 2005
Dezembro 2005
Janeiro 2006
Fevereiro 2006
Março 2006
Abril 2006
Maio 2006
Junho 2006
Julho 2006
Agosto 2006
Setembro 2006
Outubro 2006
Novembro 2006
Dezembro 2006
Janeiro 2007
Fevereiro 2007
Março 2007
Abril 2007
Maio 2007
Junho 2007
Julho 2007
Agosto 2007
Setembro 2007
Outubro 2007
Novembro 2007
Dezembro 2007
Janeiro 2008